Mostrar mensagens com a etiqueta Cancioneiro Geral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cancioneiro Geral. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Idiotismos 10 : ainda sobre argueiros e araújos


Falei aqui, algumas vezes, de argueiros e araújos, a propósito de uma visita importuna e indesejável, que vem ao Arpose. Referi, por exemplo, que araújo é um argueiro no olho - incómodo, portanto. Mas, há dias, vim a descobrir mais algumas coisa sobre este vocábulo.
O seu uso é antigo, porque já na "Aulegrafia" (1619), Jorge Ferreira de Vasconcelos refere: "...não sofrer argueiro nas orelhas...", no equivalente a pulga, decerto. Carolina Michaelis comparou-o, por sua vez, ao ácaro (daí a imagem). João Ribeiro (Frases Feitas, 1908) explica que argueiro é "qualquer partícula ínfima e levíssima das que andam no ar".
Por sua vez, no Rifoneiro português, embora com significado um pouco distinto, existe o provérbio: "Fazer de um argueiro um cavaleiro". E, mais uma vez, para me justificar e comprovar a sua antiguidade, cite-se do "Cancioneiro Geral" (1516) de Garcia de Resende:
Pode ser maior marteiro
Se no ombro cai argueiro
Que não se há-de espenicar?
E, já que estamos em verso, para terminar, registe-se da "Hora do Recreio", de J. Baptista de Castro:
Quem case não case às cegas,
Mas seja sagaz e astuto,
Argos em vez de argueiros
E nos lances lince agudo.
Por hoje, de araújos e argueiros, é tudo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

De Diogo Brandão

Este poeta do Cancioneiro Geral, Diogo Brandão, pertenceria a uma família do Porto, e faleceu pouco antes de Agosto de 1529, ou em 1530, como Jorge de Sena refere. Terá sido criado na corte de D. João II. E Garcia de Resende incluiu várias composições suas na colectânea que organizou. Fez bem, porque Diogo Brandão é um poeta estimável. Segue uma esparsa de sua autoria.

Esparsa sua a uma senhora que se chamava "da Costa"

Quem bem sabe navegar
pola vida segurar,
a esperança tem posta
dentro no pego do mar,
mas aqui por se salvar
deve certo vir à Costa.
Porque, posto que naquela
de vivo se veja morto,
ganha-se tanto por vê-la
qu'é milhor perder-se nela
que salvar-se noutro porto.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Cancioneiro Geral X (e último): Duarte da Gama e Simão de Sousa


Esparsa de Duarte da Gama

As cousas daquesta vida
todas vem a uma conta,
pois vemos que tanto monta
ser curta como comprida.
Quem dela parte mais cedo
é livre de mil cuidados,
quem vive tem-nos dobrados
afora sempre ter medo.


De Simão de Sousa a uma moça de câmara que num passo se lhe fez dama

Exemplo bem verdadeiro
que a todos hei-de dá-lo
diz que queda de sendeiro
é maior que a de cavalo.

Já se o sendeiro é
de albarda,
é melhor andar a pé
uma valente jornada.
Tiveras cornos sendeiro,
pois que já não és cavalo
que dar coice um chincheiro
já quem sequer sabe dá-lo.


Notas: Procedi a pequenos ajustamentos ortográficos. Chincheiro tem aqui o significado de garrano ou rocim pequeno.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Cancioneiro Geral IX : Fernão da Silveira e Dom Rodrigo de Castro


De Fernão da Silveira a Dom Rodrigo de Castro que beijou uma Dama e ela meteu-lhe a língua na boca.

Pois mediste assim crua
a sua língua co'a vossa,
dizei-nos qual é mais grossa,
se a vossa, se a sua.

Também queremos saber
até onde foi metida
e qual era mais comprida,
mais solta no remexer.
Se veio tal falcatrua
por sua parte ou por vossa,
nos dizei qual é mais grossa
se a vossa se a sua.


Resposta de Dom Rodrigo.

Mais comprida e mais delgada
achei a sua que a minha,
porque toda a campaínha
me deixou escalavrada.
E fez-me tão grandes brigas
nos queixais,
que mos não fizera tais
um grande molho de urtigas.


Outra sua.

Eu disse-lhe: - Tate, perra,
não metais assim de ponta
a lingua que tanto monta
com os da boca em terra!
Fazei conta!
Dizia: - Mano, deixai-me
enquanto tenho lugar!
E eu bradava: - Soltai-me,
deixai-me resfolegar,
que me quereis afogar!

Nota: procedi a pequenas actualizações ortográficas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cancioneiro Geral (VIII) : João Fogaça



Cantiga sua que fez por Duarte Lemos a uma mulher que perguntava como poderia dormir com sua mulher, sendo tão grande.

Se em pé, se, quando jazo
quereis, senhora, saber
como posso ou como faço,
eu vo-lo quero dizer.

S'ela jaz de pap'arriba,
ambos ficamos iguais,
nem cuideis, se o cuidais,
que, se m'ela não derriba,
que sejamos desiguais.

Se em pé, me faço anão
e de ilharga atravessado,
tão junto, tão aconchegado
que não ponho pé no chão.

E também sou tão humano
e levo tamanho gosto
que por lhe ver bem o rosto
faço de mim pelicano.
Ela também de seu cabo
faz muitas galanterias
e fala mil aravias
que vos eu aqui não gabo,
e assim acabo.

Notas: 1. Procedi a algumas actualizações ortográficas.
2. Não percebi, totalmente, todos os "passes" de ginástica.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cancioneiro Geral (VII) : Simão da Silveira


De Simão da Silveira à Senhora Joana de Mendonça sobre uma ave que lhe lançou duma janela

Em vossa ave tomando,
lhe senti no coração
que vos quer morrer na mão
antes que viver voando.

Isto vem de conhecer-vos,
de que todo o mal se ordena,
uns se depenam por ver-vos,
outros veem-vos com pena.
Está-se toda matando,
queria por salvação
ir morrer na vossa mão
antes que viver voando.


P.S.: procedi a pequenas alterações pontuais.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cancioneiro Geral (VI) : Garcia de Resende


Garcia de Resende a uma mulher que disse que ele ria muito


Tem-me tão morto o cuidado,
que me faz já não sentir,
e de muito transportado,
em vez de chorar vou rir.

Que se meu mal me lembrar,
como me lembrais meu bem,
meu prazer será chorar,
pois tão fora de cuidar
está em mim quem me tem.
E pois sou tão transportado,
que já não tenho sentir,
quem me vir folgar ou rir
creia que é de mor cuidado.


Nota: procedi a algumas actualizações ortográficas.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cancioneiro Geral (V) : João de Meneses e Fernão da Silveira



De Dom João de Meneses a uma dama que receava, & beijava dona Guiomar de Castro

Senhora, eu vos não acho
razão para recear,
e beijar tão sem empacho
dona Guiomar,
salvante se vós sois macho.

Se o sois, e não sois dama,
é muito bem que o digais
e também deve sua ama
não querer que vós jazais
só com ela numa cama.
Confessai-nos que sois macho,
ou que folgais de beijar,
que doutra guisa não acho
razão de entrepernar
tal dama tão sem empacho.


Ajuda de Fernão de Silveira

Dois gostos podeis levar,
Senhora, desta maneira,
pois sabeis de tudo usar,
ser macho para Guiomar
e fêmea para Nogueira.
E por isso não vos tacho,
antes vos quero louvar:
nos trajos em que vos acho
podereis vós emprenhar
outra mulher como macho.


Nota: procedi a algumas alterações ortográficas.
P. S.: não posso deixar de dizer que me lembrei de Madonna...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Do Cancioneiro Geral (IV) : Conde de Vimioso


Cantiga sua


Se alguém deseja prazer,
viva em no esperar,
que tudo o mais é achar
maneira de o perder.

Diga-me quem alcançou
bem algum que desejasse,
se nunca tanto folgou
que disso se contentasse.
E pois se acaba o prazer,
que se espera em alcançar,
quem esperar de o ter
não ouse de o tomar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Do Cancioneiro Geral (III) : Ruy Moniz


Cantigua de rruy moniz a huma mulher que elle ja conheceo, & mandoulhe huma muyto maa rreposta


Dama do gentil despacho,
que pouco dais por ninguém,
eu sei que vós sabeis bem
se são fêmea ou será macho.

Eu vos não aborrecia,
eu sei bem que vos coçava,
e que quando me aprazia
em osso vos cavalgava.
Pois sequer haveis empacho
vós mulher de pouco bem
de quem vos, em Santarém,
cavalgou sem barbicacho.

Nota: procedi a algumas adaptações ortográficas, no poema.

sábado, 19 de junho de 2010

Do Cancioneiro Geral (II) : D. João Manuel, camareiro-mor de D. Manuel I


Regra sua para quem quiser viver em paz


Ouve, vê, e cala,
e viverás vida folgada:
tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás,
quanto podes não farás,
quanto sabes não dirás,
quanto vês não julgarás,
quanto ouves não crerás,
se queres viver em paz.
Seis coisas sempre vê,
quando falares, te mando,
de que falas, onde, e quê,
e a quem, como e quando:
nunca fies, nem porfies
nem a outro injuries,
não estejas muito na praça
nem te rias de quem passa,
seja teu tudo o que vestes,
a velhacos não afrontes,
não cavalgarás em potro.
Nem tua mulher gabes a outro,
não cuides de ser valentão
nem travar contra a razão.
Assim lograrás tuas cãs
com tuas queixadas sãs.

sábado, 12 de junho de 2010

Do Cancioneiro Geral (I)



Do coudel-mor de Loulé a uma moça que lhe pediu uns socos...


Por serdes melhor servida
pois a perna tendes grossa,
mandai-me vós a medida,
eu farei tudo o que possa.

E logo começareis
a medir pelo artelho,
e daí para o joelho
e na coxa acabareis.
E também quanto é comprida,
e o pé quanto ser possa
me amostres a medida
da perna galante vossa.