Hoje em dia, é muito raro eu comprar um livro de arte, sobretudo com predominância iconográfica. São normalmente luxuosos, em novos, e muito caros; usados, são muitas vezes vendidos ao desbarato, porque perderam a actualidade. Nos anos 70, eram postos displicentemente em salas de visitas, nas casas de novos-ricos, a dar um toque de fingido requinte...
Na segunda metade do século XX, era também frequente, cá dentro e lá fora, poetas e escritores fazerem pequenos textos introdutórios em catálogos de exposições de pintores. Alguns muito felizes. Estou-me a lembrar de Eugénio de Andrade, com textos belíssimos sobre a pintura de Carlos Carneiro, Resende, Angelo de Sousa, Armando Alves, José Rodrigues... Mas também Pedro Tamen e Vasco da Graça Moura, por exemplo, assinaram belas prosas para o mesmo efeito.
Esta semana, o meu alfarrabista de referência tinha duas mesas grandes coalhadas de catálogos de exposições. Desde os anos 20 da Sociedade de Belas-Artes (modestos), até aos da Galeria S. Mamede, passando pelos de Manuel de Brito, da Galeria 111. O acervo não chegava, porém, ao século XXI, que agora não se vende tanta pintura, e os catálogos são pobretes, muitas vezes não passam de uma folha de fotocópia, com uma ou nenhuma reprodução.
Catei, naquela floresta, textos que me interessassem, mas a colheita foi pobre em quantidade, embora válida de qualidade. Trouxe para casa um catálogo de uma exposição de Cargaleiro, na S. Mamede (1981/1982), com uma imaginativa prosa de Agustina. E outro, da Fundación Juan March (1991), sobre uma retrospectiva de Vieira da Silva, riquíssimo de iconografia. Com um poema de René Char e que integra, também, um retrato de Árpad Szenes, tendo como modelo a Mulher, que deixo em imagem final, para quem o não conheça. E porque gosto muito dele.