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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Mobilidade, Escravatura e Sacrifício no Neolítico


Recentemente foi publicado um artigo na revista Plos One no que se fazia revisão de um velho achado do neolítico escandinavo, o Homem de Vittrup. Os restos deste homem pré-histórico foram topadas em 1915 como resultado dos lavores de extração de turfa num pântano do Noroeste da Dinamarca. Junto aos fragmentos do crânio e alguns ossos do corpo apareceram também resto de bovídeos, um vaso cerâmico e uma clava de madeira. 



O analise do restos revela que o indivíduo era um varão de entre 30 e 40 que morreu pelo efeito de 8 golpes dados com um objeto contundente, muito possivelmente a clava topada próxima a ele, o qual junto com os restos animais permitem suster a hipótese de que sua morte teria sido resultado de um ritual de sacrifício, comparável ao dos conhecidos homens do pântano da pre- e proto-historia escandinava; em vez de causado por um ato de violência ocasional. Assim mesmo a datação radio carbónica, calibrada tendo em conta o efeito reservorio marinho próprio de populações com dieta íctica, situa ao homem de Vittrup entre o 3.900 e o 2.800  A.C, período adscrito a cultura neolítica do Vaso de Funil. 


O aspeto de mais interesse de este estudo recente está no re-estudo dos restos de este homem pré-histórico mediante as técnicas de análise isotópicas e paleogenómicas. Estas permitiram situar o lugar de origem do indivíduo muito longe de onde apareceu, numa região que poderia situar-se ou bem no norte da Noruega, ou sul da Suécia, zonas habitadas na altura por populações de caçadores-coletores alheias as populações de colonizadores agrícolas com origens genéticos na Anatólia, como a cultura do Vaso de Funil. O perfil genético concorda com isto mostrando a ausência de conexões genéticas com as populações do Vaso de Funil e sim com as populações mesolíticas escandinavas. 

Embora as análises isotópicas amostram um câmbio de localização que teria decorrido depois na infância ou pré-adolescência, entre os 9 ou 12 anos, do individuo de Vittrup, e uma mudança posterior a uma região menos fria, possivelmente a própria Dinamarca.  Assim mesmo se percebem divergências na dieta com respeito a esta etapa caçadora-recoletora, amostrando que a idade na que se produziu a morte a dieta do Homem de Vittrup era a mesma que a das populações neolíticas do Vaso de Funil. 



Para explicar os câmbios de habitat e forma de vida do indivíduo de Vittrup se prateiam dois cenários. No primeiro o Homem de Vittrup teria chegado a Dinamarca, tal vez, por uma assimilação cultural de populações caçadoras ao novo tipo de economia agrícola, e zonas mais nortenhas de Escandinávia. O qual concordaria com o cenário cultural do sul da Suecia nessa epoca.

"Na época do Homem de Vittrup, pessoas com ascendência da Anatólia habitavam toda a Dinamarca, bem como (pelo menos) as partes sul e sudoeste da Suécia ( Fig. 2 , pontos cinzentos). Nos séculos anteriores – durante o Neolítico Inferior local – esta população também esteve permanentemente presente mais a norte, na ilha de Gotland e nas zonas baixas da Península Escandinava, muito além de Estocolmo e do Fiorde de Oslo. Isso é evidenciado por achados de cultura material, como monumentos funerários megalíticos, assentamentos e depósitos de áreas húmidas com cerâmica em forma de funil ...

Assim, na época de Vittrup Man, o sul da Escandinávia era habitado por pelo menos três populações com diferentes economias e ancestrais genéticos: ao sul, grupos FBC com ascendência de agricultores europeus; ao norte, caçadores-coletores com ascendência mesolítica puramente local; e no meio, grupos de PWC caracterizados por ascendência mista de caçadores-coletores escandinavos e agricultores europeus. A composição genética desta última população revela que estiveram envolvidos contactos físicos estreitos entre grupos de caçadores-coletores e agricultores."

O próprio deslocamento desde a sua região natal por parte do Homem de Vittrup implicaria uma distância considerável, 75 kilómetros no caso da localização sueca, uns 100 se a local estivera na Noruega, e por tanto implicaria uma viagem marítima a grande escala, e contactos marítimos entre o neolítico danes e o resto das regiões nórdicas. Nestas relações poderiam tomar parte fatores de mobilidade como pudera ser o intercâmbio de matérias-primas líticas e outros produtos


Mas outro cenário possível e também compatível com o anterior seria atribuir deslocamento do homem de Vittrup durante a sua infância a circunstancias menos pacificas e amáveis. Em esta interpretação em troca de ser membro de uma comunidade mercantil de intermediários na troca de sílex assentada no Norte da Dinamarca, o home de Vittrup teria chegado a território danes ele mesmo como mercadoria, mão de obra escrava, já fora capturado, por populações do vaso de funil, entre grupos caçadores ou resultado de razias guerreiras entre as próprias populações caçadoras que detrairiam parte dos cativos para o intercâmbio com os seus sócios comerciais neolíticos. 


Esta hipótese é especialmente interessante tendo em conta que a idade de 9-12 anos em que o Homem de Vittrup se deslocou cara o sul. Os exemplos etnográficos de populações pouco complexas de agricultores a pequena escala ou caçadores que praticam a escravidão mostram um padrão coerente, com uma clara divisão de sexo e idade nos capturados: mulheres em idade fértil e meninos de ambos sexos que possam servir de mão de obra, ou futuras esposas e/ou concubinas. Assim o sujeito de Vittrup teria chegado como resultado de um ato violênto. 



O facto de esta morte vincular-se a um sacrifício pudera ser indicativo da "marginalidade" social dentro do grupo neolítico no que hipoteticamente seria integrado com um status servil, na linha do que Orlando Patterson sina-la ao definir a escravidão como uma forma "morte social" e do escravo como "socialmente morto" e, por tanto, permanentemente alheio a comunidade humana na que se ve inscrito forçadamente. 



A condição do escravo nas sociedades pouco complexas como as americanas estudadas por Santos Granero (aqui) varia profundamente desde sociedades nas que a integração do escravo é progressiva, e mesmo é favorecida através da adoção ou matrimonio, ou tem uma dimensão geracional, terminando os descendentes dos escravos sendo reconhecidos como outro mais da comunidade, a outros casos nos que se marca de jeito indelével a "alteridade" radical entre o escravo e o livre, mesmo com a interdição de qualquer contacto matrimonial ou sexual entre eles.


Nestes casos de "segregação" permanente nos de facto o escravo permanece invariavelmente, por tanto, no seu estado de "morte social", isto o faz especialmente adequado para o sacrifício como sucede no caso do Homem de Vittrup. 


Ambas as duas explicações podem ser argumentadas com os dados disponíveis: ou bem o sujeito sacrificado em Vittrup seria parte de um comunidade mercantil do Norte de Jutlândia e capturado como prisioneiro e morto recentemente, ou bem teria chegado como mão de obra escrava no comércio a longa distância nórdica, e já na idade adulta, cumprido o seu ciclo produtivo pleno, escolhido sem mais como vítima para o sacrifício que teve lugar no pântano de Vittrup.
  

Artigo: 

Fischer A, Sjögren K-G, Jensen TZT, Jørkov ML, Lysdahl P, Vimala T, et al. (2024): "Vittrup Man–The life-history of a genetic foreigner in Neolithic Denmark" PLoS ONE Nº 19/2: e0297032. DOI: 10.1371/journal.pone.0297032

Bibliografia complementar:

Patterson, O. (1982): Slavery and social death: a comparative study. Harvard University Press. Cambridge, Massachusets.

Santos-Granero, F. (2009): Vital Enemies: Slavery, Predation, and the Amerindian Political Economy of Life. University of Texas Press.  Austin.


sábado, 23 de dezembro de 2023

Enemigos Vitais - Escravidão e Predação

Vital Enemies

Santos-Granero, F. (2009): Vital Enemies: Slavery, Predation, and the Amerindian Political Economy of Life. University of Texas Press.   Austin. ISBN: 978-0-292-71888-3


Sinopse  
Analisando a escravatura e outras formas de servidão em seis sociedades indígenas não estatais da América tropical na altura do contacto europeu, "Inimigos Vitais" oferece uma abordagem nova e fascinante ao estudo da escravatura baseada na noção de "economia política da vida" Fernando Santos-Granero baseia-se nas primeiras fontes históricas disponíveis para fornecer novas informações sobre os regimes ameríndios de servidão, sociologias de submissão e ideologias de captura. 



Estimando que os escravos cativos representavam até 20 por cento da população total e até 40 por cento quando combinados com outras formas de servidão o autor argumenta que as formas nativas de servidão cumprem a compreensão moderna da escravidão, embora os contextos ameríndios forneçam distinções cruciais com a escravidão tal e como se desenvolveu no Sul dos Estados Unidos em epoca contemporânea. 



A compreensão ameríndia das forças vitais como finitas, escassas, distribuídas desigualmente e em constante circulação produz um conceito de que todos os seres vivos competem pela energia vital. A captura de seres humanos é uma manifestação extrema desta compreensão, mas marca um elemento importante na forma como a “escravidão em cativeiro” ameríndia foi mal interpretada pelos conquistadores europeus. 



Iluminando esta faceta cultural que tem sido amplamente negligenciada ou mal interpretada durante séculos, "Inimigos Vitais" torna possíveis novos diálogos sobre o tema das hierarquias no campo dos estudos nativos, bem como um provocativo reenquadramento da América pré e pós-contacto.

INDEX

​Introduction 1

Part 1. Histories of Domination

chapter 1. Capturing Societies  p. 17

Part 2. Regimes of Servitude

chapter 2. Captive Slaves p. 47

chapter 3. Servant Groups p. 65

chapter 4. Tributary Populations  p. 83

Part 3. Sociologies of Submision

chapter 5. Markers of Servitude  p. 105

chapter 6. Servile Obligations  p. 126

chapter 7. Dependent Status  p. 147

Part 4. Ideologies of Capture

chapter 8. Civilizing the Other  p. 173

chapter 9. Warring Against the Other  p. 196

Conclusions p. 218

Appendix. Assessment of Main Sources  p. 229

Bibliography  p. 240

Index  p. 271


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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Sociedades sem Guerra e Origens da Guerra

Warless Societies and 
the Origin of War

Kelly, R.C. (2003):  Warless Societies and the Origin of War. University of Michigan Press. Ann Arbor.  ISBN: 0-472-09738-5  DOI: 10.3998/mpub.11589

  
Sinopse  
A obra emprega uma análise etnográfica comparativa de sociedades caçadoras e coletoras sem guerra e guerreiras para isolar características distintivas de povos pré-agrícolas pacíficos e para desenvolver um modelo teórico da origem da guerra e da coevolução inicial da guerra e da sociedade. 


Examinando as principais pinturas rupestres do Paleolítico Superior e sepulturas que documentam a violência letal, a iluminação de Raymond Kelly sobre a transição da ausência de guerra para a guerra em vários locais específicos da Europa e do Médio Oriente confunde a compreensão da origem da guerra predominante hoje.




Kelly aborda questões fundamentais relativas à trindade formada pela interação entre a natureza humana, a guerra e a constituição da sociedade: Será a guerra uma característica primordial e difundida da existência humana ou um conjunto de práticas que surgiram num determinado momento do nosso passado pré-histórico recente? Existem sociedades pacíficas nas quais a guerra está ausente e, em caso afirmativo, como são e como diferem das sociedades bélicas?




As características críticas de diferenciação dizem respeito às práticas de criação dos filhos, aos modos de resolução de conflitos, à desigualdade social e económica, à competição por recursos ou à constituição de grupos sociais?




Como as conclusões de tal investigação são centrais para as nossas concepções da natureza humana, o livro irá interessar a uma vasta gama de leitores, desde os curiosos sobre as origens da violência colectiva até aos que estudam os papéis que as instituições sociais desempenham na sociedade.

INDEX

Preface p. IX

Introduction p. 1

1. The Category of Peaceful Societies p. 11

2. Warless and Warlike Hunter-Gatherers: 
A Comparison  p. 41

3. The Origin of War: A Transitional Case  
p. 75

4. The Early Coevolution of War and Society  
p. 121

Notes  p. 163

Bibliography  p. 177

Index  p.  189


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