Mostrar mensagens com a etiqueta reflexões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta reflexões. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Piastas e "Reis Extranhos" de Hoje e Ontem


Não é nada extranho, nem desconhecido, que as linhagens reais sõem ser frequêntemente as menos "autotoctonas" naqueles paises nas que reinam. Em este sentido vai um artigo recente publicado na revista Nature Communicationque vem a aportar , através do analise paleo-genètico, alguma luz sob a origem da dinastia piasta, que protagoniza a época fundacional do reino da Polonia.

Boleslvo Piast, Bolesłavo I de Polònia

O estudo feito sob os restos esqueleticos disponiveis dos membros das distintas ramas de esta linhagem aporta dados que questionam a origem local, e mesmo a eslavicidade da familia piasta:

"Seis indivíduos identificados como Piasts apresentavam haplogrupos R1b. As análises dos dados gerados para os Piasts R1b individuais sugeriram que seu ancestral comum pertencia à linhagem R1b-P312. Atualmente, essa linhagem é observada com maior frequência na Grã-Bretanha... As evidências apresentadas acima indicam que todos os indivíduos classificados como Piastas R1b pertenciam a uma mesma família e compartilhavam a mesma linhagem do haplogrupo Y R1b-BY3549, atualmente rara na Europa. Entre as amostras datadas do período anterior à formação do Estado Piasta, a mesma linhagem foi encontrada em três amostras antigas: CGG_023713 (datada de 770–540 a.C.) da atual França<sup> 42</sup> , CGG_107766 (datada de 20–200 d.C.) dos atuais Países Baixos<sup> 42</sup> e VK177 (datada de 880–1000 d.C.) da atual Inglaterra <sup>43</sup> . Assim, nossos dados revelam que os Piastas pertenciam à linhagem R1b-BY3549, sugerindo que eram migrantes de origem não eslava...
Os resultados obtidos indicam que os Piastas não eram de origem eslava e, portanto, sugerem que forças externas desempenharam um papel fundamental no processo de formação da Polônia."
Igualmente o estudo mostra a forte interconexão via alinças matrimonias entre a dinastia polonesa a as outras casas reias da Europa medieval contemporanea:

"Muitas das filhas de Piast e as mulheres que se casaram com membros da família Piast também representavam dinastias europeias famosas; portanto, os dados genéticos que coletamos para os membros da dinastia Piast nos permitem prever haplogrupos mitocondriais (mt-hgs) para mais de 200 figuras históricas conhecidas. Dentro desse grupo, há 108 Piasts, 32 Rurikids, 12 Giediminids, 23 Árpáds, 15 Přemyslids, 13 Hohenzollerns, 10 Habsburgos, 8 Wettins, 5 Angevinos e 4 Wittelsbachs ..."

Isto ultimo não é nada extranho, nem inesperado, a pouco que se observe a história das linhagens reais europeias caraterizada por um forte endogamica dentro do grupo e a pressença frequente por estes emparentamentos de dinastias de origen foraneo regindo as distntias monarquias europeias. 

o evidènte parecido familiar dos primos Nicolas II da Russia e Jorge V de Inglaterra.

Os reis de Grécia, esoclhidos após a independencia, eram de origem alemão e casaram-se quase na sua maior parte com linhagen de essa mesma origem e algumas escandinavas em menor medida. Os ingleses levam sendo governandos por soberanos não anglo-saxões mesmo desde a morte de Harold Godwineson: franceses da Normandia, e da Aquitânia, galeses (Tudor), escoceses (Estuardo), neerlandeses (Orange), e alemães (desde os Hannover aos actuais Mounbaten-Winsord, em realidade Watterberg-Saxonia Coburgo Gotta (1).

Jean-Baptiste Bernardotte, Carlos Joâo XIV de Suécia

Na Suecia actual os reinam os descendes omonimos de um general transfugade de Napoleão (os Bernadotte), e assim um trás o outro, e isso sem ter em conta a citada endogamia de grupo que faz que quase todos os membros das casas reais europeias actuais sejam primos entre sim em um ou outro grão e as vezes por partida dobre ou tripla.


Tampouco o facto de descender a dinastia fundadora da Polonia de um extrangeiro não resultaria demasiado disonante na época. Sem ir mais longe no ambito polones pode-se pensar no comerciante saxão Kizo que a tribo eslava dos luticios escolhera como chefe durante a revolta do ano 983 contra o dominio do Sacro-Imperio Romano Germânico. 


Também poderiamos citar igualmente a figura de outro extrangeiro: Rurik, aquele varego de origem sueca que fundara a Rus de Kiev, dando origem a dinastia dos rurikidas que dera monarca aos distintos principados poskievanitas, incluido o de Moscova até que Ivan IV, O Terrivel assasianra ao seu proprio filho e herdeiro cortando abruptamente a continuidade familiar.

Rurik e seus irmãos Trúvor chegam a Ládoga. Víktor Vasnetsov (1913)

Neste sentido estes "aventureiros" vindos de fora que atuam como fundadores de identidade etnico-políticas, depois convertidas em estados, não estão muito longe de realidades mais exoticas como a dos "reis extranhos/forasteiros" (Strnage Kings) táo tipicos do Sureste Asiático. O imaginario dos stranger king em esta região soe repressentar o poder político como algo essencialmente alheio a comunidade, uma especie de corpo extranho, vindo de fora in illo tempore mas que com a sua chegada estabelece uma nova ordem que subsiste até o momento atual e vem compretar em certa forma a sociedade pré-arrivada do strange king.

gravado no que se amostra o encontro do explorador holandês Joris van Spilbergen 
com o rei Vimaladharmasuriya I de Kandi, 1609

A ideaia dos stranger kings, além do seu contexto actotono, chegaria em esta região converter-se numa forma de interpretar e justifica,r dentro dos esquemas cosmologicos locais a realidade da dominação de potencias extrangeiras durante o posterior periodo colonial. O antropologo Marshall Sahlins amplou o padrão extendo-o a outros contextos geograficos e culturais (desde a Polinesia e Africa, à Grécia Antiga ou o mundo mesoamericano), considerando que este sistema era uma das formas elementais, senão a forma elementar por antonomaisa, de emergência do poder político nas sociedades humanas (Sahlins, 2008).

fotografa do filme Farewell to the King (1989)  inspirado no topos do Strange King

Segundo o antropologo no sistema de Stranger Kings existia uma repartição em duas esferas de atividade (a reprodução e poder) em termos uma dicotomia esencial entre a "autoctonia" e a "aloctonia". O padrão geral dos relatos sobre a chegada do strange king é conhecido, e reconocivel em muitas tradições ao longo do mundo, desde os mitos e lendas aos contos populares: mostra a chegada de um heroe, um extrangeiro alheio a comunidade, inclui o conflito com alguma entidade local, nomalmente descrita como monstroussa, e remata com o matrimonio entre o heroe foraneo e uma princesa autoctona que cria essa união armonica que reconcilia alotono e o autoctono dentro dum todo. 

Recorrentemente este extrangeiro atua como heroi cultural, que introduçe diversas innovações: novas costumes, objetos, ritos, ... marcando assim uma ruptura com a ordem anterior (cambio nas formas de matrimonio, na estrutura social, novas instituições, etc). Além da ominpressencia nas lendas e contos deste topos do heroi exiliado que mata a monstro e casa com a princesa local, há em estas tradiçoes sobre "reis extranhos" e fundacionais algo mais arcaico e esencial sob o proprio conceito de poder político, que em si proprio aparece cataterizado como algo "extranho", no doble sentido da palavra, algo vindo de fora mas que supõe  também uma "anomalia" com respeito a ordem previa que vem a tranformar.


É inevitavel não recordar alias aquelas comunidade de "Sociedades contra o Estado" (que quizas fora mais preciso denominar como "contra o poder"), descritas na Amaçonia por Pierre Clastres, Essas sociedades que consciênte e ativamente anulam, atraves de distntas estrategias, qualquer possivel comportamento que levasse ao estabelecimento de uma autoridade ou prestigio superior de algum individuo sob outros membros da comuidade, no que pudera fundar-se a constituição de qualquer formas de poder ou proto-poder politico de facto.  


E fazil imaginar como poderia ter sido possivel o passo desde tal estado de "anarquia", coidadosamente mantido com tanta constància, à aparição das primeiras chefias e sistemas de poder, e perceve-lo, em certa forma, como um ato carismático e de fonda transgressão.  Relacionando igualmente este ato de quebra primordial com alguns dados etnográficos, como o carater de grande “transgressor”, que alguns povos africanos atribuem a seus chefes, aos que se permite -ou mesmo exige-se?- um comportamento fortemente “antisocial” que rompe as normas quotidianas da sociedade, e deriva frequentemente num desempenho excesivo de uma violência arbitraria, concevida, e justificada, coma um elemento constitutivo e necessario do proprio poder e sacralidade do “monarca” (Simonse, 2017).

chefe "fazedor de chuva" da vila de Cakereda (1972)

Noutro ordem de coisas Sahlins entendia que os sitemas de stranger king aparecem em contextos de forte contato e intercambio intercultural a longas distancias, no que o antropologo norteamericano denomina como "Cosmopoliticas". Não seria muito extranho considerar que em momentos de forte contacto cultural, expostos á troca e a chegada de novas formas, objetos, pessoas e constumes, o vindo de fora termine alterando a propria realidade constitutiva preexistente de uma comunidade.

Neste sentido esse imaginario, que mostra a formação do poder como a chegada de algo anomalo vindo desde fora, e vinculado as qualidades de algum sujeito ou grupo carismáticos, seria especialmente adequado como repressentação mitica dos profundos cambios sociais que se estâo a operar em distintos niveis. Nâo é uma imagem que resulte extranha, precissamente, a um arqueologo. 


De certo, se agora pensamos em epocas da pré- e proto-história europeia nas que se fazem vissiveis grandes cambios culturais: unificações em koines linguisticas ou arqueológicas, a expansão de elementos de cultura material como armas, adornos, etc., a grandes distàncias, junto com tecnologias; e outros saberes denominados, as vezes, como "conhecimento esoterico" investidos ao mesmo tempo do prestigio do inusual e do distante das suas origens (Helms, 1999). não seria extranho imaginar algo similar ao que topamos no caso dos stranger kings


Assim o pensara já defunto Michael Rowlands para o Bronze Final europeu (Ling e Rowlands, 2015), mas poderia-se igualmente projetar-se o mesmo padrão, segundo a nossa opinião, a momentos aina mais afastados da pré-história europeia como o calcolítico, mesmo com a possivilidade de vincular isto a questões tão discutidas e controversas, como o processo de  indo-europeização (2)


Mas  faz-me pensar em outra questão também: se os "reis" da pré- e proto-história foram alguma vez strange kings em que medida não estamiaos a criar uma imagem distorsionada, quando nos debruçamos sob as tumbas, frequentemente de essa elite "regia" precissamente, para analisar a paleo-genetica do conjunto de uma sociedade num momento concreto?. Em que medida repressentaria hoje uma imagem genètica adequada do homem e mulher comuns do seu pais o ADN dum monarca europeu?

Os strange kings, como os seus filhos postumos, desde logo não são um bom exemplo da autoctonia do povo comum, precissamente
   

Artigo: 

Zenczak, M., Handschuh, L., Marcinkowska-Swojak, M. et al. (2026):" Genetic genealogy of the Piast dynasty and related European royal families." Nat Commun Nº 17, 3224  DOI: 10.1038/s41467-026-71457-1

Bibliografia complementar

Classtres, P. (2010): La sociedad contra el estado. Virus editorial. Bilbao
   
Helms, M. (1993): Craft and the Kingly Ideal. Art, trade and power. University of Textas Press. Austin.  aqui
   
Rowlands, M. & Ling, J. (2013): "BoundarIes, flows and Connectivities: mobility and Stasis in the Bronze Age"  Bergerbrant, S. & Sabatini, S. (eds.): Counterpoint: Essays in Archaeology and heritage Studies in Honour of Professor Kristian Kristiansen. BAR International Series 2508. BAR Publishing. Oxford. pp. 497-509
   
Sahlins, M. (2008a): Islas de Historia. La muerte del capitán Cook. Metafora, antropologia e historia. Gedisa. Barcelona.
   
Sahlins, M (2008b): "The Strnager-King or elementary forms of the politics of life" Indonesia & the Malay World Nº 36, pp. 177–199  DOI: 10.1080/13639810802267918
     
Simonse, S. (2017):  Kings of Disaster: Dualism, Centralism and the Scapegoat King in Southeastern Sudan.  Fountain Publishers. Kampala
   
Ling, J. & Rowlands, M. (2015): "The ‘Stranger King’  (bull) and rock art" Skoglund, P., Ling, J. & Bertilsson, U.: Picturing the Bronze Age..Swedish Rock Art Series Vol. 3. Oxbow Books. Oxford. pp. 89-184  PDF

Notas:
1) A substituição do apelido Saxonia-Coburgo-Gotta por Winsord foi resultado da molesta sonoridade alemã de este durante o a I Guerra Mundial. Igual questão motivou a anglização como Mountbatten do apelido Wattenberg.
2) Consideramos que boa parte da mitologia Indo-europeia, como o tema do "combate dos deuses", pode ser frutiferamente reinterpretada em termos da oposição "autotono" "alotono" pressente na estruturas dos sestemas de Strange King, o qual coincidira curiossamente já com a inicial intuição comparatista de Sahlins quando reconheceu a obra de Dumézil como uma das inspirações principais do seu modelo (Sahlins, 2008a)
    

Postatem relacionada: Uma olhada a migração na Pré-história

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Da Ortodoxia que nunca foi


A ortodoxia nunca existiu na vida religiosa real do povo, era apenas uma coisa escrita nos livros mas nunca praticada que de vez em quando algum eclesiástico iluminado, como há uns meses o pároco Anti-Mortalhas de Santa Marta de Ribarteme, lhe dava por exumar dos manuscritos, se lhe cruzava-se o cableado e principiava a ver "paganismo" "heresia" ou mais tardiamente "judaísmos" por todo-los lados. até em coisas que quando nasceram seriam mais ortodoxas que a ortodoxia própria, se esta tivera alguma vez existido além do registo livresco. 



E tentava assim impor a macheta essa religião dos livros que ele pensava era a "verdadeira" ainda que de facto para o conjunto dos crentes em verdade nunca existiu.

Já se vê com quanto sucesso, e logo de isso se volvia a guardar na estanteria o manual de ortodoxia e morra o conto até que ao cabo dum tempo outro crego lhe dava por ler o manual se nos iluminava lhe dava de novo por intentar outra vez alindar a seu rebanho "pelo livro". 

São esses casos isolados, episódicos, esporádicos que apareciam e desapareciam como o Guadiana pelos seus olhos, e se esqueciam tão rápido como aconteceram, o que cria a ilusão retrospetiva de que existia algo que se manteve ao longo do tempo, continuamente e de geração trás geração de eclesiásticos teimosos turrando e anatematizando, dia sim dia também, as tradições supersticiosas do povo. 

Pena da Água, Esquadro, Silheda (Ponte-vedra)

Mas sejamos realistas não há mais que ver os ritos e lendas de tantos santuários cristãos para ver isso "nunca foi assim" e que essa religiosidade corrente e quotidiana que por vezes se volvia ao olhos de alguém uma heterodoxa anomalia de fé era a religião "normal" e de toda a vida tanto para o paisano como para o próprio cura que lhe-la oficiava religiosamente e sem conflito nenhum. 

Em esse sentido essa perceção retrospetiva não é apenas mais que um espelhismo criado artificialmente e que nos opaca muito da correta interpretação do Imaginário e a cosmovisão religiosa do povo. Essa entidade fantasmal criada como essência imutável a que se supõe em conflito quase eterno contra uma suposta "heterodoxia popular" nunca foi assim, nem nunca teve quase mais que um efeito mais bem limitado na religiosidade real e nas crenças do povo. 

Eu gosto de dizer que a "Ortodoxia" nunca existiu o único que existiram foram de facto apenas, e por vezes, "momentos ortodoxos", que vinham e iam, nesses momentos se tentava "ativar" uma forma de ver a religião que apenas existia nos livros, livros que lia ou ao menos podia ler (poder ler algo não sempre implica que se vaia ler ou que se vaia fazer caso ou porem prática o que se lê, máximo quando por regula geral está muito alongado da prática) um grupo muito limitado dentro do conjunto dos crentes, uma elite intelectual muito restrita dentro dum grupo já restrito como era o dos eclesiásticos profissionais.

Muitos tomam a pé da letra a exortação do Martinho de Braga no seu De Correctione contra os ritos pagãos dos camponeses supondo-a uma proba da existência em paralelo de um paganismo vivo em paralelo ao cristianismo (algo que aceita acriticamente a visão bastante maniqueia que tinha o próprio Martinho sobre a religião do povo); sem reparar em que ao final do texto o próprio Martinho não exorta precisamente a pagãos senão "a vós que aceitas-te o Signo (da Cruz)" isto é ao os cristãos que segundo ele fazem coisas que não vão "pelo seu manual de ortodoxia" e por tanto devem ser cristianismo "falso" e por tanto em realidade, seguindo a linha argumental, "paganismo". 

Passados uns quantos séculos boa parte dos ritos descritos por Martinho seguem-se praticando por cristãos e vinculados a santos cristãos e santuários de peregrinação, ermidas, e igrejas sem problemas, é dizer são perfeitamente cristãos na forma em que a gente entende o cristianismo e não há motivo nenhum para pensar que isto deixara de ser o mesmo que acontecia já na época de Martinho. 



A fim de contas este não deixava de ser um estrangeiro, um eclesiástico panónio formado seguramente na rica e intrincada tradição teológica do Império de Oriente e que de seguro sofreria um autêntico choque cultural muito forte ao ver as formas do cristianismo ocidental (em este caso o da Gallaecia). 

fonte santa de Santo André de Teijido

Um choque cultural que conhecem muito vem os antropólogos atuais quando por primeira vez se iniciam no trabalho de campo numa cultura que lhes é alheia; se vem os antropólogos estão vacinados por seus estudos contra os andaços de etnocentrismo cultural mentes que os estudos teológicos bizantinos de Martinho o predispunham num sentido totalmente contrario cara esse contexto cultural extranho ao que se enfrentava ... 

A risco de ser pesados e enfáticos demais insistamos de novo: "a ortodoxia não existe" além do momento concreto em que de vez em quando se produz um novo "surto ortodoxo", como fenómeno que aflora na mente dalgum eclesiástico ou grupo de eclesiástico como agora sucede --outra vez mais de tantas- com o pároco de Santa Marta de Ribartemete.

Convencido de estar imerso numa cruzada "re-cristianizadora" (segundo afirma em declarações recentes aos jornais) contra o maléfico paganismo e a superstição do povo inculto e por defeito errado (como diz Bermejo "o povo nunca teve ração, porque não a poderia ter"), de igual jeito pensava Martinho de Dumio , e sem dúvida tão equivocado e condenado ao fracasso está um como ou outro estivo o outro.

Algum pode-me argumentar que essa "inexistência" da que eu falo pode ser matizada. e sim, se podem oferecer matizes, claro, se vem penso não invalidam em nada o argumento. Um de eles seria que isto foi assim pelo menos até que apareceu o Protestantismo que de certo algo mais conseguiu neste âmbito de combater a supostamente impura religião não-ordodoxa sive popular (sobre tudo no de liquidar esse reserborio de "sincretismo" que era já desde a Tardo-antiguidade o Santoral) ... 

Tampouco é que a Contrarreforma fora neutra, porque há que recordar que esta criou e generalizou a obriga de que existiram seminários diocesanos para a formação de todos os cregos dentro de cada jurisdição episcopal, o quais aumentaram o número de clérigos formados na tradição livresca e por tanto mais propensos a sofrer ataques de "cio ortodoxo". 


Como digo o Protestantismo sobre tudo algo fiz mais em este sentido, mas ainda seguem ai os ritos do Mari Llew galeses, os may-pole e os mumers dancer insulares, e todos os lumes solsticiais ainda bem vivos nos protestantissimos países do Norte Europeu, e não digamos já os irlandeses subindo anualmente na véspera do antigo Lughnasad a um Croach Patrick que está rodeado no vale de uma paisagem surcada de túmulos megalíticos e similares (uma paisagem sagrada de livro). 

Ou todos esses costumes e lendas que na Alemanha no século XIX ainda puderam recolher etnógrafos como os irmãos Grimm entre outros, ou Sebillot, Luzel, Villemarque na França; más que daquela já estavam entrando em fase terminal a medida que avançava a toda velocidade a Revolução Industrial e a sociedade tradicional desaparecia abruptamente.

Aqui onde a industrialização da agricultura ainda principiou a assomar -e timidamente- a meados dos anos 50, e os nossos avós ainda viveram boa parte da sua vida numa sociedade tradicional pura e dura, aqui neste recuncho até ontem e, em alguns caso, mesmo até hoje mesmo seguem vidas coisas que no resto do Ocidente da Europa estão mortas desde faz 200 anos. 



Em riqueza etnográfica a Península Ibérica e em especial o Noroeste e a sua prolongação pelo Cantábrico (Galiza, Norte de Portugal, Astúrias, parte do Ocidente de Leão, o Berço, e Samora, Cantábria, Euskadi) somos para a Europa Ocidental o que os Balcãs são na Europa Oriental: uma autêntica "Potência."

Volvendo ao caso mediático das Mortalhas de Santa Marta pessoalmente penso que esta cruzada do novo pároco é uma tentativa fortemente des-ubicada não só no seu contexto geográfico, cultural, que é o galego, senão diria que também espiritual, e ainda no contexto geral de uma contemporaneidade na que o mundo se apresenta cada vez mais "desencantado" e escindido não apenas já da transcendência, senão até dos mais mínimos átomos de religiosidade. 

Santo Cristo da agónía em Xende, 1977, fotografia Cristina Garcia Rodero

Eu pergunto-me; pode neste contexto de superavit de ateísmo, agnosticismo ou ainda de total indiferencia, permitir-se a Igreja oficial lutar num combate suicida contra o que creem os que ainda creem?, que sentido tem "des-ritualizar" (matar) o rito -dos poucos- que ainda vive entre a gente, porque "des-mitologiçar" os mitos que ainda pervivem?, e que quedara depois da defunção do rito e o mito? 

um exemplo "estirpação da idolatria" na actualidade

Recordava-me estes dias uma boa amiga -historiadora das religiões e mitologa de pró- uma frase de Dumezil que penso define perfeitamente a situação e que vinha a dizer mais ou menos algo assim: "O povo que deixa de crer nos seus mitos esta condenado indefetivelmente a perder a sua identidade e finalmente desaparecer", penso que o mesmo , e ainda de forma mais clara, se aplica também para o "Povo de Deus"



Foto principal: Castinheiro centenario de Santa Cristina de Ribas de Sil, Ourense.


domingo, 18 de junho de 2023

De porque o Trabalho não Dignifica



NÃO, O TRABALHO NÃO DIGNIFICA:

A poucas frases tão irreflexivelmente repetidas a par que perversas no seu significado como a que afirma que "o trabalho dignifica". O trabalho pode proporcionar muitas satisfações, a do dever cumprido, a de dar o melhor de cada um no seu cometido, pode ocupar a mente (dependendo de qual), aquietar a inquedança, a incerteza, ou tantas coisas. Mas a soa alusão a que isso magicamente de por sim confere uma magica virtude de dota de dignidade -pode haver algo mais intimo e constitutivo do ser humano que a sua própria dignidade?.

Não vou estender-me em todas a formas de trabalho que no nosso mundo atual se voltam uma forma de menoscabo de essa dignidade, a precariedade, a instabilidade laboral, ou ainda além da nossa ainda precária situação de privilegio como outras partes do globo onde este adquire a forma mais velha e descarnada de "escravidão", não vou falar de isto, quero-me centrar no próprio conceito do trabalho como elemento do que procede a nossa dignidade, ideia que -segundo o entendo- é em sim própria perversa e atenta contra a própria ideia de dignidade humana.


Primeiro diria que historicamente esta visão dignificante do trabalho, do trabalho como algo positivo para o homem é recente na história da humanidade. A ideia na Antiguidade de trabalho é a dum "mal", algo negativo, um castigo embora necessário ao que o ser humano se encontra encadeado pela própria necessidade de subsistir ele e os seus. Os gregos utilizavam o termo poinos "carga" que era o mesmo que se aplicava para o qualquer sanção, castigo, e em especial a pena que se impunha a um reo, criminal ou infrator em um juízo.

"As Danaides" John Singer Sargent, Museum of Fine Arts

O Hades, inferno grego, contava de uma secção especial para os "Réprobos Eternos" os criminais especialmente perversos capazes de ofender mesmo a própria moral muito laxa dos deuses olímpicos (canivales, parricidas, etc), muitos de eles condenados a suplícios repetitivos que a parte de ser "poinos" no sentido de pena eram uma atividade laboral interminável, as danaides homicidas dos seus próprios esposos enchendo sem fim com água cântaros sem fundo, Sisifo condenado a subir penosamente por um monte uma pesada rocha que quando conseguia deitar do outro lado voltava ao inicio, reiniciando assim a sua eterna jornada laboral. 

o Tormento de Sisifo, em um vaso ático de figuras vermelhas

No entanto os Bem-aventurados, ventos entre os mortos, justos os justos, passeavam ociosos entre asfodelos nos Campos do Elísio discutindo de filosofia ou simplesmente amanhando o mundo prazida e peripateticamente. 

"A Espulsâo do Paradiso" de Benjamin West, National Gallery of Arts 

Tampouco o mundo semita diferia de isto, o trabalho não deixava a pena imposta ao ser humanos pelo pecado supremo, que nem a sucessão das gerações conseguem borrar (ao contrario que outras transgressões veterotestamentarias). O trabalho simétrico a dor do parto, cerrando o circo do castigo em vida dum ser humano que nasce e da o nascimento entre dor, para sofrer e padecer dor até o momento de cesse da vida: a dor quotidiana do trabalho, eterna condena da Humanidade. Pouca dignidade podia ver um israelita em essa eterna punição imposta pelo pecado primigenio que inventou e inaugurou o pecado próprio mesmo.
~

Alguns dirão em este ponto que o grande cambio se da aqui com a Conceição cristã do trabalho, e evocaram a regula de São Bieito "ora et labora" "rezar" e "trabalhar"; como caminho de perfeição espiritual. Mas aqui a nossa perceção atual do trabalho como criador de virtude moral nos engana, cria um espelhismo que projeta as nossas categorias atuais, (... mira justo ai o diz o trabalho perfeição, pelo tanto dignifica!!), trasladando anacronicamente a mentes duns homens tardo-antigos o nosso sentido comum que não era de nenhum jeito o seu. 




A própria ideia ou insinuação de tal coisa de facto lhes resultaria estranha e profundamente alheia, quase bizarra, porque em esse "ora et labora" não esta em absoluto ausente a noção previa de "carga, castigo, punição". De facto no binómio "reza" e "trabalho" o trabalho cumpre uma função punitiva, equivalente plenamente a outras formas de mortificação corporal totalmente comparáveis como zorregar-se com disciplinas (sim esse látego de multíplex colas rematadas em coitelas ou ganchos de metal para uma melhor praxe mortificatoria) ate cruzar-se o lombo de marcas sanguinosas, jejuar ate a extenuação o permanecer isolado a intempérie durante anos sem baixar de uma coluna em pleno deserto Sirio-Palestino. 

Penitentes na Basílica Inferior de Asis, J. Jiménez Aranda, 1874, Museu do Prado

Obviamente melhor não deter-nos como seria num plano mais sensorial o meio arredor de uma de estas colunas de estilitas de corpo anoréxico e pele quarteada e avelhentada prematuramente pelo sol e o pó do deserto, e que nunca baixavam de esse seu improvisado oratório aéreo para nenhum tipo de atividade já fora social ou bem puramente fisiológica... bom, vou-o dizer, a a risco de perder o decoro, para que se me entenda: não debita cheirar muito bem embaixo da coluna de estilita.

fotograma do filme "Simão do Deserto de L. Buñuel

Para a mente e os valores de essa aristocracia tardo-romã da qual se estraiam esses os moços fugiam do mundo com seus coetâneos de turma cara as suas villae rusticas, que viraram assim de uso e função nos primeiros mosteiros do Ocidente, para buscar lá, como outro no deserto oriental, a Deus na ascese da vida monástica, nas mortificações físicas que destruem o corpo torturando a carne, ou no trabalho manual e extenuante. 



Essa era um experiência tremendamente traumática que de facto destruía qualquer resto da sua identidade e perceção como privilegiados. Corto circuitava e os valores de uma classe social que via no trabalho manual e físico uma atividade "desonrosa" para a sua condição, que envilecia e denigrava destruindo seu orgulho. O trabalho como castigo físico, destruía, matava o homem velho e mundano, para fazer que do corpo malparado e das mãos encalecida emergira o ser espiritual, homem novo, mais puro limpado, purificado pela penitência: a humilhação devinda assim em humildade, trocando ao amo em servus ("escravo", condenado ao trabalho quotidiano) e ficando como Dominus (amo) único o próprio Deus. 


Não é casual em absoluto reiteração da autodefinição entre esses primeiros monges. Muitos como digo saídos de esses antigos e orgulhosos domini da nobilitas romana, como "servus Domini" que nos vemos quase mecanicamente na atualidade simplesmente na necessidade de traduzir como "Servo do Senhor/Deus" sem, aperceber plenamente forte nível conotativo que esse léxico, essas palavras concretas: servus (escravo) e Dominus (amo) têm numa sociedade tão vertical e fortemente jerárquica como era a sociedade tardo-romã da época em que essa terminologia principiou a aplicar-se.




Em resume, no sentido original a frase "ora et labora" o trabalho não aperfeiçoa ao postulante que se submete a ele porque seja "dignificante" ou "dignifique" em sim, senão, mais bem por tudo o contrario. O trabalho é em esse momento o exemplo paradigmático de "indignidade". O trabalho é bom para o espírito paradoxalmente porque "priva, nega, destrui" a dignidade, porque e um suplicio próprio da capa mais baixa e degradada da sociedade romana da época, aquele que se vê obrigado já seja por necessidade ou coerção a cadeia interminável do trabalho ao contrario que a nobreza ociosa, que precisamente por esse ócio é "digna" e enchida da "humanitas" (civilização) vetada as classes baixas e mais populare. 


Estranho mundo esse, ao nosso ver (ou não), que fechava o acesso a plena "humanidade" apenas a um grupo muito fechado e considerava ao resto, bárbaros, plebe urbana ou camponeses uma humanidade diminuída e incompleta; ou ao melhor -as vezes não será tão estranho a nós se calhar?. 


Não vou descrever o longo processo pelo que esta conceção do trabalho como caminho de perfeição em quanto caminho de servidão e humilhação, terminou derivando em um ética que entende ao contrario do que sucedeu na maior parte da Historia da Humanidade o trabalho por sim próprio é algo que tem que ver com a Dignidade do ser humano, que não é antagónico a ela, ou mesmo que é a fonte de essa própria Dignidade. É um longo processo que vai desde finais da Idade Media até a Primeira Revolução Industrial, e que tem sido analisado com muita maior profundidade da que eu pudera aportar por historiadores, sociólogos ou mesmo filósofos. 


Prefiro agora deter-me no segundo aspeto que quero assinalar: precisamente a ideia já comentada que o próprio trabalho constitui a fonte própria, o manancial do que abrolha como água cristalina e pura, a própria Dignidade do ser Humano, porque é em esta ideia onde se encerra toda a perversidade de essa frase aparentemente inocente e repetida mecanicamente quase como mantra irreflexivo: "o trabalho dignifica".



Esta frase e doblemente perversa por duas questões, principalmente, em primeiro lugar porque enajena a Dignidade do próprio ser humano, consegue o artificio de que a Dignidade do Homem deixe de ser uma parte constitutiva de ele próprio, do seu próprio ser, e se converta e uma entidade exógena, forânea alheia da qual pode por tanto e ser privado, e que apenas abventiciamente lhe pertence temporalmente, e como se lhe deu -generosamente antes depois bem fugira cedo. 




O sujeito perde assim qualquer controle sobre o que foi em tempos parte constitutiva da sua essência: a sua dignidade. Me explico, se fora certo que o trabalho dignifica, que dignidade terá o que se vê privado ainda contra a sua vontade da possibilidade de trabalhar, um parado é menos digno?, a sua dignidade diminui ao dia seguinte do despido? e o descapacitado que se vê privado do exercício do trabalho queda-lhe assim vetado qualquer aceso a ser uma pessoa digna?. Atrever íamo-nos a dizer que é menos "digno" que o que não tem essa limitação? há gradações dignidade segundo o tipo de trabalho?. 




Não estigmatiza, culpabiliza tudo isto ao que se vê em essa situação, a maldição de uma autoculpabilização, não estamos convertendo ao privado de trabalho em um transunto do velho "pecador original" que não pode redimir-se agostinianamente apenas que pela graça externa do Acaso (ontem Providencia). Não convertemos o seu sofrimento psicológico e afetivo em uma nova forma de flagelação, mas em uma flagelação degradada que já nem aperfeiçoe teoricamente o espírito, nem o faz a priori mais merescente ou próximo a consecução da graça laboralnas pressente condições de "paro estrutural". 




Quem sabe se esta graça do mercado ficara apenas num hipotético longiquo futuro de Parusia; senão que o envilece, e faz pressa propicia de medicação, patologia, terapia estigma, vergonha, tudo isso auto-assumido mas também exercido desde fora contra ele pela opinião censora da gente a quem sem ninguém pedir-lhe a sua opinião tanto teima e insiste em -a pesar de tudo- comparti-la com o resto dos mortais e frequente com quem menos a precisa em esse momento.




O segundo motivo pelo que vejo uma perversidade quase infinita na expressão "o trabalho dignifica", vem do outro aspeto. Não é que em essa alienação de algo tão intimo da pessoa humana como é a sua consciência de dignidade, ao final nos encontremos com que essa dignidade se converte em algo exterior, um corpo estranho que ocasionalmente se cola a nossa pessoa e figura, e que migra por igual acaso. Não, o mais perverso não é que a nossa Dignidade já não seja nossa já, que já não seja como dizia Calderon do "Honor" algo que "solo es património de alma, y esta solo lo es de Dios", senão que de facto agora a nossa Dignidade resulta ter em realidade um proprietário, que nem é divino, nem somos desde logo nós.



Não é tão abstrato nem complicado de entender como aparentemente semelharia; é muito singelo: Se o próprio trabalho ou a ausência de ele tem a capacidade de "dar-nos" ou "quitar-nos" a Dignidade, igualmente quem tem a capacidade de dar-nos ou privar-nos esse trabalho, também a teria de concedermos ou negar-nos a nossa Dignidade.

gravado do século XVIII que reflite o trafego de escravo no Caribe

Se da assim uma curiosa inversão pela quem "vende", em esse eufemismo também perverso que é o termo "mercado laboral" (que diriam faz uns séculos se escutaram esta paradoxal expressão quando daquela havia trabalhadores que se vendiam fisicamente num Mercado nada metafórico, e aos que se lhes chamava escravos), a sua força de trabalho, parece estar vendendo com ela indefetivelmente a sua própria dignidade da que queda privado segundo os caprichos ou ciclos veleidoso de esse Mercado de Pessoas Trabalhantes e Dignidade Humanas, ou simplesmente do padrão de turno.



Não vejo muito, mais bem não vejo nenhuma, Dignidade na afirmação de que "O Trabalho Dignifica", mais bem penso que tal afirmação agride a própria ideia de Dignidade na sua mais intima cerna e degrada-a assim- Mesmo, deprida e maltrata o que de mais essencial há no próprio ser humano e convir-te a sua vida apenas em uma sucessão de momentos "triste, dura, tosca, e medicada" ao jeito de um Hobbesiano "Estado de Natureza" mas agora profundamente desnaturalizado e radicalmente inumano. Alguns me objetaram, que o homem, além da subsistência, necessita atividade, fazer coisas, ocupar-se, que isso estrutura seus propósitos e a sua vez com seus propósitos a sua vida. E é mais a isso continuara a seguido objetando-me -quae verborum inmoderatio!- se lhe chama "trabalhar". 




Chega a tal o ensimesmamento no axioma que aqui acima tenho criticado que mesmo nos costa entender ou sequer conceber qualquer atividade humana, se não a apercebemos a priori como se fora de facto uma forma mais de "trabalho". Confundimos a "ocupação" ou o "atividade" como o "trabalho", quando de facto nada há que afirme e apoie tal equivalência além na nossa perceção etnocêntrica e historicamente concreta, dogmaticamente acumulada no nosso sentido comum, de que isso é assim e sempre o foi. Temos mostrado acima, que isso não é absoluto certo.


Voltando ao exemplo antigo ninguém negara que Platão, Aristóteles, Cícero, o Plínio o Velho que nos ligaram uma extensa obra estiveram muito ocupados redigindo seus textos, ninguém diria desde logo que estiveram "desocupados" ou mão sobre mão, ninguém ainda mais se atreveria a qualifica-los de preguiçosos, nugalhaos, hoje diríamos que "trabalharam muito". 


O paradoxal é que eles próprio nunca entendiam essa atividade sua como "trabalho" e de feito argumentariam que se pela contra essa obra pudessem elaborar precisamente por estar isentos de todo trabalho e podiam abdicar-se ativamente ao seu Ócio puramente intelectual e não laboral. Pessoalmente eu frequentemente nunca estou tão ocupado ou ativo como quando estou de ferias, de facto as obrigas académicas-laborais muitas vezes me tem privado mais que outra coisa de tempo para a pesquisa propriamente dita.


Por favor, não confunda-mos estar "ocupados" "ativos" ou ter um "Ócio ativo" com trabalhar, se pensamos que trabalhamos mesmo quando não o fazemos pouca solução teremos nem agora nem num futuro. Tal vez já não a temos. Não confio muito ao respeito, o Ser Humano penso já esta perdido, inevitavelmente. 


Não. o Trabalho não dignifica, nunca dignificou, nunca o fará, nem pode faze-lo … não é a sua função, a sua função é como diz Aristóteles há uns quantos milénio apenas procurar o próprio necessariamente para a vida e ainda para a "Boa Vida" (fica para outro dia o que para o de estagira era "viver bem"). Não marchemos a busca nas afastadas Andrómenas em col do que, de facto, fica justo debaixo dos nossos próprio pés.


-Como complemento a esta pequena reflexão deixo embaixo o documentario "Ladrões de Tempo" que descreve as extremas formas de alienação e deshumanização as que tem chegado a nossa patológica obsessão com o "trabalho"

imagem inicial: pintura do artista ucraniano Denis Sarazhin