Mostrar mensagens com a etiqueta Catitinha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Catitinha. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Retratos (2) : o Catitinha


Diziam que tinha sido advogado, mas que deixara de praticar porque tivera um desgosto, mas de concreto quase nada se sabia dele. Vinha inesperadamente, mas as crianças, na praia, sabiam que ele vinha sempre, pelo Verão. De Norte a Sul, pelo litoral, de Vila Praia de Âncora até à Figueira, pensava eu, até que soube que a Alice Vieira também o conhecera em Cascais: era o Catitinha. Sempre aperaltado de cerimónia, à torreira do sol, tantas vezes, sempre de gravata, bengala de castão de prata, cabelo crescido e espesso, todo branco, já nos anos 40 do século passado. Parecia um Pai Natal, fora de época, e sem barbas. Tez queimada pelo sol marítimo e, sempre, com o seu longo apito de metal que tocava, sincopado, para anunciar a presença. Chegou a comer lá em casa, pelo menos, uma vez, tinha modos urbanos e palavra serena, mas não me lembro da conversa desse almoço.
As famílias costumavam convidá-lo para comer e dormir, porque era pessoa educada e de bons costumes. Mas o seu terreno ideal eram as praias, onde multidões de crianças o seguiam em algazarra feliz, ao longo do litoral das barracas, em paralelo ao mar. E ele sempre apitando, a espaços. De vez em quando o grupo parava para a fotografia da praxe. O Catitinha era muito fotogénico e posava, com ares profissionais, de modelo habituado. Fazia o percurso das praias, de norte a sul, por comboio, ao que se dizia. Também constava que o seu amor pelas crianças se devia à morte da única filha, que fora atropelada, muito jovem ainda. Nunca soube donde ele era e julgo que ninguém sabia, ao certo.
Tinha os seus mistérios de intimidade que ajudavam a fortalecer o seu carisma natural. Mas todas as crianças tinham nele uma confiança inabalável, e segura. E os pais, também. A sua figura, alta e forte, parecia a de um profeta bíblico, de cabelos ao vento...  

sábado, 3 de julho de 2010

No início da época balnear


A princípio, era a foto de família. Com o Diana-Bar, por cenário de fundo e, para onde José Régio, às vezes, de manhã, ia escrever. Mas, ainda antes, tinha sido o mudar de casa: fosse para a Rua Santos Minho, a 31 de Janeiro, ou a Rua Luís de Camões. Em 1948, a Póvoa de Varzim era apenas uma vila piscatória, onde pontificavam, em memória ou estátua, Eça de Queiroz e o Cego do Maio. E aqueles nomes estranhos: os Agonia, os Frasco, os Mouco, os da Hora...
O tempo parecia correr, sempre, feliz e descuidado por entre alguma nortada e, mais raramente, o som da ronca que anunciava um súbito nevoeiro - adeus, praia!, viva o cinema...
E lá para meados de Agosto, todos esperavam o Catitinha, precedido pelo seu apito estridente.
P. S.: para a Fernanda, fraternalmente.