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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Artesania e o Ideal da Soberania - Livro

Craft and the Kingly Ideal

Mary W. Helms, M. W. (1993): Craft and the Kingly Ideal. Art, trade, and power. University of Nevada Press. Austin ISBN: 978-0-292-75823-0 DOI: 10.7560/730748

Sinopse
Nas antigas culturas mediterrâneas, acreditava-se que os diamantes conferiam invencibilidade aos seus donos. Na cultura contemporânea dos Estados Unidos, acredita-se que um carro de luxo de fabricação estrangeira dá status e prestígio ao seu dono. De onde vêm essas crenças?


Neste estudo sobre produção artesanal e comércio de longa distância em sociedades tradicionais e não industriais, Mary W. Helms explora o poder atribuído a objetos que são produzidos por artesãos habilidosos e/ou vêm de "longe". 



Ela argumenta que o artesanato de qualidade e o comércio de longa distância, ambos mais disponíveis para elites poderosas do que para pessoas comuns, são meios de criar ou adquirir objetos tangíveis que incorporam poderes e energias intangíveis dos reinos cosmológicos de deuses, ancestrais ou heróis. Por meio dos objetos, essas qualidades tornam-se disponíveis para a sociedade humana e conferem honra e poder a seus possuidores.


A nova abordagem de Helms equipara comércio com arte e enfatiza aquisição em vez de distribuição. Ela rejeita a separação ocidental clássica entre economia e estética e oferece um novo paradigma para entender sociedades tradicionais que será de interesse de todos os antropólogos e arqueólogos.

INDEX


Descarregar o livro em: Craft and the Kingly Ideal

sábado, 18 de maio de 2024

Trilhos na Pré-história da Grecia


O trenó/trilho debulhador ou tribulum representa uma importante inovação da tecnologia agrícolas. que permitiou o processamento de maiores quantidades de cereal e por tanto a um aumento produção agrícola. Até agora o uso do trilho fora atestado no Neolítico Superior/Calcolítico e  início da Idade do Bronze, tanto no sudoeste da Ásia quanto na Europa. Na zona mediterrânica, a sua utilização durou até há poucas décadas. 


No entanto, um artigo publicado recentemente tem confirmado o uso do trenó em Grécia já desde os inícios do próprio Neolítico. O estudo parte dos traços de desgaste em microlítos de jazigos do Neolítico Inferior e Medio  como Achilleion, Achilleion, Platia Magoula Zarkou, Revenia Korinos, Paliambela Kolindros, que permitiu observar um padrão semelhantes aos topados nas folhas líticas de trilhos de contextos etnográficos




As descobertas do uso de trenós já no 6.500 A,C, lançam luz sobre a difusão e evolução e transmissão dos sistemas agrícolas neolíticos do Oriente Próximo para a Europa, sugerindo uma interação complexa de transferência tecnológica, adaptação a novos ambientes e fatores socioeconómicos no desenvolvimento agrícola 



Deixamos de passo aqui pelo seu interesse etnográfico um pequeno documentário sobre a labor agrícola da trilha do grão sacada da interessante canal de youtube de Eugenio Moresma MolinerEugenio Moresma Moliner
 

Artigo

N. Mazzucco a, J.J. Ibáñez b, P. Anderson c, K. Kotsakis d, A. Kita d, F. Adaktylou e, J.F. Gibaja f, (2024) "Use-wear evidence for the use of threshing sledges in Neolithic Greece" Journal of Archaeological Science: Reports Nº 56  DOI:: 10.1016/j.jasrep.2024.104579


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Pequenos "Indicios" do Passado

Acaba-se de publicar o achádego de âmbar báltico mais antigo da Europa Ocidental, datado no 4 Milénio em pleno Neolítico, e 1000 anos anterior ao que até agora era objeto mais antigo de esta resina fóssil (já de época campaniforme) ... e onde é que apareceu, pois num local tão longe na sua zona de origem como o Noreste da Península Ibérica no jazigo de Cova del Frade (Matadepera, Barcelona)


Em concreto, pequena conta de âmbar apareceu numa série de enterramentos dentro da caverna em níveis avançados do neolítico. Para a mesma cronologia se vem é certo que existe âmbar datado anteriormente -entre o 4300 - 4000 A.C- nos Países Baixos como se destaca numa conversa no twitter de um dos autores (aqui), neste caso se trata de material local do Mar do Norte ou Alemanha


Obviamente, como sempre, nestas questões o mais interessantes não é quem o tem mais antigo, mais grande (ou pequeno, as vezes a miniatura também é um grau) melhor, ou "mais melhor", senão o indício que nos oferece de contactos a muito longa distância, e o que isso implica no plano social e simbólico: Quanta rede de troca, economia do dom, interrelação pessoais tecidas, quanta instituição, ... quanta vida!, há aqui. Indicio que ao ser conectado e contextualizado com outros indícios. Como sintetizam os perfeitamente os autores do artigo:

"Objetos feitos de matérias-primas “exóticas” são elementos-chave da cultura material arqueológica. Do ponto de vista da produção, podem informar sobre comércio e intercâmbio, mobilidade e organização artesanal; os seus padrões de consumo estão frequentemente ligados a questões de estatuto social, identidade e género.

As redes culturais alargadas foram tão fundamentais no passado como o são no presente. Especificamente, as redes comerciais de longa distância poderiam permitir o acesso privilegiado ao conhecimento, às tecnologias, aos objetos e às relações sociais. Da mesma forma, a disponibilidade restrita de determinados materiais poderia ter gerado prestígio e outras formas de diferenciação social. ... É, portanto, importante considerar como o comércio de longa distância e o exotismo serviram como recursos simbólicos"

A Arqueologia se assenta não em outra coisa senão nesse "Paradigma Indiciário", e em esse sentido a partilha essa estranha virtude com a Micro-História ao jeito de Ginzburg, de fazer -parafraseando livremente a cantiga popular- falar ("cantar") tanto a uma coisa tão pequena. 

Para mais informação sobre este pequeno grande achádego, seu enquadramento e contexto remetemos aos leitores ao artigo original de Nature, saído justo hoje 
    

Artigo

Murillo-Barroso, M., Cólliga, A.M. & Martinón-Torres, M. (2023): "The earliest Baltic amber in Western Europe" Sci Rep 13, 14250   DOI: 10.1038/s41598-023-41293-0

   

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Palavras e Coisas: Mãos, Aneis e Simbolo Juridico

Faz tempo já faláramos do simbolismo das mãos e do simbolismo jurídico dextrarum iunctio (vid. postagem aqui) entre eles o seu uso como símbolo matrimonial que se faz pressente em anéis como os que aqui temos. 

Dois anéis bizantinos de ouro com um camafeu um com um pedra ágata e o outro do que pudera ser pasta vítrea o outra pedra semipreciosa (não posso mais precisar), datados circa do século V  A.C. no anel de acima no gesto das mãos apertadas (dextrarum iunctio), a mão de esquerda que deveria corresponder a feminina usa uma pulseira, no de abaixo é mais difícil precisar se ambas mãos destras levam pulseira ou é o borde da manga da vestimenta dos contraentes. 

Embaixo nos dois casos figura uma inscrição grega abaixo com a palavra OMONÓIA isto é "Concórdia", referindo a concórdia matrimonial que se espera dos dois esposos ao longo da sua vida em comum. Isto qual faz que o ato de unir as mãos apareça frequentemente na iconografia dos sepulcros fúnebres explicando o ideal de uma convivência matrimonial plácida dentro dos parâmetros da moralidade greco-romana a través do gesto matrimonial do casal, que em ocasiões é representados junto aos filhos havidos durante o matrimonio. 





sábado, 3 de dezembro de 2022

Mãos entre as tenebrosas Águas


"Quando o lago da minha mente, ininterrupto pelos remos, se erga placidamente e logo afunda numa oleosa sonolência.  Isso será optimo" (The Waves)



As grandes massas de água, mares, rios especialmente se se encontram fechadas e em terra, como as lagoas têm sido alvo de lendas e tradições ao longo de toda a história da humanidade, desde tradições etiológicas que explicam a formação e origem de os elementos lacunares, até aquelas que imaginam ou creem ver monstros, gentes, ou estranhos restos de antigos cataclismos, cidades submersas das que ainda algumas noites se escutam os ruidos cotidiano : o cantar dos galos o sino da igreja, o se apercevem suas imprecissas nebulosas formas no escuro de esses espelhos aquáticos. Porem debuxava em um curto relato as profundidades do lago como um poço insondavel no qual se acovilha ameaçante o mais fundo e escuro ser próprio (subconsciente) de quem vê seu rosto refletido ou turbado pelo tremor de ondas nas tenebrosas águas.

Os naufrágios, como as terras naufragas, por rações obvias tem sido objeto frequente de este tipo de tradições lendárias, que de cote aboiam entre o ficção, o mitologico e a experiente recordo de restos semiocultos baixo o aquático meio, construções palafíticas, postes apenas de embarcadoiros, espólios de barcos de muito diverso tipologia e condição que as vezes a mareia ou um temporal descobre baixo a área da praia ou algum pescador perceve imprecisos baixo a tona lacustre

Em 1446 um jovem cardinal da nobre família Colonna, que daquela tinha colocado seu tio como Pontífice em Roma (Martinho V), animado pelas tradições transmitidas pelos pescadores do lugar de que em ocasiões se podiam ver as madeiras meio pobres de um grande barco lá no fundo do lago de Nemi. Prospeto Colonna que assim se chamava o moço zarpou ate Nemi na companhia de um dos mais importantes humanistas da época Alberti. 

retrato de Leão Baptista Alberti, na Galeria dos Uffici de Florência

Literato, filosofo, arquiteto, entre seu ao tempo que alto funcionário mesmo da administração papal, os que gostam da arte clássica e das seus avatares na idade Moderna, e mesmo nos tocou alguma vez lecionar sobre essas temáticas, sabemos bem que era esse Leon Baptista Alberti. 

E lá entre as águas os dois com seu sequito puderam distinguir baixo a água um extenso palimpsesto de madeiras semelhantes a longas traves. Prospero ordenou seus criados aginha recuperar algum bocadinho de aquele tesouro e assim atiraram cordas rematadas em afiados ganchos nas frias águas do lago tendando prender no esforço algum resto de pau, mas foi infrutuoso tudo.


Não seria ate o 1535 que de novo alguém tentara o intento, o inventor Guiglielmo de Lorena e seu parceiro Francesco de Marchi afrontaram a possibilidade de investigar aquele espólio do Lago Nemi valendo-se da tecnologia. 

Retrato de Francesco De Marchi, num gravado conservado no Rijksmuseum de Amsterdam

Eles desenharam uma campa de mergulho com a que poder descender a profundidade dos restos. Estes pioneiros experimentais do mergulho baixaram assim e viram ante seus olhos uma estrutura muito mais grande do que esperavam e puderam imaginar topar naquele pequeno lago ao pé das montanhas 

Distintos sistemas de mergulho: anonimo do s. XV British Library; anonimo s. XVI Florência Firenze, Biblioteca Nazionale Centrale; reconstrução do sino de mergulho Lorena e Marchi feita por Malffati

Lá repousava um enorme barco de madeira. Entre a escuridão, quase a tentas pescaram entre a lama alguma peças, bronzes e viram fragmentos de estatuas e colunas estradas em confusão pelo fundo misturadas com os restos do navio. De Marchi reflectiou no livro II da seu tratado Della architettura militare a sua experiencia com o barco de Nemi assim com  o aparelho que utilizaram para aquelas suas pesquisas

Gorgoneion de bronze pertencente a um dos navios de Nemi

No século XIX que o interesse pelo barco fantasma de Nemi volvera refrotar. Em  1827 Anesio Fusconi tentou recuperar novas peça construindo uma enorme plataforma flutuante desde a que poder mergulhar um sino estanco baseado no modelo desenrolado por Edmund Halley no século XVII. 

O sino de mergulho de Halley segundo uma ilutraçao da obra de Louis Figuier Les merveilles de la science (1870)

Fusconi utilizou esta  tecnologia tentando chegar ao naufrágio mas sem ter sucessoo. Sem certeza plena de que os navios pertenciam à antiguidade nem da natureza dos restos, salvo as descrições de De Marchi, empeçou a difundiu-se a ideia de que o material já recuperado devia pertencer não a um nave senão formar parte do antigo templo de Diana ou famosa vila de César referida pelo historiador Suetónio, como senão explicar as referencias a estatuas e colunas?.

Desenho da plataforma e o sino de mergulho de A. Fusconi baseiada no principio do Sino de Halley

O estudioso Eliseo Borghi, obteve licença do Ministério da Educação em 1895 para principiar uma analise sistemática do peço ,constatando com a ajuda de mergulhadores profissionais a existência real de uma nave, recuperando inicialmente uma peça  brônzea de um dos lemes. Mais tarde, Borghi puído recuperar mais material, incluindo algumas das celebres representações cabeças de feras em bronze, e estabelecendo ademais a existência de um segundo navio. Fruto de isto foi entre outros contributos a seu opúsculo  La verità sulle navi romane del lago di Nemi (1901). 

A pesquisa de Borghi teria uma grande repercussão na opinião publica não só italiana senão também internacional, sendo que a revista divulgativa Scientific American chegou a sacar no ano 1906 exemplar que amostrava na sua capa uma fantástica (ou não tanto ao cabo) reconstrução do Barco de Nemi, e dedicou no interior um pequeno artigo glosando o trabalho de Borghi mas com alguns dados confusos e imprecisos (como nomear arcebispo a Alberti, apenas um laico funcionário da cancelaria papal).

Pode de que estas fantasias sobre o barco deixaram certo eco ainda no cinema clássico, imagens assim eram muito gratas aos primeiros tempos do Cinema como a Babilónia hiperbólica da Intolerância de Griffith (1916) ou as superproduções de C.B DeMille que transitam do mudo ao sonoro, essa estética de começos de século a que tanto deve o Peplum.

A Babilonia do periodo neobabilônico na recriação fantastica do filme Intolerância (1916)

Em esse contexto de referências visuais pop quem sabe se ainda algo ficaria daquele macro barco palácio com fruteiras na sua coberta da portada de aquela revista popular que inspirara muitas décadas após ainda a mente dos diretores de arte do filme Cleópatra (1963) que quem sabe se de crianças ou na adolescência devoravam pelas tardes esse tipo de publicações.  Aquele extravagante ate a hipérbole barco-paço da rainha egípcia com velas rosadas e arrodeado de uma nuvem de incenso igualmente rosáceo, esa exemplo canónico e apoteose evidente do Kitsch, num filme por outro lado muito dado na sua magnificência a essas apoteoses

o navio de Cleópatra no clássico filme de 1963, palmeira dourada included

Ainda que para ser justo, e descontando os rosados e o impacto algo psicodélico da palmeira sobredourada erguida meio da nave, o navio de prazer de Calígula deixava a se emulo hollywoodiano apenas como um pálido, e mesmo ate algo barato, reflexo. De facto Suetonio descrevia assim algumas dos navios que o imperador mandara fazer na sua estravagância sive loucura:

uma reconstrução digital do possivel aspeto dos navios de Nemi

  “Ele também ordeou de construiu galeras liburnianas de dez bancos de remos, com popas cravejadas de pedras preciosas, velas multicoloridas, enormes banhos espaçosos, colunatas e salões de banquetes, e ainda uma grande variedade de vinhas e árvores de fruto; que a bordo deles ele   poderia se sentar à mesa desde cedo e navegar ao longo das costas da Campânia em meio a canções e coros” (Calig. XXXVII.1)
reconstrução digital do patio columnado de um dos navios de Nemi

As pesquisas de Broghi também confirmaram que aqueles navio foram parte das naves de recreio do imperador Caligula como as que foram descriptas pelo autor latino. A titulatura oficial nas inscrições que figuravam sob ladrilhos e canalizações metálicas recuperadas pelos mergulhador não deixava duvida, desbotando anteriores hipóteses como a de Tibério (Alberti) ou Traiano (Marchi).

Na estela deixada pela pesquisa de Broghi um foi engenheiro da Armada Italiana; Vittorio Malfatti quem fiz de um estudo demorado das possibilidades de recuperação do naufragio tendo em conta tanto as circunstâncias de zona como as limitações para uma prospeção subaquática; a arqueologia subaquática, era disciplina não apenas inexistente daquela senão praticamente impossível, não seria até 1943 que um jovem oficial da marinha francesa Jacques Cousteau junto com  Émile Gagnan inventariam o regulador que permitiu o mergulho autónomo atual simplificando muito as complicações do estudo sudaquático dos restos do passado. 

de esquerda a direita: tragem de mergulho de A. Siebe gravado, London News (1873), modelo de Joseph M Cabirol (1855); Jacques Cousteau em tragem de mergulho

Broghi ademais aperceberá no seu estudo que a popa do primeiro barco estava submersa a 7 metros mas a proa fica encalhada a uns 14 metros, pelo que qualquer intento de levantar a nave com guindaste" ou métodos similares faria que a estrutura ainda intacta colapsasse e partisse provocando a destruição de um navio ate aquela quase intacto. Junto a isto se uniu que feito de que o segundo barco topado nas pesquisas dos mergulhadores quedava ainda mais aprofundado a  19m baixo o nível do lago.

Tendo em conta todas estas circunstâncias Malfatti concluiu como que o único método seguro e viável para a recuperação íntegra do espólio, era proceder a um drenado completo do lago. A ideia de Malfati foi levada pelos arqueólogos após a I Guerra Mundial sendo que em 1927, o governo de Benitto Mussolini.  Com uma arqueologia empeçando-se a converter em ciência, e dotar de uma muito incipiente metodologia, e num contexto politico tão concreto como a Ditadura de fascista na Itália: a perspetiva de um navio romano de grande comprimento e com preciosos materiais como os que Machi e Lorena ou Broghi exumaram evocava demais a grandeza imperial da Antiga Roma, da qual a Itália fascista buscava ser “herdeira” ou ainda, em certa forma, a sua Ressurreição

O ditador encomendou um ambicioso projeto a Guiulio Ucelli, diretor da companhia Costruzioni Meccaniche Riva de Milão. O plano sem precedentes precisou da colaboração de engenheiros civis e militares, que  decidiram a melhor forma de escoamento do lago; reutilizar uma antiga canalização de água romana que corria pelo subsolo ligando o lago sito no interior da cratera dum vulcão extinto com as campinas vizinhas, obra da engenharia romana que lembra outros drenagens vulcânicos como aquele que se descreve na lenda do desbordamento do Lago Albano estudada no seu transfundo mitológico por Dumézil no III Vol. de Mythe et Epopee.

de esquerda a direita: as bombas em processo de funcionamento;  canalização romana de drenagem utiliçada, excavações de um dos navios

Usando esta canalização juntamente com uma bomba moderna, reduzindo-se o nível da água do lago ate os 5 metros de calado em outubro do mesmo ano Assim entre as lamas foram emergindo lentamente das águas, os restos, dos dois enormes barcos. As escavações de estas dois naves se prolongariam durante vários anos com importantes interrupções por colapsos do próprio térreo como consequência das massivas drenagem não recomeçando o estudo do navio 2 até o 1932.

Estes navios estavam entre os maiores recuperados do mundo antigo daquela. O maior tinha 73.152 de comprimento, aproximadamente o que agora teria um moderno Airbus A380, e o casco amostrou um diâmetro de 24,0792 m. 

Cabeças de lobo mordendo os anéis dos toletes da linha de remos

Autênticos paços frotantes, com colunas pétreas, estátuas de bronze, mosaicos, fontes, um rico acervo de objetos móveis: cerâmica, baixela metálica, etc., e uma infraestrutura interna que superava a qualquer outra nave convencional da época, e incluía canalizações para o saneamento higiénico.

uma das múltiplas visitas públicas as escavações de Nemi

A nave cativou imediatamente a opinião pública, revista não só italianas senão também internacionais refletiam os descobrimentos e os pormenores das peças, se sucediam as visitas públicas a escavação dos grandes navios. Em 1936 os dos dois grandes navios foram restaurados e trasladados a um museu criado a tal efeto. O próprio Hitler -grande admirador do mundo romano- se achegara junto a Mussolini a contemplar os restos. 

restos do primeiro navio após sair da água

Infelizmente no ano 1944 o museu foi preso de um incêndio em circunstâncias não de tudo claras, circulando tanto a versão que atribuía ao bombardeio aliado contra uma bateria situada pelos nazis no local como a que incidia num ato que terra queimada das tropas de ocupação alemãs em retiradas ao estilo de aquele epilogo “que arda Paris”,  por sorte, nunca materializado. 

Apenas as peças metálicas ou algumas madeiras carbonizadas, ou restos depositados em Roma foram salvas, mas os dois grandes barcos desapareceram definitivamente para a história, justo após 1903 anos da morte do imperador que os mandou construir. Pedidos recentes de uma compensação económica ao Estado Alemão pela destruição de este património não foram atendidos

Entre os achádegos saídos do espolio dos navios de Nemi saíram peças impressionantes como as cabeças de lobo que sustinham nas suas fauces os aros pelos que passavam os remos, ou estas duas mãos uma esquerda e outra direita que ia colocada rematando a trave na sustinha os remos e os protomos lobunos e duas mãos similares a topada por Borghi no XIX. As. duas mãos forravam o remate dos no que iam encaixados os dois lemes (direito e esquerdo) que estabilizavam e guiavam o navio.

reconstrução do mecanismo do leme onde se colocaria a peça decorada com mão segundo Wolfmayr-Dobrowsky

Sobre o sentido de esta extravagante representação, é claro que há de evocação evidente da mão do bom timoneiro que guia a nave, de onde duplicidade destra sinistra segundo a mão a jogo com qual tocaria guiar o timão a cada um dos dois dos timoneis no bombordo  ou estibordo da nave . Mas junto a esta explicação obvia frequentemente tem-se dado também uma mais simbólica; uma funcionalidade apotropeica.  

uma das mãos de Nemi in situ durante as excavações

As mãos serviriam assim de signo protetor sob o navio. Função que partilhariam também com um formoso gorgoneion de bronze, e quem sabe se também com algum olhos policromos nas bochechas, da popa a maneira das naves gregas ou egípcias (já sabemos o gosto de Calígula pelo culto isiaco) ou ainda de algumas barcas piscatórias de alguns países mediterrâneos atuais, coisa que, obviamente, apenas pudemos mais que especular, já que nada fica disso.

nave grega em um vaso de figuras vermelhas com a celebre cena de Odisseu e as sereias, diversas imagens de barcas com olhos e outros signos protetores (agnus dei) da Ilha de Malta

Verbo de tal uso apotropeico da mão ou mãos já temos tratado em outras postagens deste blogue tanto ao tratar sobre recente achádego da mão de Irulegui (aqui) como desde  uma aproximação mais geral a temática do simbolismo e distintas conotações da mão/mãos ao longo da história e a proto-história euro-asiática (aqui)

Estatua de um jovem da família imperial julio-claudia de atribução não segura (Tiberio de moço?) fazendo um célebre gesto de proteção mágica com a mão destra

Pelo qual e a risco de incorrer em um não intecionado clickbait, a tal nos levou a nossa torpe literatura!, remitimos ao nosso paciente leitor a essas outras leituras se quer saber mais de este ultimo pormenor. 

Vista de Nemi, Robert Cozen 1777

Fica aqui meramente este recordo algo saudoso daquelas naves emergidas das túrbidas aguas e perdidas logo indefetivelmente na mais tumultuosa corrente da história. Obras ao fim, se dirá, exemplo da grandeza de uma civilização mas também do delírio estéticista de um tirano megalómano, e qual não o é?: Não ouviu falar você acaso do Paço do Putin na beira do Ponto Euxino? vanitas vanitatis ... nada novo sob o sol


Bibliografia

Alfaro, J.P. (2012): “La imagen de Calígula en Suetonio: realidad o construcción” Intus-Legere Historia Nº 6, /2 pp. 7-32   PDF

Anonimo: ”The Galleys of Lake Nemi” Scientific-American Nº 95/02, New York, 14-07-1906 PDF

Balboa Salgado, A. (2006): As cidades asolagadas. As augas e o Alén en Galicia. Toxosoutos. Noia

Borghi, E. (1901): La verita sulle Navi Romane dei Lago di Nemi. Unione cooperativa editrice. Roma. PDF

Dumézil, G. (1996): Mito y Epopeya III: Historias romanas. F.C.E. México.

Jung, M (2021): “A new hypothesis on Francesco De Marchi (1504-1576) and his dives in Lake Nemi in 1535” International Journal of Diving History Nº 13 pp. 25-33   PDF

Mauri, G. (2016): Francesco de marchi e le navi di nemi. Monografie di GCM Nº 32  PDF

Monteagudo García, L. (1957): Galicia legendaria y arqueológica. Problemas de las «ciudades asolagadas». Centro de Estudios de Etnología Peninsular, CSIC, Madrid  PDF

Nobiloni, A. (2008): "Le navi romane di Nemi: leggenda, storia, tecnica, arte, recupero e distruzione" apresentação do Encontro do 15 novembro 2008 na "Galleria d'Arte Theodora" di Frascati PDF

Wolfmayr-Dobrowsky, S. (2009): Die Schiffe vom Lago di Nemi. Tese de Mestrado Institut für Archäologie, Karl-Franzens-Universität Graz. Graz  PDF


Algumas web de interesse didático ou recreativo: 

Bass T. L.(2016): "Let’s Get Epic With Cleopatra" Frockflicks.com (acesado 30/11/2022)

Castillo, I.(2014): “El Lago Albano Ingenieria romana para drenar un volcán” Blogue Memento Mori enlaçe aqui (acesado 30/11/2022)

Greek and Roman Authors Texts -  Lacus Curtius, Project Penelope Universitade de Chicago aqui 

“Le navi di Nemi” Leonardo e Gli Ingenieri del Rinascimento (Exposiçao on-line). Museo Galileo. Instituto e Museo di Storie della Scienza. enlace aqui (acesado 30/11/2022)

Project Diana. Association Dianae Lacus - Nemi. recuperado do original, disponível em waybackmachine (acesado 30/11/2022)