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sábado, 7 de junho de 2025

Arreios de Cavalos da Pré-história à História

Harnessing Horses from Prehistory to History

Kanne, K., Benkert, H. &Vo Van Qui, C.M.L (eds.) (2025): Harnessing Horses from Prehistory to History. Approaches and Case Studies. Sidestone Press. Leiden.   ISBN: 9789464263350  DOI: 10.59641/ww723zi

Sinopse  
O passado humano é inimaginável sem o cavalo. Desde os nossos ancestrais caçando e pintando cavalos no Paleolítico Superior, até os primeiros cavaleiros, a ascensão dos impérios equestres e o papel crucial dos cavalos na guerra, no colonialismo e na formação do Estado moderno, a história humana é inegavelmente equestre. 


Devido aos profundos e variados vínculos entre pessoas e cavalos, o estudo dos cavalos do passado é inerentemente, e cada vez mais, interdisciplinar. No entanto, os estudiosos muitas vezes não compreendem os métodos ou não conhecem a pesquisa fora da sua disciplina.


Este livro reúne um grupo de autores especialistas de dezassete países que explicam suas abordagens disciplinares e fornecem estudos de caso de relações entre humanos e cavalos no passado, incluindo arqueologia, história, clássicos, história da arte, literatura e medicina veterinária.


Este volume abrangente apresenta uma visão geral dos principais métodos, teorias, períodos e estudos de área. Destinado a académicos que desejam compreender e incorporar pesquisas fora de sua especialidade, ou àqueles que desejam empreender projetos colaborativos, também foi concebido como um ponto de partida para estudantes e não especialistas prosseguirem com o estudo de cavalos no passado.

INDEX


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domingo, 25 de agosto de 2024

O Herói e o Cavalo Demoníaco

Numa anterior postagem (aqui) mostramos a través de vários casos repartidos por boa parte do mundo indo-europeu a recorrência de uma representação do cavalo como um ser monstruoso, demoníaco e associado a morte. Isto contrasta com o aspeto positivo que observamos igualmente de forma recorrente na mitologia dos povos indo-europeus em torno a este mesmo animal. 


O cavalo se mostra como montura dos deuses, tirando do do carro solar, do qual as os deuses solares Hélios (Grécia) e Suria (Índia) e seus carros são o paradigma. e o chamado "carro solar" de Trundholm a sua manifestação proto-histórica. Cavalos frequentemente alados, assistentes de heróis como Pégaso, ajudante de Perseu e Belerofonte. 


Esta peculiar ambivalência entre os aspetos luminoso e escuro, divino e demoníaco, se amostra especialmente em alguns cavalos sobrenaturais, o próprio Pégaso se diz numa das versões do sua origem fora engendrado pelo sangue que caiu da cabeça dum monstro tão terrivel como a gorgona Medusa. 


Origem monstruosa que topamos também no escandinavo Sleipnir o corcel de oito patas (expressão da velocidade mesma) do deus supremo Odhin. Segundo as Eddas Sleipnir foi parido pelo deus Loki sob a forma de égua. após ser fecundado por um cavalo troll. Sleipnir filho do maligno deus tramposo e do cavalo sobrenatural dos gigantes (trollar) antagonistas dos deuses, se converte emporiso na montura do pai dos ases. 


Isto contrasta com que o resto dos filhos de Loki são monstros, como a Serpe de Midgar ou Lobo Fenhrir, destinados a enfrentar-se e matar aos deuses, ou devorar ao sol e a lua no grande conflito cosmogónico ao final do tempos. 


Em paralelo ao Sleipnir o potro de 8 patas na Índia encontramos a Uccaisravas o cavalo branco de 7 cabeças, montura de Indra. o deus guerreiro e soberano,  e do qual descendem todos os cavalos. Uccaisravas aparece em ocasiões também tirando ele sozinho do carro solar de Suria, mas também associado em ocasiões ao rei dos demos (asuras) Vala. 


Uchchaisravas surge junto com outro “tesouros” como resultado de um evento mítico central da mitologia hindu, o “Batido do Oceano de Leite” realizado em comum por asuras e daevas. Segundo uma tradição Vala teria-se apoderado do cavalo após este sair do oceano primigenio. 


Mas posteriormente o deus Brahma teria concedido o cavalo aos deuses. Esta ambiguidade no caráter e origens do cavalo, as vezes maligno ainda que ajudante dos deuses e heroes, cremos pode relacionar-se com um ciclo de lendas esparso pelo extenso do mundo Indo-Europeu que descreve o combate entre um "herói" e um cavalo monstruoso.  

Keshi vs Khrisna

Um dos combates equideos mais expectaculares neste sentido encontramo-lo na India, onde se narra o enfrontamento entre Khrisna encarnação (avatar) do deus Vishnu e Keshi, literalmente “o Caveludo”- um asura (demo) com forma de cavalo. Keshi foi mandado pelo tio do proprio heroi, Kamsa (el mesmo um asura encarnado) ao qual uma profecia lhe anunciara a sua futura morte a mãos de seu sobrinho


O Vishnu Purana descreve expressivamente a Keshi como um terrivel corcel capaz na sua ferocidade de conmocionar e infundir terror na criação enteira:

“Keshin, confiando na sua destreza, tendo recebido o comando de Kamsa, partiu para (as florestas de) Vrindavana, com a intenção de destruir Krishna. Vinha sob a forma de corcel, desprezando a terra com os seus cascos, espalhando as nuvens com a sua crina e saltando, nos seus passos, para além das órbitas do sol e da lua. Os vaqueiros e as vacas, ouvindo os seus relinchos, ficaram aterrorizados e fugiram para Govinda em busca de protecção, pedindo-lhe que salvasse os animais.”(Vishnu Purana XVI)
Mas Krishna não so atemoriça e quando Keshin morde ao heroi tentando devora-lo os seus dentes rompense contra o braço dele que se expande sufocando ao mostro até partir em dois o corpo da besta demoniaca:

“O demónio correu contra ele, com a boca bem aberta; mas Krishna, alargando o seu braço, enfiou-o na boca e arrancou-lhe os dentes, que lhe caíram do maxilar como fragmentos de nuvens brancas. Ainda assim, o braço de Krishna, na garganta do demónio, continuou a aumentar, como uma doença aumentando ... os lábios rasgados do demónio vomitaram espuma e sangue; os seus olhos reviraram-se em agonia; as suas juntas cederam; bateu na terra com os pés; o seu corpo estava coberto de suor; tornou-se incapaz de qualquer esforço. O formidável demónio, tendo a boca aberta pelo braço de Krishna, caiu, despedaçado, como uma árvore atingida por um raio. Estava deitado separado em duas partes, cada uma com duas pernas, metade de costas, metade de cauda, uma orelha, um olho e uma narina. Krishna permaneceu ileso e sorridente” (Vishnu Purana XVI)

Hayagriva vs Mastya

A tradição hindu conhece os  monstros equideos além de Keshi, outro celebre asura com forma  –ao menos parcial- de cavalo é Hayagriva, literalmente “cabeça de cavalo”. Este demo roubou da boca do deus Brahma os vedas aproveitando o sono no que este entrou ao terminar o ciclo cosmico.

“No fim do último kalpa, no fim dos dias de Brama, houve uma destruição periódica. A terra e outros mundos foram inundados pelo oceano. O poderoso criador sucumbiu ao tempo e procurou um lugar para dormir. Nesse momento, Hayagriva saiu-lhe da boca e, aproximando-se dele, roubou os Vedas” (Bhagavata Purana, VIII)
O episodio se situa dentro do cenario do grande diluvio universal que bem a clausurar destruindo-a uma idade mais do mundo, o que obriga a Hayagriva a se agochar nas água dentro de uma concha. Para recuperar o livros sagrados Vishnu adopta a sua primeira encarnação, a dum grande peixe (Mastya) forma com a que se enfronta a Hayagriva dentro das poprias aguas marinhas. Outras verssões atribuem a adopção de uma outra forma a Vishnu na luta contra Hayagriva, a dum home com cabeça de cavalo chamado por isso ele também Hayagriva.

Asopa vs Tiistrya
   
Dentro do ambito iraniano atopamos igualmente algumos outros cavalos monstrossos, o cavalo saido do mar que mata de um couçe a Yazdagerd I (do que já temos falado aqui) e sobre tudo o demo Apaosha que se faz com o control do lago ou mar Vourukasha do qual procedem todas as águas, provocando uma seca universal. O proprio nome deste cavalo demoniacos refire a este facto pois se tem explicado como um derivado de *apa-uša “queimando”, *apa-vṛt(a)- “contendo as águas” ou do abjetivo *a-pauša “não próspero”.



Apaosha se mostra como um cavalo totalmente preto: “Apaosha, sob a forma de um cavalo preto com orelhas pretas, preto com o dorso preto, preto com a cauda preta, marcado com marcas de terror”. Para se enfrontar a ele o deus Tiistrya adquire a forma de uma corcel branco, apõs experimentar outras 2 metaformoses sucessivas. Os dois cavalos se enfrontam por tres vezes, até que finalmente no ûltimo combate Tiistrya consegue superar por fim a seu rival e liberar às águas:

“Eles encontram-se, casco contra casco, ó Spitama Zarathujtra! o brilhante e glorioso Tistrya e o Daeva Apaosha; lutam juntos, oh Zarathustra! até à hora do meio-dia. Então o brilhante e glorioso Tiistrya mostra-se mais forte que o demo Apaosha, ele vence-o... A vida das águas fluirá sem restrições para os campos de milho com sementes grandes, para os campos de pastagens com sementes pequenas e para todo o mundo material!" (Avesta, Yast III. 20-30)

A obvias similitudes entre os mitos da luta contra Hayavriga e Apaosha que fazem pensar em um contexto indo-iraniano comum, a pressença do mar como cenario da luta (já seja o mitico Vourukasha ou o Diluvio), a importancia cosmogõnica da acção do mostro já seja através do apoderamente dos vedas necessarios para a realização do rito, ou da negação das águas que ameaça converter o universo num ermo deserto, e o caracter equino -ou semi-equino- de ambos dois contendentes.

Herakles lutando contra as éguas de Diodemes, kylis de figuras pretas

Herakles e as éguas de Diomedes 
   
Longe de este contexto tão trascendente e cosmologico se situam os parapelos gregos, onde se descrevem varios casos de equideos devoradores –que recordam algo a Keshi- como as éguas do carro de Glauko que este alimentava com carne humana, dieta em ocasiões explicada pelo facro de que estas descenderam das arpias, até que apõs cair dos seu carro foi devorado ele mesmo pelas  bestas. Mas, sem duvida, o caso mais celebre de equideos canivales o temos na éguas de Diomedes, vencidas por Herakles dentro dos seus trabalhos.

“Empreendeu então o trabalho de trazer as éguas de Diomedes, o trácio. Tinham bebedouros de bronze por causa da sua ferocidade e eram presas com cadeias de ferro por causa da sua força. Como alimento, não tomavam o que a terra produzia, mas sim os membros dos estrangeiros que elas próprias cortavam em pedaços, com o qual tinham como alimento a desgraça das pobres victimas.”
As éguas de Diomedes, pela artista Elise Gauthier

Após derrotar aos animais Haracles consigue domestica-las dando-lhes a comer a seu proprio dono, apòs o qual depois estas ficaram mansas como qualquer outro animal normal sendo oferecidas a deusa Hera, convertindo-se elas e os seus descentes num rebanho semi-salvagem consagrado a deusa:

 Hércules, para as domesticar, deu-lhe de comer ao seu dono Diomedes e, uma vez satisfeito o apetite daqueles animais com a carne daquele que lhes ensinou o mal, conseguiu domesticá-las. Quando as éguas lhe foram trazidas, Euristeu consagrou-as a Hera, e aconteceu que a sua descendência continuou a ser consagrada até ao reinado de Alexandre, o Macedónio” (Estrabão VII. 331)
O detalhe de referir a continuidade de este manada sagrada até a chegada da epoca de Alexandre Magno é interessante porque enlaça as éguas de Diomedes com as tradições sob Bucefalo. o cavalo do conquistador macedonio, a quem atribuiam uma conducta antropofaga antes de ser domado pelo heroi.

Alexandre e Bucefalo, Domenico Maria Canuti s. XVII

Alexandre e Bucefalo 
   
Conta o Speudo-Calistenes como Filipo ao descobrir a natureça antropofaga do poldro decidiu utiliza-lo como metodo de ajustizamento para os traidores ao reino:

Então ordenou aos seus servos que lhe construíssem uma jaula de ferro e o fechassem nela sem restrições.—E aos rebeldes contra o meu reinado e os que foram condenados por desobediência à lei ou banditismo, botadelhe-os!. E assim se fez como o rei ordenou”
Isto sucede assim até que um jovem Alexandre se topa com o cavalo e a sua peculiar prissão e provindencialmente doméstica ao animal, que aceita sem preblemas o seu dominio. cumprindo assim uma profecia que augurava a soberania universal para aquel que montara a Bucefalo:

“O cavalo, que ouviu a voz de Alexandre, relinchou pela segunda vez, não como sempre, de uma forma terrível, mas suave e clara, como se fosse impulsionado pela divindade. Depois, quando Alexandre se aproximou da jaula, o cavalo estendeu-lhe as patas dianteiras e mostrou-lhe a língua como se lhe quisesse mostrar que era o seu verdadeiro dono. Alexandre observou a admirável imagem do cavalo e os restos mortais de muitos homens condenados à morte espalhados à sua volta e, deixando os seus guardas abrigarem-se, ordenou que a jaula fosse aberta. Apoiando-se nas suas costas, saltou sobre ele sem rédeas e guiou-o pela cidade de Pella. Um dos cavaleiros correu a anunciar o facto ao rei Filipo que se encontrava fora da cidade. Filip lembrou-se do oráculo e saiu imediatamente oráculo e saiu imediatamente ao encontro de Alexandre e abraçou-o dizendo:—Salve, Alexandre, imperador do universo!”(Pseudo Calístenes, I,13)
Compre destacar que as dois mitos gregos (o de Diomedes e o de Bucefalo) difirem da variante indo-irania na pacificação final do animais após o encontro e derrota pelo o heroe, e não implicam a morte como no caso de Keshi, Hayagriva ou Asopa, tal vez por ser estes ùltimos irreconciliaveis pelo seu caracter maligno, no esquema duralista tanto do mazdeismo como no do conflicto hindustica de asuras e devas. Emporiso, no caso de Bucefalo este termina convertindo-se em assistente do heroi nas sua conquista asiáticas.


O Lith Macha e Cú Chulain

Esta variação parece estar pressente também na Irlanda onde  os dois cavalos sobrenaturais, o “Gris de Macha” (Lith Mach) e o “Preto de Saingliu” (Dub Sainglend), que tiram do carro de combate do grande heroi do ciclo epico CúChulain, foram conseguidos pelo heroi através de um curiosso procedimento.

“Na verdade isso foi assim, esse foi o dia em que ele consegui o seu corcel, o Cinzento de Macha (Liath Macha) em Lind Leith cerca de Sliav Fuait. Ao sair do lago, Cuchulainn achegou-se até ele e colocou as duas mão ao redor do pescoço do cavalo até que os dois iniciaram uma luta, e desta forma lutando deram a volta a Irlanda, até que nessa noite Cuchulainn veio perseguindo com o seu corcel (lit. cavalo de condução) para Emain. Trouxe da mesma forma ao Preto de Saingliu (Dub Sainglend)  desde o Lago Dubh Sainglenn (Festim de Bicriu, 31-32)
A luta com o Gris de Macha adquire a forma de um autentico combate corpo a corpo, que não deixa de recordar a alguns metodos utiliçados dos nosso "aloitadores" nos curros de verão, como o de Sabucedo, para someter e inmovilizar às bestas quando se lhe cortam as crinas.


Mas bom, deixando este semelhança etnogrãfica intuitiva, outros detalhes são interessantes: como que cavalo e heroi no seu combate circumbalem em um noite toda a Ilha de Irlanda, e que pareçam faze-lo na mesma direção que o curso solar, ou ainda mais destacavel o facto de que tanto o Lith Macha como o Dub Sainglend saiam das águas dum lago, pelo que podem ser identificados com a figura tipica do denominado no folklore irlandes e escoces como Each Uishge “Cavalo da Água”: cavalo sobrenatural, ao que as lendas lhe atribuem frequentemente habitos antropofagos e afundir nas águas aos desgraçiados que montam em eles na ignorància da sua natureza sobrenatural

Variações sob um mesmo tema comum?

Pelo que de novo estariamos no caso dos corceis de Cú´Chulain ante bestas potencialente malignas, mesmo antropofagas, que derrotadas pelo heroi são mudadas nos seus asistentes. Voltando a questão inicial e vendo os divergentes destinos que temos visto do cavalo monstroso (de sua aniquilição á converssão em aliado do heroe), consideramos como um possibilidade probavel que a ambivalencia dos cavalos sobrenaturais em geral no mundo Indo-Europeu: destrutor-defactor, ctonico e divino, escuro e solar, asociado a morte mas heroizador, respondam a um mesmo padrão conceitual

Sistematização dos elementos do topos do cavalo sobrenatural no mundo 
indo-europeu, elaboração do autor

O qual tal vez, exprime a primitiva percepção do homem pré-histórico no momento inicial da domesticação dos equideos, um processo longo e complexo no que se faz explicita a ambivalencia dum animal salvagem e potencialmente perigosso mas que podia tornar dozil e uma ajuda para o ser humano após ser submetido. Possivelmente aqui este boa parte da explicação ultima que da lugar as multiplas antinomias da figura do cavalo no ambito cultural Indo-Europeu e das que este ciclo da luta entre o heroi e o cavalo demoniaco não é mais que uma pequena mostra. .
   

Bibliografia:

Brunner, C.J. (1987): “Apōš” Encyclopaedia Iranica on-line https://www.iranicaonline.org/articles/apos-the-demon-of-drought
   
Corsano, Marinella (1992): Glaukos, miti greci di personaggi omonimi. Ateneo. Roma.
   
Darmesteter, G. (1892): Le Zend-Avesta. Annales du Museé Guimet. Paris. Vol. 2.
   
Debroy, B.(2019): The Bhagavata Purana. Penguin. Londres. 3 Vols.
     
Henderson, G. (1899): Fled Bricrend / The Feast of Bricriu. Irish Text Society. Londres. 
      
Wilson, H.H. (1868): Vishnu Purana. Trübner & CO. Londres. 
    
Tenreiro-Bermúdez, M. (2023): "Um Kelpie iraniano" Archaeoethnologica blog aqui
  
   
Agradecimentos: temos que agradecer a troca de ideias sugerèncias e informações com Valéry Raydon, Dolores Gonzaléz, Maria Alonso Echanove, Cristovo de Milio Carrín, e Santi Bernardez


quinta-feira, 9 de maio de 2024

Pessõas e Cavalos na Idade do Bronze - Tese

Becoming Equestrian

Katherine S . Kanne (2018): Becoming Equestrian: People and Horses in Bronze Age Hungary. Tese doutoral apresentada na Northwestrn University. DOI: 10.21985/n2-6cte-r339

   
Sinopse 
As pessoas e os cavalos têm uma história profunda, co-construída e co-evolutiva em comum. Esta dissertação avalia as mudanças sociopolíticas da Idade do Bronze Húngara (2.800 – 800 A.C.) no contexto de mudanças de longo prazo nas relações entre humanos e cavalos. 


Na Idade do Bronze, presume-se que os cavalos impulsionaram o desenvolvimento de sistemas políticos complexos governados por aristocracias guerreiras de elite e condutores de bigas que transformaram o Velho Mundo. Os cavaleiros são colocados no centro da economia política, nas intersecções dos transportes e do controlo do comércio, da guerra, das instituições guerreiras e das ideologias. Nesta dissertação este modelo de economia política, é desafiado por uma arqueologia multiespécies, que investiga o papel das novas interações entre humanos e cavalos, suspeitas de sustentar estas transformações. 


Com uma metodologia integrada, a primeira a combinar zooarqueologia, bioarqueologia, análise de isótopos estáveis, através do estudo de cultura material e o mapeamento GIS, analisam-se os dados de sete assentamentos e dez cemitérios. Encontram-se assim os primeiros cavaleiros da história, as primeiras patologias pós-cranianas em cavalos, as primeiras evidências de criação e troca especializada em cavalos, mas nenhuma evidência de carruagem. A primeira equitação não era restrita por classe ou sexo, e há poucos indícios de controle da elite na produção, propriedade ou uso de cavalos na Idade do Bronze húngara.


Isto cria um problema interpretativo para a abordagem da economia política, que antecipa que os cavalos foram cooptados pelas elites aspirantes nas suas tentativas de criar riqueza e governar as finanças. Esta fase das relações homem-cavalo ainda não foi definida pelo poder equestre como um poder sociopolítico abrangente. O hipismo surgiu no início da Idade do Bronze; a politização dos cavalos veio depois. Só no final da Idade do Bronze os cavalos foram claramente incorporados nas buscas de poder e na guerra. 


Mesmo assim, os cavalos emergem tão importantes na resistência ao poder centralizado como um veículo para consolidá-lo. Os resultados desta dissertação minam a proposta de disseminação generalizada das aristocracias guerreiras no início da Idade do Bronze europeia. Desmontar o guerreiro de elite de sua carruagem complica uma antiga mas persistente grande narrativa da Idade do Bronze que tem no seu cerne um domínio antropocêntrico de elite da natureza, animais, mulheres, plebeus, moradores rurais e outros ao longo do tempo. 


Pastores comuns, plebeus e mulheres deram contribuições iguais para o desenvolvimento das sociedades complexas da Idade do Bronze europeia com e através dos cavalos.
  

INDEX


Descarregar a tese em: Becoming Equestian

As origens da domesticação do Cavalo - Palestra


Deixamos aqui o vídeo da palestra que o passado mês de fevereiro proferiu o geneticista Jaime Lira Garrido (Pesquisador Marie-Curie, Centre d'Anthropobiologie et de Génomique de Toulouse - CAGT) no Museu Arqueológico Nacional de Madrid



Muitos estudos têm considerado o cavalo como o verdadeiro catalisador do desenvolvimento daqueles grupos culturais que souberam aproveitar deste animal já domesticado. Os primeiros cavalos domésticos surgiram há apenas cerca de 5.500 anos, o modo e o momento de sua domesticação foram cercados de incógnitas ao longo do século XX. 

Estudos com genomas antigos publicados nos últimos dez anos mudaram profundamente o conhecimento que tínhamos sobre o processo de domesticação deste animal. Entre outros, demonstraram que os cavalos foram domesticados em dois locais e épocas diferentes, mas apenas uma linhagem sobreviveu até aos dias de hoje oferecendo indivíduos domésticos. 

Além disso, estes estudos localizaram definitivamente a posição filogenética do cavalo Przewalski, considerado por muitos até recentemente como um animal que nunca tinha sido domesticado. Foram detectadas duas “linhagens fantasmas” recentemente extintas, uma localizada na Sibéria e outra na Península Ibérica, que aparentemente tiveram contribuição nula para o grupo doméstico. 

Por outro lado, análises de genomas antigos permitiram detetar sinais de seleção antrópica no grupo doméstico e também compreender o papel que os cavalos desempenharam na difusão das línguas indo-europeias. Surpreendentemente, a mudança na distribuição dos sexos entre os cavalos eurasianos analisados ​​desde a Idade do Bronze tem sido associada ao aparecimento de desigualdades de género nas sociedades humanas passadas. 

Em suma, pretende oferecer uma síntese dos principais episódios da evolução biológica e subsequentes interações culturais que ocorreram nas populações de cavalos da Eurásia, descobertas graças aos últimos avanços no ADN antigo.


quinta-feira, 2 de novembro de 2023

A Neolítização no Crescente Fertil

The Epipalaeolithic & Neolithic in the Eastern Fertile Crescent 


Richter, T. & Darabi, H. (2024): The Epipalaeolithic and Neolithic in the Eastern Fertile Crescent. Revisiting the Hilly Flanks. Routledge. Londres.  ISBN: 9781003335504
   

Sinopse 
Este volume reúne os resultados e discussões mais recentes das pesquisas realizadas no leste do Crescente Fértil, nos chamados flancos montanhosos e nas regiões adjacentes, além de fornecer perspectivas históricas importantes sobre trabalhos de campo anteriores na região.


O surgimento de sociedades sedentárias produtoras de alimentos no sudoeste da Ásia ca. 10.000 anos atrás tem sido um foco de pesquisa importante para os arqueólogos desde a década de 1930. Este livro fornece um equilíbrio ao peso do trabalho realizado no Crescente Fértil ocidental, nomeadamente no Levante e no sul da Anatólia. Esta preferência levou a uma forte ênfase nestas regiões nas discussões sobre onde, quando e como ocorreu a transição da caça e recolha para o cultivo de plantas e domesticação de animais. 


Os capítulos avaliam o papel do Crescente Fértil oriental como uma região-chave no processo de neolitização no sudoeste da Ásia, destacando as principais e importantes contribuições que as pessoas desta região fizeram para o surgimento de sociedades agrícolas sedentárias. 


Este livro destina-se principalmente a acadêmicos que pesquisam a transição da caça e coleta para a agricultura no sudoeste da Ásia. Será também de interesse para os arqueólogos que trabalham nesta transição noutras partes da Eurásia.

INDEX


+INFO sobre o livro em: Epipalaeolithic and Neolithic