quarta-feira, 10 de abril de 2024
O Assentamento de Must Farm - Livro
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024
Mobilidade, Escravatura e Sacrifício no Neolítico
Recentemente foi publicado um artigo na revista Plos One no que se fazia revisão de um velho achado do neolítico escandinavo, o Homem de Vittrup. Os restos deste homem pré-histórico foram topadas em 1915 como resultado dos lavores de extração de turfa num pântano do Noroeste da Dinamarca. Junto aos fragmentos do crânio e alguns ossos do corpo apareceram também resto de bovídeos, um vaso cerâmico e uma clava de madeira.
O analise do restos revela que o indivíduo era um varão de entre 30 e 40 que morreu pelo efeito de 8 golpes dados com um objeto contundente, muito possivelmente a clava topada próxima a ele, o qual junto com os restos animais permitem suster a hipótese de que sua morte teria sido resultado de um ritual de sacrifício, comparável ao dos conhecidos homens do pântano da pre- e proto-historia escandinava; em vez de causado por um ato de violência ocasional. Assim mesmo a datação radio carbónica, calibrada tendo em conta o efeito reservorio marinho próprio de populações com dieta íctica, situa ao homem de Vittrup entre o 3.900 e o 2.800 A.C, período adscrito a cultura neolítica do Vaso de Funil.
O aspeto de mais interesse de este estudo recente está no re-estudo dos restos de este homem pré-histórico mediante as técnicas de análise isotópicas e paleogenómicas. Estas permitiram situar o lugar de origem do indivíduo muito longe de onde apareceu, numa região que poderia situar-se ou bem no norte da Noruega, ou sul da Suécia, zonas habitadas na altura por populações de caçadores-coletores alheias as populações de colonizadores agrícolas com origens genéticos na Anatólia, como a cultura do Vaso de Funil. O perfil genético concorda com isto mostrando a ausência de conexões genéticas com as populações do Vaso de Funil e sim com as populações mesolíticas escandinavas.
Embora as análises isotópicas amostram um câmbio de localização que teria decorrido depois na infância ou pré-adolescência, entre os 9 ou 12 anos, do individuo de Vittrup, e uma mudança posterior a uma região menos fria, possivelmente a própria Dinamarca. Assim mesmo se percebem divergências na dieta com respeito a esta etapa caçadora-recoletora, amostrando que a idade na que se produziu a morte a dieta do Homem de Vittrup era a mesma que a das populações neolíticas do Vaso de Funil.
Para explicar os câmbios de habitat e forma de vida do indivíduo de Vittrup se prateiam dois cenários. No primeiro o Homem de Vittrup teria chegado a Dinamarca, tal vez, por uma assimilação cultural de populações caçadoras ao novo tipo de economia agrícola, e zonas mais nortenhas de Escandinávia. O qual concordaria com o cenário cultural do sul da Suecia nessa epoca.
"Na época do
Homem de Vittrup, pessoas com ascendência da Anatólia habitavam toda a
Dinamarca, bem como (pelo menos) as partes sul e sudoeste da Suécia ( Fig. 2 ,
pontos cinzentos). Nos séculos anteriores – durante o Neolítico Inferior local
– esta população também esteve permanentemente presente mais a norte, na ilha
de Gotland e nas zonas baixas da Península Escandinava, muito além de Estocolmo
e do Fiorde de Oslo. Isso é evidenciado por achados de cultura material, como
monumentos funerários megalíticos, assentamentos e depósitos de áreas húmidas
com cerâmica em forma de funil ...
Assim, na época de Vittrup Man, o sul da Escandinávia era habitado por pelo menos três populações com diferentes economias e ancestrais genéticos: ao sul, grupos FBC com ascendência de agricultores europeus; ao norte, caçadores-coletores com ascendência mesolítica puramente local; e no meio, grupos de PWC caracterizados por ascendência mista de caçadores-coletores escandinavos e agricultores europeus. A composição genética desta última população revela que estiveram envolvidos contactos físicos estreitos entre grupos de caçadores-coletores e agricultores."
O próprio deslocamento desde a sua região natal por parte do Homem de Vittrup implicaria uma distância considerável, 75 kilómetros no caso da localização sueca, uns 100 se a local estivera na Noruega, e por tanto implicaria uma viagem marítima a grande escala, e contactos marítimos entre o neolítico danes e o resto das regiões nórdicas. Nestas relações poderiam tomar parte fatores de mobilidade como pudera ser o intercâmbio de matérias-primas líticas e outros produtos
Mas outro cenário possível e também compatível com o anterior seria atribuir deslocamento do homem de Vittrup durante a sua infância a circunstancias menos pacificas e amáveis. Em esta interpretação em troca de ser membro de uma comunidade mercantil de intermediários na troca de sílex assentada no Norte da Dinamarca, o home de Vittrup teria chegado a território danes ele mesmo como mercadoria, mão de obra escrava, já fora capturado, por populações do vaso de funil, entre grupos caçadores ou resultado de razias guerreiras entre as próprias populações caçadoras que detrairiam parte dos cativos para o intercâmbio com os seus sócios comerciais neolíticos.
Esta hipótese é especialmente interessante tendo em conta que a idade de 9-12 anos em que o Homem de Vittrup se deslocou cara o sul. Os exemplos etnográficos de populações pouco complexas de agricultores a pequena escala ou caçadores que praticam a escravidão mostram um padrão coerente, com uma clara divisão de sexo e idade nos capturados: mulheres em idade fértil e meninos de ambos sexos que possam servir de mão de obra, ou futuras esposas e/ou concubinas. Assim o sujeito de Vittrup teria chegado como resultado de um ato violênto.
O facto de esta morte vincular-se a um sacrifício pudera ser indicativo da "marginalidade" social dentro do grupo neolítico no que hipoteticamente seria integrado com um status servil, na linha do que Orlando Patterson sina-la ao definir a escravidão como uma forma "morte social" e do escravo como "socialmente morto" e, por tanto, permanentemente alheio a comunidade humana na que se ve inscrito forçadamente.
A condição do escravo nas sociedades pouco complexas como as americanas estudadas por Santos Granero (aqui) varia profundamente desde sociedades nas que a integração do escravo é progressiva, e mesmo é favorecida através da adoção ou matrimonio, ou tem uma dimensão geracional, terminando os descendentes dos escravos sendo reconhecidos como outro mais da comunidade, a outros casos nos que se marca de jeito indelével a "alteridade" radical entre o escravo e o livre, mesmo com a interdição de qualquer contacto matrimonial ou sexual entre eles.
Artigo:
Bibliografia complementar:
Patterson, O. (1982): Slavery and social death: a comparative study. Harvard University Press. Cambridge, Massachusets.
terça-feira, 27 de dezembro de 2022
Um Sacrificio no Pântano
em Egedal na Dinamarca
Pouco se sabe até agora sobre a suposta vítima, inclusive o sexo da pessoa e a idade na hora da morte. Mas os pesquisadores acham que o corpo foi deliberadamente colocado no pântano durante o Neolítico. "Essa é a fase inicial do Neolítico dinamarquês", disse o diretor da escavação Emil Struve, arqueólogo e conservador do ROMU. "Sabemos que as tradições sobre sacrifícios humanos datam de tão longe como isto, temos outros exemplos disso."
Dezenas de corpos dos chamados pântanos foram encontrados em todo o Noroeste da Europa, particularmente na Dinamarca, Alemanha, Holanda e Grã-Bretanha, onde sacrifícios humanos em pântanos parecem ter persistido por vários milhares de anos:“Em nossa área aqui, temos vários corpos de pântano diferentes” -disse Struve- "É uma tradição contínua que remonta ao Neolítico."
Ossos antigos
A equipe arqueológica da ROMU encontrou o último conjunto de ossos em outubro, antes da construção de um conjunto habitacional. O local, que agora foi drenado, era um pântano perto da cidade de Stenløse, na grande ilha da Zelândia e a noroeste da capital dinamarquesa, Copenhague. A lei dinamarquesa exige que os arqueólogos examinem todos os terrenos antes de serem construídos, e os primeiros ossos do corpo do pântano de Stenløse foram encontrados durante uma escavação teste no local, disse Struve.
Os arqueólogos vão agora escavar completamente o local na primavera, quando o solo se desgele após o inverno. As escavações iniciais revelaram os restos dos ossos de uma perna, uma pélvis e parte de um maxilar inferior com alguns dentes ainda presos. Outras partes do corpo possivelmente quedaram fora da camada protetora de turfa do pântano e não foram preservadas, observou.
Struve espera que o sexo do corpo possa ser determinado com base na pelve e que o desgaste dos dentes possa indicar a idade do indivíduo. Além disso, os dentes podem prover restos de DNA antigo, o qual pode revelar ainda mais sobre a identidade da pessoa.
Struve disse que a cabeça do machado de sílex encontrada perto do corpo não foi polida depois de feita e pode nunca ter sido usada, então parece provável que isso também tenha sido uma oferenda deliberada. O estilo da machada permite situar a sua cronologia entorno a 3600 a.C.
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Fonte: Live Science