MADRIDER MITTEILUNGEN
Ir ao número da revista: Madrider Mitteilungen Nº 66 - 2025
Arqueología, Etnohistoria e Etnología
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Faz alguns anos que este Archeoten que escreve pranteara que o conhecido fenómeno dos depósitos de armas durante a proto-história europeia podia ser explicado, ao menos em parte (isto é nos casos que estão formados por armas que se atiram ou possam ser atiradas) como parte de um ritual profusamente testemunhado na documentação antiga e medieval europeia, o lançamento de um arma para delimitar ou tomar posse de um território ou extensão de terra.
ponta de lança de Dozom em base a foto e debuxos de J. Suarez Otero
Daquela eu sugeri isso como mera possibilidade, em base a esses exemplos etno-históricos, tomando como base o facto de que as outras duas hipóteses tradicionais destes depositos armamentisticos (a votiva e a funerária) também foram formuladas em base, a sua presença em fontes de época histórica (tanto clássicas como medievais), Em realidade, não tinha daquela muita convicção de poder afinar mais a aplicabilidade arqueológica como modelo interpretativo desta sugerência, mas para a minha grata surpresa no 2014 o nosso colega José Suarez Otero num magnífico artigo sobre a ponta de lança Dozon mostrou como, a partir de uma detalhada análise tipológica e do contexto geográfico, podia sustentar a hipótese delimitadora para esta peça concreto.
Comento isto para explicar porque inevitalmente ao ler ontem no último número da revista Archeologické Rozhledy o artigo do arqueólogo János Gábor Tarbay sobre duas lanças topadas topadas no sito fortificado de Velem-Szent Vid (Hungria), a minha mente levou-me inevitavelmente de novo a pensar nas minhas pesquisas anteriores sobre os rituais bélico-jurídicos. Estas duas pontas de lança apareceram durante as escavações do jazigo cravadas verticalmente no pavimento do chão de uma casa do período hallstáttico.
as duas pontas de lança de Velem-Szent Vid (sem escala)
A interpretação que oferece o autor do artigo para este peculiar achado é a seguinte: "Provavelmente eram montadas em poços e podiam ser expostas dentro de uma casa ou numa área habitada. As duas armas podem constituir um tesouro duplo reversível que acabou por ser abandonado num único ponto. Alternativamente, eles poderiam ser vistos como um conjunto de troféus saqueados de inimigos derrotados, servindo como um lembrete de uma batalha triunfante". Sem deixar de considerar esta como uma hipótese factível, gostar-me-ia amostrar que sejam possíveis outras interpretações como parte de alguma atividade ritual já seja fundacional do edificio ou de outro tipo em base a hipótese intuitiva que eu mesmo asinalara faz anos.
fotografia do achado in situ das duas pontas de lança de Velem-Szent Vid
Desde logo, o facto que as lanças foram depositadas verticalmente penetrando no pavimento, em vez de ser pousadas horizontalmente, não pode ser mero resultado do acaso, senão que parece uma ação deliberada dentro dos próprios tramites da deposição. Um caso talvez acaido, como analogia, é o do que refere Servio sobre o ritual prévio a fundação de um acampamento romano. Cita o gramático latino um texto perdido de Varrão no que se diz que o general (dux) encarregado do comando do exército devia, previamente a construção, atirar ele mesmo uma lança sobre o prédio do solo inimigo onde se houvesse de situar a fortificação, convertendo assim ficticiamente aquele terreno em "território romano". Texto que já puséramos em relação no nosso contributo do 2018 com os rituais de toma de posse-apropiação territorial.
Marco Terencio Varrão, gravado de André Thevet, 1584
Parece lógico que nos trâmites anteriores a construção de um "assentamento" se incluísse um ato de apropriação do térreo, máxime se como neste caso, estava situado em território alheio e inimigo. Embora pode que este caráter "alheio" poda ser levado mais ala da pura hostilidade bélica. No nosso último artigo sobre o tema vimos, de facto, como no "Livro da Colonização" de Islandia (Landnámabók) estes ritos de atirar armas se vinculavam a uma necessidade mais profunda ainda que a da mera apropriação fáctica dum prédio, como era a de converter esse território novo, e até daquela inabitado; a priori inóspito e hostil em habitável e placido para o colono,"domesticando-o", em certa forma a terra, ao fazê-la passar, em termos levi-straussianos, da "Natureza" a "Cultura", através dum ato mimético de conquista.
um dos manuscritos do Landnámabók, 1ª metade do século XIV
Poderia ser isto valido para o caso da possível fundação ou refeição de um edifício, igual que dum assentamento em geral?. Pelo momento, não é que o elenco de possíveis paralelos para sustentar esta hipótese para o caso de Velem-Szent Vid, seja abundante precisamente. De facto o único caso que até onde sei pudera, de forma intuitiva, relacionar-se com algo similar é o de uma ponta de lança do Bronze Final topada justo debaixo das fiadas dos muros do Castro de Penalba (Campolameiro, Pontevedra), pelo que até agora não diremos que isto seja mais que uma especulação, sugerente e possível, e mesmo digna de ter em conta ao melhor, mas especulação ao cabo.
muralhas do castro de Penalba e ponta de lança tipo Hio topada durante as excavações
Por suposto há outros paralelos e interpretações mais exóticas, como o ritual matrimonial dos Nbembu da África que incluía entre outras coisas o cravar o futuro marido duas pontas de seta no lar do pai da noiva; forma de toma de posse agora não territorial senão parental (comparável ao doriktetos aner/giné -"homem/mulher ganhados pela lança"- dos textos homéricos??).
Desde logo não podemos assegurar tampouco que esta peculiar forma de "caçar" ritualmente a noiva a jeito de Paleo-Cupido, fora tampouco a que este detrás da parelha de pontas de lança de Velem-Szent Vid, por muito que uma lança também aparecera, por exemplo, mas de jeito totalmente diverso durante o ritual matrimonial romano (a celebre hasta caelibaris).
Uma parelha de lanças metaforicamente vinculadas a uma parelha fundacional de uma familiar e a morada onde esta residirá é desde logo uma associação bem possível, mas que não deixa de estar nesse plano hipotético da imaginação histórica. Seja como for, o que é curioso é, de certo, comprovar como se repete, mas também se diversifica, a combinatória destes rituais jurídicos ao longo do tempo e do espaço.
Por certo, sobre tudo isto tenho pendente uma atualização. in progress desde faz mais tempo do que gostaria, do meu artigo de 2018 na que incluo novo material. Talvez, seja tempo de deixar de procrastinar, colher o teclado e voltar de novo a atirar ainda um pouco mais longe a lança.
Bibliografia:
Alvárez Nuñez, A. (1986): Castro de Penalba, Campo Lameiro (Pontevedra): Campaña 1983-1986. Arqueoloxia Memorias. Junta de Galiza. Santiago de Compostela PDF
Suarez Otero J. (2014): "Unha punta de lanza do Bronce Final en Dozón (Pontevedra), Armas e ritos no Bronce Atlántico do Norocste Ibérico" Boletin Auriense N" 44 pp. 183-216
Aqui abaixo temos o pormenor de uma obra de arte religiosso medieval uma xilogravura colorida à mão mostrando o Cristo e as Armas de Paixão, impressa na Alemanha por volta de 1465-1470 e agora no Art Institute de Chicago
Por suposto em esta representação das Armas da Paixão o modelo da Lança da Paixão não podia ser outro que a Heilige Lanze, hoje no Museu Histórico de Viena é que foi durante um bom tempo parte das insígnias oficiais do Imperador do Sacro Império Romano Germânico junto com o Manto (Heilige Mantel) e o Orde (Reichsapfel literalmente "maça do Império")
Os reis de correntes levavam na mão a espada o imperador por regula geral (entenda-se que isto era um autentico armatoste) a santa lança -faltaria mais!- ai estão alguma que uma outra imagem de algum imperador portando orgulhosamente a lança sagrada no trono imperial como por exemplo o Enrique II
Em realidade a Heilige Lanze é certamente uma "relíquia" mas arqueológica, pois era um lança de época carolíngia, obviamente com sucessivas reparações e refeições (mais ai se ve ainda bem essa cruzeta tão típica das lança de esse período) que foi sucessivamente identificada com relíquia cristã com distintas atribuições: lança de Teodósio, de São Maurício e finalmente com a Lança de Longinos própria como queda refletido na xilogravura de acima.
No fundo isto de que os reis portem como arma insígnia do poder temporal uma lança intuo que vem de uma inveterada tradição germânica que estudara faz tempo de passada em um artigo ("Tácito, Germania 13.1. Armas, Jóvenes y Ritos de Paso. Valores Simbólicos de la Guerra en un Ritual Germano") e com algum caso de época franca de nomeamento como sucessor de algum príncipe pela entrega de uma lança.
Houve um tempo em que mesmo lhe dera a volta a fazer um artigo conectando com isto a uma serie de moedas suevas nas que aparecia uma lança (na cruz) e as vezes uma ponta de lança na outra faze no meio a legenda correspondente. Tinha daquela a intuição de que aqui havia não apenas uma imitação da iconografia clássica do imperador vitorioso mas também possivelmente um fusão com a tradição germânica da lança como elemento simbólico, mas como muitos outros projetos esse artigo quedou em stand by sine die, que lhe vamos fazer um a parte de "obra" tem "vida" e esta te leva não sempre por onde projetaras antes, e ai segue congelado.
Algum dia terei que voltar sobre este pequeno tema -e outros- de Rechstarchäologie.