"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Há 20 anos era assim #15










SUGAR
File Under: Easy Listening
[Creation, 1994]



Cicatrizadas as feridas da separação tumultuosa dos Hüsker Dü, e após um período sabático dedicado à carreira a solo, Bob Mould estava pronto para nova experiência à frente de uma banda. O momento para o aparecimento dos Sugar (novamente um power-trio), na primeira metade de noventas, não poderia ser o mais ajustado, isto caso a intenção fosse mostrar às novas gerações quem primeiro institui a canção angustiada edificada à custa de guitarras desalinhadas. A iniciativa não poderia revelar-se mais proveitosa, já que tanto o álbum de estreia Copper Blue (1992), como o mini-LP Beaster (1993), recolheram aclamação crítica, com correspondência num número considerável número de vendas. Se o primeiro era a tentativa mais séria de Mould em matéria de canções melódicas, o último, feito de sobras daquele, é um portento de negrume envolto em ruído, apenas vendável no período específico da sua concepção, único no que à aceitação das sonoridades mais agrestes diz respeito.

Aproveitando o balanço do estado de graça, File Under: Easy Listening, muitas vezes com título abreviado para FU:EL, não tardou. Em termos estéticos e de conteúdo temático, este terceiro registo pode ser descrito como a súmula dos dois anteriores, ou seja, com o apelo melódico de Copper Blue e a expiação dos demónios de Beaster. Apesar da deliberada acessibilidade dos dez temas, embalados numa capa com motivos kitsch a condizer, o título escolhido só pode ser visto como irónico, pois a "audição fácil" sugerida apenas deve ser entendida no contexto habitualmente torturado da música de Bob Mould, nunca no todo da música pop/rock, de qualquer era. No entanto, FU:EL até acaba por conter algumas da canções mais imediatas do autor, atestando que Grant Hart não era o único dono do elemento pop dos Hüsker Dü, e Mould o responsável exclusivamente pela abrasão sónica. São os exemplos do irresistível "Your Favorite Thing", do angustiado "What You Want It To Be", ou dos inquietos "Gee Angel" e "I Can't Help You Anymore". O primeiro, em particular, é o paradigma da canção feita à medida das college radios de meados de noventas e, como tal, viu o seu valor reconhecido com significativo airplay. Não obstante a dominância do factor melódico, FU:EL não dispensa alguma da rugosidade característica de Mould, como acontece no inaugural e enérgico "Gift", no denso "Company Book" (escrito e cantado pelo baixista David Barbe), e no contundente "Granny Cool", todos eles ricos em torrentes elípticas de alta voltagem. No pólo oposto, porque de pendor semi-acústico, estão "Panama City Motel", "Explode And Make Up", e "Believe What You're Saying", este com a desolação folky característica de Workbook (1989), o elogiado álbum de estreia a solo na ressaca dos Hüsker Dü.

Cerca de um ano após FU:EL, Bob Mould extinguia os Sugar, agora sem arrufos ou atritos entre os integrantes, apenas por vontade própria e com a certeza do dever cumprido, com uma obra escassa mas sem pontos fracos. A retoma da carreira a solo foi uma prioridade, primeiro com alguma indefinição no rumo a seguir, mas com um fôlego revigorado nos anos mais recentes. Nas muitas aparições pelos palcos desse mundo, o legado dos Sugar é já uma presença assídua nos alinhamentos, sem quaisquer pudores ou complexos de inferioridade quando comparado com o estatuto seminal da obra dos Hüsker Dü.

Gift by Sugar on Grooveshark

Your Favorite Thing by Sugar on Grooveshark

Believe What You're Saying by Sugar on Grooveshark

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Discos pe(r)didos #64










SUGAR
Beaster
[Creation, 1993]



Lambidas as feridas do fim tumultuoso dos Hüsker Dü no quase predominantemente acústico Workbook (1989), disco de estreia a solo, Bob Mould estava pronto, à entrada da década de noventas, para nova investida nos mares da electricidade à frente de uma nova banda. A altura não poderia ser a mais indicada, pois as guitarras furiosas que ecoavam pelos quatro cantos do planeta tinham, invariavelmente, carimbo da obra de Mould enquanto integrante dos huskers. Neste propósito de reclamar os louros junto dos jovens discípulos formou os Sugar, mais um trio que, alegadamente, deve o nome a uma tirada do próprio, recuperada pelo baixista David Barbe, relativamente as intenções musicais do projecto - "some of the songs would be like sugar and others like spice".

Se o lado "açucarado" ficou demonstrado com Copper Blue (1992), o magnífico álbum de estreia com um inesperado sentir pop que rendeu airplay em concordância com a aclamação crítica, o lado mais negro e angustiado de Mould ficaria reservado para a meia dúzia de temas que compõem Beaster. Gravado em simultâneo com o anterior registo, este mini-álbum é um autêntico bestiário que faz jus ao título. Os dedilhados suaves de "Come Around" ainda fazem crer na esperança de alguma luminosidade mas, já neste, a submersão da voz com uma letra minimalista deixa antever o sufoco que se avizinha. As certezas chegam com a cavalgada vertiginosa de "Tilted", com aquela rispidez na voz de arame farpado que traz à memória os melhores momentos dos Hüsker Dü. A cantilena de pregador que encerra este tema, pelo meio de assombros de distorção, denuncia as questões de fé e de culpa com que se debate Beaster. A expiação dos demónios prossegue com "Judas Cradle", exercício de riffs monstruosos em regime pára-arranca e de berraria lancinante. Numa espiral descendente ao âmago do inferno interior, "JC Auto", a peça central deste pequeno compêndio de fustigação sónica, opõe momentos relativamente melódicos à velocidade trepidante que acompanha o suposto refrão, basicamente um "I know, I know, I know" descarregado com toda a fúria que os pulmões de Mould permitem. Num primeiro contacto, "Feeling Better" pode enganar pelo título e pela incursão dos sopros, mas logo que os riffs elípticos agudizam o ritmo, o equívoco é desfeito e somos de novo arrastados numa maré negra de emoções. A meia hora de calvário só tem término com "Walking Away", semi-redenção a golpes de órgão de igreja atonal e vocalizações afogadas em distorção. Embora não totalmente apaziguador, o tema de encerramento funciona como uma subida aos céus depois da violência sónica e emocional a que estivemos expostos. 


Este e os restantes discos dos Sugar, que além de Copper Blue editaram ainda o segundo e derradeiro álbum File Under: Easy Listening (1994), acabam de merecer reedição remasterizada e pejada de extras. É pois ocasião imperdível para (re)descobrir uma banda que, apesar curto período de vida e da obra escassa, deixou marca indelével na produção rock de há duas décadas.

"Tilted"

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

For all the fucked up children of the world #6

Regressa a rubrica da "neura" ao convívio dos internautas visitantes deste blogue. Hoje proponho-vos mais uma composição saída da pena desse ser admirável que dá pelo nome de Bob Mould. Como podereis constatar, a música compensa a fraca qualidade das imagens:

Sugar "If I Can't Change Your Mind" [Creation, 1992]

Tears fill up my eyes
I’m washed away with sorrow
And somewhere in my mind
I know there’s no tomorrow
I see you’re leaving soon
I guess you’ve had your fill
But if I can’t change your mind
Then no one will

And all throughout the years
I’ve never strayed from you my dear
But you suspect I’m somewhere else
You’re feeling sorry for yourself
Leaving with a broken heart
I love you even still
But if I can’t change your mind
Then no one will

Even though my heart keeps breaking
Don’t you know that I’ll be waiting
Here for you
Then when you return
When will you return
I hope you see I’m dedicated
Look how long that I have waited
If you come back then you will find
A different person
If you change your mind

How can I explain away
Something that I haven’t done
And if you can’t trust me now
You’ll never trust in anyone
With all the crazy doubts you’ve got
I love you even still
But if I can’t change your mind
Then no one will

Someday you’ll see I’ve been true
I’ll stay that way until
But if I can’t change your mind
Then no one will

quarta-feira, 25 de julho de 2007

DISCOS PE(R)DIDOS #13

SUGAR
Copper Blue
(Creation, 1992)


Não deixa de ter uma certa carga de ironia que, apenas após a consagração dos Pixies e dos Nirvana, bandas que nunca esconderam a sua devoção aos Hüsker Dü, Bob Mould tenha colhido algum reconhecimento público. Com a experiência acumulada nos anos de carreira dos huskers e em dois álbuns a solo que ninguém ouviu, regressou em grande no ano da graça de 1992 integrado em mais um power trio. Quem estava consciente do papel fundador de Mould em muita da música que se produzia por esses dias era Alan McGee, que tornaria os Sugar um dos poucos projectos ianques a editar música com o selo da Creation Records.
Produzido por Lou Giordano, nome ligado aos míticos estúdios Fort Apache de Boston, que imprimiu ao disco um som pungente resistitente à voragem do tempo, Copper Blue acaba por fechar um ciclo na história da música popular norte-americana, com o mestre, de forma humilde, a colher ensinamentos dos seus seguidores. Facto este, logo constatado em "The Act We Act", a faixa que abre o disco, marcada pela guitarra poderosa e pelas alternâncias entre momentos mais calmos e momentos mais enérgicos. Segue-se-lhe "A Good Idea", que caberia facilmente em Trompe Le Monde, obra terminal dos Pixies.
A voz nasalada de Mould, continuando a entoar osc ostumeiros matters of the heart, parece agora exibir uma raiva mais contida, tornando as letras (como sempre) em forma de pequenos contos mais perceptíveis.
A receptividade a Copper Blue foi tal que, o (então) influente New Musical Express o elegeu disco do ano, ao mesmo tempo que os singles "Changes" e "If I Can't Change Your Mind" (a brilhante canção pop que todos deveriam conhecer e saber de cor) eram brindados com um airplay radiofónico significativo (Portugal incluído, eu lembro-me).
Ainda hoje impressionante tanto pela coesão sonora como pela beleza da lírica de Bob Mould, não passa um mês sem que Copper Blue seja revisitado no meu éstereo. Se estiveram para aí virados, façam como eu e transformem este disco em algo mais do que um clássico perdido dos nineties.
Vídeo de "If I Can't Change Your Mind"
Vídeo de "Helpless"
Vídeo de "Changes"