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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Superlativos


Às vezes, embora habituado aos abusos da linguagem, à leviandade e excessos sentimentais expressos em palavras que, hoje, já quase nada significam (o verbo amar, nomeadamente, anda todo esfarrapado), à força de serem mal usadas, ainda me surpreendo com o desatino e ligeireza de alguns sujeitos. Ontem, por exemplo, um plumitivo, que escreve por aí e tem algum nome na praça, ao referir a morte de Rubem Fonseca (1925-2020) caracterizava-o como o "maior escritor brasileiro do século XX". Por muito que eu preze o falecido, então qual será o valor de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa, de Drummond ou Cecília Meireles, para não falar de outros?
Tento na língua, não faz mal a ninguém!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Bibliofilia 89


Não se pode dizer que este livro, com poemas de Cecília Meireles, ilustrado por Vieira Silva, seja raro, até porque esta edição brasileira (1979), de 1.500 exemplares (o meu tem o número 455), promovida pela Confraria dos Amigos do Livro, em Portugal, demorou uns anos a esgotar-se. Custou-me cerca de Esc. 1.200$00, por volta de 1985, porque andei a namorá-lo algum tempo, até me decidir. Mas a beleza da edição e a qualidade do conteúdo venceram a hesitação.
As dimensões avantajadas do livro (29,5 por 31,5 cm.) não permitiram escanar a obra de forma que fosse visível, amplamente, a qualidade desta edição cuidada, que foi acompanhada por Carlos Lacerda e Luiz Forjaz Trigueiros. A capa, em pano verde, é do próprio editor. E as ilustrações de Vieira da Silva, vê-se que foram feitas com afecto. O que não admira, porque Cecília Meireles e Vieira da Silva foram grandes amigas.
Creio que, em leilões, só assisti à venda de um exemplar semelhante, no final dos anos 90, e que atingiu um preço que rondaria Esc. 5.000$00. Para a qualidade do livro, não me parece que tenha sido excessivo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Drummond


É para mim, com Cecília Meireles, um dos grandes poetas brasileiros do séc. XX. Mas também um prosador notável ("Contos de Aprendiz" e "Contos Plausíveis), bem como foi um cronista muito atento à realidade. Passam hoje 110 anos sobre o nascimento (31/10/1902) de Carlos Drummond de Andrade, e aproveito para lembrar um seu pequeno texto de "Contos Plausíveis", pleno de bom humor e intitulado A Incapacidade de ser Verdadeiro:
Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

para MR que, como eu, também gosta muito de Drummond.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Fanatismo, poesia e polémica


Nos últimos tempos em França, pelo menos, um grupo ultra-sionista, LDJ (Ligue de Defense Juive), tem-se desmultiplicado em pequenas acções agressivas contra israelitas (pacifistas), árabes e instituições que eles acham contrárias à existência de Israel. No seu próprio país, os judeus ultra-ortodoxos também têm mostrado o seu fanatismo irracional. O facto de o governo ter revogado a lei, com mais de 40 anos, que os isentava de cumprir o serviço militar, serviu de pretexto. Querem ter "sol na eira e chuva no nabal": serem considerados os "super-escolhidos", por um lado, e, por outro, libertarem-se das obrigações de cidadania judaica, para se dedicarem e poderem "estudar" os seus livros sagrados - suprema ironia!...
Mudemos de rumo.
Sempre pensei que as condições geográficas pré-definem e assemelham os pontos de vista de povos vizinhos; e fazem próximas as características e, até parecidas, as manifestações artísticas e culturais. Ainda hoje  considero, por exemplo, a poesia espanhola muito mais próxima da portuguesa, do que a lusa da poesia brasileira, sendo que estas têm uma língua comum. Excluiria desta afirmação o caso e a obra de Cecília Meireles, que classificaria como a mais portuguesa dos poetas brasileiros. Mas a vizinhança, geográfica, favorece quase sempre a semelhança.
Finalizemos.
É por isso que, muitas vezes, penso que os fanatismos judaicos e os extremismos árabes não são assim tão diferentes quanto isso. A geografia de vizinhança irmana-os num mesmo irracionalismo anquilosado e arcaico. A mesma menorização da Mulher, os rituais operáticos, a forma de querer impor as suas causas, não pelo diálogo e pelo pensamento, mas por actos agressivos, violentos e pelo sangue, tornam-nos na imagem aberrante da mesma moeda, com duas faces.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pelo aniversário de Cecília


É sempre boa altura para recordar Cecília Meireles (1901-1964), a mais portuguesa (descendente de açorianos) dos poetas brasileiros. Mais ainda, na data do seu nascimento, a 7 de Novembro.

Em voz baixa

Sempre que me vou embora
é com silêncio maior.
As solidões deste mundo
conheço-as todas de cor.

Desse-me a sorte um cavalo,
ou um barco em cima do mar!
Relincho ou marulho - alguma
coisa que me acompanhar!

Mas não. Sempre mais comigo
vou levando os passos meus,
até me perder de todo
no indeterminado Deus.

domingo, 10 de julho de 2011

Esta noite


Ainda o mês não vai a meio e os dias a fingir que ainda podem crescer. Talvez por causa da luz de Julho, que tem sido parca e avara. Mas hoje, não, chegou a ser generosa e perdulária. Integrar uma partida antecipada requer uma lógica seca, imune a sentimentos e memória. Um estoicismo de bom senso e isento, que saiba mondar os adjectivos da alma e abra as portas apenas para a luz do dia. Que saiba levar consigo, unicamente, o que nos cabe nos bolsos e nos dedos. Para a terra nos levarão o corpo frio e as roupas mais finas. Em poucos anos, ficarão farrapos, os ossos limpos e brancos. Ou cinzas dispersas se, em vez da Terra, preferirmos o Fogo. "Andar, andar que um poeta/ não necessita de casa..." - já aqui citei este poema de Cecilia. Por outras razões, porém.
No entanto, esta noite vai nascendo bem bonita. Crescente, a lua que não consigo ver. Vou até à varanda, beber a última luz do dia, pelos olhos cansados. Os abetos, tranquilos, mal se movem, à brisa ligeira.

Lj.,10/7/11.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Virgínia Woolf

Correndo embora o risco, pela quase sucessão dos últimos postes, de o Arpose parecer excessivamente british, não queria deixar de lembrar Virginia Woolf (1882-1941), cujo aniversário de nascimento (25/1) passa hoje.
Faço-o com as imagens do seu retrato pintado pela irmã, Vanessa Bell, e da capa da sua obra que prefiro: "Orlando - A Biography", traduzido, para a Colecção Miniatura (nº 136), exemplarmente, por Cecília Meireles. A escritora brasileira fez também uma pequena introdução que antecede o prefácio de Virginia Woolf. A quem não conheça, recomendo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Cecília Meireles


Dois dias separam apenas as efemérides capitais da brasileira Cecília Meireles: nascida a 7 de Novembro de 1901, morre em 9 de Novembro de 1964. De ascendência açoriana, através da avó materna, a sua poesia é, das brasileiras, aquela onde mais se sente um ritmo e respirar português. A ausência ou perda, o amor e a morte são seus temas mais recorrentes, nesse balouçar elegíaco ondulante entre a vida e o seu fim. Transcreve-se o poema Retrato:
Eu não tinha este rosto de hoje
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Andar, andar que um poeta / não necessita de casa...


Os versos do título deste poste são de Cecília Meireles (1901-1964), e pertencem ao poema "Canção da alta noite".
Hoje, obriguei-me, depois do almoço, a andar a pé, cerca de um quilómetro e meio. Até há pouco mais de um ano andava, por circunstâncias exteriores, cerca de 7 ou 8 quilómetros diáriamente, a pé. Era salutar e enriquecedor. Agora, já não me sinto obrigado a isso.
E nós, portugueses, somos bons - entenda-se a metáfora - a correr 100 metros. Não somos, no geral, corredores de médio ou longo curso. Claro que há a Rosa Mota e o Carlos Lopes, mas esses vão para além da poesia lírica: são uma epopeia... A persistência não é, normalmente, connosco.
Largamos os afectos, a investigação ou a procura, a admiração e o trabalho continuado, antes de cumprirmos a maratona.
Mas foi bom este quilómetro e meio, a pé, a que me obriguei. Vim ligeiro, apesar do calor, e vi que a levada já ia com pouca água, que cortaram os marmeleiros maninhos (infelizmente), que já há mais fósseis, à superfície, nas terras arenosas e ressequidas. E até trouxe, para casa, uma flor lilás, lindíssima, para oferecer.