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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Mercearias Finas 153



Não fora a propósito, falávamos que, às vezes, perante uma enorme qualidade artística se perdoa ou esquecem proselitismos políticos demasiado indesculpáveis. Em grau muito diferente citáramos Céline, em grau mais brando, Almada...
Eu abancava frente a três bons nacos de Leitão morno, com o competente acompanhamento e meia de Dão Cabriz, tinto (2016). Do meu lado direito, e noutra mesa também acompanhado, estava o dono da Herdade do Rico Homem e que já foi  senhor da PT. Também começara como empregado de Eanes. Achei-o macilento.
Entrou depois, com a mulher, a segunda figura da nação, desempenado e sorridente. Cruzámo-nos à saída, com simpatia. Campo de Ourique é um mundo...

quinta-feira, 3 de março de 2016

Flash


Vi uma andorinha. A primeira deste ano, em Campo de Ourique. A princípio, nem queria acreditar, mas a avezinha fez um segundo percurso, inverso, pela esplanada onde eu tomava café e saboreava uma suavíssima e aromática Quinta da Pedreira (40º) bairradina.
Eu bem me parecia que a Primavera já andava por aí!...  

sábado, 11 de abril de 2015

Divertimento ou exercício de pretexto para uma história infantil


Era uma vez uma maçãzinha desacompanhada, num caixote de fruta abandonado à porta duma mercearia de bairro, já fechada. Eram dois os homens que passavam, conversando. Um deles apercebeu-se que era um pomo semelhante às pequenas maçãs que apareciam, a Norte, pelo fim do ano. E achou-lhe graça. Como era muito pequena, pegou nela, assim mínima, e meteu-a no bolso, aconchegada no lenço limpo, de algodão, e levou-a para casa, para oferecer à mulher que o esperava. Era uma vez uma pequena maçã verde que ficou sozinha, dias e dias, numa fruteira de uma casa. Até que foi fotografada, sem mais ademanes, para servir de memória futura. Ou para pretexto simples de uma parábola indecifrável, perceptível apenas para gente pequena, que tem um entendimento linear dos problemas complicados. Através da ternura pelas coisas naturais.

Ou

Não sei
até que ponto um pero
(uma maçã) ainda jovem,
mas colhido,
se retrai com a idade,
e envelhece
lento, sem apodrecer.

É bem possível, nas suas rugas,
que não chegue sequer à puberdade.


Ch. 8/4 - Sb. 11/4/15.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Mercearias Finas 98 (e pré-pascais)


Já eu me aprontava e aperitivava para Campo de Ourique, quando - parcas do destino! - o telemóvel me vibrou do bolso e me fez gorar o objectivo. Um pouco desasado enumerei, por local e proximidade, as hipóteses de almoço. Na Adega do Dantas, a ementa desiludiu-me, As Zebras, bem próximas, estavam coalhadas de turistas... Rumei, assim, ao Sinal Verde, que é quase sempre uma alternativa segura. Estava quase vazio o restaurante, e arrumei-me tranquilamente, numa mesa para dois, junto à janela que dava para a rua, buliçosa, àquela hora.
Estava eu a bater-me, meticuloso por causa das espinhas e do espaço no prato, com três linguadinhos fritos, ladeados por um arroz de cenoura (e açafrão?) e uma salada, quando o casal se sentou na mesa ao lado. Ia eu no segundo trago de um branco de Figueira de Castelo Rodrigo, desconhecido mas delicioso, seco e lotado com Síria e Malvasia Fina, das Beiras. O cavalheiro da mesa ao lado era prolixo, contrastando com a calada companheira. Fiquei assim a saber - mesmo que não quisesse - o itinerário da sua futura Páscoa, acompanhado pela filharada.
Saída matutina para Coimbra (Museu Machado de Castro), com passagem pela Igreja Velha de Sta. Isabel, depois, Braga (Igreja de S. Frutuoso), finalmente, Póvoa de Varzim (S. Pedro de Rates) - parecia uma hagiografia! Os três Santos fizeram-me concluir que a paixão do cavalheiro era pascal e francamente católico-apostólica, de intenções. As criancinhas - informou o palavroso cavalheiro - teriam direito, no museu conimbricense, a uma visita guiada, pedagógica, a 12 obras de arte, de reconhecido gabarito e autenticidade.
Como nota final, posso informar que o casal comeu peixe cozido e bebeu água de Penacova, embora não estivessemos ainda na Sexta-feira Santa...

domingo, 27 de outubro de 2013

Campo de Ourique e F. A. P.


Da minha circunstância lisboeta, Campo de Ourique sempre ocupou pouco espaço, até há pouco mais de dois anos, a esta parte. Até lá, chegava-lhe aos contrafortes, uma vez por outra, fui ao Cinema Europa (hoje derribado), e pouco mais. Nos últimos tempos, porém, passei a lá ir quase semanalmente. E afeiçoei-me bastante.
É um bairro "fechado" pela sua singularidade harmoniosa e própria de casas não muito altas, mas aberto a amplas espectativas. Liso para se poder andar a pé, com grande capacidade de ofertas (Livrarias, lojas de roupa, alfarrabistas, mercearias de qualidade e uma enorme gama de restaurantes bons com preços módicos). Ruas, normalmente espaçosas, jardins pequenos, mas agradáveis. Praças e esplanadas, onde apetece ficar. Além disso, é habitado por gente urbana e simpática, que parece feliz por lá viver.
Pessoa, que muito estimo e a quem agradeço, ofereceu-me, ontem, um recorte de uma pequena crónica de Fernando Assis Pacheco (segue em imagem, a encimar este poste), que seguramente lá deve ter vivido. Também ele se deve ter enamorado do bairro de Campo de Ourique.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Por entre os dias


Ontem, iam carregados os azúis do rio, arrepiados apenas, de longe a longe, pelo voo picado das gaivotas sobre algum peixe que se atrevia a vir à tona das águas. Mas, hoje, o Tejo está cinzento de chumbo e as águas quase parecem geladas de imobilidade e mimetismo com a terra fria.
Mesmo no interior do Bairro havia um friozinho que se desunhava por nos apoquentar e uma chuva molha-tolos impertinente que nos empurrava para cafés de salas aquecidas, ou lojas agasalhadas. Mas houve tempo de se falar da vida, dos amigos, do amor na oblíqua dos encontros virtuais, como se fora numa floresta de enganos, ou de espelhos. E de nos rirmos, numa cumplicidade do sangue, que a idade perdoa.
E até houve tempo e acaso, para numa loja improvável, eu encontrar uma belíssima capa de Pomar num velho (1949) livro de Redol. Que, gulosamente, comprei, e tenho agora à minha frente. Já no calor da casa.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Colheita do dia


As sardinhas estavam óptimas e o modesto branco de Alpiarça portou-se muito bem. Quanto a companhia, eu não poderia desejar melhor, ou mais próxima. A temperatura, amena, e as nuvens negras, que ameaçavam, devem ter ido chover para outro lado. Por isso estava-se muito bem na esplanada e a conversa prolongou-se.
Mas eu viera, ao encontro, já bem satisfeito. Tinha encontrado, numa banca exterior de alfarrabista, a preço módico, estes Mistério Magazine de Ellery Queen, em edição brasileira, que fizeram as delícias da minha juventude, e de que ainda tenho alguns, mas não estes. Por isso, os colhi da banca, e os trouxe para casa.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Miscelânea lisboeta


De repente, tudo se vai ajustando à lenga-lenga. E até pode sentar-se o romeno na mesa ao lado, na esplanada, e saborear os restos já frios da Carne de porco à alentejana, em rápidas garfadas sôfregas - e sem bebida. Jardineiro durante anos, na Quinta da Marinha, um acidente na perna (diz e mostra) obrigou-o a vender "O Seringador" e acendedores de gás de fogão, pelas ruas de Lisboa. Pelas avenidas de Timisoara, ainda deve estar a nevar, mas aqui o sol bate nas costas com a força de uma primavera antecipada.
Quatro ou cinco ninfetas chilreantes vem quase dançantes pela berma do passeio. Gritam espavoridas, quando um esquadrão de pombos (que levantaram sabe-se lá de onde) lhes faz sobre os cabelos soltos um voo rasante e agressivo. Alguém lhes diz a rir: "Então, agora, as meninas têm medo das pombas da cidade?!" E elas riem também, perdendo o medo juvenil. Cantarolando, começam a correr até ao cruzamento. Ou em direcção à Primavera.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Livros usados


A quem frequenta alfarrabistas, ou compra livros em segunda mão, decerto já lhe terá acontecido deparar-se-lhe com um livro usado em bom estado e, praticamente, virgem; quero eu dizer: com as páginas por abrir.
São normalmente obras académicas e têm, muitas vezes, o nome do presenteado, na dedicatória do ofertante. Outras vezes, o ofertado teve a preocupação de riscar a dedicatória, ou rasgar a página que permite desvendar estes sinais de respeito e amizade. Mas é mais raro este cuidado. E a dedicatória permite-nos imaginar que, quem recebeu o presente, não teve tempo ou pachorra para abrir e ler o livro. É, no fundo, uma coscuvillhice ou uma inconfidência abstracta...que se transmite para fora dessa intimidade e que nem sempre ficará bem ao ofertado, porque não só não leu o livro, como não teve pejo em desfazer-se do volume, vendendo-o, provavelmente, por tuta e meia a um alfarrabista.
William Faulkner (1897-1962), escritor americano que recebeu o Nobel em 1949, não é um autor fácil - a sua leitura é áspera, embora profunda em densidade e conteúdo. E, desde a leitura de "Palmeiras Bravas", traduzido e excelentemente prefaciado por Jorge de Sena, que eu ando a tentar ler as obras principais do autor americano. Ontem adquiri, num alfarrabista de Campo de Ourique, o "Santuário" numa edição da Editorial Minerva, traduzido por Marília de Vasconcelos e editado no início dos anos 70 do século passado. Custou-me 3,00 euros. Das 278 páginas do livro, apenas 65 foram abertas (e lidas?). Donde pude concluir, embora sem fundamento rigoroso, que a Paloma, que fazia anos a 6 de Abril, não teve paciência ou tempo para o ler. E isto porque, na 3ª página da obra, está escrito à mão o seguinte: "6/4/75 - Para a Paloma c/ um beijão de Parabéns, da Mena".



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Pelos 76 anos de Eduardo Gageiro


Eduardo Gageiro nasceu em Sacavém em 1935. As suas fotografias são uma das melhores memórias visuais de Portugal, nos últimos 50 anos. Tenho o gosto de o ver 2 ou 3 vezes, por mês, num restaurante de Campo de Ourique, onde se pode fumar. Entra, sempre sorridente, desempenado e convivente.

para ms.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Colagem(ns)


O homem era vulgar, a mulher não, de todo. Mas o homem era uma força de trabalho organizado, a mulher deu-lhe a experiência do trato, a gestão dos silêncios, as regras de convivência, os contactos necessários para poder crescer na cidade. E o homem cresceu.
(...)
A criança ainda se lembra dos 2 urros das duas mulheres que ocorreram entre a sua infância e adolescência. Muitos anos depois soube das várias versões de O Grito de Munch. Mas nenhum dos urros ocorreu sobre uma ponte. O primeiro que ouviu foi à saída do caixão, e retiniu pelas paredes da casa. O segundo urro ocorreu num canto de uma sala clara, e veio de uma mulher sentada. A criança achou que a mulher ia enlouquecer.
(...)
Campo de Ourique, transmissão de saberes, ou experiências. O mais velho dos homens, apesar de provocador, conta ao mais novo dos homens, de forma pausada, mas tensa, episódios da sua vida. Quer transmitir o seu retrato exacto. Mas, à noite, de regresso a casa, conclui que o não conseguiu.
(...)
Enquanto escreve, o homem ouve o vindimador do Douro dizer: Tinta Roriz, enquanto quase afaga um cacho de uvas. Associa: Aragonês, primeiro, para Sul; depois, Tempranillo, para leste, Espanha. Lembra-se do Vega Sicilia e do Amigo, a Norte. E agradece à Vida. E vai à procura de Matisse, de Picasso. Mas acaba por escolher René Bertholo.