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terça-feira, 5 de agosto de 2025

Economia e Mitos de Criação na Mesopotámia

Reading Creation Myths Economically

Harvey, E. J. (2025): Reading Creation Myths Economically in Ancient Mesopotamia and Israel. of Elements in Ancient and Pre-Modern Economies. Cambridge University Press. Cambridge. ISBN: 9781009559928  DOI: 10.1017/9781009559928

Sinopse  
Os mitos da criação no antigo Oriente Médio serviram, entre outras coisas, como obras de economia política, justificando e naturalizando práticas rituais materialmente intensivas e os seus emaranhados com processos e instituições económicas mais amplos. 


Esses rituais eram organizados de acordo com uma ideologia comum de serviço divino, que retratava os deuses como uma classe aristocrática ociosa cujas necessidades materiais eram supridas por seres humanos. Os recursos para o serviço divino eram extraídos dos setores produtivos da sociedade e canalizados para as instituições do templo e do palácio, onde serviam para saciar os deuses e sustentar seus servos humanos. 


Este Elemento examina várias formas da economia do serviço divino e como elas eram sustentadas por uma seleção de mitos; Atraḫasis, Enki e Ninmaḫ, e Enūma Eliš da Mesopotâmia e a história do Jardim do Éden do sul do Levante (Israel).

INDEX

1 Introduction  p. 1

2 Creating Labor in Ancient Mesopotamia  p. 10

3 Creating Labor in Ancient Israel  p. 36

4 Conclusions  p. 68

References  p. 70


Descarregar o livro em: Reading Creation Myths

sábado, 1 de junho de 2024

Religion in the Roman Empire Nº 10/1 - 2024

Religion in the Roman Empire

Nº 10/1 - 2024  

   
Religion at Work 
   

INDEX

Introduction
  
Religion at Work pp. 3-14
Tony Keddie

Articles
  
Linking Religion and Labour in the
 Roman Empire pp. 15-46
Tony Keddie

Labours of the Saints and the Collection for 
Jerusalem pp. 47-68
Steven J. Friesen

Intimate Labour pp. 69-86
Jennifer A. Quigley

Extracting the Lives of Stoneworkers from 
New Testament Texts pp. 87-106
Anna M. V. Bowden

Slaves of the Gods or Enslaved to the Gods? 
pp. 107-126
Katherine A. Shaner

The Kitchen in the Church Complex pp. 127-148
Dana Robinson

Words and Practices of Institution pp. 149-163
Devin Singh


Ir ao número da revista: Religion in Roman Empire Nº 10/1

domingo, 18 de junho de 2023

De porque o Trabalho não Dignifica



NÃO, O TRABALHO NÃO DIGNIFICA:

A poucas frases tão irreflexivelmente repetidas a par que perversas no seu significado como a que afirma que "o trabalho dignifica". O trabalho pode proporcionar muitas satisfações, a do dever cumprido, a de dar o melhor de cada um no seu cometido, pode ocupar a mente (dependendo de qual), aquietar a inquedança, a incerteza, ou tantas coisas. Mas a soa alusão a que isso magicamente de por sim confere uma magica virtude de dota de dignidade -pode haver algo mais intimo e constitutivo do ser humano que a sua própria dignidade?.

Não vou estender-me em todas a formas de trabalho que no nosso mundo atual se voltam uma forma de menoscabo de essa dignidade, a precariedade, a instabilidade laboral, ou ainda além da nossa ainda precária situação de privilegio como outras partes do globo onde este adquire a forma mais velha e descarnada de "escravidão", não vou falar de isto, quero-me centrar no próprio conceito do trabalho como elemento do que procede a nossa dignidade, ideia que -segundo o entendo- é em sim própria perversa e atenta contra a própria ideia de dignidade humana.


Primeiro diria que historicamente esta visão dignificante do trabalho, do trabalho como algo positivo para o homem é recente na história da humanidade. A ideia na Antiguidade de trabalho é a dum "mal", algo negativo, um castigo embora necessário ao que o ser humano se encontra encadeado pela própria necessidade de subsistir ele e os seus. Os gregos utilizavam o termo poinos "carga" que era o mesmo que se aplicava para o qualquer sanção, castigo, e em especial a pena que se impunha a um reo, criminal ou infrator em um juízo.

"As Danaides" John Singer Sargent, Museum of Fine Arts

O Hades, inferno grego, contava de uma secção especial para os "Réprobos Eternos" os criminais especialmente perversos capazes de ofender mesmo a própria moral muito laxa dos deuses olímpicos (canivales, parricidas, etc), muitos de eles condenados a suplícios repetitivos que a parte de ser "poinos" no sentido de pena eram uma atividade laboral interminável, as danaides homicidas dos seus próprios esposos enchendo sem fim com água cântaros sem fundo, Sisifo condenado a subir penosamente por um monte uma pesada rocha que quando conseguia deitar do outro lado voltava ao inicio, reiniciando assim a sua eterna jornada laboral. 

o Tormento de Sisifo, em um vaso ático de figuras vermelhas

No entanto os Bem-aventurados, ventos entre os mortos, justos os justos, passeavam ociosos entre asfodelos nos Campos do Elísio discutindo de filosofia ou simplesmente amanhando o mundo prazida e peripateticamente. 

"A Espulsâo do Paradiso" de Benjamin West, National Gallery of Arts 

Tampouco o mundo semita diferia de isto, o trabalho não deixava a pena imposta ao ser humanos pelo pecado supremo, que nem a sucessão das gerações conseguem borrar (ao contrario que outras transgressões veterotestamentarias). O trabalho simétrico a dor do parto, cerrando o circo do castigo em vida dum ser humano que nasce e da o nascimento entre dor, para sofrer e padecer dor até o momento de cesse da vida: a dor quotidiana do trabalho, eterna condena da Humanidade. Pouca dignidade podia ver um israelita em essa eterna punição imposta pelo pecado primigenio que inventou e inaugurou o pecado próprio mesmo.
~

Alguns dirão em este ponto que o grande cambio se da aqui com a Conceição cristã do trabalho, e evocaram a regula de São Bieito "ora et labora" "rezar" e "trabalhar"; como caminho de perfeição espiritual. Mas aqui a nossa perceção atual do trabalho como criador de virtude moral nos engana, cria um espelhismo que projeta as nossas categorias atuais, (... mira justo ai o diz o trabalho perfeição, pelo tanto dignifica!!), trasladando anacronicamente a mentes duns homens tardo-antigos o nosso sentido comum que não era de nenhum jeito o seu. 




A própria ideia ou insinuação de tal coisa de facto lhes resultaria estranha e profundamente alheia, quase bizarra, porque em esse "ora et labora" não esta em absoluto ausente a noção previa de "carga, castigo, punição". De facto no binómio "reza" e "trabalho" o trabalho cumpre uma função punitiva, equivalente plenamente a outras formas de mortificação corporal totalmente comparáveis como zorregar-se com disciplinas (sim esse látego de multíplex colas rematadas em coitelas ou ganchos de metal para uma melhor praxe mortificatoria) ate cruzar-se o lombo de marcas sanguinosas, jejuar ate a extenuação o permanecer isolado a intempérie durante anos sem baixar de uma coluna em pleno deserto Sirio-Palestino. 

Penitentes na Basílica Inferior de Asis, J. Jiménez Aranda, 1874, Museu do Prado

Obviamente melhor não deter-nos como seria num plano mais sensorial o meio arredor de uma de estas colunas de estilitas de corpo anoréxico e pele quarteada e avelhentada prematuramente pelo sol e o pó do deserto, e que nunca baixavam de esse seu improvisado oratório aéreo para nenhum tipo de atividade já fora social ou bem puramente fisiológica... bom, vou-o dizer, a a risco de perder o decoro, para que se me entenda: não debita cheirar muito bem embaixo da coluna de estilita.

fotograma do filme "Simão do Deserto de L. Buñuel

Para a mente e os valores de essa aristocracia tardo-romã da qual se estraiam esses os moços fugiam do mundo com seus coetâneos de turma cara as suas villae rusticas, que viraram assim de uso e função nos primeiros mosteiros do Ocidente, para buscar lá, como outro no deserto oriental, a Deus na ascese da vida monástica, nas mortificações físicas que destruem o corpo torturando a carne, ou no trabalho manual e extenuante. 



Essa era um experiência tremendamente traumática que de facto destruía qualquer resto da sua identidade e perceção como privilegiados. Corto circuitava e os valores de uma classe social que via no trabalho manual e físico uma atividade "desonrosa" para a sua condição, que envilecia e denigrava destruindo seu orgulho. O trabalho como castigo físico, destruía, matava o homem velho e mundano, para fazer que do corpo malparado e das mãos encalecida emergira o ser espiritual, homem novo, mais puro limpado, purificado pela penitência: a humilhação devinda assim em humildade, trocando ao amo em servus ("escravo", condenado ao trabalho quotidiano) e ficando como Dominus (amo) único o próprio Deus. 


Não é casual em absoluto reiteração da autodefinição entre esses primeiros monges. Muitos como digo saídos de esses antigos e orgulhosos domini da nobilitas romana, como "servus Domini" que nos vemos quase mecanicamente na atualidade simplesmente na necessidade de traduzir como "Servo do Senhor/Deus" sem, aperceber plenamente forte nível conotativo que esse léxico, essas palavras concretas: servus (escravo) e Dominus (amo) têm numa sociedade tão vertical e fortemente jerárquica como era a sociedade tardo-romã da época em que essa terminologia principiou a aplicar-se.




Em resume, no sentido original a frase "ora et labora" o trabalho não aperfeiçoa ao postulante que se submete a ele porque seja "dignificante" ou "dignifique" em sim, senão, mais bem por tudo o contrario. O trabalho é em esse momento o exemplo paradigmático de "indignidade". O trabalho é bom para o espírito paradoxalmente porque "priva, nega, destrui" a dignidade, porque e um suplicio próprio da capa mais baixa e degradada da sociedade romana da época, aquele que se vê obrigado já seja por necessidade ou coerção a cadeia interminável do trabalho ao contrario que a nobreza ociosa, que precisamente por esse ócio é "digna" e enchida da "humanitas" (civilização) vetada as classes baixas e mais populare. 


Estranho mundo esse, ao nosso ver (ou não), que fechava o acesso a plena "humanidade" apenas a um grupo muito fechado e considerava ao resto, bárbaros, plebe urbana ou camponeses uma humanidade diminuída e incompleta; ou ao melhor -as vezes não será tão estranho a nós se calhar?. 


Não vou descrever o longo processo pelo que esta conceção do trabalho como caminho de perfeição em quanto caminho de servidão e humilhação, terminou derivando em um ética que entende ao contrario do que sucedeu na maior parte da Historia da Humanidade o trabalho por sim próprio é algo que tem que ver com a Dignidade do ser humano, que não é antagónico a ela, ou mesmo que é a fonte de essa própria Dignidade. É um longo processo que vai desde finais da Idade Media até a Primeira Revolução Industrial, e que tem sido analisado com muita maior profundidade da que eu pudera aportar por historiadores, sociólogos ou mesmo filósofos. 


Prefiro agora deter-me no segundo aspeto que quero assinalar: precisamente a ideia já comentada que o próprio trabalho constitui a fonte própria, o manancial do que abrolha como água cristalina e pura, a própria Dignidade do ser Humano, porque é em esta ideia onde se encerra toda a perversidade de essa frase aparentemente inocente e repetida mecanicamente quase como mantra irreflexivo: "o trabalho dignifica".



Esta frase e doblemente perversa por duas questões, principalmente, em primeiro lugar porque enajena a Dignidade do próprio ser humano, consegue o artificio de que a Dignidade do Homem deixe de ser uma parte constitutiva de ele próprio, do seu próprio ser, e se converta e uma entidade exógena, forânea alheia da qual pode por tanto e ser privado, e que apenas abventiciamente lhe pertence temporalmente, e como se lhe deu -generosamente antes depois bem fugira cedo. 




O sujeito perde assim qualquer controle sobre o que foi em tempos parte constitutiva da sua essência: a sua dignidade. Me explico, se fora certo que o trabalho dignifica, que dignidade terá o que se vê privado ainda contra a sua vontade da possibilidade de trabalhar, um parado é menos digno?, a sua dignidade diminui ao dia seguinte do despido? e o descapacitado que se vê privado do exercício do trabalho queda-lhe assim vetado qualquer aceso a ser uma pessoa digna?. Atrever íamo-nos a dizer que é menos "digno" que o que não tem essa limitação? há gradações dignidade segundo o tipo de trabalho?. 




Não estigmatiza, culpabiliza tudo isto ao que se vê em essa situação, a maldição de uma autoculpabilização, não estamos convertendo ao privado de trabalho em um transunto do velho "pecador original" que não pode redimir-se agostinianamente apenas que pela graça externa do Acaso (ontem Providencia). Não convertemos o seu sofrimento psicológico e afetivo em uma nova forma de flagelação, mas em uma flagelação degradada que já nem aperfeiçoe teoricamente o espírito, nem o faz a priori mais merescente ou próximo a consecução da graça laboralnas pressente condições de "paro estrutural". 




Quem sabe se esta graça do mercado ficara apenas num hipotético longiquo futuro de Parusia; senão que o envilece, e faz pressa propicia de medicação, patologia, terapia estigma, vergonha, tudo isso auto-assumido mas também exercido desde fora contra ele pela opinião censora da gente a quem sem ninguém pedir-lhe a sua opinião tanto teima e insiste em -a pesar de tudo- comparti-la com o resto dos mortais e frequente com quem menos a precisa em esse momento.




O segundo motivo pelo que vejo uma perversidade quase infinita na expressão "o trabalho dignifica", vem do outro aspeto. Não é que em essa alienação de algo tão intimo da pessoa humana como é a sua consciência de dignidade, ao final nos encontremos com que essa dignidade se converte em algo exterior, um corpo estranho que ocasionalmente se cola a nossa pessoa e figura, e que migra por igual acaso. Não, o mais perverso não é que a nossa Dignidade já não seja nossa já, que já não seja como dizia Calderon do "Honor" algo que "solo es património de alma, y esta solo lo es de Dios", senão que de facto agora a nossa Dignidade resulta ter em realidade um proprietário, que nem é divino, nem somos desde logo nós.



Não é tão abstrato nem complicado de entender como aparentemente semelharia; é muito singelo: Se o próprio trabalho ou a ausência de ele tem a capacidade de "dar-nos" ou "quitar-nos" a Dignidade, igualmente quem tem a capacidade de dar-nos ou privar-nos esse trabalho, também a teria de concedermos ou negar-nos a nossa Dignidade.

gravado do século XVIII que reflite o trafego de escravo no Caribe

Se da assim uma curiosa inversão pela quem "vende", em esse eufemismo também perverso que é o termo "mercado laboral" (que diriam faz uns séculos se escutaram esta paradoxal expressão quando daquela havia trabalhadores que se vendiam fisicamente num Mercado nada metafórico, e aos que se lhes chamava escravos), a sua força de trabalho, parece estar vendendo com ela indefetivelmente a sua própria dignidade da que queda privado segundo os caprichos ou ciclos veleidoso de esse Mercado de Pessoas Trabalhantes e Dignidade Humanas, ou simplesmente do padrão de turno.



Não vejo muito, mais bem não vejo nenhuma, Dignidade na afirmação de que "O Trabalho Dignifica", mais bem penso que tal afirmação agride a própria ideia de Dignidade na sua mais intima cerna e degrada-a assim- Mesmo, deprida e maltrata o que de mais essencial há no próprio ser humano e convir-te a sua vida apenas em uma sucessão de momentos "triste, dura, tosca, e medicada" ao jeito de um Hobbesiano "Estado de Natureza" mas agora profundamente desnaturalizado e radicalmente inumano. Alguns me objetaram, que o homem, além da subsistência, necessita atividade, fazer coisas, ocupar-se, que isso estrutura seus propósitos e a sua vez com seus propósitos a sua vida. E é mais a isso continuara a seguido objetando-me -quae verborum inmoderatio!- se lhe chama "trabalhar". 




Chega a tal o ensimesmamento no axioma que aqui acima tenho criticado que mesmo nos costa entender ou sequer conceber qualquer atividade humana, se não a apercebemos a priori como se fora de facto uma forma mais de "trabalho". Confundimos a "ocupação" ou o "atividade" como o "trabalho", quando de facto nada há que afirme e apoie tal equivalência além na nossa perceção etnocêntrica e historicamente concreta, dogmaticamente acumulada no nosso sentido comum, de que isso é assim e sempre o foi. Temos mostrado acima, que isso não é absoluto certo.


Voltando ao exemplo antigo ninguém negara que Platão, Aristóteles, Cícero, o Plínio o Velho que nos ligaram uma extensa obra estiveram muito ocupados redigindo seus textos, ninguém diria desde logo que estiveram "desocupados" ou mão sobre mão, ninguém ainda mais se atreveria a qualifica-los de preguiçosos, nugalhaos, hoje diríamos que "trabalharam muito". 


O paradoxal é que eles próprio nunca entendiam essa atividade sua como "trabalho" e de feito argumentariam que se pela contra essa obra pudessem elaborar precisamente por estar isentos de todo trabalho e podiam abdicar-se ativamente ao seu Ócio puramente intelectual e não laboral. Pessoalmente eu frequentemente nunca estou tão ocupado ou ativo como quando estou de ferias, de facto as obrigas académicas-laborais muitas vezes me tem privado mais que outra coisa de tempo para a pesquisa propriamente dita.


Por favor, não confunda-mos estar "ocupados" "ativos" ou ter um "Ócio ativo" com trabalhar, se pensamos que trabalhamos mesmo quando não o fazemos pouca solução teremos nem agora nem num futuro. Tal vez já não a temos. Não confio muito ao respeito, o Ser Humano penso já esta perdido, inevitavelmente. 


Não. o Trabalho não dignifica, nunca dignificou, nunca o fará, nem pode faze-lo … não é a sua função, a sua função é como diz Aristóteles há uns quantos milénio apenas procurar o próprio necessariamente para a vida e ainda para a "Boa Vida" (fica para outro dia o que para o de estagira era "viver bem"). Não marchemos a busca nas afastadas Andrómenas em col do que, de facto, fica justo debaixo dos nossos próprio pés.


-Como complemento a esta pequena reflexão deixo embaixo o documentario "Ladrões de Tempo" que descreve as extremas formas de alienação e deshumanização as que tem chegado a nossa patológica obsessão com o "trabalho"

imagem inicial: pintura do artista ucraniano Denis Sarazhin


Uma História do Trabalho

TRABALHO


Suzman, J. (2021): Trabalho: Uma História de Como Utilizamos o Nosso Tempo.Edições Desassossego. Oeiras  ISBN: 9789899033313


Sinopse
O trabalho define quem somos. Determina a nossa condição social; como, onde e com quem passamos a maior parte do tempo; influencia a nossa autoestima e até os nossos valores. 



Mas será que estamos programados para trabalhar tanto?. Qual a razão para, numa época de abundância, trabalharmos mais do que nunca?. E como seria um mundo em que o trabalho desempenhasse um papel menos importante?


Para responder a estas questões,  Suzman traça a grande história do “trabalho” desde as origens da vida até ao presente, desafiando algumas das crenças mais profundas acerca de quem somos. Recorrendo à antropologia, arqueologia, biologia evolutiva, zoologia, física e economia, demonstra que, durante a maioria da história da Humanidade, os nossos antepassados trabalhavam menos e encaravam o trabalho de forma muito diferente. 



O nosso sentido do que é ser humano foi transformado pela transição da busca de alimentos para a produção alimentar e, mais tarde, pela migração para as cidades. Desde então, as nossas relações uns com os outros e com o meio ambiente, e até o nosso sentido da passagem do tempo, nunca mais foram os mesmos. 



Defendendo que estamos a meio de um período transformativo na História, Suzman demonstra como a automação poderá revolucionar a nossa relação com o trabalho e, ao fazê-lo, conduzir a um futuro mais equitativo e sustentável, para o mundo e para nós próprios.



INDEX

Introdução: 
O Problema Econômico

1. Na Origem 

Viver é Trabalhar

Mãos ociosas e bicos ocupados

Ferramentas e Habilidades

Os outros dons do fogo

2. O Ambiente Providente

'A Sociedade Afluente Original'

Fantasmas na floresta

3. O Trabalho nos Campos

Saltando da borda

Festas e fomes

tempo é dinheiro

As primeiras máquinas

4. Criaturas da Cidade~

As Luzes Brilhantes

A doença da aspiração infinita

Talento superior

A morte de um assalariado

A Nova Doença

Conclusão

notas

Agradecimentos



+INFO sobre o livro em: Trabalho

domingo, 23 de outubro de 2022

Do Caçador (Endo)Metropolitano


Um amigo disse-me uma vez que as pessoas que se dedicavam à pesca e viviam em zonas costeiras "eram por mentalidade os últimos caçadores-coletores"; anedotas como essa de que chegaram do Grande Sol, e aproveitaram para renovar a cozinha com a ingexão monetária de uma boa campanha.


Antes de que uma turma ofendida se me bote derriba e me acuse com o índice de desconhecimento da situação, e de denigrarem aos pescadores e gentes do mar (longe de mim tal coisa), aclarar duas coisas: 1) nada há de mau nem negativo em ser um caçador-recoletor e pensar como tal (a Humanidade leva mais tempo sendo isso, caçadora, pescadora e recoletora, e pensando como tal, do que leva portando trajem ou mesmo sacho na mão), e 2) a opinião não era minha senão de esse amigo, discutível como qualquer opinião e apoiada apenas na sua interpretação e experiencia subjetiva como empregado de gestão em uma confraria de pescadores.


Outro dia, comentando isso com outro amigo surpreso, ele me disse que seu sogro, que havia sido pescador, ficou muito surpreso com esse comportamento de seus parceiros. Ele economizava dinheiro, e me esclareceu "mas ele não era de lá, ele era do interior onde se dedicavam à agricultura".


O agricultor, goste ou não, é obrigado a planejar sua atividade em uma série contínua e gerenciar um excedente, por mais limitado que seja (para consumir e para reservar para plantar novamente), o caçador vive em um mundo mais descontínuo (hoje é possível caçar uma boa peça, talvez nada manhã) e não tem sobrante ou capacidade para armazená-lo (o que não se come hoje e agora vai apodrecer cedo), seu consumo está, portanto, condicionado por essa descontinuidade e incerteza. E isso cria seu próprio sistema de racionalidade adaptada a circunstância.


Se isso for transplantado para a uma situação atual muito geral na que as pessoas tem apenas empregos precários (se tiverem) e, portanto, rendas que estão sujeitas a incertezas sem capacidade de armazenar um excedente, no máximo fazer fronte às despesas cotidianas sem dever dinheiro ao banco (o que se chama “chegar a fim do mês” (coisa que como pai de uma família que eu conheço muito bem). Isso pode explicar essa lógica do carpe diem não-maximiçador, lógica de "consumir rapidamente”, que a fim de contas é apenas um consumir preferentemente agora que você pode pelo menos consumir algo (amanhã ao pior já não).


Se o ascetismo de poupança é sempre uma raridade, ao contrario do que defendem os neo-liberais (atrapados em isto em uma bizarra antinomia que pede consumir domesticamente como um aristotélico mas insta a ir ao Mercado como um smithiano ortodoxo). Sendo isto, como afirma-mos por norma geral, uma esquisita "raridade”, é óbvio que em essas condições ainda mais o será; porque tal ascetismo devera então ser praticamente um ascetismo de "monge mendicante" (se não se tem de que poupar, pelo menos não-gastar nada), ou o que hoje se chama eufemisticamente "políticas de austeridade" .Querer que as pessoas vivam assim, seguindo essa regula monacal secular, nesse contexto é uma fantasia delirante quando não uma utopia.


Por certo, a Utopia de Moro, fora a primeira obra em sugerir uma rígida planificação das horas trabalho e de uma ociosidade, não "ociosa" precisamente senão igualmente "produtiva". Um proto-taylorismo in nuce que tampouco é tão estranho. Devemos ter em conta, algo bem conhecido, que a ascese aforradora andou, quase sempre, da mão com a exaltação da "produção" (mas sempre, curiosamente, mais do lado do produtor e algo menos da do proprietário).



O "trabalho dignifica" diz a sabedoria do povo, mas o trabalho dignificou primeiro como castigo e mortificação do corpo, ao nível de se zorregar as costas com uma disciplina ou copiar tediosos manuscritos por horas destroçando, no entanto, com o esforço a vista. Esse e não o outro era o sentido originário do "ora et labora" monacal.

Depois, sem sair do mesmo âmbito ascético, o trabalho dignificou como uma demonstração externa de virtude e/ou "graça", ideia exprimida até suas ultimas consequências, como já no seu dia vira o Max Weber, pelo Calvinismo na ideia da predestinação para a riqueza ou "evangelho da prosperidade".

E finalmente, já como um fim em si próprio, apenas um significante valeirado do significado, uma cascara ou exoesqueleto vazio no momento atual de (Tardo-)Capitalismo; quando você não acredita mais nele como meio de alcançar o ilustrado e salvífico "progresso" (alguns ainda acreditam, mas são poucos e, normalmente, pretensiosos), e fica reduzido a mera subsistência.



Função "subsistêncial" na que o termo “Precariedade” torna cada vez mais sinónimo -e eufemismo- de outra palavra mais feia, que por isso mesmo não se quer pronunciar: “Indignidade”.


Indignidade emergente que fica sem que por isto se dilua na consciência o peso tortuoso do pecado, o estigma social e autoassumido do trabalho: o “des-emprego”. Alguns dirão que isto é "vitimismo", mas não falemos de "vitimismo": o anho pouco se queixou, para o pudera ter berrado, no justo momento de em que foi degolado ... mas, nada havia já que expiar. Nada há de "natural" em tudo isto


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