"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
Mostrar mensagens com a etiqueta Shellac. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Shellac. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Três tipos incríveis















Nunca foram motivo para hypes, muito menos caso para vendas significativas, mas o estatuto dos Shellac como referência incontornável da "porrada sónica" faz do surgimento de cada novo álbum um acontecimento. Afinal de contas, não é algo de frequente, já que, em pouco mais de vinte anos de actividades, os registos de longa-duração ainda se contam pelos dedos de uma mão. Formados na primeira metade de noventas, em plena era do reinado da chinfrineira, dispensaram quaisquer apresentações atendendo ao percurso nas lides dos seus integrantes, em particular o do cabeça-de-lista Steve Albini, afamado pela visceralidade e pela infâmia dos Big Black e dos Rapemen, mas também por constar numa infindável lista de fichas técnicas de discos de outrem. Motivadas pelos longos hiatos de ausência, as elevadas expectativas nem sempre são correspondidas, como aconteceu com o último Excellent Italian Greyound (2007), que afrouxava a agressão em favor de divagações épicas de spoken word que estiveram longe de agradar a toda a gente.

Porém, com o novo e longamente aguardado Dude Incredible repõem-se os níveis de brutalidade de outrora, o que é um bom motivo para justificar a excepção aberta pela Touch and Go Records, que há mais de quatro anos tinha interrompido a edição de novos discos, limitando-se à gestão do invejável catálogo. Antes que os cépticos torçam o nariz perante a eventualidade de estarmos na presença de mais-do-mesmo, esclareça-se que Dude Incredible não é meramente um disco de violência- verbal e sonora - gratuita, mas antes um depuramento da agressão característica na banda. Assim, numa aparente emagrecimento do som, sublima-se a dinâmica dos Shellac, hoje um trio completamente sincronizado nas ideias e intenções. Em turbilhão cacofónico, ou à vez, reforçam-se a  aspereza da guitarra metálica de Albini, a contundência do baixo portentoso de Bob Weston, ou a imprevisibilidade das batidas incríveis de Todd Trainer. Com um acerto impressionante, quer nas convulsões abruptas, quer nas escaladas abrasivas, os Shellac justificam, mais que nunca, o rótulo math-rock que lhes colaram desde o começo.

Dude Incredible by Shellac on Grooveshark
[Touch and Go, 2014]

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

10 anos é muito tempo #22







SHELLAC
1000 Hurts
[Touch and Go, 2000]





O hiato de tempo, eventualmente motivado pelas inúmeras solicitações para "produções" de discos alheios, que separa o estreante At Action Park (1994) e Terraform (1998) não parece ter sido benéfico para Steve Albini e seus associados. Deste último, unanimemente considerado o mais desinspirado dos discos com a chancela Shellac, o trio redimiu-se volvido um par de anos com 1000 Hurts, notório passo evolutivo relativamente à corrosão gratuita que assinalou o contundente álbum de estreia.
Antes que nos demos conta do investimento numa sonoridade mais depurada, próxima do minimalismo rock, 1000 Hurts exibe, nas letras, o regresso do vitríolo dos tempos dos Big Black e dos Rapemen que valeu a Albini acusações de misoginia e homofobia. Em jeito de provocação, o tema inaugural é "Prayer To God", no qual, por entre riffs cortantes e repetitivos, Albini invoca o Criador para pedir a mais cruel das mortes para uma ex-companheira desleal e, em particular, para aquele que tomou o seu lugar. Um vociferado "just fucking kill him / I don't care if it hurts" é suficientemente esclarecedor. Como sempre com Albini, a violência verbal tem de ser entendida como uma forma distorcida de sarcasmo. Em 1000 Hurts tal é facilmente perceptível pelos inúmeros vestígios de uma ironia mais tangível: o trocadilho de geek de estúdio do título; o discurso em voz off com as especificidades técnicas que antecipa o primeiro tema; o delírio non-sense de um declamatório Bob Weston em "New Number Order", capaz de ombrear com os devaneios de um Mark E. Smith nos seus dias sim; ou o decreto "this is a sad fuckin' song / we'll be lucky if I don't bust out crying" na abertura de "Squirrel Song", uma canção sobre uma praga da espécie animal que lhe dá o nome. Neste tema, a guitarra espasmódica, o baixo metódico, e a bateria contusa são a evidência do aprumo técnico dos Shellac neste estádio do seu desenvolvimento. Tal como "Mama Gina" (mais crueldade explícita), que evolui de um segmento instrumental profusamente bluesy e esquelético, atinge o quase silêncio na parte vocalizada, e explode com o trio numa cavalgada capaz de fazer estremecer o esqueleto. Momento de maior ortodoxia, "Song Against Itself" experimenta um groove inaudito, muito por culpa do baixo propulsivo de Weston, que também lhe dá voz. Tal como começa, 1000 Hurts encerra com um número atonal, desta vez a cargo da descarga de metal cortante do monstruoso "Watch Song".


"Prayer To God"


"Squirrel Song"


"Song Against Itself"

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ao vivo #53

















Shellac + Mission of Burma @ Galeria Zé dos Bois, 24/05/2010

Poucos dias antes de pisarem os palcos de um dos mais importantes festivais europeus, estrearam-se em Lisboa (hoje é a vez do Porto) dois dos mais dignos representantes da facção mais desalinhada do rock norte-americano. Para tão solene cerimónia, o "aquário" da ZdB engalanou-se, repleto de um público sedento e que há muito tinha esgotado os escassos ingressos.
A abertura desta double bill de sonho coube aos Mission of Burma, de há alguns anos a esta parte regressados ao activo para reclamar o papel tutelar nas várias correntes oblíquas do rock contemporâneo. Como seria de esperar, o alinhamento assentou no trio de álbuns lançados nesta segunda vida, o que se reflecte em temas pautados por um maior pendor tecnicista, exemplarmente representado na austeridade do guitarrista Roger Miller, ora a debitar descargas de energia em bruto, ora a assumir a pose de guitar hero com solos irrepreensíveis. Tal como nos primeiros tempos, a matriz aparentemente convencional é corrompida pelas constantes intromissões de sons tratados, cortesia de um oculto Bob Weston antes da prestação da sua banda "principal". Para o final ficou guardado esse tema que é já um hino ao inconformismo e que dá pelo nome de "That's When I Reach For My Revolver". No refrão, as vozes berraram em uníssono e os braços agitaram-se no ar. Foi bonita de se ver, a rebelião...
Por mais concertos a que se assista (foi o meu segundo) dos Shellac, é improvável não se ficar abismado com a precisão imprimida pelo trio, tanto nas pausas abruptas, como nos arranques ostensivos, o que revela um invulgar sentido de tempo. Se de Steve Albini e Bob Weston, velhas raposas conhecedoras de todos os truques de estúdio, já esperamos algo próximo do perfeito, a grande surpresa acaba por ser o baterista Todd Trainer, qual batida cardíaca dos Shellac movida a golpes de baquetas. Apesar da postura descontraída (Weston foi um mestre de cerimónias e até o circunspecto Albini deixa escapar algumas tiradas de bom-humor; humor seco, mas humor), a banda não prescinde de descargas de rigor anguloso. "Copper", "My Black Ass", ou o insano "Prayer To God", todos eles marcados pelos espasmos metálicos da guitarra, sacodem os corpos. Já o monólogo analítico de "The End Of Radio" aponta aos neurónios, domados pelo ritmo marcial do baixo. Tal como o par de temas (aparentemente) novos, numa depuração já próxima de algumas correntes do jazz não-formatado, que não geram as maiores ovações, mas apontam interessantes pistas para o desenvolvimento da "fórmula Shellac".

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Postais primaveris - Parte III: Roteiro da Matemática











SHELLAC
Steve Albini, Bob Weston, Todd Trainer - qualquer um destes nomes dispensa apresentações ao cidadão atento às movimentações no underground no último quarto de século. Todos eles têm passados em bandas emblemáticas e, somados, os discos produzidos/gravados pelos dois primeiros são na ordem das centenas, muitos deles marcos incontornáveis da história recente do rock mais desalinhado. Em estúdio, a experiência dos seus integrantes faz com que tenham processos de gravação peculiares, o que acaba por se reflectir nos discos. Mas, diz-se, é em palco que a agressão sonora dos Shellac não deixa ninguém indiferente. Juntos desde 1992, estranhamente, nunca passaram - nem se prevê que passem tão cedo - por este jardim à beira-mar plantado.

"Prayer To God"
[Touch and Go, 2000]











THE JESUS LIZARD
Guitarras cortantes, batidas precisas, e letras incisivas, fazem dos Jesus Lizard umas das mais bem oleadas máquinas math rock da década passada. Dois pares de discos gravados para a emblemática Touch and Go, todos sob "direcção" de Steve Albini, serviram para criar uma reputação de enfant terribles incorrigíveis. Com a passagem para o lado das multinacionais, veio o desquite com Albini, e as tensões que ditariam uma primeira morte, em 1999. Cumprido um período sabático de dez anos, regressam aos palcos no preciso momento em que uma legião de descendentes está na ordem do dia. Do frontman David Yow, um provocador nato, pode esperar-se tudo...

"Monkey Trick"
[Touch and Go, 1991]

terça-feira, 17 de julho de 2007

EM ESCUTA #16

SHELLAC
Excellent Italian Greyhound (Touch and Go, 2007)


Não se pode dizer, nem mesmo para os conhecedores de longa data do trabalho dos Shellac, que Excellent Italian Greyhound seja um disco de fácil assimilação. A estranheza do título (dedicado ao cão do baterista Todd Trainer), e o invulgar trabalho gráfico da embalagem (absurdo e brilhante em partes iguais), encontram paralelo na música contida na rodela.
Após uma primeira audição, dois dos nove temas de ...Greyhound, longos e quase em regime spoken word, soam completamente atípicos no universo Shellac, onde os temas rápidos e secos são a norma. São esses temas, o inaugural "The End Of Radio" e "Genuine Lulabelle".
O primeiro, após algumas audições aturadas, acaba até por se revelar um dos melhores momentos deste disco. Nele, Steve Albini, na pele de um locutor de rádio emitindo para um planeta deserto, vai berrando "can you hear me now?". Uma excelente metáfora à baixa qualidade das rádios que já ninguém ouve, pontuada pela guitarra cortante e a bateria quase jazzística.
Quanto a "Genuine Lulabelle", trata-se de um desabafo de dedo médio em riste sobre alguém que se presume ser uma ex-namorada italiana. As letras são capazes de fazer corar os Enapá 2000 e o suporte instrumental está muitas vezes ausente. Confesso que não entendi a intenção e acho o tema dispensável.
Não obstante um maior depuramento que torna o som mais esquelético, faixas como "Steady As She Goes", "Be Prepared", "Elephant", ou o derradeiro "Spoke", são facilmente categorizáveis como Shellac vintage.
Não atingido desta feita a excelência de At Action Park e 1000 Hurts, e apesar do intragável "...Lulabelle", um regresso dos Shellac após sete longos anos de silêncio é sempre de saudar, ainda para mais com um disco que só precisa de alguma insistência (e predisposição) para se ir revelando.
Quanto às qualidades de Steve Albini enquanto "registador de sons", essas permanecem inabaláveis. Para o confirmar basta escutar a pureza sonora de ...Greyhound de headphones e comparar com o som artificial das dezenas de discos que todos os meses nos chegam aos ouvidos.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

DISCOS PE(R)DIDOS #11

SHELLAC
At Action Park (Touch and Go, 1994)

Depois da formação flutuante dos Big Black e do projecto one-off Rapeman, Steve Albini parece ter encontrado em Bob Weston (baixista) e Todd Trainer (baterista) os parceiros ideiais para dar continuidade à demolição do edifício do rock'n'roll, de tal forma que a formação dos Shellac prossegue inalterável até aos dias de hoje. Dada a precisão irrepreensível demostrada pelo trio neste seu primeiro álbum, é fácil perceber o porquê de tão longa união.
At Action Park é, apesar da importância dos projectos anteriores, um passo em frente na carreira de Albini, pelo menos ao nível da execução instrumental. As letras, essas continuam corroídas daquele sentimento anti-social, vagamente nerdish, vagamente sexista, que por alturas de Songs About Fucking já tinham valido o epíteto de misantropo ao seu autor. Não são para se levar muito a sério e, por vezes, até têm uma certa piada.
Os claros sinais de evolução tornam-se logo visíveis na abertura com "My Black Ass", onde o baixo pulsante presta a devida vénia aos Wire dos primórdios. Após um final abrupto, entramos em "Pull The Cup" com o arranhar (literalmente) das cordas da guitarra, depois entra a bateria, logo a seguir o baixo e, apesar da ausência de palavras, temos talvez a canção mais digna desse nome que os Shellac alguma vez fizeram. Por sua vez o groove minimalista de "The Admiral" só perde a sua vocação dançante nas palavras cuspidas por Albini.
O trio de canções que se segue ("Crow", "Song Of The Minerals" e "A Minute") dá uma ideia do que poderia ter sido In Utero dos Nirvana sem a operação de cosmética levada a cabo por Scott Litt.
Por seu turno, o desacelerado "The Idea Of North", com voz de Bob Weston, pega na herança deixada pelo seminal Spiderland dos Slint e estabelece a ponte com a emergente cena post rock norte-americana. O metalizado "Dog And Pony Show" parece recolher frutos da experiência de estúdio de Albini com os Helmet poucos anos antes, enquanto os vocais do petardo "Boche's Dick" evocam a memória do incontornável Jello Biafra.
A fechar com chave de ouro, em registo jam, os vários andamentos de "Il Porno Star" fazem a súmula do que ficou para trás.
Com todas as suas referências, tanto do passado, como contemporâneas, At Action Park demonstra uma clareza de ideias única, tornando-se um documento fundamental para melhor apreender a facção mais leftfield da música popular norte-americana do último quarto de século, seja isso math rock, post hardcore, noise rock, ou... simplesmente... rock!
NOTA: A recordação deste "clássico" vem a propósito da edição de Excellent Italian Greyhound, disco que quebra um silêncio de sete anos por parte dos Shellac e que, espera-se, esteja um dia destes disponível aqui na terrinha.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

SHELLAC: NOVO ÁLBUM?

Exultem de alegria todos os seguidores de Steve Albini e do seu genial combo de math rock: rumores não confirmados garantem que o homem, por entre os inúmeros trabalhos de "produção" (Joanna Newsom e The Stooges são os mais visíveis nos últimos tempos), arranjou tempo para gravar um novo álbum com os Shellac.
O título apontado é Excellent Italian Greyhound com edição prevista para os primeiros meses de 2007.
Sobre este rumor, o sítio da Touch and Go, editora da banda, é evasivo: "Shellac will have a new LP anytime between now and the future". Nem mais!