No dote, com outras preciosidades, levou Catarina de Bragança (1638-1705) para Inglaterra, Tanger e Bombaim, que deixaram de ser portugueses. Por lá introduziu o vício do chá e a receita da geleia de laranja, que viria a generalizar-se de nome, para todas as compotas, em marmelade, já que os britânicos são monótonos e grosseiros, no que à gastronomia diz respeito. Para a Grã-Bretanha, levou também consigo uma pequena orquestra de câmara porque, tal como o pai (D. João IV), gostava de música. O marido, Carlos II, apesar de mulherengo, privilegiava a beleza feminina e, por isso, antes de se comprometer, mandou a Portugal o pintor Dirk Stoop, para que retratasse a Infanta. O quadro (1660-1661) saíu como se vê acima, que Catarina tinha ainda a frescura da juventude, pese embora a testa alta, mal dissimulada sob um caracol enorme...
Mas na corte inglesa acharam-na feia, pouco simpática, além disso, era católica, para lá de ser discreta.
Cerca de três anos depois, Peter Lely, em 1663, faz ressaltar a sua maturidade e, embora os olhos negros fossem bonitos, trazem no retrato uma distância ou miopia ligeira. Carlos II, porém, não ficara desagradado e assim escrevera à irmã: "...o seu rosto não é exactamente uma beleza, embora os seus olhos sejam excelentes e a face não tenha traços grosseiros. Pelo contrário, o seu aspecto é agradável". Mas, e como refere Júlio Dantas (Cartas de Londres), a rainha seria muito pequena e algo roliça de corpo. Teria boa voz - vários autores referem o facto -, cabelos pretos, mas os dentes eram um pouco salientes. Por outras qualidades, atribuem-lhe ponderação e gravidade, bem como inteligência. E, é certo, Carlos II muitas vezes lhe ouvia o conselho avisado sobre questões políticas de difícil decisão.

O retrato, acima, que dela fez Caspar Netscher terá sido executado pouco antes de ficar viúva. Catarina manteve-se ainda uns anos, em Inglaterra, depois da morte de Carlos II e, ao que se diz, era respeitada e bem tratada, embora tivesse saudades de Portugal. Por isso, obtidas as respectivas autorizações, em 1692, partiu no final do ano, tendo chegado a Lisboa, no início de 1693, onde foi recebida, com alegria festiva.
Viveria ainda mais 12 anos, em solo português, vindo a falecer no seu palácio da Bemposta, no ano de 1705, reinava D. Pedro II, seu irmão mais novo.
Devo acrescentar que Catarina de Bragança é, das personagens portuguesas régias, talvez, a que tem uma mais ampla iconografia. O facto de ter sido rainha de Inglaterra terá contribuido, indubitavelmente, para isso.