A música que vinha do pequeno Largo dos dois poetas (Pessoa e Chiado) era-me estranha, mas de ritmo conhecido, trepidante e veloz na sua alegria quase epopeica. Vim depois a aperceber-me da sua origem: Irlanda. Havia uma carrinha engalanada e coberta de cartazes, e dos altifalantes ouvia-se, entremeado, um discurso num inglês mascavado, com pronunciado sotaque português. Anunciava a "strike". Verifiquei depois que eram raros os clientes na esplanada d'"A Brasileira" e havia apenas um empregado a atendê-los - o "amarelo" ou fura-greves, provavelmente. A esplanada da "Bénard", essa, estava repleta de estrangeiros, entretanto. É, já em piloto-automático, quando seguia em direcção à Sá da Costa, que recebo nas mãos um folheto bilingue (português/inglês - que vai reproduzido, em imagem, do lado britânico da folha), entregue por um dos elementos do piquete de greve.
Sinal dos tempos: é a primeira greve poliglota a que assisto. Empregados brasileiros, portugueses e africanos; folhetos bilingues a explicar razões e pedir desculpa aos clientes portugueses e estrangeiros. Tudo isto acompanhado por música irlandesa. Turismo e globalização.