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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Sequelas ou sequências


Não se esperem revelações, passados tantos anos, destes reencontros. Apenas um ajustar de vírgulas menores, alguns pontos finais e definitivos, confirmações de coerências antigas, pequenos acertos.
Clarifica-se, no entanto, o puzzle da memória, de versões diferentes, em presença, de cenas vividas outrora pelos intervenientes. Cada um fixou aquilo que mais lhe interessava. Ou queria, limando-o, à sua maneira, talvez mais favorável.
O Manuel P. entrou confiante no salão, circunvagou o olhar pelo enorme grupo reunido. Depois, deu por mim e abriu-se num sorriso amplo, estendeu a mão, forte manápula ainda vigorosa. Acabámos num abraço afectuoso. Foi quando ele lançou, baixo e em tom quase confidencial:
- Eu reconheço muitos, pelos traços, mas parecem-me caricaturas...
Eu não disse, mas podia retorquir-lhe:
- São as rugas do tempo, Manuel!
O que seria uma mera evidência.
E, por isso, me calei.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Retratos (19)


Em relação a reuniões de confraternização, com almoços ou jantares sequentes, as opiniões dividem-se, normalmente. Há quem os considere uma chatice, outros, não faltam a nenhum. Quanto a mim, se tenho garantido um pequeno grupo de próximos ou amigos, não me importo de os frequentar. No último, dava por adquirido que o serviço e o amesendar seriam de qualidade. Como foram; só de entradas, a preceito, vieram papas de sarrabulho, salgados miniatura, salada de polvo, pequenos pratinhos de rojões, mexilhões, moelas, eu sei lá... A nossa mesa, em presenças humanas, também se me fez a contento das minhas expectativas.
Algumas surpresas me esperavam, pela positiva: uma familiar que já não via há quase 40 anos, o Nanu com o cabelo totalmente branco, mas que conservava os traços de rosto juvenis, a Carviçais que eu não reconheci, porque perdera a beleza gentil que lhe era própria. E o Fernando G. A., que conservara a sua bela voz de soprano. Mas que se tornara, à força de querer ter graça constantemente, numa pobre caricatura de si próprio. Mantinha o nariz adunco de Cyrano, ainda devia cantar e tocar bem o fado coimbrão, mas adornara-se, para a festança, com um chapéu exótico e garrido, e uma écharpe. A pose era excessiva.
Depois, finalizava os seus ditos com longas gargalhadas, o palavrão sublinhava todas as suas histórias e os gestos teatrais exagerados, tornavam quase deprimente acompanhá-lo. Além disso, a hipocondria dominava, crescente, com a idade. E o cabelo longo, mas muito ralo, acentuava-lhe a decadência geral. Teria preferido não o ter reencontrado... pelo desfazer da imagem que fora.
Daí que compreenda totalmente aqueles que evitam este tipo de romagens de saudade a uma juventude perdida.