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sábado, 1 de julho de 2023

Gramsci e a Antiguidade - Livro

Antonio Gramsci 
&
 The Ancient World  

    

Zucchetti, E. & Cimino, A.M. (2021): Antonio Gramsci and the Ancient World. Routledge Monographs in Classical Studies, Routledge, Londres ISBN: 978-0-367-19314-0


Sinopse
A obra explora a relação entre a obra do pensador marxista italiano Antonio Gramsci e o estudo da antiguidade clássica. A coleção de ensaios aborda a história, a literatura, a sociedade e a cultura grega e romana, oferecendo uma variedade de perspectivas e abordagens com base nos insights teóricos de Gramsci, especialmente em seus Cadernos da Prisão. 


O volume investiga a compreensão e a recepção de Gramsci do mundo antigo, incluindo o uso de fontes antigas e da historiografia moderna, e a viabilidade de aplicar alguns de seus principais insights teóricos ao estudo da história e literatura grega e romana. Os capítulos tratam das ideias de hegemonia, revolução passiva, cesarismo e o papel dos intelectuais na sociedade, oferecendo uma exploração complexa e diversificada dessa interseção.


Com sua fascinante mistura de tópicos, o volume será de interesse para estudantes e estudiosos de clássicos, história antiga, estudos de recepção clássica, marxismo e história, e para aqueles que estudam as obras de Antonio Gramsci em particular.


INDEX

Introduction: The reception of Gramsci’s thought in historical 
and classical studies  p. 1
Emilio Zucchetti

1. Negotiating hegemony in early Greek poetry p. 44
Laura Swift 

2. Upside-down hegemony? Ideology and power in ancient Athens 
p. 63
Mirko Canevaro

3. Gramsci and ancient philosophy: Prelude to a study p. 86
Phillip Sidney Horky

4. A Gramscian approach to ancient slavery p. 101
Kostas Vlassopoulos 

5. The Etruscan question: An academic controversy in 
the Prison Notebook  p. 124
Massimiliano Di Fazio 

6. Polybios and the rise of Rome: Gramscian hegemony, 
intellectuals, and passive revolution p. 141
Emma Nicholson 

7. Antonio Gramsci between ancient and modern imperialism 
p. 165
Michele Bellomo

8. Plebeian tribunes and cosmopolitan intellectuals: Gramsci’s
approach to the late Roman Republic p. 183
Mattia Balbo 

9. Between Caesarism and Cosmopolitanism: Julius Caesar as 
an Historical Problem in Gramsci  p. 201
Federico Santangelo

10. Gramsci and the Roman Cultural Revolution p. 222
Christopher Smith

11. Caesarism as stasis from Gramsci to Lucan: An “Equilibrium
with catastrophic prospects”  p. 239
Elena Giusti

12. Hegemony in the Roman Principate: Perceptions of power
in Gramsci, Tacitus, and Luke  p. 255
Jeremy Paterson

13. Gramsci’s view of Late Antiquity: Between longue durée
 and discontinuity  p. 273
Dario Nappo

14. Cultural hegemonies, ‘NIE-orthodoxy’, and social-development models: Classicists’ ‘organic’ approaches to economic history 
in the early XXI century  p. 301
Cristiano Viglietti

Afterthoughts  p. 327

1. The author as intellectual? Hints and thoughts towards a 
Gramscian ‘re-reading’ of the ancient literatures p. 329
Anna Cimino

2. Hegemony, coercion and consensus: A Gramscian approach to 
Greek cultural and political history  p. 341
Alberto Esu

3. Hegemony, ideology, and ancient history: Notes towards 
the development of an intersectional framework  p. 352
Emilio Zucchetti 

General index 365

Index of the ancient sources 376

Index of Gramsci’s texts 384


+INFO sobre o livro: A. Gramsci & The Ancient World

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Doncelas e Estatuas, a mulher como Alegoria

MONUMENTS & MAINDENS

Warner, M. (1985): Monuments & Maidens. The Allegory of the Female Form. Atheneum. New York. ISBN: 0-689-1-1645-4


Sinopse
Marina Warner explora a tradição de personificar liberdade, justiça, sabedoria, caridade e outros ideais e desideratos na forma feminina e examina a tensão entre os papéis históricos e simbólicos das mulheres. 



Baseando-se na evidência da arte pública, especialmente escultura e pintura, poesia e mitologia clássica, ela percorre a presença alegórica da mulher na tradição ocidental com um olhar atento e um estilo agil e envolvente.


INDEX

Foreword p. xix

Part One: The Female Presence Today

1 The Monument (New York) p. 3

2 The Street (Paris) p. 18

j The Front Page (London) p. 38

Part Two: The Figure in Myth

4 Engendered Images p. 63

5 The Bed of Odysseus  p. 88

6 The Aegis of Athena  p. 104

7 The Goddess of Success  p. 127

8 The Sword ofJustice  p. 146

9 Lady Wisdom  p. 177

Part Three: The Body in Allegory

10 The Making of Pandora  p. 213

11 The Sieve of Tuccia p. 241

12 The Slipped Chiton p. 267

jj Nuda Veritas p. 294

Epilogue

The Eyes of Tiresias p. 329

Abbreviations  p. 335

Notes p. 337

bibliography and references  p. 377

Index p. 401



Descarregar o livro em: Monuments and Maidens

Retornando a Pré-história - Livro


Black to the Stone Age


Pitcher, B. (2022): Back to the Stone Age: Race and Prehistory in Contemporary Culture. McGill-Queen's University Press. ISBN:  9780228014515


Sinopse: A vida humana pré-histórica é um ponto de referência comum na cultura contemporânea, inspirando tentativas de se tornar pessoas mais felizes, saudáveis ou melhores. Explorados pelo capitalismo, subjugados pela tecnologia e vivendo à sombra da catástrofe ambiental, apelamos ao pré-histórico para escapar do presente e modelar formas alternativas de viver nossas vidas. 



Em "De volta volta à Idade da Pedra", Ben Pitcher explora como as ideias sobre raça estão fortemente entrelaçadas nas poderosas histórias de origem que usamos para explicar quem somos, de onde viemos e como somos. Usando uma ampla gama de exemplos da cultura popular – desde práticas cotidianas como acender fogueiras e caminhar na floresta até engajamentos com tecnologias genéticas e DNA neandertal ... 


De megálitos e manequins de museu a programas de televisão e best-sellers de não-ficção – Pitcher demonstra como a pré-história está viva no século XXI, e argumenta que os voos populares de volta no tempo fornecem achegas reveladoras sobre ansiedades, obsessões e preocupações atuais. 


De volta à Idade da Pedra mostra que o passado humano não está gravado em pedra. Ao abrir o pré-histórico à contestação crítica, Pitcher coloca a justiça racial no centro das questões sobre a existência e persistência do Homo sapiens no mundo contemporâneo.


INDEX

Introduction

1 A Turn to Prehistory

2 Becoming Prehistoric

3 Prehistory and the Popular Culture of the Anthropocene

4 Genetic Prehistory

5 Prehistory, Landscape, and Belonging

6 Facing Up to Prehistory

7 Piltdown Man and the Endomorphic Gravel Pit

Conclusion

Notes

Bibliography

Index


+INFO sobre o livro em: Back to the Stone Age

domingo, 4 de junho de 2023

"American Progress" ou o Caminho a Oeste


Ao fio da anterior postagem sob o titulo de Cowboy & Yamnas, e em relação com o tema da mulher como personificação da Nação vamos a deternos numa pequena leitura iconográfico-contextual de esta esta imagem bastante eloquente na sua mensagem que aqui temos. A obra intitulada "American Progress" foi pintada pelo artista John Gast (1842-1896) em 1872, por tanto em pleno momento de expansão cara o Selvagem Oeste dos EE.UU

A mulher sobredimensionada que circula entre os colonos e "Colúmbia" a personificação oficial dos EE.UU, correlato feminino do agora tal vez mais conhecido "Uncle Sam"; a mesma que figura que portando um facho podemos topar no começo dos filmes da Columbia Pictures

Colúmbia (representando o povo americano) alcança a oprimida Cuba no entanto o Tio Sam ao fundo fica com os olhos vendados  (Judge, 6 de fevereiro de 1897), Grant E. Hamilton

Em esta ocasião Colúmbia vai sem o goro frígio nem elementos alusivos das estrelas e barras na vestimenta. O livro que leva, e que a priori bem pudéramos supor fora a Bíblia, não o é senão de facto um "manual escolar" (School Book) simbolizando a cultura educação que chegam a seu passo ao mesmo tempo que os primitivos índios, e outras varias feras selvagem fogem espavoridos a fume de caroço a medida que se produz avance de Colúmbia, junto com os colonos e o Progresso em geral: exemplificado este pelo telegrafo o Cavalo de Ferro, e a agricultura ;algo que gostaria muito a J. Locke que já falara de que isso que tinham os índios não te era de tudo "propriedade" realmente como veremos.

diversas representações de Colúmbia como personificação da América: a) "Be Patriotic" de Paul Stahr, ca. 1917-18, Colúmbia vestida de bandeira americana e boné frígio, que significa liberdade e a busca pela liberdade, de um pôster patriótico da Primeira Guerra Mundial; b) A capa do jormaç o Puck de 6 de abril de 1901 retrata a Colúmbia usando um navio de guerra com as palavras "World Power" como seu gorro de Páscoa. A figura do couraçado coroando testa reinterpretar a imagem clássica da Fortuna-Tutela-Tyche que porta a muralhas da cidade a jeito de coroa (coroa mural) como símbolo de proteção militar, um representarão do continente América previa a sua "nacionalização" como Colúmbia, luzindo junto a atributos clássicos como a Cornucopia outros denotadores de indigenismo,  porcelana de Meissen do 1717

   
E sim, caro leitor Colúmbia leva a corda do telégrafo que vai colocando a seu passo sem que fique muito claro quêm é o que coloca os pauzinhos (coisas das alegorias, que, como o nome diz, são alegóricas e não se preocupam demasiado por esses detalhes práticos mundanos)

Há outros detalhes peculiares aos que merescem atenção:

1) a pesar do vaporoso e etéreo das roupagem Colúmbia não ensina nada, no entanto as impudicas índias vão coas tetas ao ar denotando o inmoral e primitivo dos seus costumes.

2) a única personagem que vai armada em toda a composição é um  índio que foge mirando cara atras ante uns colonos desarmados e que  apenas portam ferramentas agrícolas. 

Obviamente a situação real da colonização distava muito de esta "pacificada" cena de fugida e abandono natural das terras elos seus primigenios ocupantes. O que funciona aqui é um mecanismo ideológico profundamente asumido na mente dos colonizadores. Entra em jogo uma contraposição entre o "civilização" e a agricultura vs. o "selvagem" que como tal é exemplificado pelos índios que não cultivariam (o qual em muitos casos não era certo, pois vários deles desde os iroquês aos índio Pueblo eram de facto agricultores sedentários) e as "feras" não-humanas já sejam os depredadores ou os herbívoros selvagem como o bisontes, digo feras não-humanas porque os índios em esta equiparação são vistos como "homens feros", autenticas feras humanas, mais que humanos propriamente.

Como digo isto encaixa muito bem coa teoria que mesmo se tem denominado por algum como "individualismo possessório" de J. Locke que no seu "Segundo Tratado sobre o Governo Civil" defendia que a propriedade era gerada pelo "trabalho" mediante a qual o sujeito enagenava os bens do que estavam na Natureza em "Comum". Locke pus vários exemplos de isso tomados hipoteticamente dos índios da Norte América; basicamente do estilo de: "vai um índio e caça um cervo, logo o cervo e seu e não de outro". 



Isto é algo que agora, pela Antropologia sabemos que não funciona realmente assim, já que existem em muitas sociedades reais de caçadores-coletores, nas que ou bem o caçador não pode consumir -por um tabu- ele próprio a peça que caçou, apenas a que outros caçaram. ou bem se vê obrigado moralmente a compartir pela moral imperante a su caça, ou mesmo pelo escárnio dos outros caçadores que parodiam e se bulram dos caçadores que tèm sucesso

 Retrato de John Locke por Godfrey Kneller, Museu do Hermitage

Mas bom, deixando a um lado o que Locke não entendia nem podia entende.r o certo é que a continuação Locke empeçava a incidir em que a "propriedade" em sentido indico não era demasiado propriedade porque era apenas o uso temporal sobre algo fungível, sob o que que uma vez consumido não retinha nenhum direito, nem permitia acumular unidades de essa propriedade (pelo seu caráter perecedoiro), pelo que a "Propriedade" de verdade verdadeira apenas aparecia com a agricultura a parcelaria e a Civilização que a legitimava através da Lei e o Direito




Por isto mesmo a suposta "propriedade" índia não era propriedade pois por este individualismo possessório um índio pode possuir de certo o cervo que caça, mas não adquire nenhum direito sobre a fraga onde caça, nem o resto dos cervos potencias que pastam em ela. A isto se engadia um argumento, que em realidade não era original de Locke, e que este em vez de aplicar aos índios senão os paisanos dos open-fields britânicos, e é que se um bem que estava em comum na Natureza não era aproveitado pelo habitante dum território era de facto um bem bacante (sem dono, res nullius), curiosamente quando este argumento se definiu sim foi aplicado aos índios com argumentos do tipo: se os índios não conhecem a metalurgia os recursos metálicos mineiros que há na sua terra são res nullius e podem ser apropriados por qualquer que os reclame para sim  e dos quais seria o "primeiro possessor".

representação de um chefe indio da Virginia em um gravado 1590


Mas a Locke isto não lhe interessava senão dar argumentos a um brutal transformação da propriedade agrícola que se estava a exercer apressuradamente na sua época (Openfield a Enclossures) ainda que jã vinha dos século anteriores. Muitos dos colonos norte-americanos da primeira metade do XVIII que popularam as 13 Colónias eram parte de essa massa de agricultores despossuídos e expulsos do agro. Após da Independência dos EE.UU  cortada já a possibilidade de emigrar as colónias americanas, essas massas foram as cidade britànicas onde se converteram no proletariado que nutriu as florescentes fabricas da Revolução Industrial.

protesta anti-enclosures, o 16 de maio de 1751, os camponeses de Richmon escalaram o muro de Richmon Park para realizar a cerimônia anual de "bater nos marcos" (beating the bounds) recorrendo os limites das antigas propriedades da Freguesia que lhes foram expropriadas.


Paradoxalmente estes camponeses desarraigados e isolados no amplo espaço americano, não reconstruirão lá o modelo "comunal" de explotasão e forma de vida, base dos Open-fields das suas aldeias de origem, eram a fim de contas gentes privadas da sua história, da sua identidade (comunal e aldeia) em uma terra nova e sem passado acompanhados dispersamente por outros muitos estranhos aos que nenhum laço prévio os unia, e cuja única esperança era empeçar de novo com seu pedaço de terra e a sua cavana. 

cena das labores colectivas durante a colheita dos camponeses europeus

Pelo tanto esta indivíduo camponês alienado da sua comunidade de origem nunca recriou o velho "comunalismo" lá senão algo que paradoxalmente recordava mais ao ideal daquele "individualismo possessório" similar ao que argumentara Locke para justificar filosoficamente a privação a aqueles dos seus velhos direitos sobre a terra na metrópole.

"American Gothic" de Grant Wood (1891-1942), 1930

Quando Tocqueville realiçou a sua viagem nos EE.UU se encontrou muito contrariado por essa estranha forma individualista de ver a vida dos norteamericanos, que não acabava de entender de tudo, e na que qualquer vinculo comunitário ou de solidariedade parecia pivotar sempre em base a um interes individual previo, que se pudera entender formalmente como reciproco (em um sentido quase contratual).

Aqui fica a reflexão  hipotético-contextual de hoje, para mais saber podeis consultar a bibliografia aqui embaixo

Algo de Bibliografia

Locke, J. (1689): The Two Treatises of Civil Government (Hollis ed.). A. Millar et al. acessivel aqui

Kramer, M. H (1997):  John Locke and the Origins of Private Property: Philosophical Explorations of Individualism, Community and Equality. Cambridge University Press. Cambridge.

Macpherson, C. B (1964): The Political Theory of Possessive Individualism: Hobbes to Locke. Oxford University Press. Oxford.

Marx, K. (2018): La Llamada Acumulación Originaria. Fundación El Perro y la Rana. Caracas (obviamente o celebre capitulo extratado de O Capital) disponível em: archive.org 

Padgen, A. (1986):  The fall of natural man : the American Indian and the origins of comparative ethnology. Cambridge University Press. Cambridge. 

Padgen, A. (1988): La Caída Del Hombre Natural. El indio americano y los origenes de la etnología comparativa. Alianza. Madrid acessivel em archive.org

Sandweiss, M.A.: "John Gast, American Progress, 1872" Picturing United States History https://picturinghistory.gc.cuny.edu/john-gast-american-progress-1872/

Tocqueville, A. (2012): Democracy in America. Liberty Fund, Indianapolis (ediçâo crítica com apéndices dos manuscritos previos de Eduardo Nolla) acessível aqui

   

Ou as duas lições que lhe adiquei a Locke na asignatura de História das Ideias Políticas 2 para os alunos do grau de Ciências Políticas da UNED

Tenreiro-Bermúdez, M. (2021) "Teoría Política de la Ilustracción 1: J. Locke" accesivel em Cadena Campus UNED

Tenreiro-Bermúdez, M. (2021) "Teoría Política de la Ilustracción 2: J. Locke" accesivel em Cadena Campus UNED