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domingo, 3 de setembro de 2017

Palavras mágicas


As expressões Shazam e  Abracadabra perderam, há muito, a sua força encantatória. Agora, são as workshops, as startups e quejandos, que fazem sonhar. Para alguns, ditas estas palavras, logo eles entram em transe hipnótico de felicidade tecnológica e alumbramentos de alma.
Graças aos economistas, aos comentadores espúrios, aos CEO, aos informáticos mono-aculturados e a alguma juventude pária, o linguajar português transformou-se, pouco a pouco, numa incaracterística manta de retalhos, talvez semelhante à "linguagem meada de ervilhaca" de que falava Camões, na sua carta da Índia.
Penso até que não devíamos perder mais tempo com a CPLP, por causa do A. O.. Melhor seria encetarmos negociações, pragmaticamente e desde já, com a administração norte-americana. E criarmos, cheia de futuro, uma nova sub-língua, neste rectangular espaço europeu à beira-mar plantado. 

domingo, 21 de junho de 2015

Por ares nunca de antes sobrevoados


O meu amigo Casimiro F. é um pândego. Mas não deixava, também, é certo, de ser (reformou-se, há dias) um excelente profissional de Turismo, integrando a direcção de uma importante agência de viagens, que ajudou a criar, a ganhar visibilidade europeia e a crescer, grandemente, no competitivo mercado português.
Da última vez que nos encontrámos, estava radiante. Tinha proposto, disse-me ele, à Administração da agência, o texto de uma carta a enviar para o Palácio de Belém. E, para que eu avaliasse e desse opinião, forneceu-me fotocópia do precioso documento. A missiva rezava assim:

"Excelência,
dei-me conta, com enorme júbilo, do sucesso presidencial que foi a V. visita aos Cárpatos (Roménia e Bulgária) e do estado de espiríto de V. Excia., com que se aliviou, por lá, ao ter conhecimento da venda da TAP, em circunstâncias tão difíceis e adversas.
Encaro, no entanto, como patriota e português, com alguma preocupação, as eventuais dificuldades de transporte, que possam surgir nas próximas visitas presidenciais ao estrangeiro, no último semestre do V. consulado. Tendo isso em conta, tomo a liberdade (que Vexa. me perdoe a ousadia!) de propor um pack económico (haja em vista o magro salário do PR...), através de uma companhia de aviação low cost - orçamento anexo - para as últimas deslocações oficiais.
Pareceu-me dever patriótico sugerir, também, a grandíssima oportunidade e conveniência, do nosso venerando Presidente completar o périplo de visitas aos países da CPLP. Assim, as próximas deslocações presidenciais deveriam contemplar, inequivocamente, viagens à Guiné-Bissau e à Guiné Equatorial. Se V. Excia. desejar e achar importante, com pequeníssimo aumento de custo, poder-se-á alargar a viagem ao Burkina Faso e ao Mali. Países por onde nós, portugueses, também andámos, em tempos remotos.
O V. alto critério decidirá, a bem da Nação!
Os mais respeitosos cumprimentos, deste humilde compatriota,

Casimiro F."

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Aqui há dez anos


Arrumos de época própria, fazem-me deparar com um JL do período de 25 de Julho a 7 de Agosto de 2001 (a primeira data gralhada na capa). É o nº 804, do ano XXI. Dá para ver a efemeridade das coisas e o eco amortecido ou sepultado do que terá sido "importante", aqui há dez anos atrás - não vale a pena correr pela moda muito presente e demasiado actual... Dos best-sellers de ficção (10) passo a referir os 5 mais vendidos (alguém se lembrará deles?):
1 - Gaby Hautmann: "Um amante a mais ainda sabe a pouco" (Quetzal).
2 - Edith Wherton: "Sono Crepuscular" (Asa).
3 - Marion Zimmer Bradley e Diana L. Paxton: "A Sacerdotisa de Avalon" (Rocco).
4 - Luísa Castel-Branco: "Luísa" (Oficina do Livro).
5 - Brian Gallaghr: "Marido Infiel" (Presença).
As duas notícias em destaque, neste JL, são: "Os 5 anos da CPLP: Balanço e Perspectivas" e a atribuição do Prémio Camões a Eugénio de Andrade, com testemunhos e artigos de Eduardo Lourenço, Arnaldo Saraiva e José Tolentino Mendonça. O JL traz ainda 3 poemas inéditos do Poeta. Transcrevo um deles que não sei se terá tido inclusão e posterior impressão em livro. Tem como título "À beira da água" e está datado da Foz do Douro (27. 8. 2000). Segue:

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.