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sexta-feira, 22 de abril de 2022

terça-feira, 2 de abril de 2019

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Memórias de 39, por Lisboa



Em Janeiro de 1939, a companhia inglesa de teatro do Old Vic iniciou, de barco (paquete Alcantara), uma tournée que a haveria de levar por alguns países da Europa (Portugal incluído), e até ao Egipto, representando, entre outras peças do seu repertório, o Hamlet, de William Shakespeare.
Alec Guinness, nas suas Mémoires (pgs. 35/6), dá conta das suas impressões, bem como do ambiente que se vivia, em Lisboa, por esses dias. Vou, por isso, traduzir e transcrever um pequeno excerto mais significativo:

Chegámos a Lisboa a 23 pela manhã, e vimos com horror, na descarga (do navio), a carga dos nossos cenários mergulhar majestosamente nas águas do Tejo. Ela desapareceu, depois emergiu e, por um triz, que os adereços não se inutilizaram de todo. Provavelmente, teria sido um erro involuntário do manobrador da grua do cais, mas convém não esquecer que, à época, os ingleses estavam longe de serem populares em Portugal. A guerra civil de Espanha estava para acabar, e a tomada de Barcelona pelas tropas franquistas estava iminente. Quando aconteceu, três dias mais tarde, houve uma explosão de alegria em Lisboa. E isso pareceu-nos deprimente. E ainda mais deprimente, para nós, ao vermos, lado a lado, pelas ruas, luxuosas viaturas britânicas arvorando a União Jack, com carros embandeirados com a cruz gamada, com o sol nascente japonês, bem como as cores nacionalistas espanholas e portuguesas. A maior parte de nós, penso, sentia-se diminuída, estrangeira, isolada, ameaçada - muito temerosos pelos nossos compatriotas em Lisboa. Setembro de 1939 não estava assim tão longe, afinal de contas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fotografia, arte e vida


Há fotografias que têm um misterioso encanto hipnótico. Como alguns retratos da Renascença em que uma estranha fascinação nos leva a fixar, indefinidamente, o rosto do retratado no intuito vão de perceber alguma coisa, nos traços e expressão, da sua personalidade ou sua vida. É uma transferência da verdade que já está inquinada à partida: porque o pintor já deu "opinião" e pôs lá, aformoseando muitas das vezes, o que pensava do retratado. Mas também na pintura abstracta o nosso olhar se demora, quase esquecido, às vezes, procurando, nas cores e nos traços, um vulto indistinto ou uma forma sugerida na busca dalguma intenção do seu autor. É uma tarefa errada, em princípio, ou condenada a uma verdade ilusória. Tanto ou mais do que a ave de rapina que Freud quis ver no manto de Santa Ana, no quadro de Leonardo da Vinci. Seguramente, e a maior parte das vezes, o músico, o pintor, o poeta, não tiveram, à partida, intenção nenhuma. Foi apenas instinto e alma. Ou arte, para quem preferir.
A fotografia que aqui se reproduz data de 1939. Possivelmente, do Verão. E antes do início da II Grande Guerra que começou com a invasão da Polónia, a 1 de Setembro, pelas tropas alemãs.
O fotógrafo parece ter procurado a simetria, na disposição hábil do grupo. É, como se vê, a foto oficial de um casamento. O que posso acrescentar é que há nestas pessoas: comerciantes, industriais, padres ( um deles chamava-se Luís), um visconde e sua consorte, um legionário, um aventureiro e, possivelmente, um suicida. Dos retratados, não haverá mais do que 5 ou 6 pessoas vivas. E a noiva tem, hoje, mais de noventa anos, e saúde, felizmente. O que quer dizer: pensa, anda e é autónoma. Do resto, poderemos tentar adivinhar ou especular, à vontade, com a nossa fantasia, ou com a verdade irreal que lhe queiramos emprestar.