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quarta-feira, 10 de abril de 2024

O Assentamento de Must Farm - Livro

Must Farm pile-dwelling

   
Ballantyne, R., Cooper, A., Gibson, D., Knight, M., & Robinson Zeki, I. (2024): Must Farm pile-dwelling. Vol. 1-2.  McDonald Institute for Archaeological Research. Cambridge.  ISBN: 978-1-913344-17-7; 978-1-913344-15-3   DOI: 10.17863/CAM.106697; 10.17863/CAM.106698

Sinopse  
O assentamento sob pilares da Idade do Bronze Final em Must Farm é um dos sítios pré-históricos mais importantes e mais bem preservados escavados sistematicamente na Europa. O assentamento compreendia uma paliçada curva envolvendo cinco casas sobre palafitas erguidas acima de um canal de rio de água doce, na borda de uma das paisagens mais intensamente estudadas  da Idade do Bronze britãnica:  a Bacia Flag Fen.




Construída em meados do século IX a.C., a moradia foi engolida por um incêndio catastrófico menos de um ano após a construção, enviando os edifícios e o seu conteúdo rico em artefactos para as águas lentas abaixo. Uma combinação de fogo, água e soterramento rápido garantiu níveis extraordinários de preservação, enquanto a forma de colapso e a brevidade do assentamento deram aos restos estruturais e aos seus vibrantes conjuntos de materiais uma qualidade inusitada. 




Cada família tinha seu próprio inventário composto por tecidos, recipientes de madeira, cerâmica,ferramentas de bronze e restos dispersos de colares de contas de vidro. Os restos de comida incluíam ossos de animais selvagens e domésticos sacrificados, plantas e sementes carbonizadas e até mesmo resíduos queimados de comidas individuais.




Esta investigação abrangente e metodologicamente inovadora, que incorpora uma série de estudos científicos e colaborações entre os principais especialistas, fornece dados sem precedentes sobre a natureza da vida diária e da prática doméstica na sociedade da Idade do Bronze. Estes desafiam muitas expectativas sobre os mundos materiais que as pessoas habitavam, lançando uma nova luz sobre aspetos da arquitetura, abundância de materiais, hábitos alimentares, gestão de florestas, mudanças paisagísticas e vida em zonas húmidas. 


Os resultados coletivos são verdadeiramente inovadores para a Arqueologia de Zonas Húmidas e estudos mais amplos da Idade do Bronze. O Volume 1 apresenta uma síntese interpretativa temática do sítio, com foco na paisagem, arquitetura e ocupação, enquanto o Volume 2 oferece estudos aprofundados sobre a configuração do rio, construção, datação, cultura material e vestígios biológicos.


Must Farm pile-dwelling settlement Vol. 1  
Landscape, architecture and occupation PDF

Must Farm pile-dwelling settlement Vol. 
Specialist reports  PDF



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Mobilidade, Escravatura e Sacrifício no Neolítico


Recentemente foi publicado um artigo na revista Plos One no que se fazia revisão de um velho achado do neolítico escandinavo, o Homem de Vittrup. Os restos deste homem pré-histórico foram topadas em 1915 como resultado dos lavores de extração de turfa num pântano do Noroeste da Dinamarca. Junto aos fragmentos do crânio e alguns ossos do corpo apareceram também resto de bovídeos, um vaso cerâmico e uma clava de madeira. 



O analise do restos revela que o indivíduo era um varão de entre 30 e 40 que morreu pelo efeito de 8 golpes dados com um objeto contundente, muito possivelmente a clava topada próxima a ele, o qual junto com os restos animais permitem suster a hipótese de que sua morte teria sido resultado de um ritual de sacrifício, comparável ao dos conhecidos homens do pântano da pre- e proto-historia escandinava; em vez de causado por um ato de violência ocasional. Assim mesmo a datação radio carbónica, calibrada tendo em conta o efeito reservorio marinho próprio de populações com dieta íctica, situa ao homem de Vittrup entre o 3.900 e o 2.800  A.C, período adscrito a cultura neolítica do Vaso de Funil. 


O aspeto de mais interesse de este estudo recente está no re-estudo dos restos de este homem pré-histórico mediante as técnicas de análise isotópicas e paleogenómicas. Estas permitiram situar o lugar de origem do indivíduo muito longe de onde apareceu, numa região que poderia situar-se ou bem no norte da Noruega, ou sul da Suécia, zonas habitadas na altura por populações de caçadores-coletores alheias as populações de colonizadores agrícolas com origens genéticos na Anatólia, como a cultura do Vaso de Funil. O perfil genético concorda com isto mostrando a ausência de conexões genéticas com as populações do Vaso de Funil e sim com as populações mesolíticas escandinavas. 

Embora as análises isotópicas amostram um câmbio de localização que teria decorrido depois na infância ou pré-adolescência, entre os 9 ou 12 anos, do individuo de Vittrup, e uma mudança posterior a uma região menos fria, possivelmente a própria Dinamarca.  Assim mesmo se percebem divergências na dieta com respeito a esta etapa caçadora-recoletora, amostrando que a idade na que se produziu a morte a dieta do Homem de Vittrup era a mesma que a das populações neolíticas do Vaso de Funil. 



Para explicar os câmbios de habitat e forma de vida do indivíduo de Vittrup se prateiam dois cenários. No primeiro o Homem de Vittrup teria chegado a Dinamarca, tal vez, por uma assimilação cultural de populações caçadoras ao novo tipo de economia agrícola, e zonas mais nortenhas de Escandinávia. O qual concordaria com o cenário cultural do sul da Suecia nessa epoca.

"Na época do Homem de Vittrup, pessoas com ascendência da Anatólia habitavam toda a Dinamarca, bem como (pelo menos) as partes sul e sudoeste da Suécia ( Fig. 2 , pontos cinzentos). Nos séculos anteriores – durante o Neolítico Inferior local – esta população também esteve permanentemente presente mais a norte, na ilha de Gotland e nas zonas baixas da Península Escandinava, muito além de Estocolmo e do Fiorde de Oslo. Isso é evidenciado por achados de cultura material, como monumentos funerários megalíticos, assentamentos e depósitos de áreas húmidas com cerâmica em forma de funil ...

Assim, na época de Vittrup Man, o sul da Escandinávia era habitado por pelo menos três populações com diferentes economias e ancestrais genéticos: ao sul, grupos FBC com ascendência de agricultores europeus; ao norte, caçadores-coletores com ascendência mesolítica puramente local; e no meio, grupos de PWC caracterizados por ascendência mista de caçadores-coletores escandinavos e agricultores europeus. A composição genética desta última população revela que estiveram envolvidos contactos físicos estreitos entre grupos de caçadores-coletores e agricultores."

O próprio deslocamento desde a sua região natal por parte do Homem de Vittrup implicaria uma distância considerável, 75 kilómetros no caso da localização sueca, uns 100 se a local estivera na Noruega, e por tanto implicaria uma viagem marítima a grande escala, e contactos marítimos entre o neolítico danes e o resto das regiões nórdicas. Nestas relações poderiam tomar parte fatores de mobilidade como pudera ser o intercâmbio de matérias-primas líticas e outros produtos


Mas outro cenário possível e também compatível com o anterior seria atribuir deslocamento do homem de Vittrup durante a sua infância a circunstancias menos pacificas e amáveis. Em esta interpretação em troca de ser membro de uma comunidade mercantil de intermediários na troca de sílex assentada no Norte da Dinamarca, o home de Vittrup teria chegado a território danes ele mesmo como mercadoria, mão de obra escrava, já fora capturado, por populações do vaso de funil, entre grupos caçadores ou resultado de razias guerreiras entre as próprias populações caçadoras que detrairiam parte dos cativos para o intercâmbio com os seus sócios comerciais neolíticos. 


Esta hipótese é especialmente interessante tendo em conta que a idade de 9-12 anos em que o Homem de Vittrup se deslocou cara o sul. Os exemplos etnográficos de populações pouco complexas de agricultores a pequena escala ou caçadores que praticam a escravidão mostram um padrão coerente, com uma clara divisão de sexo e idade nos capturados: mulheres em idade fértil e meninos de ambos sexos que possam servir de mão de obra, ou futuras esposas e/ou concubinas. Assim o sujeito de Vittrup teria chegado como resultado de um ato violênto. 



O facto de esta morte vincular-se a um sacrifício pudera ser indicativo da "marginalidade" social dentro do grupo neolítico no que hipoteticamente seria integrado com um status servil, na linha do que Orlando Patterson sina-la ao definir a escravidão como uma forma "morte social" e do escravo como "socialmente morto" e, por tanto, permanentemente alheio a comunidade humana na que se ve inscrito forçadamente. 



A condição do escravo nas sociedades pouco complexas como as americanas estudadas por Santos Granero (aqui) varia profundamente desde sociedades nas que a integração do escravo é progressiva, e mesmo é favorecida através da adoção ou matrimonio, ou tem uma dimensão geracional, terminando os descendentes dos escravos sendo reconhecidos como outro mais da comunidade, a outros casos nos que se marca de jeito indelével a "alteridade" radical entre o escravo e o livre, mesmo com a interdição de qualquer contacto matrimonial ou sexual entre eles.


Nestes casos de "segregação" permanente nos de facto o escravo permanece invariavelmente, por tanto, no seu estado de "morte social", isto o faz especialmente adequado para o sacrifício como sucede no caso do Homem de Vittrup. 


Ambas as duas explicações podem ser argumentadas com os dados disponíveis: ou bem o sujeito sacrificado em Vittrup seria parte de um comunidade mercantil do Norte de Jutlândia e capturado como prisioneiro e morto recentemente, ou bem teria chegado como mão de obra escrava no comércio a longa distância nórdica, e já na idade adulta, cumprido o seu ciclo produtivo pleno, escolhido sem mais como vítima para o sacrifício que teve lugar no pântano de Vittrup.
  

Artigo: 

Fischer A, Sjögren K-G, Jensen TZT, Jørkov ML, Lysdahl P, Vimala T, et al. (2024): "Vittrup Man–The life-history of a genetic foreigner in Neolithic Denmark" PLoS ONE Nº 19/2: e0297032. DOI: 10.1371/journal.pone.0297032

Bibliografia complementar:

Patterson, O. (1982): Slavery and social death: a comparative study. Harvard University Press. Cambridge, Massachusets.

Santos-Granero, F. (2009): Vital Enemies: Slavery, Predation, and the Amerindian Political Economy of Life. University of Texas Press.  Austin.


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Um Sacrificio no Pântano



Os ossos de uma possível vítima de um sacrifício humano durante o Neolítico foram encontrados em um pântano 
em Egedal na Dinamarca


 
Arqueólogos do Museu de Roskilde (ROMU) Descobriram os restos de um esqueleto antigo corresponde ao que soe chamar “corpos do pântano” na Dinamarca perto dos restos de um machado de lítico e vários ossos de animais e cerâmicas, pistas que sugerem que essa pessoa foi sacrificada ritualmente há mais de 5.000 anos.

Pouco se sabe até agora sobre a suposta vítima, inclusive o sexo da pessoa e a idade na hora da morte. Mas os pesquisadores acham que o corpo foi deliberadamente colocado no pântano durante o Neolítico. "Essa é a fase inicial do Neolítico dinamarquês", disse o diretor da escavação Emil Struve, arqueólogo e conservador do ROMU. "Sabemos que as tradições sobre sacrifícios humanos datam de tão longe como isto, temos outros exemplos disso."

Dezenas de corpos dos chamados pântanos foram encontrados em todo o Noroeste da Europa, particularmente na Dinamarca, Alemanha, Holanda e Grã-Bretanha, onde sacrifícios humanos em pântanos parecem ter persistido por vários milhares de anos:“Em nossa área aqui, temos vários corpos de pântano diferentes” -disse Struve- "É uma tradição contínua que remonta ao Neolítico."

Ossos antigos

A equipe arqueológica da ROMU encontrou o último conjunto de ossos em outubro, antes da construção de um conjunto habitacional. O local, que agora foi drenado, era um pântano perto da cidade de Stenløse, na grande ilha da Zelândia e a noroeste da capital dinamarquesa, Copenhague. A lei dinamarquesa exige que os arqueólogos examinem todos os terrenos antes de serem construídos, e os primeiros ossos do corpo do pântano de Stenløse foram encontrados durante uma escavação teste no local, disse Struve.

Os arqueólogos vão agora escavar completamente o local na primavera, quando o solo se desgele após o inverno. As escavações iniciais revelaram os restos dos ossos de uma perna, uma pélvis e parte de um maxilar inferior com alguns dentes ainda presos. Outras partes do corpo possivelmente quedaram fora da camada protetora de turfa do pântano e não foram preservadas, observou.

Struve espera que o sexo do corpo possa ser determinado com base na pelve e que o desgaste dos dentes possa indicar a idade do indivíduo. Além disso, os dentes podem prover restos de DNA antigo, o qual pode revelar ainda mais sobre a identidade da pessoa.

Os Corpos do pântano

Struve disse que a cabeça do machado de sílex encontrada perto do corpo não foi polida depois de feita e pode nunca ter sido usada, então parece provável que isso também tenha sido uma oferenda deliberada. O estilo da machada permite situar a sua cronologia entorno a 3600 a.C.

Pantano de Grøftebjerg onde o home de Kolbjerg foi topado

O corpo do pântano mais antigo do mundo, conhecido como Homem de Koelbjerg, foi encontrado na Dinamarca na década de 1940 e pode datar de 10.000 anos atrás, enquanto outros datam da Idade do Ferro, de cerca de 2.500 anos atrás. Um dos corpos de pântano mais famosos e mais bem preservados é o do Homem de Tollund, que foi topado na Península da Jutlândia (Dinamarca) no 1950 e acredita-se que foi sido sacrificado por volta do 400 a.C. Alguns dos corpos do pântano parecem ter sido vítimas de acidentes que se afogaram depois de cair na água, mas os arqueólogos acham que a maioria foi morta deliberadamente, possivelmente como sacrifícios humanos em tempos de fome ou outros desastres.

Home de Tollund

Miranda Aldhouse-Green, professora emérita de história, arqueologia e religião na Universidade de Cardiff, autora de vários livros sobre o tema entre eles "Bodies Uncovered: Solving Europe's Ancient Mystery" (2015), disse que os povos antigos provavelmente estavam bem cientes de que os pântanos poderiam preservar os corpos: "Se você colocasse um corpo no pântano, ele não se decomporia - ficaria entre os mundos dos vivos e dos mortos".

Fonte: Live Science