
Evito as grandes superfícies. Sobretudo as desta Las Vegas suburbana. Alguém faz o favor de cumprir, por mim, a obrigação cristã, e semanal. Evito porque, no passado, já dei para o peditório - por necessidade -, e por temperamento. Afasto-me o mais possível destas excursões de fim-de-semana, até gratuitas no transporte, em direcção a estas catedrais de consumo, preferindo-lhes os pequenos oragos, ou capelinhas de bairro, mais rústicas, personalizadas por curas ou curadores, ou merceeiros com gosto, que escolhem a dedo, e em minudência, os artigos que irão pôr à venda para os seus fregueses. Lá encontro o requeijão perfeito, o figo de mel anónimo, o vinho puro e duro de um produtor desconhecido e de pequena produção. O pêssego antigo, com o raro sabor e gosto de infância. É que as grandes superfícies compram a fruta, ainda em pomar - para quem não saiba...
Mas, hoje, não o pude evitar. E lá fui cumprir o santo sacrifício... Carros ajoujados de sumos, monstruosas embalagens de bolos industriais, grades de cerveja deslizam pelos corredores para matar esta fome e sede de séculos de privações e desejos não satisfeitos no ADN português milenar. São conduzidos, normalmente, por criaturas obesas, em traje de praia, transpiradas e decotadas até onde é legítimo e permitido numa catedral. Criaturas com um sorriso estampado no rosto, beatíficos senhoritos, felizes, de quem foi à missa e vem, de regresso, reconciliado com deus, com os semelhantes, e com o mundo. Ámen.