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terça-feira, 12 de agosto de 2025

A Religão Popular Grega nos Filósofos

Greek Popular Religion in Greek Philosophy

Jon Mikalson, J. (2010): Greek Popular Religion in Greek Philosophy. Oxford University Press. Oxford.  ISBN: 9780199577835 DOI: 10.1093/acprof:oso/9780199577835.001.0001

Sinopse  
Um estudo sobre como os antigos filósofos gregos descreviam, interpretavam, criticavam e utilizavam os principais componentes e conceitos da religião dos povos da sua época. Os filósofos estudados são principalmente Sófocles, Platão e Aristóteles, com ênfase secundária nos seus predecessores e contemporâneos, como Pitágoras, Heráclito, Protágoras e Demócrito, e nos antigos cínicos Diógenes e Bion, nos antigos estoicos Zenão, Cleantes e Crisipo, e Epicuro. 


Os principais componentes dessa religião praticada são os sacrifícios, a oração, dedicatórias, ofícios religiosos e a adivinhação. Os principais conceitos são a piedade e a impiedade, e por meio faz-se uma análise completa dos textos filosóficos, uma definição refinada da piedade grega é oferecida, dividindo-a nos seus dois elementos constituintes: "respeito adequado" pelos deuses e "correção religiosa". 


Constata-se que, na tradição platónica, apenas a "correção religiosa" é tratada como uma "virtude", o que leva a uma investigação do papel da "correção religiosa" e a sua relação com a "justiça" no sistema ético de Platão. O livro conclui com uma demonstração da benevolência dos deuses na tradição filosófica e a vincula à expectativa de benevolência dos deuses encontrada na tradição religiosa popular.

INDEX

Introduction

1. ‘Service to the Gods’

2. Prayer, Sacrifice, Festivals, Dedications, 
and Priests in ‘Service to the Gods’

3. Divination and Its Range of Influence

4. ‘Proper Respect for the Gods’ 
and ‘Religious Correctness’

5. ‘Religious Correctness’ and Justice

6. Philosophers and the Benevolence
 of the Greek Gods

End Matter

Appendix: Polling the Greeks 
and Their Philosophers


Disponível em: Greek Popular Religion

sexta-feira, 28 de junho de 2024

PHOÎNIX Nº 30/1 - 2024

Antiguidade: recepção e
 usos do passado

PHOÎNIX Nº 30/1 - 2024

INDEX

Apresentação pp. 11 - 17
Regina Maria da Cunha Bustamante, Fábio de Souza Lessa

Dossiê ''Antiguidade: recepção e usos do passado'' pp. 18 - 20
Lourdes Feitosa, Pedro Paulo Funari

 
Dossiê - Antiguidade: recepção e usos do passado

Antiguidade Tardia e as monedas romanas do Museu Historico 
Nacional pp. 21 - 32
Claudio Umpiere Carlan
 
Das velhas praticantes de magia da literatura às 
bruxas dos contos de fadas pp. 33 - 56
Flavia Regina Marquetti

As visões sobre as mulheres da Antiguidade nas 
exposições virtuais do século XXI pp. 57 - 73
Gabriela Isbaes, Pedro Paulo Funari

Amores de Safor (RJ, 1943): Ficções de Safo em 
um "Romance para homens" pp. 74 - 94
Lettícia Batista Rodrigues Leite

Um ensaio sobre a recepção de Esparta 
no mangá Hokuto no Ken pp. 95 - 118
Luis Filipe Bantim de Assumpção

As cartas de Plínio, O Jovem: Recepção e 
usos do passado pp. 119 - 134
Renata Cerqueira Barbosa

Nas trilhas de Paulo Leminski: filosofia antiga, 
crítica social e subversão pp. 135 - 151
Renata Senna Garraffoni

Boudica and her reception by british suffragettes 
pp. 152 - 179
Tais Pagoto Bélo

 
Artigos

Queenship e o princípio feminino no Egito Antigo:
 O caso da rainha Tiye como mãe e esposa 
pp. 180 - 198
Priscila Scoville

Resenhas

Florenzano, Maria Beatriz Borba (org.). Ocupação territorial 
e definição de fronteiras no Mediterrâneo Antigo. São Paulo: Intermeios, 2023. pp. 199 - 203
Juliana Figueira da Hora
   
  

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sexta-feira, 31 de maio de 2024

Arqueologia, Biologia, Cultura e Sociedade

Deixamos aqui o video da mesa redonda sob o titulo "Arqueología: biología, cultura y sociedad" que teve lugar o dia 2 de maio na Faculdade de Geografia e História da Universidade de Sevilha com a participação dos arqueólogos Daniel García Rivero, Luis Gethsemani Pérez Aguilar e os filósofos da ciência Javier Pérez Jara e Lino Camprubí


Em esta mesa redonda faz-se um diálogo interdisciplinar sobre explicações no passado humano, na qual se debatem as possibilidades de ciência da arqueologia, a multidimensionalidade dos processos histórico-culturais e o alcance das explicações evolucionistas em arqueologia.


sexta-feira, 1 de março de 2024

Hormos Nº 15 - 2023

Ὅρμος Ricerche di Storia Antica

Nº 15 -2023  

 

INDEX

Φιλοπόται Μεσσήνιοις ἀστυγείτονες ὄντες. 
Arcadian Phigaleia as a Geographical, Political and Cultural Crossroad  p, 1
Claudio Biagetti

The corvi of C. Duilius Once Again. 
A Cultural Approach p. 41
Gabriele Brusa

Il più nobile dei Romani p. 59
Domitilla Campanile

L’imperatore Giuliano nella poesia 
di Kostantinos Kavafis p. 71
Maria Rosa Caracausi

Il paesaggio religioso dei santuari siculi dell’area 
etnea tra «acculturazione» e «porosità»
culturale p. 83
Nicola Cusumano

Scattered Fragments of a Western Iliupersis. 
The Ghost of Sybaris in Herodotus’ Histories 
p. 110
Flavia Frisone

Res et verba. Riflessioni sul volume dedicato a 
Claudia Giuffrida p. 141
Francesca Rohr Vio, Elisabetta Todisco

Federal Treaty Cultures in Hellenistic Greece 
p. 169
Sebastian Scharff

Polibio e Callicrate. Sull’articolazione della 
classe  dirigente achea p. 196
John Thornton


Dossier: Oratoria e politica nell’antica Roma

Oratoria e politica nell’antica Roma. Un’intersezione 
di epoche, attori e vicende p. 227
Marilena Casella

La parola delle donne, la parola sulle donne: 
la costruzione dell’identità femminile attraverso
i discorsi nelle leggende di età fondativa p. 234
Francesca Rohr Vio


Fra retorica della “verità” e analisi dell’inconscio: 
politica e oniromantica nell’età degli Antonini p. 248
Gaetano Arena

I discorsi in Erodiano: forme di rappresentazione 
della successione di Commodo p. 277
Daniela Motta

Retorica e catastrofi naturali: il terremoto di 
Nicomedia del 358 e la testimonianza di Libanio 
p. 321
Andrea Pellizzari

L’archiatra conteso: Cesario fra Gregorio Nazianzeno
e la corte imperiale p. 338
Margherita Cassia

Ad consulatum praeceptor euectus. 
Autoelogio e strategia politica nella Gratiarum 
actio di Ausonio p. 365
Marco Onorato

Note su amentes e amentia nel mondo tardoantico 
(tra retorica e storiografia) p. 386
Beatrice Girotti


Dossier: Dio, dèi ed eroi in Aristotele

Dio, dèi ed eroi nella Politica di Aristotele 
p. 407
Cesare Zizza

Tracce di religiosità popolare nella Retorica 
di Aristotele p. 455
Giovanni Battista Magnoli Bocchi

Il Gran Re come Dio. Per un riesame della 
storicità di Arist. Mu. 398a-b p. 474
Alberto Gandini



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domingo, 3 de setembro de 2023

Liberdade Antiga e Moderna - Livro

Liberty: Ancient Ideas and
 Modern Perspectives


Arena, V. (2023): Liberty: Ancient Ideas and Modern Perspectives. Routledge. Londres. ISBN: 9781003109594


Sinopse 
Esta obra é o primeiro estudo das antigas noções de liberdade nas sociedades interconectadas do Antigo Oriente Próximo, Grécia, Roma e Bizâncio e como elas se relacionam com a teoria política moderna.


Este volume reúne o trabalho de historiadores da antiguidade, cujas especialidades são geograficamente e temporalmente diversas, juntamente com teóricos políticos e filósofos jurídicos e políticos interessados ​​em concepções de liberdade. Juntos, eles discutem os entendimentos rivais da liberdade na antiguidade e as ofertas potenciais dessas sociedades antigas para o nosso mundo intelectual contemporâneo. 




Este livro visa ampliar nossa compreensão das articulações conceituais da liberdade no mundo antigo, de além do mundo greco-romano para outras sociedades antigas às quais este mundo estava conectado; e esclarecer os entendimentos rivais da liberdade na antiguidade e o papel que eles podem desempenhar no pensamento atual sobre esse conceito.

INDEX     

1. Ancient history and contemporary political theory:
 the case of liberty
Valentina Arena

2. Liberty, bondage and liberation in the Late Bronze Age
Eva von Dassow

3. ‘Proclaim liberty throughout all the land unto all 
the inhabitants thereof!’ Reading Leviticus 25:10 
through the centuries
Jonathan Stökl

4. Placing Plato in the history of liberty
Melissa Lane

5. Freedom, ethical choice and the Hellenistic polis
Benjamin Gray

6. Non-domination and the libera res publica in 
Cicero’s Republicanism
Jed Atkins

7. Religion, toleration, and religious liberty in republican empire
Clifford Ando

8. The idea of freedom in the writings of 
non-Chalcedonian Christians in the fifth and sixth centuries
Philip Wood

9. Political freedom in Byzantium: the rhetoric of liberty 
and the periodization of Roman history
Anthony Kaldellis

10. The liberties of the ancients: a roundtable with Kinch 
Hoekstra and Quentin Skinner
Kinch Hoekstra and Quentin Skinner



+INFO sobre o livro em: Liberty: Ancient & Modern

domingo, 18 de junho de 2023

De porque o Trabalho não Dignifica



NÃO, O TRABALHO NÃO DIGNIFICA:

A poucas frases tão irreflexivelmente repetidas a par que perversas no seu significado como a que afirma que "o trabalho dignifica". O trabalho pode proporcionar muitas satisfações, a do dever cumprido, a de dar o melhor de cada um no seu cometido, pode ocupar a mente (dependendo de qual), aquietar a inquedança, a incerteza, ou tantas coisas. Mas a soa alusão a que isso magicamente de por sim confere uma magica virtude de dota de dignidade -pode haver algo mais intimo e constitutivo do ser humano que a sua própria dignidade?.

Não vou estender-me em todas a formas de trabalho que no nosso mundo atual se voltam uma forma de menoscabo de essa dignidade, a precariedade, a instabilidade laboral, ou ainda além da nossa ainda precária situação de privilegio como outras partes do globo onde este adquire a forma mais velha e descarnada de "escravidão", não vou falar de isto, quero-me centrar no próprio conceito do trabalho como elemento do que procede a nossa dignidade, ideia que -segundo o entendo- é em sim própria perversa e atenta contra a própria ideia de dignidade humana.


Primeiro diria que historicamente esta visão dignificante do trabalho, do trabalho como algo positivo para o homem é recente na história da humanidade. A ideia na Antiguidade de trabalho é a dum "mal", algo negativo, um castigo embora necessário ao que o ser humano se encontra encadeado pela própria necessidade de subsistir ele e os seus. Os gregos utilizavam o termo poinos "carga" que era o mesmo que se aplicava para o qualquer sanção, castigo, e em especial a pena que se impunha a um reo, criminal ou infrator em um juízo.

"As Danaides" John Singer Sargent, Museum of Fine Arts

O Hades, inferno grego, contava de uma secção especial para os "Réprobos Eternos" os criminais especialmente perversos capazes de ofender mesmo a própria moral muito laxa dos deuses olímpicos (canivales, parricidas, etc), muitos de eles condenados a suplícios repetitivos que a parte de ser "poinos" no sentido de pena eram uma atividade laboral interminável, as danaides homicidas dos seus próprios esposos enchendo sem fim com água cântaros sem fundo, Sisifo condenado a subir penosamente por um monte uma pesada rocha que quando conseguia deitar do outro lado voltava ao inicio, reiniciando assim a sua eterna jornada laboral. 

o Tormento de Sisifo, em um vaso ático de figuras vermelhas

No entanto os Bem-aventurados, ventos entre os mortos, justos os justos, passeavam ociosos entre asfodelos nos Campos do Elísio discutindo de filosofia ou simplesmente amanhando o mundo prazida e peripateticamente. 

"A Espulsâo do Paradiso" de Benjamin West, National Gallery of Arts 

Tampouco o mundo semita diferia de isto, o trabalho não deixava a pena imposta ao ser humanos pelo pecado supremo, que nem a sucessão das gerações conseguem borrar (ao contrario que outras transgressões veterotestamentarias). O trabalho simétrico a dor do parto, cerrando o circo do castigo em vida dum ser humano que nasce e da o nascimento entre dor, para sofrer e padecer dor até o momento de cesse da vida: a dor quotidiana do trabalho, eterna condena da Humanidade. Pouca dignidade podia ver um israelita em essa eterna punição imposta pelo pecado primigenio que inventou e inaugurou o pecado próprio mesmo.
~

Alguns dirão em este ponto que o grande cambio se da aqui com a Conceição cristã do trabalho, e evocaram a regula de São Bieito "ora et labora" "rezar" e "trabalhar"; como caminho de perfeição espiritual. Mas aqui a nossa perceção atual do trabalho como criador de virtude moral nos engana, cria um espelhismo que projeta as nossas categorias atuais, (... mira justo ai o diz o trabalho perfeição, pelo tanto dignifica!!), trasladando anacronicamente a mentes duns homens tardo-antigos o nosso sentido comum que não era de nenhum jeito o seu. 




A própria ideia ou insinuação de tal coisa de facto lhes resultaria estranha e profundamente alheia, quase bizarra, porque em esse "ora et labora" não esta em absoluto ausente a noção previa de "carga, castigo, punição". De facto no binómio "reza" e "trabalho" o trabalho cumpre uma função punitiva, equivalente plenamente a outras formas de mortificação corporal totalmente comparáveis como zorregar-se com disciplinas (sim esse látego de multíplex colas rematadas em coitelas ou ganchos de metal para uma melhor praxe mortificatoria) ate cruzar-se o lombo de marcas sanguinosas, jejuar ate a extenuação o permanecer isolado a intempérie durante anos sem baixar de uma coluna em pleno deserto Sirio-Palestino. 

Penitentes na Basílica Inferior de Asis, J. Jiménez Aranda, 1874, Museu do Prado

Obviamente melhor não deter-nos como seria num plano mais sensorial o meio arredor de uma de estas colunas de estilitas de corpo anoréxico e pele quarteada e avelhentada prematuramente pelo sol e o pó do deserto, e que nunca baixavam de esse seu improvisado oratório aéreo para nenhum tipo de atividade já fora social ou bem puramente fisiológica... bom, vou-o dizer, a a risco de perder o decoro, para que se me entenda: não debita cheirar muito bem embaixo da coluna de estilita.

fotograma do filme "Simão do Deserto de L. Buñuel

Para a mente e os valores de essa aristocracia tardo-romã da qual se estraiam esses os moços fugiam do mundo com seus coetâneos de turma cara as suas villae rusticas, que viraram assim de uso e função nos primeiros mosteiros do Ocidente, para buscar lá, como outro no deserto oriental, a Deus na ascese da vida monástica, nas mortificações físicas que destruem o corpo torturando a carne, ou no trabalho manual e extenuante. 



Essa era um experiência tremendamente traumática que de facto destruía qualquer resto da sua identidade e perceção como privilegiados. Corto circuitava e os valores de uma classe social que via no trabalho manual e físico uma atividade "desonrosa" para a sua condição, que envilecia e denigrava destruindo seu orgulho. O trabalho como castigo físico, destruía, matava o homem velho e mundano, para fazer que do corpo malparado e das mãos encalecida emergira o ser espiritual, homem novo, mais puro limpado, purificado pela penitência: a humilhação devinda assim em humildade, trocando ao amo em servus ("escravo", condenado ao trabalho quotidiano) e ficando como Dominus (amo) único o próprio Deus. 


Não é casual em absoluto reiteração da autodefinição entre esses primeiros monges. Muitos como digo saídos de esses antigos e orgulhosos domini da nobilitas romana, como "servus Domini" que nos vemos quase mecanicamente na atualidade simplesmente na necessidade de traduzir como "Servo do Senhor/Deus" sem, aperceber plenamente forte nível conotativo que esse léxico, essas palavras concretas: servus (escravo) e Dominus (amo) têm numa sociedade tão vertical e fortemente jerárquica como era a sociedade tardo-romã da época em que essa terminologia principiou a aplicar-se.




Em resume, no sentido original a frase "ora et labora" o trabalho não aperfeiçoa ao postulante que se submete a ele porque seja "dignificante" ou "dignifique" em sim, senão, mais bem por tudo o contrario. O trabalho é em esse momento o exemplo paradigmático de "indignidade". O trabalho é bom para o espírito paradoxalmente porque "priva, nega, destrui" a dignidade, porque e um suplicio próprio da capa mais baixa e degradada da sociedade romana da época, aquele que se vê obrigado já seja por necessidade ou coerção a cadeia interminável do trabalho ao contrario que a nobreza ociosa, que precisamente por esse ócio é "digna" e enchida da "humanitas" (civilização) vetada as classes baixas e mais populare. 


Estranho mundo esse, ao nosso ver (ou não), que fechava o acesso a plena "humanidade" apenas a um grupo muito fechado e considerava ao resto, bárbaros, plebe urbana ou camponeses uma humanidade diminuída e incompleta; ou ao melhor -as vezes não será tão estranho a nós se calhar?. 


Não vou descrever o longo processo pelo que esta conceção do trabalho como caminho de perfeição em quanto caminho de servidão e humilhação, terminou derivando em um ética que entende ao contrario do que sucedeu na maior parte da Historia da Humanidade o trabalho por sim próprio é algo que tem que ver com a Dignidade do ser humano, que não é antagónico a ela, ou mesmo que é a fonte de essa própria Dignidade. É um longo processo que vai desde finais da Idade Media até a Primeira Revolução Industrial, e que tem sido analisado com muita maior profundidade da que eu pudera aportar por historiadores, sociólogos ou mesmo filósofos. 


Prefiro agora deter-me no segundo aspeto que quero assinalar: precisamente a ideia já comentada que o próprio trabalho constitui a fonte própria, o manancial do que abrolha como água cristalina e pura, a própria Dignidade do ser Humano, porque é em esta ideia onde se encerra toda a perversidade de essa frase aparentemente inocente e repetida mecanicamente quase como mantra irreflexivo: "o trabalho dignifica".



Esta frase e doblemente perversa por duas questões, principalmente, em primeiro lugar porque enajena a Dignidade do próprio ser humano, consegue o artificio de que a Dignidade do Homem deixe de ser uma parte constitutiva de ele próprio, do seu próprio ser, e se converta e uma entidade exógena, forânea alheia da qual pode por tanto e ser privado, e que apenas abventiciamente lhe pertence temporalmente, e como se lhe deu -generosamente antes depois bem fugira cedo. 




O sujeito perde assim qualquer controle sobre o que foi em tempos parte constitutiva da sua essência: a sua dignidade. Me explico, se fora certo que o trabalho dignifica, que dignidade terá o que se vê privado ainda contra a sua vontade da possibilidade de trabalhar, um parado é menos digno?, a sua dignidade diminui ao dia seguinte do despido? e o descapacitado que se vê privado do exercício do trabalho queda-lhe assim vetado qualquer aceso a ser uma pessoa digna?. Atrever íamo-nos a dizer que é menos "digno" que o que não tem essa limitação? há gradações dignidade segundo o tipo de trabalho?. 




Não estigmatiza, culpabiliza tudo isto ao que se vê em essa situação, a maldição de uma autoculpabilização, não estamos convertendo ao privado de trabalho em um transunto do velho "pecador original" que não pode redimir-se agostinianamente apenas que pela graça externa do Acaso (ontem Providencia). Não convertemos o seu sofrimento psicológico e afetivo em uma nova forma de flagelação, mas em uma flagelação degradada que já nem aperfeiçoe teoricamente o espírito, nem o faz a priori mais merescente ou próximo a consecução da graça laboralnas pressente condições de "paro estrutural". 




Quem sabe se esta graça do mercado ficara apenas num hipotético longiquo futuro de Parusia; senão que o envilece, e faz pressa propicia de medicação, patologia, terapia estigma, vergonha, tudo isso auto-assumido mas também exercido desde fora contra ele pela opinião censora da gente a quem sem ninguém pedir-lhe a sua opinião tanto teima e insiste em -a pesar de tudo- comparti-la com o resto dos mortais e frequente com quem menos a precisa em esse momento.




O segundo motivo pelo que vejo uma perversidade quase infinita na expressão "o trabalho dignifica", vem do outro aspeto. Não é que em essa alienação de algo tão intimo da pessoa humana como é a sua consciência de dignidade, ao final nos encontremos com que essa dignidade se converte em algo exterior, um corpo estranho que ocasionalmente se cola a nossa pessoa e figura, e que migra por igual acaso. Não, o mais perverso não é que a nossa Dignidade já não seja nossa já, que já não seja como dizia Calderon do "Honor" algo que "solo es património de alma, y esta solo lo es de Dios", senão que de facto agora a nossa Dignidade resulta ter em realidade um proprietário, que nem é divino, nem somos desde logo nós.



Não é tão abstrato nem complicado de entender como aparentemente semelharia; é muito singelo: Se o próprio trabalho ou a ausência de ele tem a capacidade de "dar-nos" ou "quitar-nos" a Dignidade, igualmente quem tem a capacidade de dar-nos ou privar-nos esse trabalho, também a teria de concedermos ou negar-nos a nossa Dignidade.

gravado do século XVIII que reflite o trafego de escravo no Caribe

Se da assim uma curiosa inversão pela quem "vende", em esse eufemismo também perverso que é o termo "mercado laboral" (que diriam faz uns séculos se escutaram esta paradoxal expressão quando daquela havia trabalhadores que se vendiam fisicamente num Mercado nada metafórico, e aos que se lhes chamava escravos), a sua força de trabalho, parece estar vendendo com ela indefetivelmente a sua própria dignidade da que queda privado segundo os caprichos ou ciclos veleidoso de esse Mercado de Pessoas Trabalhantes e Dignidade Humanas, ou simplesmente do padrão de turno.



Não vejo muito, mais bem não vejo nenhuma, Dignidade na afirmação de que "O Trabalho Dignifica", mais bem penso que tal afirmação agride a própria ideia de Dignidade na sua mais intima cerna e degrada-a assim- Mesmo, deprida e maltrata o que de mais essencial há no próprio ser humano e convir-te a sua vida apenas em uma sucessão de momentos "triste, dura, tosca, e medicada" ao jeito de um Hobbesiano "Estado de Natureza" mas agora profundamente desnaturalizado e radicalmente inumano. Alguns me objetaram, que o homem, além da subsistência, necessita atividade, fazer coisas, ocupar-se, que isso estrutura seus propósitos e a sua vez com seus propósitos a sua vida. E é mais a isso continuara a seguido objetando-me -quae verborum inmoderatio!- se lhe chama "trabalhar". 




Chega a tal o ensimesmamento no axioma que aqui acima tenho criticado que mesmo nos costa entender ou sequer conceber qualquer atividade humana, se não a apercebemos a priori como se fora de facto uma forma mais de "trabalho". Confundimos a "ocupação" ou o "atividade" como o "trabalho", quando de facto nada há que afirme e apoie tal equivalência além na nossa perceção etnocêntrica e historicamente concreta, dogmaticamente acumulada no nosso sentido comum, de que isso é assim e sempre o foi. Temos mostrado acima, que isso não é absoluto certo.


Voltando ao exemplo antigo ninguém negara que Platão, Aristóteles, Cícero, o Plínio o Velho que nos ligaram uma extensa obra estiveram muito ocupados redigindo seus textos, ninguém diria desde logo que estiveram "desocupados" ou mão sobre mão, ninguém ainda mais se atreveria a qualifica-los de preguiçosos, nugalhaos, hoje diríamos que "trabalharam muito". 


O paradoxal é que eles próprio nunca entendiam essa atividade sua como "trabalho" e de feito argumentariam que se pela contra essa obra pudessem elaborar precisamente por estar isentos de todo trabalho e podiam abdicar-se ativamente ao seu Ócio puramente intelectual e não laboral. Pessoalmente eu frequentemente nunca estou tão ocupado ou ativo como quando estou de ferias, de facto as obrigas académicas-laborais muitas vezes me tem privado mais que outra coisa de tempo para a pesquisa propriamente dita.


Por favor, não confunda-mos estar "ocupados" "ativos" ou ter um "Ócio ativo" com trabalhar, se pensamos que trabalhamos mesmo quando não o fazemos pouca solução teremos nem agora nem num futuro. Tal vez já não a temos. Não confio muito ao respeito, o Ser Humano penso já esta perdido, inevitavelmente. 


Não. o Trabalho não dignifica, nunca dignificou, nunca o fará, nem pode faze-lo … não é a sua função, a sua função é como diz Aristóteles há uns quantos milénio apenas procurar o próprio necessariamente para a vida e ainda para a "Boa Vida" (fica para outro dia o que para o de estagira era "viver bem"). Não marchemos a busca nas afastadas Andrómenas em col do que, de facto, fica justo debaixo dos nossos próprio pés.


-Como complemento a esta pequena reflexão deixo embaixo o documentario "Ladrões de Tempo" que descreve as extremas formas de alienação e deshumanização as que tem chegado a nossa patológica obsessão com o "trabalho"

imagem inicial: pintura do artista ucraniano Denis Sarazhin


domingo, 4 de junho de 2023

"American Progress" ou o Caminho a Oeste


Ao fio da anterior postagem sob o titulo de Cowboy & Yamnas, e em relação com o tema da mulher como personificação da Nação vamos a deternos numa pequena leitura iconográfico-contextual de esta esta imagem bastante eloquente na sua mensagem que aqui temos. A obra intitulada "American Progress" foi pintada pelo artista John Gast (1842-1896) em 1872, por tanto em pleno momento de expansão cara o Selvagem Oeste dos EE.UU

A mulher sobredimensionada que circula entre os colonos e "Colúmbia" a personificação oficial dos EE.UU, correlato feminino do agora tal vez mais conhecido "Uncle Sam"; a mesma que figura que portando um facho podemos topar no começo dos filmes da Columbia Pictures

Colúmbia (representando o povo americano) alcança a oprimida Cuba no entanto o Tio Sam ao fundo fica com os olhos vendados  (Judge, 6 de fevereiro de 1897), Grant E. Hamilton

Em esta ocasião Colúmbia vai sem o goro frígio nem elementos alusivos das estrelas e barras na vestimenta. O livro que leva, e que a priori bem pudéramos supor fora a Bíblia, não o é senão de facto um "manual escolar" (School Book) simbolizando a cultura educação que chegam a seu passo ao mesmo tempo que os primitivos índios, e outras varias feras selvagem fogem espavoridos a fume de caroço a medida que se produz avance de Colúmbia, junto com os colonos e o Progresso em geral: exemplificado este pelo telegrafo o Cavalo de Ferro, e a agricultura ;algo que gostaria muito a J. Locke que já falara de que isso que tinham os índios não te era de tudo "propriedade" realmente como veremos.

diversas representações de Colúmbia como personificação da América: a) "Be Patriotic" de Paul Stahr, ca. 1917-18, Colúmbia vestida de bandeira americana e boné frígio, que significa liberdade e a busca pela liberdade, de um pôster patriótico da Primeira Guerra Mundial; b) A capa do jormaç o Puck de 6 de abril de 1901 retrata a Colúmbia usando um navio de guerra com as palavras "World Power" como seu gorro de Páscoa. A figura do couraçado coroando testa reinterpretar a imagem clássica da Fortuna-Tutela-Tyche que porta a muralhas da cidade a jeito de coroa (coroa mural) como símbolo de proteção militar, um representarão do continente América previa a sua "nacionalização" como Colúmbia, luzindo junto a atributos clássicos como a Cornucopia outros denotadores de indigenismo,  porcelana de Meissen do 1717

   
E sim, caro leitor Colúmbia leva a corda do telégrafo que vai colocando a seu passo sem que fique muito claro quêm é o que coloca os pauzinhos (coisas das alegorias, que, como o nome diz, são alegóricas e não se preocupam demasiado por esses detalhes práticos mundanos)

Há outros detalhes peculiares aos que merescem atenção:

1) a pesar do vaporoso e etéreo das roupagem Colúmbia não ensina nada, no entanto as impudicas índias vão coas tetas ao ar denotando o inmoral e primitivo dos seus costumes.

2) a única personagem que vai armada em toda a composição é um  índio que foge mirando cara atras ante uns colonos desarmados e que  apenas portam ferramentas agrícolas. 

Obviamente a situação real da colonização distava muito de esta "pacificada" cena de fugida e abandono natural das terras elos seus primigenios ocupantes. O que funciona aqui é um mecanismo ideológico profundamente asumido na mente dos colonizadores. Entra em jogo uma contraposição entre o "civilização" e a agricultura vs. o "selvagem" que como tal é exemplificado pelos índios que não cultivariam (o qual em muitos casos não era certo, pois vários deles desde os iroquês aos índio Pueblo eram de facto agricultores sedentários) e as "feras" não-humanas já sejam os depredadores ou os herbívoros selvagem como o bisontes, digo feras não-humanas porque os índios em esta equiparação são vistos como "homens feros", autenticas feras humanas, mais que humanos propriamente.

Como digo isto encaixa muito bem coa teoria que mesmo se tem denominado por algum como "individualismo possessório" de J. Locke que no seu "Segundo Tratado sobre o Governo Civil" defendia que a propriedade era gerada pelo "trabalho" mediante a qual o sujeito enagenava os bens do que estavam na Natureza em "Comum". Locke pus vários exemplos de isso tomados hipoteticamente dos índios da Norte América; basicamente do estilo de: "vai um índio e caça um cervo, logo o cervo e seu e não de outro". 



Isto é algo que agora, pela Antropologia sabemos que não funciona realmente assim, já que existem em muitas sociedades reais de caçadores-coletores, nas que ou bem o caçador não pode consumir -por um tabu- ele próprio a peça que caçou, apenas a que outros caçaram. ou bem se vê obrigado moralmente a compartir pela moral imperante a su caça, ou mesmo pelo escárnio dos outros caçadores que parodiam e se bulram dos caçadores que tèm sucesso

 Retrato de John Locke por Godfrey Kneller, Museu do Hermitage

Mas bom, deixando a um lado o que Locke não entendia nem podia entende.r o certo é que a continuação Locke empeçava a incidir em que a "propriedade" em sentido indico não era demasiado propriedade porque era apenas o uso temporal sobre algo fungível, sob o que que uma vez consumido não retinha nenhum direito, nem permitia acumular unidades de essa propriedade (pelo seu caráter perecedoiro), pelo que a "Propriedade" de verdade verdadeira apenas aparecia com a agricultura a parcelaria e a Civilização que a legitimava através da Lei e o Direito




Por isto mesmo a suposta "propriedade" índia não era propriedade pois por este individualismo possessório um índio pode possuir de certo o cervo que caça, mas não adquire nenhum direito sobre a fraga onde caça, nem o resto dos cervos potencias que pastam em ela. A isto se engadia um argumento, que em realidade não era original de Locke, e que este em vez de aplicar aos índios senão os paisanos dos open-fields britânicos, e é que se um bem que estava em comum na Natureza não era aproveitado pelo habitante dum território era de facto um bem bacante (sem dono, res nullius), curiosamente quando este argumento se definiu sim foi aplicado aos índios com argumentos do tipo: se os índios não conhecem a metalurgia os recursos metálicos mineiros que há na sua terra são res nullius e podem ser apropriados por qualquer que os reclame para sim  e dos quais seria o "primeiro possessor".

representação de um chefe indio da Virginia em um gravado 1590


Mas a Locke isto não lhe interessava senão dar argumentos a um brutal transformação da propriedade agrícola que se estava a exercer apressuradamente na sua época (Openfield a Enclossures) ainda que jã vinha dos século anteriores. Muitos dos colonos norte-americanos da primeira metade do XVIII que popularam as 13 Colónias eram parte de essa massa de agricultores despossuídos e expulsos do agro. Após da Independência dos EE.UU  cortada já a possibilidade de emigrar as colónias americanas, essas massas foram as cidade britànicas onde se converteram no proletariado que nutriu as florescentes fabricas da Revolução Industrial.

protesta anti-enclosures, o 16 de maio de 1751, os camponeses de Richmon escalaram o muro de Richmon Park para realizar a cerimônia anual de "bater nos marcos" (beating the bounds) recorrendo os limites das antigas propriedades da Freguesia que lhes foram expropriadas.


Paradoxalmente estes camponeses desarraigados e isolados no amplo espaço americano, não reconstruirão lá o modelo "comunal" de explotasão e forma de vida, base dos Open-fields das suas aldeias de origem, eram a fim de contas gentes privadas da sua história, da sua identidade (comunal e aldeia) em uma terra nova e sem passado acompanhados dispersamente por outros muitos estranhos aos que nenhum laço prévio os unia, e cuja única esperança era empeçar de novo com seu pedaço de terra e a sua cavana. 

cena das labores colectivas durante a colheita dos camponeses europeus

Pelo tanto esta indivíduo camponês alienado da sua comunidade de origem nunca recriou o velho "comunalismo" lá senão algo que paradoxalmente recordava mais ao ideal daquele "individualismo possessório" similar ao que argumentara Locke para justificar filosoficamente a privação a aqueles dos seus velhos direitos sobre a terra na metrópole.

"American Gothic" de Grant Wood (1891-1942), 1930

Quando Tocqueville realiçou a sua viagem nos EE.UU se encontrou muito contrariado por essa estranha forma individualista de ver a vida dos norteamericanos, que não acabava de entender de tudo, e na que qualquer vinculo comunitário ou de solidariedade parecia pivotar sempre em base a um interes individual previo, que se pudera entender formalmente como reciproco (em um sentido quase contratual).

Aqui fica a reflexão  hipotético-contextual de hoje, para mais saber podeis consultar a bibliografia aqui embaixo

Algo de Bibliografia

Locke, J. (1689): The Two Treatises of Civil Government (Hollis ed.). A. Millar et al. acessivel aqui

Kramer, M. H (1997):  John Locke and the Origins of Private Property: Philosophical Explorations of Individualism, Community and Equality. Cambridge University Press. Cambridge.

Macpherson, C. B (1964): The Political Theory of Possessive Individualism: Hobbes to Locke. Oxford University Press. Oxford.

Marx, K. (2018): La Llamada Acumulación Originaria. Fundación El Perro y la Rana. Caracas (obviamente o celebre capitulo extratado de O Capital) disponível em: archive.org 

Padgen, A. (1986):  The fall of natural man : the American Indian and the origins of comparative ethnology. Cambridge University Press. Cambridge. 

Padgen, A. (1988): La Caída Del Hombre Natural. El indio americano y los origenes de la etnología comparativa. Alianza. Madrid acessivel em archive.org

Sandweiss, M.A.: "John Gast, American Progress, 1872" Picturing United States History https://picturinghistory.gc.cuny.edu/john-gast-american-progress-1872/

Tocqueville, A. (2012): Democracy in America. Liberty Fund, Indianapolis (ediçâo crítica com apéndices dos manuscritos previos de Eduardo Nolla) acessível aqui

   

Ou as duas lições que lhe adiquei a Locke na asignatura de História das Ideias Políticas 2 para os alunos do grau de Ciências Políticas da UNED

Tenreiro-Bermúdez, M. (2021) "Teoría Política de la Ilustracción 1: J. Locke" accesivel em Cadena Campus UNED

Tenreiro-Bermúdez, M. (2021) "Teoría Política de la Ilustracción 2: J. Locke" accesivel em Cadena Campus UNED