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domingo, 17 de novembro de 2024

Bibliofilia 217

 


Eu creio que, hoje em dia, ninguém se atreve a ler uma epopeia. Sobretudo com 17 cantos...
Em imagem acima, fica o frontispício da segunda edição (1783) deste poema épico de Jerónimo Corte Real (1533?-1588), cuja edição original foi publicada, póstuma, em 1594. A terceira impressão é também Rollandiana, e de 1840. O autor, de famílias ilustres, está representado em estátua, entre outros escritores, no monumento a Camões, ao Chiado.
O meu exemplar, desencadernado, mas em bom estado e íntegro, custou-me Esc. 950$00, em finais do século passado. A Cabral Moncada Leilões, em 2020, vendeu um exemplar semelhante por 110 euros; e a Livraria Manuel Ferreira (Porto) um outro, encadernado, por 150 euros.


Assim se inicia o poema, actualizada a ortografia:

Um sucesso infeliz, um triste caso,
um funesto discurso, a morte horrenda
do Sepulveda canto; e juntamente
o miserável fim daquela ilustre
belíssima Leonor, a quem fortuna
mostrou da cruel roda o mais adverso,
mais abatido, e mais mísero estado.
...


quinta-feira, 20 de junho de 2024

A decadência e a ruina

 

Ora aqui está  um exemplo, de capa, de supremo mau gosto, num hebdomadário que já foi de referência.

terça-feira, 17 de julho de 2018

O velho do Restelo e a nova nomenclatura


As promessas dos autarcas, antes das eleições, são por vezes megalómanas, e depois é o diabo...
Agora, uma delas está a provocar, entre algumas sumidades (?), uma discussão tipo "sexo dos anjos" sobre o título que se lhe há-de dar. Todos querem pôr o nome à criancinha, mesmo antes dela ou dele nascer. Do conteúdo é que ainda não ouvi falar. Se calhar, vão buscar a nova do achamento à Torre do Tombo, para lá pôr... uns canhões à instituição militar, mais uns objectos ao Museu de Arqueologia, eu sei lá.
Talvez valesse a pena, antes de ir a jusante, reflectirmos, pragmaticamente, a montante: haverá mesmo necessidade de mais um museu, quando os que existem, às vezes, fecham secções por falta de pessoal e orçamento?

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Faits-divers


Noite sem sobressaltos e em que quase nada aconteceu. O Blogue quase ia adormecendo de tédio, não fora a visita de três cibernautas: dois do Brasil (Canoas e Ribeirão Preto) e outro de Portugal (Lisboa).
Tirando os sugadores de imagens e os melómanos (Hovhaness e Heinrich Schütz), o Arpose não foi chamado à colação nem ao quadro. Ficou assim "posto em sossego" e tranquilo, cochilando entre as esparsas visitas nocturnas.
Bem o merecia!

segunda-feira, 29 de maio de 2017

As poucas certezas, que nos chegam de longe


Com os anos que levo, poucas certezas me assistem. Porque, se juventude é certeza (ligeira ou caprichosa, quase sempre), a velhice, na sua eventual lucidez, de experiência feita, é, sobretudo, terreno fértil de dúvidas. Humildemente humanas.
Eu teria muitas hesitações, se me perguntassem, de toda a Literatura (que conheço), qual o romance ou poema que prefiro. E considero como sendo o melhor, entre os melhores.
Mas, se me perguntassem, sobre o conto, ou pequena ficção narrativa, eu não teria dúvidas. Elegeria, categoricamente, esse pequeno (12 páginas), e enorme conto de Jorge de Sena (falei dele aqui, em 13/4/2010), sobre Camões, intitulado: Super Flumina Babylonis. Porque é toda uma vida.

para Margarida Elias que, com o seu comentário no Arpose, me suscitou estas pequenas reflexões. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Da explicação em poesia


Não sei já quem disse que analisar e explicar um poema é a melhor maneira de o destruir. De alguma forma, o estudo escolar de "Os Lusíadas" fez abortar, pelo menos parcialmente, a possibilidade de fruição inteira do nosso poema maior. Por outro lado, neste nosso tempo, raríssimos serão aqueles que terão oportunidade, paciência e o prazer de virem a ler, com proveito e gosto, as estâncias camoneanas descrevendo, genialmente e por exemplo, o fogo de Santelmo, ou, com imenso humor, o episódio  (pícaro) de Veloso. Alguma coisa se vai perdendo para sempre, dos antigos cânones...
Quando releio As Aves (1969), de Gastão Cruz (1941), lembro-me sempre de Sá de Miranda e de Mafra. E dos 6 meses, que por lá passámos, com diferença de 3 meses, na recruta e especialidade. É uma realidade prosaica mas, na altura, com a guerra colonial, essa realidade era também dramática. Tudo isto pode ajudar na leitura deste pequeno (grande) livro de poemas. Sobretudo para quem viveu esses outros tempos e os sentiu na pele.


segunda-feira, 28 de março de 2016

Em glosa camoniana, ou bíblica


sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,
eu, sentado a este papel, escrevo
que o perdão sem piedade,
não pelos actos, mas
pelas palavras,
nunca me será dado, e rejubilo,
porque o perdão enfim veria os nomes anulados
pelo falso entendimento
coisa a coisa
- e eu não quero mais perdões de nada


Herberto Helder, in Letra Aberta (pg. 13).

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Da Janela do Aposento 38: Helderzinhos




Após uma longa vida de trabalho, “albardando os burros” e carregando figuras sinistras e toda a espécie de medíocres durante décadas, julga, o comum dos mortais, que se tinha livrado de semelhante espécie ao entrar para o “rol” dos séniores. Eufemismo bacoco e efémero !
O respeito perante a sabedoria acumulada deu lugar a uma compaixão disfarçada perante a chamada 3ª Idade. Foi sol de pouca dura para se chegar “ao osso”, i.e., “para falar verdade” e chamar velhos aos que estão em final de vida, término infelizmente muito prolongado. Azares do avanço da ciência !
O teatro de marionetes costuma ter umas figuras rústicas, fisicamente toscas, provincianas e, frequentemente, apoucadas, sem comparação possível com a ironia das personagens vicentinas. Os actuais Helderzinhos saberão do que estou a falar ? Tenho dúvidas !
E como também são ralos na benesse natural de penugem física, são cada vez mais parecidos com os “manequins” da Rua dos Fanqueiros. Ao que parece, seus vizinhos próximos na pequena “City” de Lisboa.
Vem tudo isto a propósito de uma recente irritação. O cabelo ralo é que não permitiu que se notasse o incómodo. Questionado sobre o motivo de não usar o Fundo de Pensões do Banco de Portugal, à semelhança do que sucede com o restante dos subscritores e cidadãos, para comprar dívida pública, a criatura apenas se irritou, sem que os cabelos se “pusessem em pé”.
O PR e alguns beneficiários do BP agradecem. Ter-se-iam lembrado, certamente, do final da “Tabacaria”, ou de outro verso, caso soubessem o número de cantos d’Os Lusíadas. Com efeito, recomendo uma reflexão sobre a “apagada e vil tristeza”.

Post de HMJ