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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Leituras paralelas 2

 

Saído recentemente, este belo livro com textos do poeta Carlos Poças Falcão (1951), com a chancela da Modo de Ler (Porto) e um acervo fotográfico de Ana Paula Meneses, de grande qualidade estética, inspirado na Penha (Serra de Santa Catarina), montanha situada nas proximidades de Guimarães, bem merece ser conhecido.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Carlos Poças Falcão (1951)


Se as mimosas voltarem em fevereiro
saberás ainda falar? Por onde vinha a voz
entra agora, rouco, o mundo. Levando o ouvido à terra
percutem os tumultos em vez de um coração.

Leva a mão à face: não sentes a caveira?
O tacto descobre o teu redil mais duro
e dos olhos sem fundo desampara-se a visão.

Olha estas paisagens: fieiras de janelas
e árvores de nãos - são assim os dias úteis
entre imagens secas, sereias emboscadas.

Como haver ainda voz para um poema?
Que dirá dos mortos o mês de fevereiro?



Carlos Poças Falcão, in Sombra Silêncio (2018).

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Recomendado : trinta e cinco - Carlos Poças Falcão


Obra sólida, madura, de grande unidade interior, este livro, Arte Nenhuma (Opera Omnia, 2012), recolhe grande parte da poesia de Carlos Poças Falcão (1951), publicada até hoje. A evolução, que se nota dos primeiros livros, até aos poemas mais recentes, é mais de forma, do que de princípio, conteúdo, ou temas. Ontológicos, maioritariamente, e densos. Onde a tensão dramática, embora subtil e discreta, aflora.
Não será uma poesia fácil, mas o difícil, quando alcançado, é, quase sempre, mais compensador.

Podia marcar as incursões do sol
por esta sala. Alimentar uma esperança
solar. Mas as estações são indomáveis
e uma casa é um jogo de janelas
que se fecham. Mosca inerte nas vidraças
laranja que apodrece sobre a mesa:
eis os pequenos seres na ratoeira.

domingo, 15 de agosto de 2010

A explicação do silêncio, com destinatário



Convive-se mal, na Europa do Sul, com o silêncio. Sobretudo com o silêncio a dois - seja num elevador, num táxi, num consultório de espera interminável, ou num simples caminhar paralelo. Mesmo que sentimentos ou pensamentos transpirem: e, às vezes, temos quase a certeza deles.
Foi assim que eu me calei, também, quando fizeste silêncio - tendo razões para não fazeres. São, talvez, os equívocos da vida. Mas, para além da minha aparente truculência, sou também susceptível como tu. E até sou capaz de adivinhar as razões do teu silêncio.
Mas, ontem à noite, alguém que me é muito querida e que te é muito próxima, disse-me que estavas de luto. Para além deste abraço de silêncio com breves palavras de explicação, deixo aqui gravado, no Arpose, o teu poema de que gosto mais:

"Senta-se à mesa no meio da casa.
As portas fechadas. Vigia o futuro
devagar. Come, chama as crianças
para o centro do mundo. O vapor
sobe dos pratos, a educação alastra
os móveis lentamente se desfazem
ao contacto das mãos. Como um cão de caça
o vento galga a vedação dos campos.
Maravilhoso galgo. Avança contra
a mãe dentro da mãe dentro da casa."