"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Discos pe(r)didos #73









SEEFEEL
Quique
[Too Pure, 1993]




No contexto da música popular britânica, e após o manancial post-punk, ainda não ocorreu - e dificilmente voltará a ocorrer, quase aposto - período mais fervilhante que aquele que vai de final de oitentas a inícios de noventas, décadas do século passado. As revoluções da electrónica e da música de dança terão dado o seu contributo, e as tendências baggy e shoegaze serão as faces mais visíveis da época, mas houve algo mais que, longe dos olhares e dos ouvidos das massas e não alinhado em tendências, conferiu àquele período uma extrema riqueza de ideias, abrindo infindáveis possibilidades para um futuro que acabaria por não ser assim tão radioso. Foram tempos de discos charneira, obras que, desde então, têm sido matéria de estudo para as sucessivas gerações de músicos. Da época, é obrigatório citar Spirit Of Eden dos Talk Talk, Loveless dos My Bloody Valentine, e Hex dos Bark Psychosis, separados nas extremidades por meia dúzia de anos mas entremeados por trabalhos de idêntica relevância.

Ao rol acima penso que é justo acrescentar o álbum de estreia dos Seefeel, um quarteto londrino que escassos meses antes tinha editado um par de EPs deslumbrados com as ambiências electrónicas criadas por um jovem Richard D. James, a.k.a. Aphex Twin. Quique é já um produto distinto, absolutamente personalizado e incomparável, uma amálgama espectral e inclassificável para a qual convergem a dream/ambient pop, o dub, a electrónica abstracta, e as técnicas do minimalismo. O resultado está muito para além do espartilho shoegaze, para o qual muitas vezes os Seefeel são erradamente confinados. Com esta difusão de linguagens sonoras, é natural que o ouvinte médio sinta alguma estranheza pela falta de um ponto de orientação, mas os que arriscam o desafio de Quique, quase invariavelmente ficam rendidos a um disco fascinante. Curiosamente, é um trabalho instrumental na essência, se exceptuarmos as esporádicas aparições dos murmúrios quase imperceptíveis da sereia Sarah Peacock. Além disso, esta surge de tal forma imersa na mistura final, que funciona mais como um instrumento. Nas guitarras e nos sequenciadores, Mark Clifford é o estratega do processo, o timoneiro responsável pelo idealizar de diferentes cenários: ora paisagens idílicas, ora atmosferas plúmbeas, sempre com a mesma envolvência quase adictícia. Embora muitas vezes se reduza os Seefeel a uma sombra dos My Bloody Valentine de então, a comparação resulta infeliz, simplesmente porque - à semelhança de muitos contemporâneos - eram uma ilha isolada no contexto em que Quique foi concebido. Talvez, apenas pelas similaridades nos processos, nunca por afinidades estéticas, estivessem mais próximos de uns Flying Saucer Attack, embora estes se "limitassem" a somar possibilidades ao já desbravado universo do space-rock.

Desde que os Seefeel interromperam um longo período de inactividade, há coisa de uma meia dúzia de anos, Quique tem sido alvo de várias reedições. Talvez a mais recomendável seja a versão Redux, lançada pela Warp Records, para a qual o quarteto se mudou após a estreia introduzindo as guitarras numa editora até aí exclusivamente dedicada à electrónica. Nesta dispõem de um segundo disco apenas com remisturas levadas a cabo por almas-gémeas, visões alternativas que realçam muito do apelo sensorial dos originais. Para os rendidos à retromania, talvez seja apetecível a recente reedição em vinil, comemorativa do 20.º aniversário. Esta tem selo da norte-americana Light in the Attic, editora especializada neste tipo de produtos, já com um catálogo capaz de nos fazer perder a cabeça.

Polyfusion by Seefeel on Grooveshark

Plainsong by Seefeel on Grooveshark

Filter Dub by Seefeel on Grooveshark

segunda-feira, 21 de março de 2011

Em escuta #57











CLOUD NOTHINGS _ Cloud Nothings [Carpark, 2011]

Cloud Nothings é o veículo musical de Dylan Baldi, mais um puto norte-americano que encontrou no pop-punk o escape para a inesgotável energia juvenil. Em temos de afinidades musicais está próximo de gente como os No Age ou os Wavves, o que desde logo denuncia afeição pelo lo-fi ruidoso. Porém, mais do que nos casos citados, Cloud Nothings aposta sem pruridos na melodia e na limpeza da produção, resultando daí uma receita pop vitaminada, com as inevitáveis inflexões surf, que pisca o olho a inúmeras glórias indie-rock (Pixies, Guided by Voices, Apples in Stereo, ou Teenage Fanclub, para citar apenas alguns). Assimiladas as fontes, o único aspecto a merecer trabalho de casa é a voz nasalada, à qual se recomenda maior contenção. [7,5]


WYE OAK _ Civilian [Merge, 2011]

É com alguma estranheza que verifico a relativa obscuridade a que tem sido votada a dupla Wye Oak, especialista no contraste entre quietude e descarga sónica. E tenho a quase firme certeza que o seu destino não mudará com este terceiro disco. O que será uma tremenda injustiça, pois Civilian assinala o aprimorar da fórmula dos antecessores, com uma dezena de temas seguros e encorpados. À dicotomia guitarra-bateria, a banda adiciona agora alguns apontamentos electrónicos que sublinham os momentos mais explosivos. A toada reflexiva dominante é propiciada por um meio termo entre a dream-pop e o rock tipicamente noventista, aqui e ali com um laivo folk a despontar. Civilian é também a coroação de Jenn Wasner, dona de uma voz peculiar entre o abandono e o expressivo, como uma das mais dotadas executantes femininas à guitarra. [8]


SIC ALPS _ Napa Asylum [Drag City, 2011]

Outrora executantes de uma música fracturada, na qual os resquícios de canções pareciam querer libertaram-se, os Sic Alps investem agora numa maior objectividade. Napa Asylum foi gravado de forma a soar a disco de outras eras, mais concretamente à segunda metade de sessentas, cujo espírito das célebres Nuggets pretende recuperar. Sucede que os 22 temas (em apenas 47 minutos) são normalmente demasiado curtos para deixar fluir o ambiente psych pretendido. Como se não bastasse, soam, na sua maioria, a meros esboços de canções praticamente indistintos entre si. Infelizmente, confirmam-se em disco algumas das piores expectativas criadas da última vez que os vi em palco. [4]


SEEFEEL _ Seefeel [Warp, 2011]

O título é enganador, pois pode sugerir um trabalho de estreia. Mas os Seefeel já cá andam há quase duas décadas, embora o título homónimo interrompa um silêncio de 15 anos. Conforme anunciado pelo EP do ano passado, Seefeel segue a via da electrónica de pendor abstraccionista, carregada de estática e vozes submersas e alteradas. O elemento humano, a cortar a frieza dominante, é a bateria, normalmente esparsa e numa cadência vagamente jazzística. Portanto, a milhas de distância do hipnotismo planante e das texturas densas do marcante Quique (1993), do qual apenas o downtempo de "Rip-Run" é uma ligeira evocação. Não sendo propriamente um disco de ingestão fácil, Seefeel ganha, com sucessivas audições, estatuto de banda-sonora indicada para o quotidiano impessoal e acelerado dos dias que correm. [7]


THE TWILIGHT SINGERS _ Dynamite Steps [Sub Pop, 2011]

Por esta altura, Greg Dulli já contará tanto tempo à frente dos Twilight Singers como aquele que liderou os Afghan Whigs. Como tal, é natural que, à excepção da devoção soul, a herança destes últimos se vá desvanecendo. Diria até que este quinto registo do "novo" projecto é uma possível súmula do trabalho pós-Whigs: baladas enegrecidas adornadas a piano eléctrico e arranjos de cordas a preceito, tipicamente Singers, alternadas com a fúria das guitarras experimentada nos Gutter Twins. Em termos de letras, retomam-se as crónicas dullianas das batalhas libidinosas ("spread your legs in search of alibis" canta-se a plenos pulmões em "On The Corner"). Portanto, nada de particularmente novo para os seguidores mais próximos que, inclusive, poderão detectar alguma previsibilidade. Detectarão também, com mais agrado, que a voz não propriamente maleável de Dulli ultrapassa as limitações e vai amadurecendo com sapiência, ao ponto de ofuscar em absoluto os convidados Joseph Arthur, Anni DiFranco, e o granítico Mark Lanegan. [6,5]

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ouvir/sentir
















Inegavelmente menos citados que os My Bloody Valentine, os Seefeel foram responsáveis por levar a fantasmagoria quase em estado líquido gerada por aqueles no incontornável Loveless (1991) a um estádio de maior depuramento. Com recurso às programações electrónicas e às guitarras tratadas, criaram paisagens sonoras de uma placidez a meio caminho entre os ambientes bucólicos dos Boards of Canada e as atmosferas plúmbeas do contingente shoegazer. Para melhor entendimento, recomenda-se a escuta de Quique (1993), a obra magna revitalizada com a edição redux de 2007.
No ano passado, movidos por um renovado interesse de público e imprensa, os Seefeel regressaram aos palcos, tendo, inclusive, sido anunciados (e cancelados) como uma das propostas da última edição do Primavera Sound. No que a música gravada diz respeito, a reunião já rendeu os primeiros frutos, com o lançamento (ontem) de Faults, um EP de quatro faixas em formato 10" que vem interromper um silêncio de 14 anos. Na nova formação, à dupla omnipresente Mark Clifford e Sarah Peacock, juantam-se Iida Kazuhisa (antiga baterista dos Boredoms) e Shigeru Ishihara (baixista e DJ ligado às correntes mais abrasivas da música electrónica). A primeira é responsável pela abertura dos Seefeel aos ritmos e às cadências quebradas do kraut, e o último imprime alguma rugosidade à matriz originalmente imaculada. Quanto à voz de Peacock, deixou de ser mero adereço. Emerge agora da densidade das texturas e ganha vida material.
Atentos às tendências musicais da última década e meia, em particular da facção electrónica, os Seefeel de Faults perderam em carácter lisérgico o que ganharam em abstraccionismo. No entanto, a linguagem que utilizam continua a apelar a todos os sentidos.


"Faults" [Warp, 2010]