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quinta-feira, 3 de abril de 2025

Suplementos literários

 
Lembro-me bem que, nos anos 50/70 do século passado, cada jornal que se prezasse tinha um suplemento literário semanal. À quinta-feira o "Diário de Notícias", o "Popular" e o "Lisboa", à quarta "A Capital" e por aí fora... A página literária do Diário de Notícias, orientada por Natércia Freire, era uma instituição, e contribuía, através das recensões isentas de João Gaspar Simões, para criar um critério de qualidade na leitura do país. A norte, n'O Comércio do Porto, Óscar Lopes desempenhou o mesmo papel crítico e pedagógico. Actividades que permitiam a grande parte do que se editava que tivesse um mínimo de qualidade literária. Também o jornal Público, que foi lançado em 1990, publicava, ao sábado, um bom suplemento cultural (Mil Folhas), que veio vindo a definhar tal como a qualidade geral do diário. Hoje em dia, à sexta-feira, o jornal insere apenas uma ou duas recensões a obras incaracterísticas no suplemento ípsilon.



Entretanto, a ocupar este vazio, começaram a aparecer uns blogues foleiros e manhosos, orientados por umas mulherzinhas cerzideiras e mercenárias que passam o tempo entre livros e tachos e que, pagas muito provavelmente por editoras pouco preocupadas com a qualidade dos produtos que editam, lhes fornecem títulos a metro e as fazem publicitar a mediocridade dos seus livros e obras para vender aos incautos leitores.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Camiliana

 

Por coincidência curiosa, num pequeno período de tempo, adquiri três livros de e sobre Camilo Castelo Branco (1825-1890). Ora, para além de uma larga estante independente que alberga a colecção Vampiro, a XIS e outros livros policiais, com cerca de mil pequenos volumes, Camilo é o único autor que goza de uma confortável autonomia no arrumo da sua obra, num só armário aberto, com quatro prateleiras, de 1,05 m. de altura x 40 cm. de largura e 28 cm. de fundo, onde se encontram também estudos camilianos ou correlativos. É sem dúvida o escritor português que maior espaço ocupa na minha biblioteca. Eça, nem sequer se aproxima.
Dizia Óscar Lopes (1917-2013): "E continua a haver quem seja camiliólatra ou queirosólatra, não digamos que com a mesma paixão de um benfiquista ou sportinguista..." Não será o meu caso*, certamente, mas a superfície camiliana terá a sua importância no deve e haver bibliográfico da biblioteca. E recordo que a primeira novela que li de Camilo terá sido "O Retrato de Ricardina".

* há alguma proximidade de registos numéricos, no Arpose: Eça tem 68 entradas e Camilo 75. 

Para remate, gostaria de trazer aqui à colação uma pequena reflexão realista de João de Araújo Correia, inserta em "Uma sombra picada das bexigas" (pg. 120), assim: "No tempo de Camilo, pouca gente saberia ler. Mas se não lia mais do que hoje, lia muito melhor."

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Carta de J. Guimarães Rosa para Óscar Lopes

Desconheço se esta carta, do singular romancista brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967) para o professor e historiador de literatura Óscar Lopes (1917-2013), está inédita. Quem me poderia elucidar, já não pertence ao número dos vivos - o meu grande amigo António de Almeida Mattos (1944-2020).

Provavelmente, a fotocópia da missiva destinava-se a ser usada no Jornal Letras & Letras, do Porto, em algum dossiê sobre o professor universitário, e que este a teria facultado ao meu amigo António. Que, dentro de um envelope, que já me estava endereçado, o meu Amigo não me chegou a enviar. Foi a Isabel, a quem agradeço, que, encontrando-a, ma fez chegar.



Nota pessoal: resta-me acrescentar o interesse da carta. E, lateralmente, lembrar as amenas relações que existiram entre o António e o Professor Óscar Lopes. O que ajuda a explicar que eu tenha a oportunidade de publicar, no Arpose, este documento.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Bibliofilia 184


Não são muito abundantes os elementos biográficos ou dados críticos sobre o poeta José Maria da Costa e Silva (1788-1854), que foi também tradutor e historiador de literatura. Óscar Lopes dedica-lhe apenas duas entradas mínimas na sua obra maior, apesar do escritor ter uma bibliografia extensa, como aliás Inocêncio refere nos volumes V (pgs. 25, 450), VII (120) e XIII (90) do seu Dicionário.

Se a tradução, em 1850, de Os Argonautas, de Apolónio de Rodes, foi bem recebida pelos seus leitores, o poema O Passeio, cuja segunda edição, aumentada, saiu em 1844, foi elogiado por José Agostinho de Macedo e Almeida Garrett. Dono de uma importante biblioteca, que contava cerca de 16.000 livros, sobretudo de poesia, Costa e Silva dedicou-se, já nos últimos anos de vida, à escrita do Ensaio Biographico-Critico sobre os Melhores Poetas Portuguezes ( 1850/9).


Obra monumental em 10 volumes (os 2 últimos livros são já póstumos) que, apesar de algumas inexactidões, lhe grangearam fama e prestígio, no final da vida. Consta de uma análise por escolas literárias, cronológica, e da recensão interpretativa dos vários poetas portugueses, com transcrições de muitas poesias. Este notável trabalho merecia ser mais bem conhecido. E lido...

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Esquecidos (2)


A segunda metade do século XIX português está cheia de poetas esquecidos. Talvez de segunda linha, talvez, mas românticos, parnasianos, nalguns casos, ultra-românticos, vêm à memória: Luiz Augusto Palmeirim (1825-1893), João Penha (1838-1919), José Simões Dias (1844-1899)...
É provável que alguns amantes muito fiéis de poesia se lembrem do muito recitado (antigamente) poema A Lua de Londres ("É noite: o astro saudoso/ Rompe a custo um plumbeo Céu,/ Tolda-lhe o rosto formoso/ Alvacento, humido véu;..."), que João de Lemos (1819-1890) fez publicar no terceiro volume do seu Cancioneiro (1858).


Nascido em Peso da Régua, João de Lemos formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo colaborado, na juventude, em várias publicações literárias. Fundou também O Trovador, mais dedicado a composições poéticas. Foi na política um miguelista feroz.
Óscar Lopes, na sua História da Literatura Portuguesa (1985), concedeu-lhe 7 entradas ou verbetes.
Alguém lhe sabe o nome ou lembra algum poema?...



sexta-feira, 26 de junho de 2020

Esquecidos (1)


Escritor, tradutor, médico e jornalista, de seu nome completo Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino Júnior, nasceu em Lisboa a 2 de Agosto de 1835. Teve vida breve, pois veio a falecer, em Carnide (Lisboa), a 22 de Setembro de 1863.


Foi amigo de Herculano e era figura muito conhecida nos meios literários lisboetas, sobretudo pela colaboração frequente na imprensa da época. A sua obra, em prosa, mais celebrada foram os Contos do Tio Joaquim,  editados em 1861, tinha Rodrigo Paganino apenas 24 anos de idade.
As diversas histórias da literatura portuguesa, a partir daí, foram-no sempre referindo.


O livro (306 páginas) foi muito falado e elogiado, embora com temas rurais e enredos singelos moralizantes, pressagiando, de algum modo, a carreira mais solidamente estruturada de Júlio Dinis (1839-1871), mais tarde. Tenho no entanto grandes dúvidas que hoje o autor ainda seja lido. Ou até mesmo referido. A insistência no pendor algo romântico da sua escrita afastará porventura os mais cépticos leitores empedernidos...
O meu exemplar, da edição original, tem dedicatória à irmã do escritor, Maria Máxima. Está em bom estado, encadernado, e custou-me 15 euros, recentemente (tinha sido remarcado dos 25 iniciais).


Óscar Lopes (1917-2013) denomina de "contos rústicos" estes, com alguma propriedade... Mesmo assim, na sua simplicidade e elegância da escrita corredia, podem ainda hoje ler-se desenfadadamente.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Curiosidades 80


Este poste não teria sido possível a não ter existido uma cumplicidade de simpatia e grande estima entre Óscar Lopes (1917-2013) e António de Almeida Mattos (1944-2020). Mas também se não houvesse uma fraterna amizade singular entre este último e eu próprio. O meu Amigo doou-me, ainda em vida, restos do arquivo pessoal dele, do extinto jornal Letras & Letras (do Porto), em que, entre muito material diverso e interessante, distribuído por envelopes de tamanho médio, se encontravam  originais e fotocópias relacionadas com a vida pessoal do crítico e professor universitário Óscar Lopes, que não tinham sido utilizados num anterior dossiê  do mensário literário portuense.
Destacavam-se, também, alguns documentos mais ou menos íntimos do Catedrático, nomeadamente, a cópia da caricatura do Livro de Curso (Lisboa, 1938?) e o recibo de alojamento (16/5/1955), nos calabouços da P. V. D. E. - testemunho  de um escandaloso acto da ironia fascista...

domingo, 19 de janeiro de 2020

Eugénio


Creio que nunca disse tudo sobre Eugénio de Andrade (1923-2005). Talvez me guarde para o centenário, se eu chegar lá, e ainda for a tempo. Para já, são só 97 anos que o poeta faria hoje, a 19 de Janeiro, se ainda fosse vivo. E a última vez que o vi foi na Feira do Livro, no Parque Eduardo VII. Estranhamente lhe notei um grosso anel de prata (?) no dedo anelar da mão esquerda. Ele que não era nada de penduricalhos, sobretudo em poesia. Autografou-me os dois livros de histórias infantis, que ele escrevera para o afilhado Miguel, trocámos breves palavras formais e despedimo-nos, para sempre.


Da sua poesia é que eu nunca me despedi. Como disse Óscar Lopes: " tudo em Eugénio de Andrade acaba por amanhecer de novo, alado, fresco, rumoroso e frágil de orvalho..."

sábado, 17 de novembro de 2018

No tempo em que


Sou do tempo em que havia críticos sérios e competentes. Óscar Lopes, Gaspar Simões, Mário Sacramento, por exemplo, cada um à sua maneira, dizia o que pensava, subordinado apenas a um critério estético de qualidade. Não faziam favores nem fretes, não recebiam subvenções das editoras, não se curvavam a amiguismos - em suma, tinham a consciência limpa de julgar, com isenção, os livros que iam saindo. A sua palavra era uma garantia segura, que nos prometia, à partida, uma boa leitura.
Hoje, não. Há revistas que, como os folhetos das grandes superfícies, tentam é vender os seus produtos, neste caso, as suas publicações, há críticos nitidamente enfeudados, há por aí uns blogues que se auto-intitulam de blogues literários (?) administrados por umas costureiras de retalhos, que dizem sempre bem das obras de que falam e ainda têm tempo para produzir receitas culinárias pindéricas, normalmente vegans, ou de nouvelle cuisine de paróquia interior. É a nova crítica...
Às vezes, porém, a excepção vem confirmar a regra, e eu sou surpreendido por um critério isento, na apreciação crítica de um livro. Na ípsilon, de ontem, Mário Santos, sobre uma obra de um  autor muito badalado, escreveu assim: "...o autor conseguiu fundir numa única obra, e com indesmentível e insuperável eficácia, as melhores qualidades de uma historieta de aventuras do Major Alvega e as de uma novela cor-de-rosa de Corín Tellado (que só agora li para poder comparar). Com uma única desvantagem: a ausência das vinhetas da banda desenhada."
A quem me ler, aqui, lanço um repto ou adivinha. De quem falaria Mário Santos: de Paulo Coelho? De Rodrigues dos Santos? De Rosa Montero? De John Fante? De Modiano? De Margarida Rebelo Pinto? Do valterzinho mãe? De Dan Brown?
Prometo a solução, oportunamente...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Recomendado : setenta e dois - Óscar Lopes


Lançada no mês passado de Outubro, em homenagem a Óscar Lopes (1917-2013), pela passagem do centenário do seu nascimento, esta fotobiografia (Óscar Lopes - retrato de rosto), orientada por Manuela Espírito Santo, sob o patrocínio da Câmara de Matosinhos, é um documento precioso. Não só pela copiosa iconografia, mas também pela correspondência de e para Óscar Lopes, reproduzida. E pelos testemunhos muito diversos e importantes, aí inseridos.

agradecimentos fraternos a A. de A. M..

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Formar o gosto


Há dívidas que nunca mais se pagam. E eu tenho uma delas para com Óscar Lopes (1917-2013).
Não tanto pelos livros que publicou, de que se destaca a História da Literatura Portuguesa, mas sobretudo pelo seu magistério crítico que, ao longo dos anos, foi exercendo, às terças-feiras, no suplemento literário Cultura e Arte, de "O Comércio do Porto".
Pelas suas recensões semanais fui apurando o meu sentido crítico, aprendendo a separar o trigo do joio literário, a melhor compreender a prosa e a poesia portuguesa, que, então, se ia publicando. A agudeza das suas sínteses, a fina intuição que não excluía o afecto (o texto à morte de Mário Sacramento, é um magnífico exemplo de amizade), deixaram marcas na minha memória.
Conheci-o pessoalmente já tarde, por intermédio do nosso comum amigo António, num dia atribulado de lançamento de um livro, em Lisboa. Era a simplicidade em pessoa, apesar da sua imensa sabedoria.
Aqui o quero lembrar, 4 dias depois da passagem do centenário do seu nascimento. Com gratidão.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Glosa 7


Pergunto-me, muitas vezes, quando é que se irá dar o redescobrimento de Somerset Maugham (1874-1965). A exemplo de Stefan Zweig (1881-1942), seu coevo parcial, austríaco, que já foi repescado do limbo por que passou, e voltou a ser lido, foram ambos escritores muito populares, em meados do século passado. Muito apreciados e publicados, tinham, ambos, uma escrita de qualidade, realista e gulosa. Mas, também é verdade, não seriam muito prezados pelas academias dessa época. Coisas e caprichos, que costumam ocorrer, com alguma frequência...
Numa altura em que eu devorava tudo o que me aparecesse do escritor britânico, lembro-me que apreciei muito The Summing Up (publicado em 1938), uma espécie de memórias anti-memórias, muito vivas e cheias de pormenores pitorescos e ligeiramente reflexivas, que li na versão inglesa, original, em meados dos anos 60. Ontem, cruzei-me, na biblioteca de um amigo, com a versão portuguesa do livro ( Exame de Consciência), da Livros do Brasil, revista por Freitas Leça (Óscar Lopes?) da tradução brasileira de Mário Quintana. E recomecei a lê-la, com gosto.
A actualidade do seu pensamento, no meu entender, mantém-se. Ora, ouçámo-lo:

"... Os ingleses são um povo político, e muitas vezes fui convidado para reuniões em que a política era o interesse dominante. Não consegui descobrir, entre os eminentes estadistas que lá encontrei, nenhuma capacidade notável. Concluí, talvez apressadamente, que não era necessário um elevado grau de inteligência para governar uma nação. Desde então, tenho conhecido em vários países muitos políticos que atingiram elevados postos. E continuei a sentir-me intrigado com o que se me afigurava a mediocridade do seu espírito. Achei-os mal informados sobre as coisas ordinárias da vida, e quase nunca descobri neles subtileza de espírito ou vivacidade de imaginação. Durante algum tempo senti-me inclinado a pensar que deviam a sua ilustre posição ùnicamente aos dotes oratórios, pois numa comunidade democrática deve ser quase impossível subir ao poder sem captar os ouvidos do público; e o dom da palavra, como sabemos, nem sempre vem acompanhado do poder do pensamento. Mas, logo que vi estadistas que não me pareciam muito inteligentes conduzirem os negócios públicos com razoável êxito, tive de reconhecer que estava enganado: devia ser que, para governar uma nação, é preciso um dom específico, e que esse pode muito bem existir sem aptidões gerais. Da mesma forma, conheci homens de negócios que fizeram grandes fortunas e conduziram vastas empresas à prosperidade, mas que se mostravam desprovidos até de bom-senso em tudo quanto não se referisse ao seu ramo. ..." (pgs. 6/7, da obra citada).

Ora, e aqui, para além da subjacente ironia de Maugham, é que bate o ponto. Neste desencanto e surpresa pela qualidade dos políticos. Pela sua menoridade quase geral, e que, praticamente, todos nós sentimos. Sobretudo, quanto mais avançamos nos anos das nossas vidas. E chego a pensar que tudo isto se repete, de geração em geração, talvez pela exigência maior do nosso sentido crítico, quando envelhecemos. Dos "Vencidos da Vida", da geração de 70, aos Vencidos do Catolicismo (progressista) dos anos 60 do século passado. De degrau em degrau, parece que tudo piora e nos encaminha, sempre, para um pessimismo ontológico, que só a juventude e a superficialidade pueril de muitos não vê ou sente. Desencanto e desistência fatal que Zweig levou à prática, no Brasil, e Maugham foi arrastando pela Rivieira, penosamente e sem grandes ilusões...

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Versões


É um pormenor sem importância, talvez. Mas atesta as transformações por que passa um poema, até à sua versão final. Ou aquela que um Poeta acha mais concorde e perfeita.
Por outro lado, é pouco provável que venha a ser feita, alguma vez, uma edição crítica da obra de Eugénio de Andrade (1923-2005), muito embora grande parte do seu acervo se encontre na BPMP. Mas também dele, ultimamente, pouco se tem ouvido falar ou, melhor dizendo, da sua poesia.



Em Jan./Fev. de 1960, a Revista Vértice (nº 196-197) publicou um pequeno conjunto de poemas de Eugénio de Andrade, com o título Improvisos de Outono. O segundo poema, que é um dos que eu mais aprecio do Autor, tinha inicialmente 6 versos, como pode ver-se, na imagem acima. E não tinha qualquer dedicatória, na sua versão primeira. 




Cerca de dois anos depois, Eugénio de Andrade publica na Delfos a sua primeira Antologia (25 de Novembro de 1961). O poema (pg. 206) é então dedicado ao amigo e crítico literário Óscar Lopes. Passa a intitular-se Passo e Ardo... E os 6 versos iniciais são reduzidos para cinco. Desaparece o Sol doirado?, substituído por Luz?. Bem como se altera a ordem das palavras no 2º verso, que não terá ainda, aqui, a sua versão definitiva. 




Todo o ano de 1966, Eugénio de Andrade passa, a pente fino, a sua obra - conforme o referiu em carta. Aperfeiçoando os poemas, modificando-os de acordo com uma maior exigência de maturidade. De novo desaparece a dedicatória, e a quintilha perde, mais uma vez, o seu título anterior, passando a ser designada por Quase nada. O segundo verso é também alterado: desaparece Música?, substituída por Água?. E a ordem das palavras sofre modificações. Os Poemas virão a ser publicados pela Portugália, em Novembro de 1966, na celebrada colecção: Poetas de Hoje.
O poema teve deste modo a sua redacção definitiva. É assim que ele vai aparecer nas futuras edições da IN-CM (Abril de 1980) e de "O Jornal/Limiar", em 1990. Entre a primeira versão e a última, no entanto, tinham decorrido quase sete anos ( o que faz lembrar Camões...). Por essas reconfirmações de 1980 e 1990 se estabeleceu o ne varietur do poema.


quarta-feira, 16 de março de 2016

Uma perspectiva transversal da literatura portuguesa, de Óscar Lopes, a propósito de Aquilino


A sistematização ampla de sintomas e a caracterização geral do perfil e temáticas, que pontuam e definem a literatura portuguesa, são raras. No entanto e do meu ponto de vista, a análise a que Óscar Lopes (1917-2013) procede, ao abordar a obra de Aquilino Ribeiro (1885-1963), na Colóquio-Letras 85 / Maio de 1985, parece-me uma exemplar sinopse. Daí a transcrição, que faço a seguir, de um excerto nuclear das palavras de Óscar Lopes:

"...Outro exemplo, e esse é que faz ao caso, é o seguinte: há na literatura portuguesa uma grande carência de tudo o que seja expressão exuberante da simples alegria de viver, de viver, viver, mesmo apesar e através das maiores agruras ou tragédias. A saudade e a tristeza são o grande emblema da nossa lírica e da nossa novelística, e já contra elas se levantava D. Duarte, que tinha costela inglesa. Ver os grandes dramas individuais ou colectivos como uma grande festa para os olhos, para os sentidos, para o corpo e para a inteligência, para a inteligência e para a fantasia, não é típico da atitude literária portuguesa, embora, evidentemente, ocorra aqui ou além em Fernão Lopes, Gil Vicente, n'Os Lusíadas e na Peregrinação de Mendes Pinto. A atitude literária portuguesa típica é a de meditar sobre as razões de se ser triste, sobre as contradições do nosso contentamento descontente, sobre o além (ou a ausência causal) de todas as nossas insatisfações. Tipicamente, o poeta ou ficcionista português não se permite um espectáculo, um conflito, um enredo, sem a competente retórica justificativa, sem que tudo isso sirva de pretexto a um encarecimento, uma apologia, uma lição de doutrina ou moral. A alegria em estado puro e ainda por cima bem consciente de si, a perfeita reconciliação com a natureza de que nascemos ou da natureza que connosco se descobre e refaz, ou seja, aquilo a que se chama o naturalismo do Renascimento, ou o aspecto por assim dizer solar (e não lunar) do naturalismo do séc. XIX, o próprio saborear da vitalidade humana a contas com as misérias e prepotências do mundo, tal como se espelha na novela picaresca espanhola, pode dizer-se que tudo isso irrompeu em força, e subitamente, nas letras portuguesas com Aquilino Ribeiro, e com uma exuberância ou diversidade de manifestações que contrasta com a raridade dos hossanas portugueses ao Sol, com o coro quase geral dos poetas da lua e da sombra, salvas poucas e pouco variegadas excepções em que, ao tempo de Aquilino Ribeiro, uma geração antes e outra geração depois, eu destacarei CesárioVerde, Almada-Negreiros e Miguel Torga. ..."

sábado, 10 de outubro de 2015

Um poeta do passado


Quem lhe saberá o nome, ou conhecerá a obra, hoje em dia? Óscar Lopes, na sua História da Literatura Portuguesa, classifica-o como "romântico tardio", com benevolência crítica. Eu seria, porventura, menos amável, ao considerar que Fausto Guedes Teixeira (1871-1940) já veio, ou publicou depois do Orpheu ou de Camilo Pessanha. Grande parte dos seus versos são flébeis e não tem sequer a musculatura moderna dos versos de um Cesário, mas o poeta menor de Lamego deve-o ter lido.
Assim, palidamente, por exemplo:
...
Fomos colhêr a fruta. Um ar de fogo
Cortava, assolador, terras de vinha...
Somos noivos então? disse-te: e logo
Tiraste à pressa a tua mão da minha.

Com os braços erguidos p'ra colhêr
Os frutos, inclinada para a frente,
Êsse esforço fazia aparecer
As formas do teu corpo, suavemente.

Num movimento que fizeste, a saia
Colou-se às tuas pernas com doçura,
E eu vi, como através duma cambraia,
A sua fôrça e quasi a sua brancura.

Tu descascavas uma tangerina,
As mãos agora nuas, com anéis;
E ria a tua boca pequenina
Mostrando uns dentes brancos e cruéis.
...

sábado, 22 de março de 2014

Um pequeno texto de Óscar Lopes


Figuras há que, apesar de longa vida e obra prolífica e vasta, nós pensamos sempre que não terão dito tudo. Ou que gostaríamos de continuar a lê-los, pelo tempo fora, por novos textos, novas descobertas e pensamentos. E, isto, porque conseguem, na divina proporção, expor as ideias numa sábia mescla de saber, inteligência e sensibilidade, que nos toca naquilo que, à falta de melhor, chamamos alma. Para mim, uma dessas figuras é Óscar Lopes.
Felizmente, há sempre textos que desconhecíamos e que nos trazem a alegria de uma ressurreição. Foi o caso deste "Abril. Sempre", que Óscar Lopes escreveu, em 1986, para uma colectânea. E que aqui deixo, na imagem possível.

Pequena história (28)


Óscar Lopes (1917-2013) foi um aluno liceal brilhante, com altas notas, nomeadamente, a Latim, em que teve, como professor, Francisco Torrinha. Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, veio a licenciar-se em Filologia Clássica, onde também obteve muito boas classificações, excepto na cadeira de Latim, onde um professor (?) lhe atribuiu apenas 11 valores, que foi a sua mais baixa nota, destoando grandemente da média restante.
Já quase no final do curso, o Professor Rebelo Gonçalves desafiou-o a que apresentasse a sua tese - uma vez que o catedrático ia para Coimbra -, porque gostaria de ser o orientador e presidir ao júri da prova final. Óscar Lopes aceitou o repto, e entregou a tese, a tempo. O júri foi presidido, efectivamente, por Rebelo Gonçalves mas, no grupo da mesa de arguentes, encontrava-se também o professor de Latim, que lhe dera a baixa classificação.
Todos foram elogiosos quanto ao trabalho da tese, excepto o dito cujo professor que desabafou, contrariado, dizendo não perceber a qualidade do aluno, até porque, quando fora seu mestre, não lhe tinha notado tantos méritos. Ao que Óscar Lopes, perante risada geral dos colegas da assistência, retorquiu apenas:
- A culpa não é minha!...

Nota: o falecimento de Óscar Lopes ocorreu, precisamente, há um ano (22/3/2013).

para o António, com um abraço.

sábado, 2 de novembro de 2013

Na passagem de mais um aniversário do nascimento de Jorge de Sena


Nota: o poema pertence ao livro "Peregrinatio ad Loca Infecta" (Portugália, 1969).
Na fotografia, Jorge de Sena (1919-1978) está ladeado, à esquerda, por Óscar Lopes, e Eugénio de Andrade, à direita.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Uma lição magistral


Não fora H. N. e, provavelmente, eu nunca teria encontrado, na vasta bibliografia de Óscar Lopes (1917-2013), esta pequena lição magistral que constituiu a Oração de Sapiência, lida pelo Ensaísta, em Outubro de 1953, no Liceu D. Manuel II, do Porto. E que, em 1958, a editora Divulgação fez publicar. Creio ser quase impossível, nas pequenas 34 páginas de texto, historiar melhor a evolução do Homem, desde a sua tosca rudimentaridade inicial até a uma nova barbárie sofisticada que se inicia com os ensaios destrutivos e descoberta da apocalíptica bomba atómica. A concisão do texto literário que acompanha o conhecimento científico e fundamentado, permitem admirar esta pequena, mas magistral lição. Atente-se no primoroso início, que passo a transcrever:
"A História do Homem na terra pode dizer-se que principia com um diálogo entre a mão e o cérebro. O homem tem de comum com os antropóides superiores duas coisas importantes: a posição erecta e a capacidade de opor o dedo polegar aos outros dedos. Mas foi só com o homem que se produziram as consequências mais notáveis destes dois factores. A posição erecta, libertando da marcha os braços, permitiu que as mãos humanas se diferenciassem consideràvelmente dos pés, tanto na sua anatomia como nas suas funções; por outro lado, a posição erecta permitiu que a massa encefálica se desenvolvesse em peso, equilibrando-se verticalmente ao alto da coluna vertebral, em vez de pender desequilibradamente numa extremidade horizontal da espinal-medula. ..."

com os melhores agradecimentos a H. N..

quarta-feira, 27 de março de 2013

Nunca será demais insistir


Reproduz-se, do DN, um isento e justo testemunho pessoal de Vasco Graça Moura sobre o magistério, influência e labor cultural de Óscar Lopes (1917-2013). A importância que ele teve na minha formação literária foi semelhante, embora não tão intensa nem tão quotidiana quanto foi em Vasco Graça Moura. A primeira vez que o vi e ouvi, terá sido em Coimbra, no início dos anos 60, num colóquio organizado pela Associação Académica. Depois disso, encontrei-o mais 2 ou 3 vezes e, aí, já falei com ele. Mas, no entretanto, também lia religiosamente os seus artigos primorosos, no suplemento literário de "O Comércio do Porto". E, depois, todos os seus livros.