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01 maio 2011

Responsabilidade e Solidariedade

Quem trabalha é trabalhador e quem trabalha por conta de outrem deve ter um contrato de trabalho. Esta afirmação básica é hoje uma exigência radical. Com 2 milhões de precários e precárias e o desemprego a subir a proposta da troika é facilitar e embaratecer os despedimentos, despedir funcionários públicos e, que generosos, dar acesso ao subsídio de desemprego aos trabalhadores independentes que trabalhem só para uma entidade. Os falsos recibos verdes, portanto. Quando temos 1 em cada 2 trabalhadores precário ou desempregado, a troika propõe ter todos e todas as trabalhadoras e trabalhadores precários ou desempregados. Não explicam, porque não podem, como ajudar este descalabro ao pagamento da dívida. Afinal, a dívida é desculpa para toda a violência.

Afirmar que os trabalhadores não são estagiários, não são prestadores de serviços, não são empresários nem empresas unipessoais, pode parecer um absurdo mas é hoje a reivindicação básica: direito à remuneração, direito ao contrato de trabalho. Ser precária ou precário é não saber quanto se ganha e quando se ganha, é não ter horário de trabalho nem direito a folgas ou férias, não ter protecção na doença, não poder acompanhar a família, não poder exercer direitos sindicais ou políticos. Ser precário é ser escravo.

Na luta contra a precariedade juntam-se muitas lutas. A luta contra a discriminação de género; as mulheres são as mais precárias e as mais sujeitas ao assédio sexual e moral no local do trabalho. A luta pelos serviços públicos; com despedimentos e precarização a Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde têm perdido capacidade de resposta. A luta pela segurança social pública; com a precarização retira-se aos trabalhadores e trabalhadoras a possibilidade de contribuir de forma justa para uma carreira contributiva que é um direito de cada um e uma e uma exigência solidária.

Nestes tempos difíceis temos tido algumas boas notícias: trabalhadores da Metro unidos conseguiram que 75 pessoas a trabalhar a recibo verde tivessem finalmente contrato de trabalho, na Securitas Direct trabalhadores juntaram-se para denunciar 5 anos de situação de assédio sexual na empresa, no dia 12 de Março milhares juntaram-se na rua, gerações solidárias, contra a violência da precarização e do desemprego.

A solidariedade não é fácil. Exige a coragem do confronto contra quem ataca os trabalhadores e trabalhadoras. Não há que enganar: nos direitos do trabalho ganhamos todos ou perdemos todos. Essa é a luta. E é agora.

publicado no esquerda.net

13 março 2010

Ainda o 8 de Março

Intervenção na AR a propósito do voto de congratulação pelo centenário do Dia Internacional da Mulher:

Este ano comemoramos o centenário do Dia Internacional da Mulher. O Dia Internacional das Mulheres. Esta comemoração é a afirmação da justeza e da essencialidade da luta contra a discriminação de género.

Esta comemoração é também a homenagem a todas as mulheres e homens que lutam contra a desigualdade, que lutam contra a violência dos horários de trabalho desumanos, que lutam contra as condições de trabalho indignas, que lutam contra os salários injustos.

Em cem anos muito mudou no mundo. E algumas batalhas foram sendo ganhas. Mas muito está por fazer. Muito está na mesma. Muito está terrivelmente na mesma.

As mulheres continuam a ser vítimas de discriminação e violência. Em todo o mundo e também em Portugal.

Hoje, como há cem anos, as mulheres estão mais sujeitas à pobreza, a condições de trabalho indignas, a horários desumanos.

Hoje, como há cem anos, as mulheres continuam a ganhar menos por trabalho igual.

As mulheres, que em Portugal vão ganhando a batalha da qualificação, estão hoje ainda, e como há cem anos, em maior risco de desemprego e reféns dos tectos de vidro que as impedem de chegar a posições de chefia.

Hoje, como há cem anos, as mulheres são vítimas de violência doméstica, um fenómeno que assustadoramente permanece e se estende a todas as classes sociais e todas as gerações e que mata. Mata mulheres.

Celebrar o centenário do Dia da Mulher é recusar o esvaziamento de sentido do Dia 8 de Março. É recusar as flores das desculpas, é recusar o discurso oco das diferenças e complementaridades.

Celebrar o centenário Dia Internacional das Mulheres é celebrar a justeza da luta contra a discriminação de género, é recusar um mundo em que um género é norma e o outro acessório, é homenagear todas as mulheres e homens que protagonizam em todos os tempos a luta intransigente por um mundo mais justo.

04 outubro 2008

autonomia roubada

de uma caixa de comentários do dactilógrafio
eu acho que têm impacto (as crónicas, as opiniões, os blogues).
(infelizmente) nos dias que correm, a realidade é feita apenas daquilo que os pachecos pereiras, os danieis oliveiras, os rui tavares e por aí fora deste mundo dizem.
o mundo é aquilo de que se fala e não aquilo que se vê.
a estupefacção e a indignação são-no apenas se algum marcelo rebelo de sousa o transmitem. é como se tivéssemos (enquanto sociedade) perdido a capacidade do raciocínio autónomo.
se numa ditadura "antiga" - nos padrões em que as conhecíamos - teríamos de pedir licença para ter uma opinião, hoje em dia temos de esperar pela opinião destas autoridades para a podermos subscrever...

Do arquivo de A Vida Escrita
que conheci graças ao Enfado
O traço mais característico desta escrita – e não só, é o elo de quase todas as conversas e base de trabalhos, arte e pensamento – trata-se do vigor referencialista. Ninguém avança com uma ideia ou descrição de uma simples sensação pessoal sem estar automaticamente a citar, a aludir, a referir. Ninguém convoca um problema sem usar como pretexto para início ou totalidade da argumentação um filme ou um livro. [...] Sempre a mediação, que faz ganhar eco, à frente, como se tivesse mais valor esse conforto da produção de conhecimento/imagem do que o risco da experiência directa que parece desautorizada de falar por si.

E assim se cria um post sobre autonomia através das palavras de outros. Não por acaso.
Também não por acaso as palavras do dactilógrafo são a propósito do silêncio em torno das fraudes do homem-que-diz-logo-é-verdade-que-é-sério-mesmo-não-sendo.

15 julho 2008

Carta à Direcção Geral das Artes


teatro e arte contemporânea

No Visões Úteis ainda nos lembramos bem do DL 272/2003. Porque este diploma foi o último de uma tradição que reservava a designação de “arte contemporânea” para as artes visuais, relegando assim as artes performativas para fora da dimensão do contemporâneo.

E não se pense que a nomenclatura em questão seria um detalhe sem importância. Porque na verdade se trata aqui de uma tradição solidamente enraizada no Ministério da Cultura e que tem aparentemente sobrevivido às mudanças de Institutos e Direcções Gerais.

De facto o estado português encara o teatro de uma forma completamente desfasada da realidade artística contemporânea. Para o estado português o teatro parece continuar a ser um modo de criação umbilicalmente ligado à literatura dramática e à projecção do património imaterial, nacional e da humanidade. O teatro e os processos de criação teatrais contemporâneos surgidos nas últimas décadas do século XX – e que hoje são indiscutíveis na Europa – acabam constantemente secundarizados em Portugal pelas políticas de apoio às artes. Ou pelo menos secundarizados fora de certos círculos restritos.

Por isso é normal que nas actas dos júris dos últimos concursos para apoio sustentado (2005/08) se possa constantemente confirmar a alegria do estado perante os projectos que arrancam – e se encerram – na literatura dramática, e a estranheza perante todos os outros. Os primeiros são aclamados pela segurança com que atiram nomes consagrados a encenar nos anos seguintes. Os últimos são considerados como estando ainda à procura de um rumo, pois não projectam qualquer texto dramático, de preferência já legitimado e até “patrimonializado”.

O estado português está ainda preso a um paradigma de criação teatral do século XIX. Que atravessou o século XX com grande sucesso. E que ainda hoje é responsável pela esmagadora maioria da produção teatral nacional. Mas um paradigma – o do dramaturgo que escreve uma peça de teatro e do encenador que dá a ver o que leu – que definitivamente já foi colocado em causa pelos mais recentes processos de criação teatral.

E no Visões Úteis estamos verdadeiramente cansados deste desfasamento entre a arte contemporânea e o estado. Afinal em 2000 fomos considerados “megalómanos e prolixos” porque o nosso projecto transformava o próprio processo criativo em objecto artístico, ao planearmos uma viagem pela Europa que faria a ponte entre dois espectáculos acerca da própria ideia de viagem. E em 2004 fomos considerados como “ainda em busca da maturidade” por nos recusarmos a apresentar um projecto a quatro anos articulado à volta da ideia: (autor dramático+encenador) X 3 produções por ano X 4 anos.

Não cabe ao estado optar por paradigmas artísticos. O papel do estado é definir os critérios que motivem a sua intervenção correctora da lógica do mercado – e o consequente apoio às artes. E consideramos aqui que o estado português tem, de uma vez por todas, de entrar no século XXI e abandonar a ideia de que o teatro é, antes de mais, uma actividade ligada ao património, através do repertório. O teatro não pode continuar a ser menorizado enquanto actividade criativa contemporânea, actividade que cria hoje o património de amanhã. O teatro não pode continuar a ser votado à formatação do património, do historicismo e da reintegração social. Ao teatro tem de ser permitido um espaço de contemporaneidade – de processos, metodologias, objectos, relações com o público, modos de produção – que possa efectivamente exprimir o nosso mundo, o nosso tempo, e que liberte os criadores da enfadonha e datada função museológica que não podem nem devem aceitar.

Veja-se, por exemplo, que muitos processos criativos contemporâneos, aqueles em que o espectáculo de descobre no próprio processo criativo, precisam de mais tempo do que no modo autor dramático+encenação, porque não se trata agora de revelar o que já existe mas sim de descobrir o que não existe. E por isso não é nada equitativo exigir a quem trabalha num paradigma o mesmo número de novas criações de quem trabalha no outro. E ignorar este problema é condicionar a criação teatral obrigando-a a afastar-se da contemporaneidade e da criação/autoria artística original para ficar presa ao passado e ao repertório

Alertamos então para a necessidade de a nova regulamentação do apoio às artes bem como os respectivos procedimentos, nomeadamente as práticas dos júris, permitirem o desenvolvimento e sustentabilidade dos projectos que apostam em processos de criação teatral contemporâneos. Para que a opção pelos paradigmas artísticos seja dos criadores e não da administração pública. Para que todas as artes sejam contemporâneas. Para que umas não sejam mais contemporâneas do que outras. Porque se não for contemporâneo, pode ser muita coisa, mas não é criação artística.


Uma outra carta, a da PLATEIA, aqui.

08 abril 2008

que inveja dos belos umbigos limpos

de quem não deve nada a ninguém. nem a quem veio antes nem a quem chegou depois. nem a quem está perto nem a quem está longe.
que inveja de quem é sempre radicalmente original e independente em todos os seus gestos.
o meu umbigo está tão cheio de tralha...

13 janeiro 2008

Elogios na mudança de ano: penetras, "os melhores do ano" e plágio

Dezembro de 2007, em Aveiro. Apresentávamos o Rei de Inglaterra a grupos organizados de escolas. No início de uma das sessões um professor diz-me: "Aqueles dois não vieram connosco. São de outra escola". E lá vou eu saber de onde apareceu o casal de 15 anos que se meteu na fila de entrada do espectáculo. São de uma escola que não marcou nenhum grupo. Eles estão corados e eu mando-os entrar: "Falamos no fim." Assistem ao espectáculo e à conversa final. Tentam ser discretos, mas o olhar compenetrado logo na primeira fila não passa desapercebido. "No fim falamos". Quando me aproximo, voltam a corar. É bastante óbvio que esperavam poder ver o espectáculo sem pagar os três euros de bilhete e que a denúncia lhes estragou o plano. Eu não sei que faça. Estou tão contente por ter "penetras" num espectáculo para escolas.
E então decido fazer de parva, ou de esquecida. "É só para vos entregar o CD com o dossier do professor, já que não veio nenhum grupo da vossa escola. Até à próxima." Eles pegam na mochila e saem rapidamente com o sorriso cúmplice de quem acabou de roubar um doce.

Fim do ano. Os jornais publicam "os melhores do ano". O Y classifica "O Resto do Mundo" em 5º lugar no ranking dos melhores espectáculos de teatro vistos em Portugal ao longo do ano. Recebo sms de quem viu e de quem não viu.

Janeiro de 2008. Recebo um mail que divulga um audio-walk em Coimbra. "Que engraçado! Um audio-walk!" Começo a ler o material de divulgação. A ficha artística tem as mesmas categorias que nós usámos no "Coma Profundo". O que nós discutimos para chegar àquelas categorias! E olha, a explicação do que é um audio-walk também é parecida com a nossa! E também têm um guia! E o nosso nome não aparece em lado nenhum, nem o da Janet Cardiff! Nem o de referência nenhuma! Olha! Se calhar apareceu-lhes em sonho o Coma Profundo. O Errare ou o trabalho da Janet, não. É pena. Teriam tido mais opções...

Pergunto-me muitas vezes se vivo em redoma. A falar de coisas que não dizem nada a quase ninguém, ouvidas apenas por quem pensa exactamente da mesma maneira, a trabalhar meses numa ideia que morre pouco depois da exposição ao sol. Não é um problema com solução. É simplesmente a vida que escolhi. Esta é uma das angústias de que se constrói. E, inegavelmente, os elogios são uma parte importante na balança.

A lista do Y foi, formal e institucionalmente, o elogio mais importante. Mas o elogio dos penetras, dois desconhecidos com metade da minha idade, foi o maior elogio. Bate até o plágio... porque a irritação provocada pela estupidez apaga inevitavelmente uma boa parte do enorme orgulho de ser referência para outros.

Adenda: o João e o Nuno são mais rápidos do que eu. E alguém os deve ter lido. Reparo agora que as informações do blog são já diferentes das do mail de 4 de Janeiro. Aparece a referência à Janett Cardiff e desapareceu a bonita categoria "documentação geográfica".

25 maio 2007

O hiper-realismo e os limites orçamentais

Ontem fui ver European House, espectáculo de abertura do FITEI.
Para mim foi um acontecimento, não por ser a abertura de um festival, mas porque ultimamente tenho poucas oportunidades de ir ver seja o que for. Ontem pude ir, estava contente por ter ido e não senti que devia estar a fazer outra coisa qualquer. Só por isso já valeu a pena.
E depois o espectáculo é bom, muito bom. Sem nenhuma ironia digo que é um espectáculo bem feito e pertinente que explora aquele pequeno intervalo nos gestos quotidianos em que a alma transparece. FIquei verde de inveja. Está lá muito do que trabalhámos no 667, por exemplo. A cena do sofá que não chega para todos, o desconforto, o estar pendurado... Mas num registo diferente, claro. No Visões Úteis já sonhámos com registos hiper-realistas, mas nunca tivemos orçamento para tal. E quando não se consegue fazer uma coisa bem, é melhor não fazer. E assim temos adiado muito do que eu ontem vi. Fiquei portanto verde de inveja. Em palco estava o número de intérpretes e o cenário com que imaginei o Mal Vistos. E os meios indespensáveis ao aprofundamento dos desencontros (literais e metafóricos) de 667 ou Cidade dos Diários.
Estou habituada a ir ver teatro construído com disponilidades orçamentais muito diferentes daquelas com que trabalho, mas nunca tinha sentido esta relação tão poderosa entre os meios e a essência do discurso. Senti-me impotente.

27 abril 2007

mais prendas na caixa do correio

1970 (retrato)

A minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou,
ou então morreu, já se acabou.

A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas e de autistas,
estatelou-se docemente contra o céu.

A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão,
brincou ás mil revoluções amando gestos e protestos e canções
pelo seu estilo controverso.

A minha geração só se comove com excessos, com hecatombes,
com acessos de bruta cólera, de mortes, de misérias, de mentiras,
de reflexos, da sua funda castração.

A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso,
e um belo dia esqueceu tudo e fez-se à vida
na cegueira do comércio.

A minha geração é toda a minha solidão, é a flor da ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo-de-artifício, toda vício, toda boca,
e pouca coisa na mão.

Vai minha geração, ergue a cabeça e solta os teu filhos no esplendor
do lixo e do descuido, deixa-te ir enquanto o sabor acre de resistência vai corroendo a doçura da sua infância.
Vai minha geração, reage, diz que não é nada assim,
que é um lamentável engano, erro tipográfico, estatística imprecisa, puro
preconceito, que o teu único defeito é ter demasiadas
qualidades e tropeçar nelas.
Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente que és por demais
inteligente para sujar as mãos neste velho processo, triste traste de Deus,
de fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhor do que antes.
Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada,
com medo de ser inventada, o que é que te falta agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração
ou só te resta morrer desintegrada?

Mas minha geração, valeu a trapaça, até teve graça,
tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto copo,
e a comida estava óptima! O que vamos fazer?

JP Simões, "1970"


numa mensagem do Nuno (que aqui às vezes aparece como Fernando) a propóstito do "prosaico geracional"

23 abril 2007

do prosaico e do denso

Tive o privilégio de ler o romance inédito do Vasco Barreto. Nunca tinha lido nada tão próximo de mim; a mesma geração e o mesmo local - o mesmo "aqui e agora", como diríamos no Visões. Gostei muito, mesmo muito, e mais não digo. É a ler. Chama-se "Correr para dentro" e há-de ser publicado.

A propósito do romance, a propósito de conversas que começaram a propósito do romance, não consigo deixar de pensar como o nosso simples, o nosso, o tal da geração dos trinta, parece sempre tão prosaico face ao simples com que crescemos. O da literatura, do teatro, da música, que lemos, vimos, ouvimos e continuamos a ler, ver, ouvir.

O simples essencial, aquele que é inerente a a qualquer obra de arte, perdeu densidade. É prosaico, mesmo muito prosaico. Os conceitos, as estruturas narrativas, as diversas camadas de cada obra, podem ser terrivelmente complexas. Mas o simples, o fundamental, o que nos liga, é indescutivelmente prosaico. Quando não é, o todo é intolerável e indesculpavelmente pretencioso.

Porque é que é prosaico? Porque é que é bom que seja prosaico? E porque é que mesmo assim fica aquela sensação estranha de "eu sei que isto não é assim que se deve fazer"? Ou de "desculpem lá, mas nós gostamos mesmo assim"?

Três razões, bastante óbvias, me assaltam:

1. Parece-nos necessariamente corriqueiro o que está mais próximo. O "nosso aqui e agora" tem de ser prosaico. O dos outros é sempre mais poético. A distância provoca uma incompreensão que, quando não afasta, é fascinante. E mesmo que não seja, crescemos a aprender que era.

2. Cultivando um estilo mais ou menos autista, todos criamos para o público que existe. E a arte democratizou-se. Como o ensino. Podemos bater com a cabeça na parede e dizer que as pessoas são cada vez mais estúpidas, que só gostam de parvoíces, que embrutecem a cada dia de sofá. O que é verdade. Mas também é verdade que falamos de um universo enorme de pessoas. Um universo que inclui muitos que, até há bem pouco tempo, eram tratados como inexistentes.
Há quem enterre a cabeça na areia e viva na ilusão de um público de pares rodeado de um mar infecto de estupidez. Normalmente fingem também que são de outro tempo e lugar e o resultado oscila entre o simplesmente ridículo e o insuportavelmente pretencioso. Note-se que reservo o simplesmente ridículo para o que é desprovido de qualquer interesse e o insuportavelmente pretencioso para os casos em que sofro ao ver o bom afogado pelo pretencioso.

3. À medida que as estruturas narrativas se complexificam a linguagem despe-se. É tudo uma questão de equilíbrio. Ou, pelo menos, de equilíbrio aparente. Enganamos o nosso cérebro, prometemos mais informação com menos esforço, e ele acredita. O difícil é captar a atenção o tempo suficiente para criar a necessidade do resto. Um especialista em toxicodependência, ou em história das toxicodependências, seria a pessoa ideal para explicar esta parte.

Um destes dias volto cá.

01 abril 2007

e o narrador...

Deixemos então pousar o problema de saber se a incompreensão entre os dois palermas passa ou não passa, e vamos ao narrador.

É certo que o narrador/ a narradora acaba por servir para fazer de uma forma expedita a passagem do tempo. Mas não é para isso que lá está, nem é por isso que é necessária. Na realidade, e à boa maneira de Ibsen, o problema da passagem de tempo resolvia-se com 2 palavras mais numa das deixas dos tontos. A Narradora não serve o desenrolar ou a compreensão da historia. Por isso incluímos a piadinha da repetição sobre a Melie ("A Melie era a filha dele" " A Melie é a minha filha").

A Narradora serve precisamente o tal teatrinho de bolso/ teatrinho de papel. É uma distanciação brechtiana ao estilo Charlie e Lola. Porque o que torna "An Outpost of Progress" especial é a voz do narrador. Uma voz que nos lembra constantemente que esta é a sua visão dos acontecimentos e não um relato histórico. Este conto é uma tese em que os dados são assumidamente manipulados para provar a hipótese. No teatrinho de papel a narradora também faz o que quer com os seus bonequinhos.



Não quero que mudes de opinião, nem acharia saudável que concordássemos, mas continuo a achar que devias ir ver o espectáculo mais uma vez. A estreia não correu particularmente bem, e a temperatura da sala não ajudou. São os riscos do "vivo". Agora que em palco tudo está mais solto e equilibrado, que já corrigiram o ar condicionado e que (infelizmente!) não me cheira que voltemos a ter 250 aquecedores na plateia, tudo me parece mais claro.

30 março 2007

Vamos a isso, que foi aquilo com que sempre sonhei

porque mesmo que seja batota, porque somos amigos e trabalhamos muitas vezes juntos e para o mesmo, é uma alegria poder debater crítica publicamente (ou como se fosse, nestes nosssos cantos visistados por amigos). Faz parte do meu imaginário e é uma daquelas raras coisas que provoca saudades dos tempos que nunca se viveu.

Diz o Nuno que sente falta de tensão crescente entre os dois palermas da "Frente do Progresso". Algo que não existe no conto, mas que a transposição para teatro exige. O que está aqui em causa é saber como é que sujeitamos Kayerts e Carlier ao aborrecimento, sem infligir a mesma tortura ao público. Estamos de acordo.

Eu não faço ideia se o público fica aborrecido. Acredito que fique. E tenho pena. Honestamente não me parece que cruzemos a linha entre o tempo de instalação das diferentes partes e o tempo de fuga da atenção do público. Mas, sabemos bem, quem acompanha o crescimento diário não tem a visão mais nítida.

Vamos então ao problema da tensão entre os dois, ou melhor, às razões que me fazem acreditar que não é possível instalá-la realmente antes dos 15 minutos finais. Que são só duas e bastantes simples.
1. Se a tensão existisse antes os 15 minutos finais não seriam o fim de que gostaste. O final resulta, no espectáculo como no conto, porque explode onde menos se espera.
2. Se os nossos palermas vivessem em tensão não teriam a total inércia que os caracteriza. A tensão exige uma energia no relacionamento que lhes está vedada. Existisse essa tensão e consequente energia e a história seria necessariamente outra.

Parece-me no entanto que há um outro caminho onde talvez fosse possível encontrar o "clique" de que sentes falta. Os indícios da tragédia não podiam estar na tensão, mas podiam/deviam estar nas diferenças que caracterizam a dupla. Carlier e Kayerts são iguais porque filhos de estruturas modeladoras da civilização. Mas são também diferentes: temos um militar e um administrativo. Aquilo que os une é a solidão e a estupidez. No seu "ambiente natural" nunca se juntariam. No espectáculo esta incompreensão permanente entre os dois lados de uma mesma moeda está presente. Acredito agora que não tem a leitura que desejávamos. A subtileza tem coisas boas e más.

E tenho de ficar por aqui. Apetecia-me falar do narrador - nosso e do Conrad, neste espectáculo e no próximo. Mas, como sempre, já devia estar a fazer outra coisa. Tentarei voltar.

15 outubro 2006

Stockmann


Um iraquiano residente em Helsínquia é parado num aeroporto Londrino porque desconfiam da credibilidade do seu passaporte finlandês. Para poder prosseguir a viagem tem de responder à pergunta: Quais são os maiores armazéns comerciais da Finlândia?

Abel Abidin realizou "Crazy Days", um filme sobre o contraste entre os quotidianos Iraquiano e Finlândes com nome de saldos no Stockmann.