Aqui há uma boa trintena de anos, tive oportuna necessidade de consultar e ler um estudo de mercado para uma empresa de grandes superfícies, com relatório anexo, minucioso e fundamentado, sobre as potencialidades da Linha de Sintra, para abertura de novas lojas. Havia prós e contras, na conclusão.
Há cerca de um ano, nas minhas imediações outrabandistas, reabriu pela quinta vez (quanto a donos), uma pequena superfície, agora franchisada (talvez porque abriu um Lidl, próximo), para minha surpresa. Mas, intimamente, desejei-lhes felicidades, até porque me era útil, e a dona e os três empregados eram discretos e simpáticos. Creio que nunca lá gastei mais do que 10/15 euros, para compras de ocasião e momentânea necessidade. O pequeno supermercado fechou há 8 dias... Subitamente, na sexta-feira passada, reabriu com nova gerência. Franchisada, também.
Em 2013, no coração de Lisboa, e numa loja que já fora de roupas, galeria e de decoração doméstica, inaugurou-se um bar. Vim a saber que pertencia a uma advogada lisbonense, pouco conhecida, mas que devia ter muitos amigos. Porque o local se tornou incomodativo, e HMJ, mais sensível do que eu ao ruído nocturno, se perturbava grandemente, eu sosseguei-a, premonitoriamente: "Tem paciência, que só vai durar um ano!" Durou 2.
Por tudo isto, achei interessante que Clara Ferreira Alves, numa das suas últimas crónicas, pessimista, no Expresso, tenha escrito (em tempo: o meu amigo H. N. sublinhou metade do vou transcrever), com inteiríssima razão:
"...Há lojas fechadas, com papéis a tapar os vidros da montras. O melhor hambúrguer do mundo e tretas assim. Uma boa parte destes empreendedorismos espeta-se, fecha. Muita gente não tem formação para montar um negócio."
Fora as tias, que têm quem as espalde, é uma tristeza. Mas também a falta de sentido crítico e da realidade, de uma boa parte dos portugueses. E não é só em relação à literatura...