As palavras têm uma origem própria, uma semântica. Mas no plano pessoal e mais íntimo podem também possuir uma (segunda) paternidade: daquele ou daquela a quem as ouvimos pela primeira vez - se nos lembrarmos disso. Finalmente, depois de muito gastas e mecanicamente usadas, podem ressurgir ou renascer, com novo vigor, por um acontecimento fortuito.
Por vezes, acontece que uma simples palavra ganha presença, destaque e um carácter novo, pela posição que ocupa num poema. Adquire perspectiva, mais ampla, dimensão diferente e autónoma. Distancia-se do contexto e significação com que a utilizávamos no dia a dia, anteriormente. Ganha vida.
Lembrei-me, hoje, disso ao preencher, nas palavras cruzadas, os quatro rectângulos do vocábulo lume. Aqui há 50 anos atrás, em autógrafo de Eugénio de Andrade (1923-2005), ao lê-la, essa palavra ganhou uma nitidez independente e uma força nova, imprevísivel antes, para mim. E assim continua...
Nota: Eugénio de Andrade nasceu a 19 de Janeiro de 1923, na Póvoa de Atalaia (Fundão).