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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Morreu Claude Lecouteux

Acabo de saber do falecimento, o passado dia 13 de novembro, de Claude Lecouteux, professor emérito de estudos germânicos na Universidade da Sorbona e reconhecido especialista em folclore e mitologia medieval. Formado como filólogo especializado em línguas germânicas Lecouteux dedicou a sua obra a analisar diversos temas do folclore e a literatura europeia a partir dos textos medievais, desde as sagas islandesas a literatura alemã e francesa amostrando uma profunda erudição e conhecimento dificilmente superáveis. 


O seus estudos recolheram uma ampla variedade de temas que abarcaram boa parte do Imaginario europeu durante o periodo medieval, como as crenças sobre os mortos, seres míticos como as fadas (entre elas Melusina), os génios territoriais, os espíritos domésticos, a caça selvagem, etc, etc... era em resume um de esses autores de referência para os que nos temos dedicado a estas temáticas folkoricas e etno-históricas, e sobre tudo desde uma perspetiva diacrónica e de longa duração

Pessoalmente descobri a obra de Lecouteux por puro acaso, quando  sendo ainda estudante topei um dos seus livros "Anões e Elfos na Idade Media" em um livraria (Índice) agora já fechada. No entanto folheava o livro topar surpressivamente a referência à obra de Dumézil (outro autor fundamental naqueles anos formativos), no meio do estudo de estes seres míticos, e que definisse a própria obra como uma contribuição a mitologia menor da 3 Função, já me indicou que este autor não era um especialista mais em literatura medieval, senão que a sua visão ia muito além do convencional. Aquele foi um livro que devorei e a primeira de muitas leituras que me abriram um muito extenso campo de estudo e novas possibilidades. 

Parte da extensa obra de Lecouteux, foto P. Lajoye

Alguns aportes seus como o seu artigo sob a estrutura das lendas melusínicas e sobre tudo o seu "Demos y Génios comarcais na Idade Media" (livro que tenho muito desgastado pelo uso e consulta repetidos) tem sido influências importante, mesmo diria que fundamentais, na minha própria pesquisa, como por exemplo nos meus estudos sob os ritos jurídicos de toma de pose do território. Foi tenho que dizer o autor que. junto a minha estância de estudos na Alemanha, me abriu de facto os olhos ao mundo do Folklore Jurídico e a Rechtsrchäologie. Mesmo chegara faz alguns a anos a enviar-lhe um dos meus artigos sobre este tema, que ele recebera com grande amabilidade e interesse.

Em resume, vai-se um grande pesquisador que deixa após si um importante legado, formado por mais de 100 artigos e 31 livros (seu curriculum aqui), que oferecem contribuitos fundamentais e são uma autêntica mina de informação. 

Uma grande perda para o mundo académico e especialmente para esta pequena sub-tribo que somos os mitólogos, sic tibi terrae levis


Homenagem a Claude Lecouteux - Livro

Formes et difformités médiévales

Florence Bayard, F. & Astrid Guillaume, A. (eds.) (2010): Formes et difformités médiévales. Hommage à Claude Lecouteux. Traditions et croyances. Universite de la Sorbonne. Paris. ISBN: 978-2-84050-701-7

Sinopse  
Formas regulares e simétricas, equilíbrio e proporção eram conotados positivamente na Idade Média e geralmente valorizados como intervenção divina ou o resultado lógico de boas ações realizadas pela linhagem de alguém. 


Era perigoso e prejudicial destacar-se ou desviar-se da norma. Além disso, acreditava-se que qualquer perda de integridade física ou marca incomum era compensada por um poder especial, e aqueles que portavam tais (in)sinais pertenciam a uma ordem diferente e perigosa. A assimetria, e portanto a deformidade, era assim percebida como punição divina, marca do diabo, um dom suspeito, uma maldição transmitida através das gerações, prova de traição familiar passada, de atos ou pensamentos não reconhecidos e indizíveis, uma marca distintiva ou uma anormalidade. 


Crenças populares e religiosas, lendas, mitos, literatura, expressões artísticas, bem como alguns estudiosos formados pela Bíblia, supriram as deficiências médicas e científicas da época e ofereceram explicações pseudocientíficas, ilustrações e representações geralmente assustadoras ou lendas que deram origem a outras crenças e outras criaturas, ainda mais deformadas e aterrorizantes.


A ambição desta obra é também resgatar certas verdades sobre as crenças medievais e apresentar, da forma mais simples possível, o que se entende por formas e deformidades na Idade Média, mas também na Antiguidade e em outros períodos.
  

INDEX

Avant-propos
Astrid Guillaume & Florence Bayard

Préfaces

Hommage
Régis Boyer

Le merveilleux géographique
Jacques Le Goff

Claude Lecouteux. Itinéraire d'un chercheur.
Anne-Elène Delavigne

Claude Lecouteux: Érudition et 
Humanisme (Publications)

Formes et difformités médiévales, Introduction
Astrid Guillaume & Florence Bayard

Partie I

Claude Lecouteux, 
le passeur de mémoire

Schattenseiten, ou le côté nocturne du clerc
Karin Ueltschi

Petite mythologie: qu'est-ce à dire?
Régis Boyer

Lire la «méthode Lecouteux» 
à l'épreuve de Mélusine
Catherine Velay-Vallantin

Partie II

Monstres, Merveilles et 
autres «Phénomènes»

Le blanc genou de la fée. 
Une allégorie de la Justice?
Florence Bayard

La cloche muette: de Thomas d'Aquin 
à Albert Dürer
Claude Thomasset

Enquête sur un mystérieux oiseau-vampire
Sandra Hanse

Une anguille nommée Gargantua: 
contribution au légendaire de la Bretagne
Jacques Merceron

Le dragon sous-marin et la boule magique
Chiwaki Shinoda

Les rapaces nocturnes: un malentendu
Olivier Duplâtre

La passion et la mort du prophète 
Merlin dans la Suite-Huth du Roman de Merlin
Anne Martineau

L'église, le cimetière et la tombe: 
passages de l'ici-bas à l'au-delà 
dans quelques contes de Grimm 
et d'Afanassiev
Natacha Rimasson

Mytho-géographie: franchissement 
de rivière et au-delà symbolique
Raymond Delavigne

Un aller-retour pour l'autre monde, S-V-P. 
Le passage dans l'Autre Monde, dans 
l'oeuvre de Jérôme Bosch et 
Peter Bruegel l'Ancien
Dominique Pauvert

Dieu, le diable et… les loups/garous. 
Sémiotique des représentations médiévales
Astrid Guillaume

Galant le forgeron dans la 
Suite du Roman de Merlin
Philippe Walter

Trébuchet, Wieland et Reginn. 
Notes sur le mythe du forgeron 
dans la tradition indo-européenne
Koji Watanabe

Laurin, roi des nains. Croyances 
et arrière-plan mythique dans le 
poème épique Laurin ou le 
Petit Jardin des Roses
Béatrice Le Méec

Partie III

Dits, écrits et pratiques

La main apotropaïque et la 
nébuleuse des signes
Jean-Loïc Le Quellec

Les incantations roumaines contre 
la matrice. Formules répétitives 
et associations symboliques
Emanuela Timotin

Maître Melchita, magicien de 
Tolède. Un exemplum inédit du 
dominicain Étienne de Bourbon
Jacques Berlioz

Un spectacle diabolique: conjuration 
et nécromancie dans l'Historia du Docteur Faust
Emilie Lantuéjoul-Lasson

«La maison des sorcières» de Bergheim 
ou les répercussions de la croyance 
au diable sur la population locale
Martine Clauss

Temporalité et mythe dans les 
charmes du Moyen Âge
Nicolas Nelson

Les tombes de chevaux des peuples 
germaniques: pratique sociale 
ou rite religieux?
Marc-André Wagner

« Réchauffer et baigner les ancêtres... » :
 une coutume du village russe
Francis Conte

Celle qui aimait un mort. L'amour 
et la mort dans une romance espagnole
Ion Talos

Loki et les Hurons
Bernard Sergent

The fallen north divinities. 
Christian legends at a time of transition
Ronald Grambo

La Normandie et la mythologie germanique
Patrice Lajoye

Dieux, rois géants, héros: 
invincibles, exemplaires et abjects?
Olivier Gouchet

Cousine sous le chêne - Sigune sur le tilleul. 
Réflexions sur la réécriture médiévale
Michaël Stolz

Les échos de Tacite dans la poésie 
vieil-anglaise du xe siècle: tradition 
héroïque et style panégyrique
Leo Carruthers

Les Yidishe Folksmayses: 
relation entre juifs et non-juifs
Frédéric Garnier

Le roman de Mélusine dans 
les anciens Pays-Bas
Baukje Finet

Une singulière Danse Macabre
Marie-Dominique Leclerc

Darab, darumb und darüber als Träger 
kausaler Relationen bei O. Nachtgall
Maxi Krause

Bibliographie


+INFO sobre o livro em: Hommage à Cl. Lecouteux

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Lobisome, Entre o Monstro e o Homem

Werewolves in Old Norse-Icelandic Literature

Su, M. (2023): Werewolves in Old Norse-Icelandic Literature. Between the Monster and the Man. Brepols. Turnhout. ISBN: 978-2-503-59600-6 DOI: 10.1484/M.BBL-EB.5.124922

Sinopse  
No cerne de qualquer história de metamorfose está a questão da identidade, e os contos do lobisomem (lit. 'homem-lobo') são tanto sobre o lobo quanto sobre o homem. Quais são os constituintes do humano em geral? 


Que significado simbólico eles têm? Como eles diferem para diferentes tipos de humanos? Como isso afetaria o indivíduo se um ou mais desses elementos fossem subtraídos?. Com foco num grupo de narrativas de lobisomens nórdicos antigos-islandeses, muitas das quais até agora foram pouco estudadas, este livro perspicaz se propõe a responder a essas perguntas explorando como esses textos entenderam e conceituaram o que significa ser humano. 


No centro desta investigação estão cinco fatores-chave para a existência do lobisomem -pele, vestimenta, comida, paisagem e propósito- e estes são examinados de forma inovadora por meio de uma abordagem interdisciplinar que cuidadosamente separa a interação entre duas polarizações: a externa e social, e a interna e psicológica.


Por meio dessa abordagem, o volume apresenta um novo olhar abrangente sobre o lobisomem não apenas como uma criatura sobrenatural e um motivo literário, mas também como uma metáfora que afeta a relação entre humano e não humano, entre o Eu e o Outro, e que é capaz de situar os textos nórdicos antigos num discurso intelectual mais amplo que se estende além da Islândia e da Noruega medievais.

INDEX


+INFO sobre o livro em: Werewolfes in Old Norse Literature

segunda-feira, 25 de março de 2024

Salomão e os Demos no Occidente Medieval

Salomon et la conjuration des démons dans l'Occident latin 
au Moyen Âge

Quando: 28 Março
Onde: on-line

O proximo dia 28 de março o Groupe Île-de-France de Mythologie Française (GIDFMF) organiça dentro do ciclo de conferèncias "Mages, devins et saints guérisseurs" uma palestra que sera proferida por Julien Véronèse sob o título "Salomon et la conjuration des démons dans l'Occident latin au Moyen Âge"


Ao rei Salomão, modelo de sabedoria e pai do exorcismo na tradição judaico-cristã, foi atribuído um certo número de tradições de magia e rituais do século XII no mundo latino, cujos principais propósitos era a conjuração de demónios ou espíritos para vários propósitos, bons e maus. 

Ao contrário do exorcismo cristão, estas tradições definem práticas e relações com os demónios profundamente ambivalentes e, por isso, objeto de condenações recorrentes por parte das autoridades eclesiásticas. Mas a sua circulação estava, no entanto, bem documentada no final da Idade Média, como comprovam as próprias coleções de manuscritos, bem como os documentos de julgamento onde a magia desempenhava um papel principal ou secundário, que se tornaram mais numerosos a partir do século XIV.

Durante esta conferência, tratar-se-á, portanto, de apresentar esta parte original da cultura medieval, que durante muito tempo permaneceu marginal nos estudos históricos, mas cuja importância uma série de trabalhos recentes revelou para os poderes e a sociedade dos últimos séculos do século XIX. Idade Média

a palestra decorrera as 19 horas (hora da França) e será acesso livre e de balde através do Zoom apos registo no site do GIDFMF aqui


domingo, 24 de março de 2024

Fadas, Bruxas e Sereias - Palestras


Deixamos aqui os vídeos das palestras proferidas dentro do ciclo "Fadas, bruxas e sereias" organizadas pelar Fundación March entre o 9-16 fevereiro do 2016.


Fascinantes, perigosas, sedutoras... imagens de fadas, bruxas e sereias povoam a literatura e a arte desde a antiguidade até os dias atuais. As fadas são apresentadas como a encarnação de uma beleza feminina misteriosa e astral, ligada às forças da natureza, enquanto as bruxas são a imagem de mulheres reais que foram acusadas de bruxaria e magia demoníaca com especial intensidade durante o século XIV. símbolo de tentação e objeto de sedução em suas diferentes formas, como mulher-pássaro e mulher-peixe.


Identificado com mulheres reais, aparições espectrais ou pertencentes a sagas mitológicas, este ciclo de conferências evoca uma viagem antropológica, histórica e literária através destas projeções mágicas da figura feminina.
 

1. Brujas: el vuelo del mal - María Tausiet

2. Sirenas: seducciones y metamorfosis - Carlos García Gual

3. Hadas: lo maravilloso femenino - Victoria Cirlot


terça-feira, 14 de novembro de 2023

Maugis O Encantador - Em breve

Maugis d'Aigremont et autres enchanteurs-voleurs


Quando: 16 Novembre
Onde: on-line
   

O proximo dia 16 de novembro o Groupe Île-de-France de Mythologie Française (GIDFMF) organiça dentro do ciclo de conferèncias "Mages, prophètes et saints guérisseurs" uma palestra que sera proferida por Guillaume Leroy sob o titulo "Maugis d'Aigremont e outros ladrões encantadores"

Os quatro filhos de Aymon, grandes figuras da mitologia francesa, não poderiam ter salvado as suas vidas sem a ajuda do encantador Maugis d'Aigrmont. É na segunda metade do século XII que vemos o aparecimento nas canções de gesto de uma figura recorrente do ladrão-feiticeiro, verdadeiro avatar do romance épico do malandro, cuja primeira encarnação parece ser a do mágico Bacia , mas cuja versão mais famosa assume sem dúvida as feições do famoso primo dos filhos de Aymon: Maugis d'Aigremont.


Ainda mais do que seus primos, o encantador aparece como o adversário irreconciliável do imperador Carlos Magno, e o ódio feroz (e em parte desmotivado) que cada um dedica ao outro sugere a presença de um motivo antigo, possivelmente mitológico. Maugis experimentou uma popularidade crescente, tornando-se o herói de sua própria canção e então, sob o nome de Malagigi, uma figura significativa nos grandes poemas épicos italianos do final da Idade Média e, ainda hoje, no teatro de marionetes siciliano.

Muitas vezes se sentiu que esse personagem deve parte de sua natureza a um modelo mítico, mas tem sido difícil chegar a um acordo sobre uma identificação. Assim, por vezes quisemos derivá-lo de modelos não europeus, ou pelo contrário aproximá-lo do Odin ou Loki germânico, ou mesmo do Lug celta. Quem realmente é o encantador Maugis?


a palestra decorrera as 19 horas (hora da França) e será acesso livre e de balde através do Zoom apos registo no site do GIDFMF aqui


sábado, 21 de outubro de 2023

O Cavalo, a Pedra, o Rio e o Solsticio


Estes dias com a nova da conferencia de Guillaume Leroy sobre a figura do encantador Maugis d´Agriemont uma das personagens secundárias da gesta medieval dos Quatro Filho de Aymon, estivem lendo sobre sob outro celebre participante deste ciclo, o Cavalo Bayart, montura sobrenatural dos heróis e sobre tudo do principal protagonista do poema Rene de Montauban.

relevo numa rua da cidade de Maastricht representando aos Quatro Filhos de Aymon e Bayard. 1786

Bayard aparece no relato como um cavalo de cor vermelha como o fogo, definido como o melhor dos cavalos. Capaz de dar saltos a grandes distancia, e desbaratar com seu fortes peçunhos a inimigos, árvores ou mesmo edifícios, e   que levar aos seus donos, os quatro irmãos derriba do seu lombo, que pode estirar a vontade para lhes dar acomodo, imagem que aparece repetida longamente na iconografia desta lenda, e alcançou uma grande popularidade. 

O Nix, ilustração de Theodor Kittelsen

Bayard ajudante maravilhoso dos quatro filhos de Aymon, cavalo sobrenatural por antonomasia, e protótipo de cavalo perfeito, aparece igualmente longamente estendido pelo folclore francês misturado cuma multiplicidade de cavalos sobrenaturais como o Cheval Mallet, cavalos que igualmente alongam o lombo para acolher nele a vários ginetes convidando-os a passar um rio convertido em tumultuoso torrente e vota-los logo nae águae, episodio com final cómico ou funesto segundo o caso. Cavalos que anunciam a morte e dos que a sua soa aparição e temida, temas dos que já temos tratado (aqui). 




Fronte a estes cavalos com carácter negativo e funesto a matéria artúrica refere um cavalo de longa garupa mas representado dum jeito positivo ao modo de Bayard; assim no Kulhwch e Olwen, Llanroi o cavalo do rei Artur leva nas suas costas 4 cavaleiros feridos num combate em uma cova. Dentro da tradição céltica temos igualmente um episodio que narra como o deus do mar Mannanan MacLyr resgata tres naufragos no mar aos que da acomoda no lombo extensivel do seu cavalo, o qual corre sob as ondas como por uma chaira, levando-os a uma Ilha do Além

dois casos de Pas Bayard "pegadas de Bayard"

Bayard deixou também pegadas mesmo na toponímia, num conjunto de lendas etiológicas extendidas pelo territoio de Fraça, Beligica e Luxembugo que explicam determinadas feições da paisagem,  gravuras, ou pseudo-gravuras pétreas que foram criadas segundo a tradição pelo galope dos cascos do cavalo sobranatual. De ai os abundantes Pas Bayard repartidos pela geografia de estes paises, como o Pas Bayard do município de Durbuy pedra um sulco na sua parte superior, que se diz foi deixado quando o Ros Beiaard se impulso para saltar levando aos quatro filhos (Heemskinderen) acima até Durbuy. Um salto de nada menos que  de 10 quilómetros. 



Rocher Bayard numa pintura de 1838 e na atualidade

Também se lhe atribuida a Bayard o estado atual da chamada Rocher Bayard uns penedos serrados próximos a Dinant  que segundo a lenda adquiriram tal forma após receber um coice do mítico cavalo. 
Tradições etiológicas que recordam no folclore galego aos cavalos montados por heróis como Roldão, ou santos (Santiago, a Virgem), que saltam extensas distancias deixando nas rochas as pegadas dos cascos das suas monturas.

Ferraduras nos petrglifos das Pegadinhas da Nossa Senhora (Montalegre, Portugal) deixadas segundo a lenda pela mua da Virgem Maria

As Origens de Bayard

Mas quais são as origens deste cavalo maravilhoso. O poema dos quatros filhos de Aymon, que atribui ao imperador Carlo Magno o ter cedido Bayard aos irmãos, descreve já desde um principio uma origem sobrenatural, procedente de uma ilha feérica, que recorda a essa Ilhas do Além da mitologia céltica, onde se diz fora criado pela fada Morgana, mas sem indicar mais sobre as origens e filiação do animal.

“Ele não é um cavalo tão bom em quarenta cidades.

Bayard era o nome dele, então ouvi seu chamado;

Porque foi levado para a ilha de Bocan, entre dois mares.

De Faeria o cavalo foi trazido.

Morgane, a fada, alimentou-o com muito cuidado”

(Quatre Fils de Aymon)

Será o Cantar de Maugis d´Agriemond, o, que além da a procedência de insular,  concretizará as suas origen ao inclui umas estranha filiação não equidea senão serpentina do cavalo, filho de um dragão e uma serpe. 

Maugis O Encantador rouba aos demos o cavalo Bayard

Este cavalo fabuloso de estas origens que visan com o maligno, mas destinado a se converter no assistente do herói, fica na Ilha não cuidado afeituosamente por uma fada, senão cativo e guardado por um fero diabo. 

“Que o cavalo é fádado, segundo algumas pessoas.

Ele nasceu de um dragão e de uma serpente.

Um grande precipício o impede de escapar

E um demônio terrível se esconde, em verdade vos digo,

que é forte e feio, de nome Raanas

É um cavalo fada com corpo nobre

Quem consegue carregar alegremente o dia inteiro,

Três cavaleiros armados para um torneio,

e nenhum vestígio de suor escorreria pelos seus lados

Está nesta rocha num lugar escondido

Entre quatro pilares trabalho de ouro

E quatro grandes carvalhos, todos prateados,

O corcel está aprisionado por essas colunas”

(Cantar de Maugis d´Agriemond)


Na versão do Maugis, serão o proprio encantador quem consiga liberar o cavalo da sua prissão, e lhe-lo ceda após isto, em vez do imperador, a seus primos, os filho de Aymon dos quais será o fiel servidor nas suas aventuras, marcadas pelo inicial enfrontamento destes com o imperador Carlomagno. 


A não-morte e posteridade de Bayard

Após muitos aconteceres finalmente a gesta conta como pela intervenção dos Pares de França, entre eles Roldão, o imperador perdoa e se reconcilia com o heroi Rene de Montauban. Impondo-lhe Carlomagno em troca do perdão duas: condições: realizar uma peregrinação a Terra Santa, e ceder-lhe em propriedade a Bayard. Assim acontece, mas uma vez com o cavalo ao seu dispor, Carlomagno decide tomar nele vingança do seu antigo dono, e ordena atar o pescoço do animal a uma pesada roda de moinho que logo atiram as aguas do rio Reno ou Mosela, segundo as versões. Mas longe de morrer no fundo do rio Bayard sobrevive ao suplicio.

“Mas ao olhar ao longe, para um lugar onde o rio se alarga, vê o cavalo nadando vigorosamente, que bate com os cascos na mó, estourando muitas lascas, de modo que acaba quebrando-a como um torrão de terra . Ao se libertar dele, atravessa o largo rio e recupera o equilíbrio na outra margem onde sobe até o topo da escarpa; então ele se sacode da cabeça ao rabo, relinchando e batendo no chão com os cascos; finalmente, afunda, mais rápido que uma cotovia , no coração da floresta selvagem das Ardenas.  (Quatre files de Aymon)

Este estranho do método usado pelo imperador para matar ao cavalo encaixa curiosamente com o carácter aquático que se frequentemente se lhe atribui no folclore europeu aos cavalos sobrenaturais e feéricos.

Bayard no Mosela, ilustração de Eugene Grasset 1883

Cavalos feéricos habitantes das águas e que tentam levar lá aos incautos humanos que aceitam montar em eles, ou que saim dos rios e lagos para emprenhar as egoas locais, das quais nascera algum cavalo com extraordinarias carateristicas. Não resulta extranho ver tras do proprio Bayard um exemplo mais de esa tipologia cavalo sobrenatural, no qual a natureça aquática ficaria encoberta pelo seu aquático suplicio no Reno ou Mosela. 

"O Nix como cavalo branco" Theodor Kittelsen, 1909

Suplicio aquático que ainda não supondo a morte real do cavalo no entanto marca a separação dele do mundo humano, a sua definitiva retirada ao ambito da Feeria, escondido no fundo floresta das Ardenas onde permanece retirado: "... se diz no Reino, como lemos nas histórias, que ele ainda mora na floresta e que, se avistar alguém, em vez de se aproximar, foge o mais rápido possível, como um demônio temente a Deus" (Quatre files de Aymon).



A tradição oral ardenate acrescenta que estas aparições do fugidio Bayard se produzem durante o solstício de verão, no qual se pode ouvir o potente rinchar do cavalo, ou se-lhe observa galopando furioso pelo lugar. Uma destas cavalgadas de Bayard foi descrita ainda no século  XIX por Prosper Tarde, que recolheu em 1861 a noticia de boca de um velhinho que a relatava os feitos como acontecidos no ano 1815, durante a guerra entre franceses e prussianos:

“[…] À noite do solstício de verão, chegamos a Montcy-Notre-Dame , perto de Waridon. Cheios de cansaço, paramos para pernoitar lá. A décima segunda hora estava prestes a soar. Nossos homens estavam dormindo. Eu estava de plantão. Eu assisti, eu escutei. De repente, ao longe, no cume do Waridon, ouço um estrondo surdo. A terra estava tremendo. O barulho fica mais nítido: é o passo regular de um cavalo correndo a galope. Sob seus pés, as pedras quebram ou rolam com estrondo. - Minha fé! Confesso que o medo tomou conta de mim. Eu não teria temido os prussianos . Mas não era um hulan: era o cavalo de Maugis, o cavalo dos quatro filhos de Aymon, o cavalo encantado; era Bayard, o cavalo de fogo. Logo o rápido animal passou na minha frente como um raio, iluminando o vale, o riacho, a montanha e suas ruínas. Ele corria pelas pedras que formavam a beira da torrente. As pedras voaram atrás dele, caíram na água ou foram esmagadas. Bayard, pelas narinas, pelos cascos, lançava fogos e chamas; ele relinchou e zombou furiosamente, e eu ouvi claramente o nome de Carlo Magno . Os ecos do Waridon repetiram: Carlo Magno! Carlo Magno! em tom insolente e zombeteiro”

Este relato destaca o forte carácter ígnico de Bayard, que outras tradições populares associam igualmente com outro fogo, o fogo aéreo que se manifesta na tormenta, o raio e o trebão. Um cavalo de origens diabólicas ou monstruosas, com a pelagem da cor do fogo e que se identifica ele mesmo com o elemento, e bota chamas e iluminando a noite ou ceu. 

Iupiter, deus do trono, como cavaleiro vence ao gigante anguipedo, 
Musée Bargoin, Auvernia, França

Cavalo ígneo ou tonante que "morre"  nas águas, ele mesmo procedente de uma ilha no mar, e retorna anualmente ao mundo dos vivos no momento preciso dos solstícios estivais. Náo é muito dificil ver em estas asociaçôes conexas um fundo mítico muito claro em este equido a vez malefíco e divino, tenebrosso e luminoso que resplandecente emerge ciclicamente da feerica e humbria fraga das Ardenas.

 

Bibliografia

Castets, F. (1909): La Chanson des Quatre Fils Aymon, d'après le manuscrit La Vallière, avec introduction, description des manuscrits, notes au texte et principales variantes, appendice où sont complétés l'examen et la comparaison des manuscrits et des diverses rédactions. Coulet et fils. Montpellier.  acesivel em Gallica

Le Roux, F. (1955): "Le cheval divin et le zoomorphisme chez les Celtes", Ogam Nº 7/2, 38 pp. 101-122

Merceron, J. (2018): "Le cheval Bayart, l’enchanteur Maugis et la fée Oriande. De la médecine par le secret à la chanson de geste et retour par la mythologie celto-hellénique" NMC Nº 4 pp. 1-76 PDF

Tarde, P. (1861): Le roman des quatre fils Aymon, princes des Ardennes. P. Dubois. Reims. acessivel aqui
  

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Maugis o Encantador - Palestra

Maugis d'Aigremont et autres enchanteurs-voleurs


Quando: 16 Novembre
Onde: on-line
   

O dia 16 de novembro o Groupe Île-de-France de Mythologie Française (GIDFMF) organiça dentro do ciclo de conferèncias "Mages, prophètes et saints guérisseurs" uma palestra que sera proferida por Guillaume Leroy sob o titulo "Maugis d'Aigremont e outros ladrões encantadores"

Os quatro filhos de Aymon, grandes figuras da mitologia francesa, não poderiam ter salvado as suas vidas sem a ajuda do encantador Maugis d'Aigrmont. É na segunda metade do século XII que vemos o aparecimento nas canções de gesto de uma figura recorrente do ladrão-feiticeiro, verdadeiro avatar do romance épico do malandro, cuja primeira encarnação parece ser a do mágico Bacia , mas cuja versão mais famosa assume sem dúvida as feições do famoso primo dos filhos de Aymon: Maugis d'Aigremont.


Ainda mais do que seus primos, o encantador aparece como o adversário irreconciliável do imperador Carlos Magno, e o ódio feroz (e em parte desmotivado) que cada um dedica ao outro sugere a presença de um motivo antigo, possivelmente mitológico. Maugis experimentou uma popularidade crescente, tornando-se o herói de sua própria canção e então, sob o nome de Malagigi, uma figura significativa nos grandes poemas épicos italianos do final da Idade Média e, ainda hoje, no teatro de marionetes siciliano.

Muitas vezes se sentiu que esse personagem deve parte de sua natureza a um modelo mítico, mas tem sido difícil chegar a um acordo sobre uma identificação. Assim, por vezes quisemos derivá-lo de modelos não europeus, ou pelo contrário aproximá-lo do Odin ou Loki germânico, ou mesmo do Lug celta. Quem realmente é o encantador Maugis?


a palestra decorrera as 19 horas (hora da França) e será acesso livre e de balde através do Zoom apos registo no site do GIDFMF aqui