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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um simples painel de 4 azulejos


Pelo nome, iriamos dar a Queluz e ao conhecido e primoroso restaurante, e assim faria todo o sentido que os azulejos tenham sido confeccionados em Sintra, que lhe fica próxima. Desiludam-se, porém. Porque o painel foi colocado no pátio interior de uma nobre mansão, ao fundo da rua do Raimundo, em Évora. Talvez para lembrar que, no Alentejo, também se podem degustar magníficos pratos de caça, em estação propícia. Como perdizes, por exemplo.

sábado, 14 de abril de 2018

Mercearias Finas 129


De caça, à mesa, não me posso inteiramente queixar. Tenro em idade, pelo Outono, apareciam lá em casa, de ofertas de caçadores amigos, tordos, pombos bravos, perdizes, e, de exemplares terrestres, mas também ligeiros, vinham à mesa, lebres e coelhos silvestres, de fino sabor. Tive a minha conta.
Parcimonioso, embora, o almoço de hoje compôs-se de um afinado ragoût de veado com cantarelos, acompanhado por massas frescas e um Dão tinto Santo António (Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro) de 2014, que se portou competente para a sua responsabilidade gastronómica.
Ao vivo, em Mafra e na sua Tapada, me fartei de ver veados à solta, enquanto eu andava aperreado na minha aprendizagem militar, pouco antes de Salazar ter caido da cadeira. Mas aos ditos bichos, só os provei, em bifes, por volta de 85, vindos de Massamá, de uma quinta pioneira em criação de caça que, hoje, se calhar, chamariam startup, para ganhar estatuto...
O javali veio ter ao meu currículo gustativo depois do 25 de Abril, numa ida propositado a um restaurante simpático dos subúrbios das Caldas da Rainha. Não desgostei, mas também não fiquei avezado, nem cliente. Já nos anos 90, chegaram os faisões, as galinholas e as avestruzes que, uma vez provados, posso dispensar tranquilamente e sem sacrifício.
Fiel, fiel, mantenho-me às perdizes, que o Sr. Pereira, exímio caçador lá entregava em casa e que a Maria, profissional de gabarito, preparava com afecto extremoso. Ave especiosa, se selvagem, que o Abade de Jazente  (1719-1789) celebrou. Em soneto, e para sempre.
Que aqui deixo, pelo seu tom bem humorado:

Eu bem as vi, mas foi, Rocha erudito,
arrojar tão de chofre d'entre o mato,
que o caçador um pouco estupefacto,
em lugar de atirar-lhes, deu um grito.

Passaram-se depois a tal distrito,
d'onde apenas trepar podera um gato;
sem falar no desconto de um regato,
que resiste inda aos saltos de um cabrito.

N'isto chegou a noite; e ao outro dia,
ou porque o cão levava maus narizes,
ou porque alguma velha nos benzia,

corremos sem topá-las mil paises.
Bem sei que isto ao primor me não desvia,
mas esta é toda a história das perdizes.

domingo, 15 de novembro de 2015

Mercearias Finas 108 (e não só...)


Por aqui (imagem), sossegadamente, nos iniciámos na estação da caça, neste ano da graça de 2015, com uma perdiz silvestre, estufada, a saber a campo. Acompanhada de batata frita, fina, e uma salada de feijão verde. Veio também, para a mesa, um jarro de colheita particular, de uma quinta próxima do Cartaxo, vinho branco fresco - sem pergaminhos especiais, mas capaz - porque estava calor. Rumámos, então, a Sintra. Por Colares, 4 Vampiros em falta esperavam-me numa Feira de Velharias espalhada por um  pequeno Largo, e, por volta de Almoçageme, de regresso, na estrada, com permissão e benevolência da A.S.A.E., ou porque era Domingo, uns feirantes expunham, ao ar livre, garbosamente, produtos de Fumeiro nortenhos, fruta da várzea de Sintra, queijos saloios, mel e outros produtos da terra. Trouxe um salpicão de Mirandela, que promete, e uma garrafa de Espadeiro minhoto, com linda cor rubi clarinho. Havemos de ver e provar, em altura própria que os mereça.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Mercearias Finas 87


Da região saloia, de positivo, o que primeiro me vem à memória, é o rústico e saboroso vinho de Cheleiros, que já não provo há mais de 30 anos. Se recuar mais uns 15, num restaurante caseiro - já desaparecido - do centro de Mafra, vêm-me à ideia uns bifes tenros de vitela que, por vezes, lá jantava às sextas-feiras. Para me compensar da semanal comida de caserna e para me dar forças para o cross matinal dos sábados. 
Mas Mafra mudou imenso. Desembarcados no largo, frente ao Convento, demos pelo "Sete Sóis" que, além dum Caril de Lulas, gulosamente e cinegético, rezava assim:
- Ensopado de veado
- Alheira de caça
- Espetada de javali e veado
- Costeletas de javali.
Ora, esta variedade, em Maio, só por milagre ou por excesso de população bravia na Tapada... Bem fomos, dois do grupo, na Espetada que estava bem grelhada e esplêndida, fazendo-se acompanhar de batatas a murro, recheadas a Rocquefort, mais uma boa salada colorida. Esgotado o vinho que eu pedira, em primeira mão, trouxeram-me um amadurecido Casa de Santar 2003, tinto, que, embora com pé grande, estava macio de aroma e sabor. Mafra reconciliou-se-me pelo estômago, passados tantos anos, depois desse semestre inóspito de 1968.
A não perder, quem lá for, este restaurante "Sete Sóis", de bom serviço, e donde se pode ver (sala de jantar, no 1º andar) o Convento e lembrar Saramago, que era um homem sério, interventivo e, quase sempre, justo.