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terça-feira, 19 de março de 2019

Contrastes

O património artístico é visto através de perspectivas muito diversificadas, consoante a cultura, a ideologia talvez, o meio social ou a ignorância de quem tem o poder para decidir sobre ele. Ainda não há muito tempo, um matarruano agente de cultura português facilitou a saída e venda para o estrangeiro de um quadro de  Carlo Crivelli (1430?-1495), cujas obras são escassas e raras... O governo, a que este pesado escritor policial e comentador desportivo pertencia, pouco tempo depois, também esteve para vender, na Inglaterra, um acervo considerável de telas de Miró, não fora a opinião pública esclarecida portuguesa se ter levantado em peso. Felizmente, esse acervo, que fora pertença do malfadado BPN, está hoje à guarda de Serralves (Porto), enriquecendo assim o património artístico nacional.



Na segunda metade do século XVIII (1773), a imperatriz Catarina II (1729-1796), a Grande, acolheu, mecenaticamente, na Rússia o enciclopedista Diderot (1713-1784), e como este tivesse dificuldades financeiras adquiriu, para o património do seu país, a biblioteca integral do escritor francês. Um pouco mais tarde, após a morte de Voltaire (1694-1778), a mesma Czarina veio a comprar a  biblioteca, na íntegra (cerca de 7.000 volumes), desse notável francês. Estes livros ainda hoje podem ser consultados em S. Petersburgo, com o interesse e curiosidade de muitas destas obras terem anotações manuscritas do próprio Voltaire.




Em sentido contrário, em relação à Rússia, e benefício directo para Portugal, por circunstâncias felizes do tempo e da fortuna, temos o caso da célebre escultura Diana, obra prima de Jean-Antoine Houdon (1741-1828), que hoje integra o especioso acervo do Museu Gulbenkian, em Lisboa.
Em 1930, o governo russo da altura, pressionado por grande escassez de divisas e dificuldades financeiras, resolveu desfazer-se de algumas jóias preciosas do seu património artístico. E, sigilosamente, o sr. Gulbenkian (1869-1955) aproveitou esta magnífica oportunidade para enriquecer a sua colecção de Arte.




Entre espíritos rurais e mentalidades esclarecidas, assim se pode ver a qualidade e a diferença de perspectivas, em relação à importância que cada um atribui à arte e cultura patrimoniais.
E é assim também que um país ganha ou perde...






sábado, 3 de outubro de 2015

domingo, 7 de junho de 2015

Palavras em desuso


Patriotismo é hoje uma palavra em desuso. Pior, para muitos, é considerada perigosa ou, pelo menos, envergonhante. A par com o vocábulo Património, por muita gente tido como uma abstracção romântica, despida de sentido e sem rentabilidade económica. Engrossam, no fundo, a categoria desses abencerragens embotados de espírito que, na segunda década do século XX, levaram à votação, na Câmara de Guimarães, deitar abaixo o Castelo, para com as pedras da fortaleza se calcetarem as ruas da cidade. O Castelo salvou-se por um voto, e ainda lá está. Como por cá andam, ainda hoje, os utilitaristas modernaços, bem como os leiloeiros e merceeiros burocratas que têm vendido o país ao desbarato. Coisas e resultado de um internacionalismo de direita, acrítico e sem cultura, que encontra grande prazer em arremedar, nos seus discursos, um léxico mascavado a imitar a língua inglesa, mas de raiz americana. Senhoritos pobres que talvez sejam felizes e se sintam mais importantes, assim.
Quem não valoriza a pertença nacional de um Crivelli, ou a permanência em solo português de um significativo acervo de obras de Miró, na minha opinião, é um pouco rombo de cabeça ou pobre de espírito. Os patacos por que serão trocados, rapidamente serão gastos em munificências de discutível qualidade e breve duração. E o país cada vez ficará mais pobre, mais desinteressante como destino de turismo cultural - hoje, muito procurado. Ficarão apenas esses turistas do eléctrico 28, que pouco deixam, mas tudo fotografam sem critério nem sentido estético de gosto.
O último L'Obs dedica algumas páginas à agressiva caça ao tesouro de várias instituições culturais (norte-americanas e europeias), na sua gula por obras importantes e acervos culturais significativos de artistas famosos, de forma a enriquecer o seu património. Seja ele nacional, ou estrangeiro, de origem. Algumas precauções chegam a parecer-nos insólitas. Surpreendeu-me, por exemplo, que a BnF (Biblioteca Nacional de França) faça deslocar, periodicamente, um Conservador da instituição, a casa do escritor Pierre Guyotat (1940) para registar os últimos livros que ele comprou, os seus apontamentos e até os SMS do seu telefone portátil, garantindo assim, antecipadamente, um acervo tanto quanto possível completo do artista. 
Como quase sempre, Portugal continua atrasado e na cauda da Europa. Os agentes culturais viegas e quejandos despacham crivellis, para poder continuar a fumar Habanos, outros pensando ser modernos e desempoeirados querem vender mirós e as jóias de família, para com esse dinheiro comprar bugigangas inúteis que, na sua parolice mental, lhes parecem indispensáveis. Patriotismo? Património? Isso já não se usa e é redundante!...

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Alerta


A conhecida obra "O almoço do trolha", de Júlio Pomar, é, provavelmente, a mais icónica e expressiva da pintura neo-realista portuguesa do século XX. Executada entre 1946 e 1950, há quem nela veja uma alusão simbólica e involuntária, do Pintor, à Sagrada Família.
O quadro vai a leilão na próxima almoeda do Palácio do Correio Velho, nos próximos dias 27 e 28 de Maio de 2015.
Escusado será dizer que esta pintura poderia enriquecer, consideravelmente, o Museu do Chiado. Mas do desGoverno, que deixou perder (e facilitou a venda), para o estrangeiro de um importante Crivelli, e que se exprime, débil e titubeante, sobre a alienação de vários quadros de Miró, para fora de Portugal, não se podem esperar grandes coisas. Nem sequer a clarividência inteligente, lúcida e culturalmente patriótica, para decidir na arrematação por uma opção sensata desta obra, a favor do acervo nacional.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ignorantes, contrabandistas e negreiros


Do quadro de Crivelli, que terá passado a monte para França, nunca mais se ouviu falar...
Entretanto, ao que parece, fundamentando e dando razão à providência cautelar interposta por alguns portugueses, conhecidos e anónimos, o Tribunal Administrativo de Lisboa, interditou a venda de 85 telas de Miró (que pertenciam ao BPN), pela Christie's, sobretudo pela forma ilegal, soez e escondida de como os quadros saíram de Portugal para a Inglaterra.
Pragmaticamente, talvez valha a pena acrescentar mais alguma coisa. Qualquer comerciante, por muito burro que seja, ou qualquer marchand, em início de carreira, saberá que, colocar à venda, ao mesmo tempo, 85 obras de um mesmo Artista célebre e consagrado, provocará, de imediato, um abaixamento de preços no Mercado.

Nota posterior: em nome do rigor, devo rectificar que não foi o T. A. de L. que impediu e evitou o leilão das obras de Miró, mas o facto fica a dever-se a uma decisão da Christie's, resultante duma avaliação dos pressupostos, pouco claros e seguros, do negócio.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Import/Export : os anéis e os dedos


Enquanto importamos alhos da China, tomates e morangos de Espanha e, até, re-importamos álvaros do Canadá, vamos, alegremente, exportando engenheiros para a Alemanha, investigadores para os E. U. A. e, até mesmo, um precioso Crivelli para França. Deve ser, por isso, que as nossas exportações estão em alta...
O jornal Público noticiava, ontem, que um quadro ("A Virgem e o Menino") importante de Carlo Crivelli (ca. 1430-1495), pintor italiano da Renascença, de curta obra mas significativa, que se encontrava, há muito, em Portugal, ia ser vendido em França, com base numa estimativa de 3 milhões de euros.
O anterior, grande agente de cultura do Governo Português tinha, mesmo contra o parecer da DGPC, derrogado as protecções legais que impediam a saída desta obra de Portugal. O, ainda, proprietário do quadro, empresário Pais do Amaral deve ter agradecido, reconhecidamente...
Divulgado o facto, o actual e pequenino agente de cultura deste Governo - soube-se, hoje, também pelo jornal Público - "pediu informações" adicionais, aos Serviços, sobre o processo que levou à saída desta obra de Arte, para o estrangeiro. Não fora o jornal e o caso passaria em branco, bem como o negócio, em escuro.