Mostrar mensagens com a etiqueta Gália. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gália. Mostrar todas as mensagens

domingo, 22 de março de 2026

Os Gauleses enterrados sentados

Gauleses enterrados sentados na rua Turgot em Dijon 
(Côte-d'Or)


Em janeiro de 2025, o Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva (Inrap) anunciou a descoberta de sepulturas gaulesas incomuns — uma série de indivíduos enterrados sentados — durante uma escavação relacionada à reestruturação do complexo escolar Joséphine Baker, em Dijon. As escavações, que foram retomadas recentemente em uma nova área da escola, revelaram pelo menos cinco novas sepulturas de gauleses sentados. 


A escavação está localizada na extremidade sul do antigo jardim do convento dos Cordeliers, atualmente delimitado pela Rue de Tivoli, que marca o traçado da antiga muralha da época moderna. A menos de cem metros ao norte da escavação, duas operações arqueológicas realizadas antes da construção do estacionamento Sainte Anne e da residência Fyot, na década de 1990, revelaram vestígios de assentamentos que datam do final do período gaulês e da Antiguidade.


As principais ocupações descobertas durante essas novas escavações consistem principalmente em sepulturas individuais de pessoas falecidas, enterradas sentadas, provavelmente datando da Segunda Idade do Ferro. O sítio também revelou uma necrópole galo-romana do século I  d.C., dedicada ao sepultamento de cerca de vinte crianças que provavelmente morreram antes de completarem um ano de idade, e localizada em grande parte da área escavada. Seus limites não estão claramente definidos, pois a criação de covas de plantio, valas e trabalhos agrícolas realizados durante o período moderno obliteraram vários túmulos.

Sepultamentos gauleses incomuns 

Os níveis mais antigos do sítio arqueológico, provavelmente datados da Segunda Idade do Ferro, revelaram uma série de 13 sepulturas. Essas covas circulares, com aproximadamente um metro de diâmetro e espaçadas regularmente, formam uma linha reta de 25 metros de comprimento, orientada no sentido norte-sul. Uma nova série (2026) de cinco a seis sepulturas foi adicionada a esta, três das quais seguem um novo alinhamento. Essas estruturas estão, em geral, bem preservadas, apesar da significativa erosão que causou o deslocamento ou mesmo a destruição dos ossos enterrados menos profundamente.


Entretanto, os primeiros estudos dos 13 gauleses enterrados sentados e desenterrados em 2024 revelam uma população composta exclusivamente por homens, com idades entre 40 e 60 anos, e alturas variando entre 1,62 e 1,82 m. Em relativa boa saúde, esses corpos são caracterizados por atividade física e boa dentição.


Mais incomum ainda, cinco ou seis deles apresentam marcas de violência não cicatrizadas, sem dúvida indicativas de homicídio intencional: cortes no úmero. Um deles recebeu dois golpes no crânio com um objeto cortante (espada?).


Os falecidos eram adultos sepultados de maneira idêntica, sentados no fundo da cova, com as costas contra a parede leste e voltados para oeste. Seus braços repousavam ao longo do torso, com as mãos próximas à pélvis ou aos fêmures. 


As pernas estavam profundamente flexionadas, frequentemente de forma assimétrica. Com exceção de uma braçadeira de pedra preta (datada entre 300 e 200 a.C.), nenhum pertence pessoal ou adorno foi encontrado junto aos restos mortais. Essa datação permite relacionar a ocupação ao período gaulês.


Na década de 1990, escavações no bairro vizinho de Sainte-Anne revelaram dois sepultamentos semelhantes. Essa proximidade sugere um assentamento compartilhado que se estendia para o norte a partir do terreno na Rue Turgot, onde uma área (datada entre o final do período gaulês e o início do século I d.C.) foi identificada. 


Essa área é estruturada pela construção de um imponente fosso defensivo e uma via delimitada por uma área dedicada a sepultamentos de animais. Esse complexo inclui o depósito de esqueletos completos de cães, ovelhas e porcos, uma prática que poderia indicar a presença de um local de culto gaulês tardio. Os resultados de escavações de salvamento recentes realizadas em outros locais de Dijon também tendem a confirmar a existência de um assentamento gaulês estruturado.

Algumas possíveis interpretações

Esta descoberta na Rua Turgot é particularmente notável pelo número de sepulturas encontradas e pelo bom estado de conservação dos esqueletos. Exemplos de indivíduos falecidos sepultados em posição sentada são atestados desde o período Mesolítico e, embora raros, também ao longo do período Proto-histórico.


Após a escavação, ainda é cedo para tirar conclusões sobre a atividade funerária na Rua Turgot. No entanto, as características comuns a todos os túmulos e a uniformidade das práticas funerárias sugerem ocupações semelhantes ao longo de todo o período de La Tène (aproximadamente de 450 a 25 a.C.). Apenas cerca de uma dúzia de sítios arqueológicos revelaram cerca de cinquenta indivíduos falecidos "sentados", cujos túmulos estão localizados perto de residências aristocráticas, ou mesmo santuários ou locais de culto, longe das necrópoles.


Nove desses sítios arqueológicos estão localizados na França, distribuídos pela metade norte da Gália, e outros três na Suíça. Apesar da distância geográfica entre eles, algumas semelhanças emergem: essas estruturas funerárias situam-se na periferia de assentamentos; os indivíduos envolvidos são adultos cujo sexo, quando determinado, é masculino. 


Além disso, a uniformidade das posições (a mesma orientação, o arranjo cuidadoso do corpo) remete a representações em pedra ou metal de figuras agachadas ou mesmo de pernas cruzadas, datadas do final do período La Tène ao Alto Império; esses sepultamentos sugerem uma prática provavelmente destinada a indivíduos específicos.

Fonte: INRAP (18-03-2026)


quinta-feira, 19 de março de 2026

Miniaturas Votivas no Ocidente Romano - Livro

Miniature Votive Offerings 
in North West Provinces

Kiernan, P. (2009): Miniature Votive Offerings in North West Provinces of Roman Empire. MenTor Studien zu Metallarbeiten und Toreutik der Antike Vol. 4. Franz Philipp Rutzen. Maguncia. ISBN: 978-3-941336-45-2

Sinopse   
As oferendas votivas em miniatura são pequenas representações não funcionais de objetos do cotidiano, comumente encontradas em sítios de santuários nas províncias do noroeste do Império Romano. 


Elas são frequentemente vistas como evidência de um rito romano-celta universal de miniaturização, que permitia aos fiéis dedicar modelos em substituição a coisas que não podiam adquirir. Essa prática é tipicamente associada a uma tradição romana de confecção de oferendas votivas pessoais, que substituiu o depósito ritual em larga escala de espólios de guerra e metais preciosos, característico da religião da Idade do Ferro. 


Ao considerar esses objetos à luz de seus locais de descoberta arqueológica, distribuição, cronologia e significado simbólico, este livro demonstra que as oferendas votivas em miniatura não foram produzidas como parte de um único fenômeno ritual. Os diversos tipos (rodas, armas e armaduras, machados, moedas, ferramentas, os chamados ímbolos mitraicos, etc.) foram todos produzidos por razões específicas e, muitas vezes, não relacionadas. 


Algumas eram oferendas comunitárias, em vez de individuais, e funcionavam como substitutas para oferendas de alto valor do passado que já não eram viáveis. Tais oferendas pertencem a uma fase de transição entre a religião da Idade do Ferro e a religião romana. 


Outras oferendas votivas em miniatura, depositadas tanto por indivíduos quanto por grupos, funcionavam como símbolos de divindades específicas ou atos rituais e foram usadas desde o final da Idade do Ferro até o fim do período romano. 

INDEX

 


Descarregar o livro em: Miniature Votive Offerings

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Santuários das Águas na Gália Oriental - Tese

Les sanctuaires des eaux 
en Gaule de l'est

Vurpillot, D. (2016): Les sanctuaires des eaux en Gaule de l'est: origine, organisation et évolution (Ier siècle av. J.-C.-IVe siècle après J.-C.). Tese doutoral apresentada na UniversitédeFranche-Comté

Sinopse  
Este estudo visa compreender melhor o lugar e a importância dos cultos da água no panorama religioso da Gália Oriental, propondo cenários para a evolução do fenómeno e das suas práticas associadas. Além disso, aborda, de forma mais geral, a questão das transformações que afetaram a geografia sagrada da Gália após a sua integração na Romanitas.






O conceito de cultos da água na Gália é repleto de contradições. Por conseguinte, procurá-se avaliar este conceito ambíguo. Em primeiro lugar através de uma reavaliação de fontes antigas, que leva ao autor a considerar que estes cultos da água devem ser vistos como um conceito religioso flexível. Na Gália, as comunidades parecem ter-se apropriado deste conceito adaptando-o às suas necessidades, mesmo que algumas convenções religiosas pareçam transcender épocas e culturas. Para verificar a validade desta hipótese, testa-se esta com os dados arqueológicos de uma seleção dos sítios localizados na Gália Oriental. 


Isto permitiu-nos identificar duas fases cronológicas principais que marcam a evolução dos cultos da água na Gália. A primeira fase estende-se do século I a.C. até a primeira metade do século I d.C., época em que essa nova faceta do culto florescia. Antes que o discurso religioso atingisse uma forma de maturidade, a segunda fase cronológica teve início no terceiro quartel do século I d.C.

Descarregar 

Sanct. des eaux Vol. 1 PDF
Sanct. des eaux Vol. 2 PDF

INDEX


Postagem relacionada: Os exvotos de Chamalières

sábado, 6 de setembro de 2025

Explotação Mineira no Sudoeste da Gália - Livro

L’exploitation minière dans le sud-ouest de la Gaule

Meunier, E. (2023): L’exploitation minière dans le sud-ouest de la Gaule entre le second âge du Fer 
et la période romaine. Le district de l’Arize dans son contexte régional. Ausonius Éditions. Pessac. ISBN:  978-2-35613-497-4
Sinopse 
A exploração dos recursos mineiros é uma actividade praticada em todas as cadeias montanhosas do sudoeste da Gália (Pirenéus, Corbières, Montagne Noire) em todos os períodos. Este trabalho oferece um resumo das explorações da Segunda Idade do Ferro e do período romano, cujos dados foram amplamente renovados desde o início dos anos 2000. 


Após uma apresentação global dos sítios mineiros e metalúrgicos conhecidos na região, o caso do distrito prateado do cobre da frente norte do maciço de Arize é abordado mais especificamente, com uma apresentação dos resultados de campo. Este trabalho permitiu evidenciar o início da actividade a partir do período dos séculos IV e III, de acordo com as datas de radiocarbono calibradas obtidas nos locais mineiros. Esta fase de exploração, até então totalmente inédita para este distrito, ecoa resultados semelhantes obtidos noutras minas da região e pode estar ligada ao desenvolvimento económico generalizado observado em toda a Europa.Celta no século III A.C 


Estes resultados levam a matizar a importância do fase de exploração republicana tardia e o impacto da tomada romana da região na produção mineira local. Estes elementos são retomados numa discussão geral que perspetiva os dados regionais e de outros sítios conhecidos, na Gália ou na Península Ibérica, para estas cronologias. Os dados da arqueologia mineira são então ligados aos disponíveis nos contextos arqueológico e histórico. 


Isto contribui para identificar a dinâmica em ação na evolução das operações mineiras no sudoeste da Gália e para melhor compreender as modalidades de transição entre o mundo da Segunda Idade do Ferro e o Império Romano.

INDEX


Descarregar o livro em:  L’exploitation minière

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Sob o Culto dos Deuses Celtas - Livro

Auf den Spuren keltischer Götterverehrung

Hainzmann, M. (2007): Auf den Spuren keltischer Götterverehrung. Akten des 5. F.E.R.C.AN.-Workshop, Graz 9.-12. Oktober 2003. Mitteilungen der Prähistorischen Kommission Vol. 64. Österreichische Akademie der Wissenschaften. Viena.  ISBN: 978-3-7001-3785-6

Sinopse  
Este volume contém 15 contribuições do 5º workshop FERCAN, dedicado à F(ontes) E(pigraphici) R(eligionum) C(elticarum) An(tiquarum), realizado em Graz no outono de 2003. O foco aqui está nos monumentos epigráficos da antiga religião celta. 


No entanto, a diversidade de tópicos abordados nessas apresentações não se limita aos nomes indígenas dos deuses e suas diversas manifestações linguísticas. Ao mesmo tempo, tenta-se revelar os diversos vestígios do culto às divindades celtas, tanto nas evidências arqueológicas da era pré-romana quanto por meio de evidências literárias do período romano (usando Cícero como exemplo). 


Além disso, o contexto sociopolítico de inscrições galo-romanas individuais e os aspetos comumente descritos pelo termo "Interpretatio Romana" também são abordados. Tudo isso é feito com base em inscrições votivas cuja distribuição geográfica vai da Grã-Bretanha à Hispânia, da Gália, passando pela Germânia, até a Nórico.

INDEX





Descarregar o livro:  Spuren keltischer Götterverehrung