Já o disse várias vezes e teimo em repeti-lo: a prosa de Eugénio de Andrade (1923-2005) é, por vezes, tão bela quanto o é a sua poesia. Ora, pois, ouçámo-lo:
Há poucos brinquedos na minha vida, mas, além do arco, do pião e da bilharda, a minha infância está cheia de sol, cheia de água. E do calor quase materno dos animais. Meu avô comprara-me uma cabra e três ou quatro merinos. E nós já tinhamos um burro e um cão, além das galinhas e do pato. Eu adorava aqueles borreguinhos com olhos de rola e, depois, a imaginação das crianças é muito vasta: o pequeno engenho feito de juncos por um primo meu facilmente se convertia em azenha. Um rego de água era o mais irreal e navegável dos rios, os bichos feitos de bugalhos e gravetos ganhavam vida por encanto. Chapinhar numa poça de água ou transformar uma cabra em cavalo persa, se isto não é felicidade, então a felicidade não existe. Os cavalos, sim, foram uma paixão minha, mas só um pouco mais tarde, dos sete para os oito anos, já em Castelo Branco, quando comecei a ver o Tom Mix no Cinema Vaz Preto. E foi ainda naquela cidade que tive isso a que talvez se possa chamar o primeiro brinquedo - uma trotineta. Ninguém se lembra já de me ter visto passar pelas ruas belo como um anjo proa. Mas com ela fui assim uma espécie de Fernão de Magalhães dando a volta ao mundo: descia do castelo e só parava no jardim do Paço, depois regressava a casa a horas do pão com compota de ginja e o sorriso da mãe - tão merecidos.
Eugénio de Andrade (19/1/1923 - 13/6/2005), in Do Silêncio à Palavra.