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sexta-feira, 21 de março de 2025

Dia Mundial da Poesia



Oportuna lembrança esta que a casa Vicente Leilões promoveu, hoje, para o Dia da Poesia, levando a leilão mais de uma centena de livros de poemas, alguns de grande raridade. Resolvi escolher quatro deles, bem como a sua estimativa de preço, para destacar, neste poste.
Acima, este primeiro livro de Raul Leal (lote 99) que tinha uma base inicial de 120 euros.



A segunda, é a única primeira emissão que eu não tenho e que foi editada em Paris, em 1892, numa tiragem de apenas 250 exemplares, por António Nobre. Mas possuo a edição facsimilada que José Augusto Seabra (1937-2004) mandou fazer pelo centenário da obra, em 1982. A edição original tem uma estimativa de 1.000 euros (lote 112), neste leilão.


Há muito na minha posse, está a edição primeira  de Clepsydra (1920), de Camilo Pessanha. Que, neste leilão (lote 123), tem uma estimativa de 500 euros. Em Outubro de 1994, um exemplar semelhante, muito bem encadernado, custou-me Esc. 20.000$00,  num alfarrabista da rua do Alecrim.



Finalmente o lote 139, de António Diniz da Cruz e Silva, O Hyssope (1802), com local de impressão em Londres mas, na realidade, impresso em Paris, na sua edição original, tem uma estimativa de venda de 50 euros iniciais.






quarta-feira, 9 de março de 2022

Divagações 178



A divulgação de inéditos póstumos de escritores falecidos, por parte de familiares, amigos ou admiradores, colhe normalmente alguma perplexidade e divide críticos e leitores. No entanto, a não acontecer, não teríamos tido acesso, por exemplo, às esplêndidas obras de Cesário Verde e à Clepsidra, de Camilo Pessanha, que, se não fossem os cuidados da família Castro Osório, teria ficado sepultada na acédia ou abulia do Poeta. É óbvio que a decisão de publicar inéditos implica conhecimentos literários e, antes de mais, sentido crítico e estético por parte do decisor.

No sentido favorável se pronuncia, de algum modo, J. M. Coetzee (1940), em Textos sobre Literatura (2006 -- 2017), assim: " Se Brod tivesse cumprido as determinações de Kafka, não teríamos nem O Processo nem O Castelo. Como consequência de sua deslealdade, o mundo não só ficou mais rico como se viu transfigurado, metamorfoseado. Assim o exemplo de Brod e Kafka não deveria bastar como prova de que os testamenteiros literários - e talvez os testamenteiros em geral - devem dispor da liberdade de reinterpretar as suas instruções à luz do bem de todos?" (pg. 278)

sábado, 20 de março de 2021

Uma louvável iniciativa 59


Passou recentemente o centenário da publicação de um dos livros mais importantes de toda a poesia portuguesa: Clepsydra, de Camilo Pessanha (1867-1926). A impressão, a cargo das Edições Lusitania, deveu-se a Ana de Castro Osório e seu fillho, João de Castro Osório que, em Janeiro de 1969, faria publicar, nas Edições Ática, uma outra edição alargada, acompanhada de um competente estudo introdutório crítico-bibliográfico. Da versão primitiva (1920) e em boa hora, o jornal Público, com vários apoios mecenáticos, promoveu a feitura de de uma edição fac-similada que é vendida com o diário, hoje, ao preço de 7,90 euros.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Palavras finais


Num dos seus últimos escritos, em prosa, Eugénio de Andrade (1923-2005), antecipando a entrada num prolongado silêncio final de cerca de 4 anos antes de morrer, fala de alguns versos fulcrais que o marcaram na relação essencial com quatro poetas e a sua obra. Refere, por exemplo, "os alciões chegados" de Nemésio, ou o "Só, incessante, um som de flauta chora" de Pessanha.
Se a qualidade misteriosa destes dois exemplos perfeitos e alheios, integrados nos seus poemas respectivos, é indiscutível, não é menos estranho que estes versos tenham percutido a sensibilidade de Eugénio de Andrade de uma forma tão impressiva e fundamental, tal como ele declarou nesse posfácio, escrito em Fevereiro de 2001, para um livro de poemas de José Tolentino Mendonça.
E é por aqui que talvez se possa começar, sem romantismos pueris, a falar do mistério da poesia.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Divagações 112


...Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..., como disse Pessanha, a que eu ajuntaria pequenos juncos que vieram dos canaviais das margens do Sizandro, arrumar-se em cónicos e breves montículos na pequena praia de escassas areias, porque estava maré cheia. Dois ou três jovens pardais, da cor da fuligem, saltitavam e debicavam nessas breves colinas de lixo natural, em busca de não sei o quê.
O Sol declinava. À distância, parecia estar apenas a um metro da altura das águas e iluminava nuvens que iam do sulfúreo ao cinzento, passando por um róseo e um ainda mais escasso azul, tímidos. No pequeno bar-restaurante, meia dúzia de estrangeiros jantavam e nós bebíamos café. Um velho lobo do mar encostava-se ao balcão e beberricava um copo de tinto. Ciclicamente, olhava para trás, em direcção ao pôr-do-sol. E entoava, baixo, uma cantilena.
A uma sibilina pergunta da empregada do balcão, respondeu, alto: "Estou a ver se, desta vez, vejo o raio verde!"
E foi aí que eu me lembrei do meu Pai e de Júlio Verne...

sábado, 10 de outubro de 2015

Um poeta do passado


Quem lhe saberá o nome, ou conhecerá a obra, hoje em dia? Óscar Lopes, na sua História da Literatura Portuguesa, classifica-o como "romântico tardio", com benevolência crítica. Eu seria, porventura, menos amável, ao considerar que Fausto Guedes Teixeira (1871-1940) já veio, ou publicou depois do Orpheu ou de Camilo Pessanha. Grande parte dos seus versos são flébeis e não tem sequer a musculatura moderna dos versos de um Cesário, mas o poeta menor de Lamego deve-o ter lido.
Assim, palidamente, por exemplo:
...
Fomos colhêr a fruta. Um ar de fogo
Cortava, assolador, terras de vinha...
Somos noivos então? disse-te: e logo
Tiraste à pressa a tua mão da minha.

Com os braços erguidos p'ra colhêr
Os frutos, inclinada para a frente,
Êsse esforço fazia aparecer
As formas do teu corpo, suavemente.

Num movimento que fizeste, a saia
Colou-se às tuas pernas com doçura,
E eu vi, como através duma cambraia,
A sua fôrça e quasi a sua brancura.

Tu descascavas uma tangerina,
As mãos agora nuas, com anéis;
E ria a tua boca pequenina
Mostrando uns dentes brancos e cruéis.
...

domingo, 4 de março de 2012

De Camilo Pessanha, um soneto


No Claustro de Celas

Eis quanto resta do idílio acabado,
- Primavera que durou um momento...
Como vão longe as manhãs do convento!
Do alegre conventinho abandonado...

Tudo acabou... Anémonas, hidrângeas,
Silindras, - flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as ortigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lágeas.

Sobre a inscrição do teu nome delido!
- Que meus olhos mal podem soletrar,
Cansados... E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar!
Enobreceu-o a quietação do olvido,
Ó doce, ingénua, inscrição tumular.


quinta-feira, 1 de março de 2012

Favoritos LXII : desaparecimentos e efemérides


Às vezes, os factos associam-se, num universo pequeno de melancolia.
Faz, hoje, 86 anos que, muito fragilizado, e com 59 anos incompletos, morria em Macau, o poeta Camilo Pessanha. É um dos meus poetas portugueses predilectos, e que nunca me canso de reler.
Hoje, se passar na Rua do Carmo, já não poderei entrar na Livraria Portugal, para ver livros. Ontem, foi o último dia em que esteve aberta, antes de encerrar, definitivamente.
Há cerca de uma semana lá comprei o meu último livro, que se mostra em imagem - talvez venha a falar dele, mais tarde. Mas a Livraria, quando lá entrei pela última vez, tinha já uma atmosfera de velório antecipado: as estantes meio-vazias, empregados e clientes falando baixo, memórias antigas, tristeza...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Regressos


Por lá andava, também, um rosto esbatido de Ilda David, que se não vendera no último leilão. E uns esquissos muito lineares e elegantes de Siza Vieira, numa outra sala, mas eu viera por causa de Pedro Chorão, que parecia ter regressado aos azúis, embora mais carregados. Mas havia também, por ali, areias da Índia, algumas manchas muito cruas - que a vida sempre as deixa. Impressas na memória. Ou seus indícios de "conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos", como diria Camilo Pessanha, que também cruzou os mares. Havia ali um regresso.
Quando nós regressamos, o Largo atravessou-nos com um vento gelado. Mas eu já trazia comigo os sinos de Kiev, os sons fortes e arrebatados de Mussorgsky, que me ajudaram a lutar contra o frio. E o azul carregado da noite começada prolongou, apenas, o anil escuro das telas do Pintor.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Fascínios


Há frases, poemas e versos, por vezes, que nos tocam mais de perto. Mas, em muitos casos, não sabemos explicar, devida e concretamente, porquê. E nem isso é o mais importante: fazem-nos companhia e, algumas vezes, ficam connosco. Talvez porque abrem para horizontes desconhecidos, tocam qualquer coisa de profundo ou produzem um eco indefinido em nós - um fascínio misterioso. Poderá ser "O sol é grande, caem co'a calma as aves..." de Sá de Miranda, o início do soneto de Pessanha: "Floriram por engano as rosas bravas..."; ou ainda, de Nemésio: "Pus-me a contar os alciões chegados..." de um poema todo ele nebuloso. Poderia referir ainda um soneto de Quevedo, ou o início musical de uma obra de Wordsworth ("Five years have passed, five summers with the length/ of five long winters, and again I hear..."). E falo disto, porque, embora ande comigo há muito, cruzou-se, hoje, de forma impressa, comigo, uma quadra de um soneto de António Machado, de que gosto particularmente. Ei-la, em tradução livre:

"Ao velho álamo fendido pelo raio

e por metade apodrecido,

com as chuvas de abril e o sol de maio

algumas folhas verdes lhe nasceram..."

domingo, 10 de abril de 2011

Uns livrinhos gráceis



Às vezes compram-se livros só pelo prazer de os ter. Não tanto pelo seu conteúdo, mas pelo afecto estético que despertam em nós. Estes voluminhos, em imagem, que terão sido, provavelmente, oferta natalícia dos Laboratórios Bial (passe a publicidade), foram para mim irresistíveis quando os vi à venda, por preço módico, num alfarrabista. Muito embora, das suas brevíssimas antologias, eu conhecesse todos os textos e poemas. As ilustrações são de Aurélio Mesquita e cada livrinho tem apenas 24 páginas. Mas são uns "cristaizinhos", e dá gosto manuseá-los e lê-los.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bibliofilia 44 : Tarcísio Trindade


Morreu há dias, pouco depois dos idos de Março, com quase 80 anos, em Lisboa, mas era natural de Alcobaça. Era um homem que cultivava alguma distância, na sua extrema afabilidade educada. Profundo conhecedor dos mistérios e meandros da bibliofilia, Tarcísio Campos Trindade (1931-2011) desencantou das traças da antiguidade, em 1965, o primeiro incunábulo escrito em português (Tratado da Confisson, 1489) que manteve a sua posição primeva até que, em 1996, João Alves Dias nos deu a conhecer o "Sumario das Graças", impresso por volta de 10 de Abril de 1488. Desde os anos 70 que Tarcísio Trindade tinha casa aberta (até tarde, normalmente) na Rua do Alecrim, nº44, em Lisboa. Era um local de encantamento e descoberta para quem gostasse de livros. Lá conheci António Valdemar e Joaquim Braga, por lá passou, muitas vezes, Pina Martins, lá aparecia, e cavaqueava, Artur Anselmo. Os preços dos alfarrábios eram justos, daí que, frequentemente, alguns colegas de profissão lá fossem, para comprar obras que revenderiam, mais caras, depois, nas suas lojas. Era preciso passar todos os dias, porque, normalmente, todos os dias havia novidades expostas para venda. Lá comprei um folheto raro de Mariana de Luna, de 1641, uma primeira edição de Rubén Darío, com dedicatória, que pertencera a Alberto de Oliveira, a "Clepsydra" (1920) de Camilo Pessanha, na sua edição original, e tantas outras obras raras ou preciosas. Havia sempre uma pequena informação ou nota útil de Tarcísio Trindade, quando se fechava a transação, sobre o livro em causa. Passou o ofício ao filho, Bernardo Trindade, que herdou a amabilidade do Pai, e grande parte dos conhecimentos, mantendo a actividade, no mesmo local, com os mesmos princípios.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Escolhas


Numa altura do ano em que jornais e revistas publicam sugestões de compras de livros, ou escolhas de figuras conhecidas do público, vou lembrar as opções de Eugénio de Andrade (Rosto Precário, 6ºed., 1995). A referência a vários autores é ampla, e vai de Herculano a Guimarães Rosa, para se centrar, finalmente, em apenas 5 obras:
1. A poesia de Pessoa (de que exclui algumas odes de Ricardo Reis).
2. Clepsydra, de Camilo Pessanha.
3. Illuminations, de Rimbaud.
4. Song of Myself, de W. Whitman.
5. Poesia (só a poesia) de S. João da Cruz.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Florilégio de poetas, a propósito de Jazente



O livro Poesias, do Abade de Jazente (1719-1789), como se poderá ver pelas imagens, pertenceu a Alberto Osório de Castro (1868-1946) pela marca de posse manuscrita no frontispício, e pelo ex-libris na segunda página. Este poeta era irmão de Ana de Castro Osório (1872-1935), e amigo de Camilo Pessanha. Foi juíz na Índia, Angola e Timor. Teve vida política activa, tendo sido Ministro da Justiça no breve consulado de Sidónio Pais.
Mas era de Paulino António Cabral, Abade de Jazente, sobretudo que eu queria falar, hoje, que o andei a reler, em circunstância, por esta pequena edição rollandiana de 1837, e que A. Osório de Castro terá comprado, em Lisboa, a 29 de Abril de 1924.
De entre a abstrusa poesia portuguesa do séc. XVIII, Jazente é uma boa excepção e um dos meus poetas predilectos. Pelo seu tom despido de artifício, suas paixões (apesar de padre), pelo realismo da vida campesina que retrata, onde cabem perdizes, um catapereiro (pereira brava) ou o afecto que dedicava aos cães ( Tejo e Diamante) que o acompanhavam. Pelo sol e a chuva que entram nos seus versos. Ou até pelas insónias que deixa impressas num soneto:

O galo já três vezes tem cantado,
Mugido o Boi, tossido a Ovelha, e a Aurora
Já lá vem, com lágrimas que chora,
Regando a relva mole ao verde prado.

Já detrás do Marão o Sol dourado
A frente principia a lançar fora:
Enfim é manhã clara, e inda até'gora
O sono aos olhos meus não tem chegado.

Ele às vezes quer vir, e a noite inteira
Me rodeia a cabana, e espreme lento
O suco sobre mim da dormideira.

Mas se entra nela algum feliz momento,
Que se me encontra à cabeceira
Logo dela retira o meu tormento.


Nota: procedi a pontuais actualizações ortográficas.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Memória 38 : Camilo Pessanha


O desejo de aniquilamento ou, com mais rigor, de apagamento, é uma das matrizes mais constantes da poesia de Camilo Pessanha (1867-1926). Já o gravara, em epígrafe, no início de "Clepsidra": "...No chão sumir-se como faz um verme..." Não sei se essa vontade parte da desesperança de um amor desencontrado por uma ascendente do poeta António Osório, ou se, com o próprio ópio - de que usava e abusava -, era apenas uma expressão exterior que correspondia a um desejo mais profundo, a uma acédia (vide: Cioran e Fernando Pinto de Amaral), que já crescera com ele. Que sabemos nós dos poetas e dos homens? Que lemos, quando lemos os poetas, senão a nós mesmos, também? Procurando, talvez (e tantas vezes), uma sobreposição imprecisa, o ajuste com o nosso negativo fotográfico (revelado), um reequilíbrio, uma certeza - sobre a Vida.
Ainda descendente desse Almirante Pessanha que veio de Itália, no tempo de el-rei D. Dinis, para reorganizar a nossa Marinha, as idas e vindas que Camilo Pessanha fez (não muitas, aliás) de e para Macau, terão talvez suscitado, no seu olhar visionário, uma sobreposição genética e ancestral com o seu antepassado medieval. No dia de aniversário do seu nascimento, foi assim a razão de ter optado por este belo soneto.

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
- Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrói, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
- Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mário de Sá-Carneiro




Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), poeta e prosador notável, nasceu precisamente há 120 anos. É, com Almada e Pessoa, a trindade magnífica do modernismo português. O facto de ter morrido jovem não lhe permitiu libertar-se totalmente de algumas influências (Nobre e Pessanha, principalmente) para aceder a uma voz mais pessoal. Muito embora a exuberância quase barroca ( que prenuncia o surrealismo) e alguma estridência de tom identifiquem muitos dos seus poemas. Será uma evidência repetí-lo, mas sendo tão impressivo o poema, obviamente aqui o lembramos nos versos de "Fim":

Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!

sábado, 1 de maio de 2010

William Butler Yeats



W. B. Yeats nasceu em Dublin (Irlanda), em 1865, mas com 11 anos a família foi para Londres, onde fica até 1880. Regressam à Irlanda, mas em 1887 estão de novo em Inglaterra. Yeats convive com os intelectuais britânicos e Ezra Pound chega a ser seu secretário, em 1913. O Poeta irlândes interessa-se por ocultismo, teosofia e lendas antigas. Em 1923 é-lhe atribuído o Nobel. Morre em França, em 1939.
Foi, predominantemente, um poeta simbolista, mas se o quisermos comparar com algum poeta português, eu diria que está muito mais próximo de Teixeira de Pascoaes, pelo seu lado visionário e um pouco místico, do que de Camilo Pessanha que foi o nosso simbolista, por excelência. W. B. Yeats conviveu mal com a sua própria velhice e, isso é visível, sobretudo no poema "Sailing to Byzantium". Particularmente no primeiro verso do poema - "That is no country for old men...". Por outro lado, quero alertar que este poema não tem nada a ver com o recente filme dos irmãos Coen, "No country for old men". O título deve ter sido, apenas, uma piscadela de olho aos intelectuais nova-iorquinos e irlandeses. Aqui vai, portanto, a tradução de "Sailing to Byzantium" de Yeats.

Zarpar para Bizâncio

I

Este país não é para velhos. Os jovens
Trocam abraços e os pássaros nas árvores
- Aquelas gerações agonizantes - no seu cantar,
Cascatas com salmão, mares de golfinhos
Povoados, peixe, carne ou aves que louvam o Verão,
Tudo o que foi gerado, nasceu e vai morrer.
Seduzidos pela música sensual todos esquecem
As grandes obras que o espírito fez eternas.

II

Um velho não é mais que um empecilho,
Um casaco esfarrapado sobre um ponto fixo, a menos
Que a alma bata palmas e cante, cante forte
Por cada trapo velho do seu mortal vestido,
Porque não há escola de canto para o estudo
Das grandes obras na sua magnitude;
Por isso eu naveguei nos mares para chegar
À sagrada cidade de Bizâncio.

III

Ó sábios guardiões do sagrado fogo de Deus
Como no dourado mosaico da parede
Deixai o fogo sagrado, falcão de seu voo circular,
Sêde os mestres-cantores da minha alma.
Esgotai meu coração; doente no desejo
E preso a um animal moribundo
Que não se reconhece no que é; acolhei-me
No artifício próprio da eternidade.

IV

Para sempre abandonada a natureza, nunca
Mais regressarei à minha forma corporal,
Apenas relevo cinzelado por gregos artífices
No ouro martelado ou esmaltes dourados
Para manter desperto um Imperador com sono;
Ou talvez eu pouse num áureo ramo a cantar
Para os senhores ou damas de Bizâncio
Celebrando o passado, o presente, e o porvir.


Obsv.: o poema é datado de 1927.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Bibliofilia 14 : Camilo Pessanha




Há noventa anos (1920) publicou-se, pela primeira vez, "Clepsydra" de Camilo Pessanha (1867-1926), na Casa Editora Lusitania, graças ao patrocínio de Ana de Castro Osório. A segunda edição viria a sair em 1945, também com o apoio da Família Osório com quem o Poeta tinha privado, de perto. Pessanha ficou satisfeito com a publicação de 1920, como o prova uma carta de Macau, de 1921, enviada a Ana de Castro Osório. Mas, também, nunca fizera qualquer tentiva ou esforço, além da publicação de alguns poemas seus em jornais, para reunir em livro a sua obra.
O meu exemplar da 1ª edição de "Clepsidra", com encadernação assinada, foi comprado, a 5 de Outubro de 1994, na Feira do Livro Antigo/Museu da Electricidade, por Esc. 20.000$00 (cca. euros 100,00). Está em bom estado e não é muito frequente aparecer à venda. Em Maio de 2001, no leilão da biblioteca de José Blanc de Portugal, promovido pela Dinastia, o mesmo livro, também encadernado (lote 1465), tinha uma estimativa de venda entre 20.000$00 e 40.000$00 escudos. Em Janeiro de 2003, no leilão da Biblioteca Vieira Monteiro, efectuado pelo Correio Velho, a primeira edição de "Clepsydra" (lote 820), mas desta vez não encadernada, apontava para uma venda de euros 150-300,00.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sinestesias : em sequência de Elgar


O poema "Violoncelo" é um dos mais conhecidos de Camilo Pessanha (1867-1926) e onde as sinestesias ("produção de duas ou mais sensações sob a acção de uma só impressão") mais se tornam evidentes. Ao inverso dos metais que melhor expressam sentimentos de júbilo ou alegria, o Poeta escolhe o violoncelo, à partida, para exprimir sentimentos que ultrapassam a tristeza ("pesadelo", 5ºverso). As arcadas (sobre o violoncelo) interligam-se a pontes para a sequência da água - tema muito recorrente em Pessanha - em múltiplos aspectos: "caudais de choro, rio, lacustres, blocos de gelo". Mas o melhor será que o poema fale por si.

Chorai arcadas
Do violoncelo
Convulsionadas
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Nota : um aviso a quem tenha, da "Clepsidra", exemplares das Edições Ática. Na 4ªestrofe, 3ºverso, há uma gralha: "lemos" por lemes que é o correcto. Esta gralha deve ter-se perpetuado em sucessivas edições. É comum, pelo menos, nas edições que tenho: de 1969 e 1983.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Guilherme de Faria, ainda



Já tinha falado (Bibliofilia 11) no poeta vimaranense Guilherme de Faria (1907-1929), mas vou voltar a ele. Foi sempre, na sua curta vida, católico convicto e monárquico fervoroso (daí o seu entusiasmo pelo sidonismo), tendo até feito um poema à morte de D. Miguel II e outro a saúdar o novo "Príncipe", poesias que vieram a integrar o livro "Manhã de Nevoeiro", a última obra que publicou (1927) em vida. "Desencanto" e a colectânea "Saudade Minha" são já póstumos (1929), embora tenham respeitado as indicações que o Poeta deixara. Aliás, os seus pequenos livros são de grande apuro gráfico e qualidade estética; bem como os que editou de Teixeira de Pascoaes: "Londres", "Sonetos", "Cânticos"...Afora a colectânea "Saudade Minha" que inclui uma escolha de toda a poesia publicada de Guilherme de Faria, os dois últimos livros revelam já uma voz própria. Os primeiros ("Poemas", "Mais Poemas" e "Sombra") são ainda muito devedores de influências. Entre um Nobre, sem ironia, um Mário de Sá-Carneiro, menos ousado, e um Pessanha, um pouco menos subtil. Também há um ligeiro eco de Pessoa ("Eu próprio me desconheço, / E, nesta hora em que vou, / Desconhecendo, aborreço / O nada inútil que sou...").

Nota-se, na sua poesia, uma sensibilidade excessiva, quase mórbida, e um grande desencontro com a vida real, pequenos tiques de aristocratismo. Mas também aquela intuição quase feminina que denuncia o poeta e que, na verdadeira acepção de "vate" (profeta, aquele que faz vaticínios), adivinha o futuro pelo passado ("A minha alma - noite morta - / Crucificada nas ondas, / Morreu nas ondas do Mar..."). A morte não o deixou, no entanto, evoluir até uma maturidade poética já anunciada e pressentida:

Enquanto a vida perpassa
Pela tua indiferença,
Em risos de sol que passa
E se morre em névoa densa,
Tu nem reparas, de ausente
E em vagos sonhos perdida,
Nos encantos que ela tem...
E, a sonhar eternamente,
Não tens esperança na vida
Nem saudades de ninguém.