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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Memórias de 39, por Lisboa



Em Janeiro de 1939, a companhia inglesa de teatro do Old Vic iniciou, de barco (paquete Alcantara), uma tournée que a haveria de levar por alguns países da Europa (Portugal incluído), e até ao Egipto, representando, entre outras peças do seu repertório, o Hamlet, de William Shakespeare.
Alec Guinness, nas suas Mémoires (pgs. 35/6), dá conta das suas impressões, bem como do ambiente que se vivia, em Lisboa, por esses dias. Vou, por isso, traduzir e transcrever um pequeno excerto mais significativo:

Chegámos a Lisboa a 23 pela manhã, e vimos com horror, na descarga (do navio), a carga dos nossos cenários mergulhar majestosamente nas águas do Tejo. Ela desapareceu, depois emergiu e, por um triz, que os adereços não se inutilizaram de todo. Provavelmente, teria sido um erro involuntário do manobrador da grua do cais, mas convém não esquecer que, à época, os ingleses estavam longe de serem populares em Portugal. A guerra civil de Espanha estava para acabar, e a tomada de Barcelona pelas tropas franquistas estava iminente. Quando aconteceu, três dias mais tarde, houve uma explosão de alegria em Lisboa. E isso pareceu-nos deprimente. E ainda mais deprimente, para nós, ao vermos, lado a lado, pelas ruas, luxuosas viaturas britânicas arvorando a União Jack, com carros embandeirados com a cruz gamada, com o sol nascente japonês, bem como as cores nacionalistas espanholas e portuguesas. A maior parte de nós, penso, sentia-se diminuída, estrangeira, isolada, ameaçada - muito temerosos pelos nossos compatriotas em Lisboa. Setembro de 1939 não estava assim tão longe, afinal de contas.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Estética, gostos e o amarelo



Esta poderia ser uma carta ao Director (de um jornal), porque no fundo é, apenas, o exercício de um direito ao contraditório. Mas prefiro deambular por aqui, nesta "casa" e num espaço virtual, efémero, que, até certo ponto, é meu e dos amigos que me visitam.
O "clic" foi um pequeno artigo no "Público", de ontem, com autoria de Jorge Marmelo, e de aconchegado título: "Kate e Kiki". O ponto de partida do jornalista é o facto de Kate Moss, para além de ter servido de modelo a vários artistas, (e passo a citar), "...vai agora aparecer num pequeno papel d' «A Tempestade», de Shakespeare, no londrino teatro "Old Vic", onde será dirigida por Sam Mendes. Acontece de vez em quando: uma mulher sem nenhuma beleza especial transforma-se, pela arte, num ícone do seu tempo..."
Ora, a minha mãe gostava do amarelo, e eu não desgosto, esteticamente, de Kate Moss. Talvez a pele, talvez o olhar, talvez alguma intencional languidez, nas poses. Que sei eu?, que sabemos, nós, daquilo que nos atrai?
Até pelo sórdido, às vezes, há atracção: basta ler um poema que João Xavier de Matos dedicou ( sem dedicar) a uma suja lavadeira - e, este toque de contrários, faz deste poema, um dos mais interessantes e curiosos de «Albano Erithreo» -, para perceber aonde pretendi chegar. Afinal: o que é a beleza?