"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 3 de abril de 2012

Good cover versions #64











ROWLAND S. HOWARD _ "Life's What You Make It" [Liberation, 2009]
[Original: Talk Talk (1986)]



O trajecto dos Talk Talk é um dos mais fascinantes volte-faces registados, não só de oitentas, como em toda a história da música popular. Nascida sob os auspícios "neo-românticos", e inicial e justamente apontada como seguidista, a banda londrina soube evoluir para algo mais personalizado, ao ponto de se tornar, em finais da década, caso de estudo para as tendências dos anos que se seguiriam (falamos de post-rock, pois claro!). Obviamente, uma mudança tão drástica não se opera de um dia para o outro, de um disco para o seguinte. Carece sempre de uma fase transitória, que no caso dos Talk Talk coincidiu com o álbum The Colour Of Spring, ainda pop na sua essência, mas já com assinalável apuro instrumental e alguma gravidade pouco comum em bandas habituadas às tabelas de vendas. É lá que encontramos "Life's What You Make It", um tema que acusa alguns dos tiques da produção da época mas ao qual as batidas sincopadas e as notas em loop do piano conferem uma aura sinistra até aí desconhecida. A própria letra, entre o confessional e o reflexivo, sugere a luta do vocalista Mark Hollis com as drogas, matéria que serviria de base, com os resultados que se conhecem, no magistral Spirit Of Eden (1988).

É nessa vida de excessos que Rowland S. Howard encontra afinidades, ou não tivesse em tempos, este músico australiano que foi apenas um dos mais carismáticos guitarristas da era post-punk, alinhado ao lado de Nick Cave, Mick Harvey, et al. na pandilha maldita conhecida como The Birthday Party. Esse trajecto errático encontrou paralelo na carreira musical que, à parte um bom número de colaborações, rendeu apenas dois álbuns a solo. O último dos quais - Pop Crimes - foi gravado escassos meses antes da sua morte, vítima de cancro. Por inerência, é todo ele um disco de reflexão em fim de vida. Portanto, a versão de um tema com a características de "Life's What You Make It" encaixa perfeitamente no alinhamento. Interpretado por Howard, respeita fielmente a cadência opressiva do original, realçando apenas a densidade da atmosfera. Algo que tanto se fica a dever ao timbre grave e seco da voz, como aos golpes contundentes da guitarra pelo meio de um ritmo maníaco pautado pelo piano.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Duetos #28













Primeiro encontro de dois figurantes do cenário mais sombrio do post-punk. O propósito é esventrar um dos maiores clássicos de sempre da música popular. Ele é visceral na interpretação das partes de um sóbrio e galanteador Lee Hazlewood. Ela, entre o provocador e o infantil, sugere idêntica lascívia à de Nancy Sinatra. Abundam os pianos martelados e as guitarras afiadas como lâminas.


Lydia Lunch & Rowland S. Howard _ "Some Velvet Morning" [4AD, 1982]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mil imagens #2

 
Nick Cave & Rowland S. Howard (The Birthday Party) - Londres, 1982

Em declarações prestadas à Uncut pouco antes da sua morte, Rowland S. Howard fala com algum desencanto da mudança da distante Melbourne para a cosmopolita Londres, em busca do sonho dourado. O gorar das expectativas na chegada à capital britânica é descrito com esta tirada eloquente: "Deixámos de ser um grande peixe numa pequena lagoa, para nos tornármos plâncton nas mandíbulas de uma baleia". A Nick Cave refere-se como alguém disposto a fazer do circo rock'n'roll modo de vida. Por oposição à conduta do frontman, Howard e os restantes membros dos Birthday Party cedo se mostraram fartos desta vida miserável e plena de hábitos pouco saudáveis. Surgiram as fricções e a banda implodiu. Por ironia do destino, Cave é hoje um bem sucedido "homem de negócios". Já Howard, mergulhado numa depressão profunda  durante anos, e lançado na obscuridade, desapareceu, sem glória, em finais do ano passado. A vida, por vezes, consegue ser muito injusta...

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Gostaria de dar o merecido crédito ao autor deste instantâneo, que tão bem capta o alheamento dos seus figurantes. Sucede que, depois de pesquisas incessantes, o dito é-me ainda desconhecido. Se alguém desse lado o conhecer, disponha da caixa de comentários para mo indicar. Agradecido.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Em escuta #47









HOPE SANDOVAL & THE WARM INVENTIONS _ Through The Devil Softly [Netwerk, 2009]

Após o encerramento das actividades dos incensados Mazzy Star, a carreira de Hope Sandoval entrou em estado semi-latente, com aparições esporádicas em trabalhos alheios e raros discos em nome próprio. Este segundo álbum com os Warm Inventions (basicamente Colm O'Ciósig, baterista dos My Bloody Valentine) que aqui se aventura por outros instrumentos e também pela composição) interrompe um jejum de oito anos, mas vem assinalado pelas marcas identitárias que fizeram a fama desta menina-sereia, a um tempo capaz de encantar, a outro de assombrar. A toada é lenta, triste e desencantada. A música, revestida de elementos folksy de cores esbatidas, põe uma atenção especial a cada detalhe. Num primeiro contacto, Through The Devil... arrasta o ouvinte para um estado de letargia, para a posteriori revelar pérolas como o hiper-tenso, quase velvetiano, "For The Rest Of Your Life", ou o grandiloquente e dramático "Trouble". Para o fim, "Satellite" reserva a maior surpresa sob a forma de canção de embalar granulosa de efeito exasperante. [8]


ROWLAND S. HOWARD _ Pop Crimes [Liberation, 2009]

A vida de R. S. Howard, interrompida no passado dia 30 de Dezembro, foi mais um daqueles casos típicos do músico sobejamente talentoso que sabota qualquer hipótese de maior reconhecimento público. A conduta desregrada e os anos de depressão em muito contribuiram para que a carreira de um dos mais inovadores guitarristas da era pós-punk (nos Birthday Party, ao lado de Nick Cave) não tenha rendido mais que dois álbuns em nome próprio. Pop Crimes foi o último e, sabe-se agora, é uma espécie de epitáfio de um homem que pressente que o tempo lhe escasseia. Abre com "(I Now) A Girl Called Johnny", dueto de travo clássico com Jonnine Standish dos britânicos HTRK (leia-se Hate Rock) carregado da ambiguidade que remete para as parcerias de Lee Hazlewood e Nancy Sinatra. A versão hiper groovey de "Life's What You Make It" (Talk Talk), exemplarmente readaptada, é escolha que reforça o carácter resumo-de-uma-vida do disco. De resto, Pop Crimes oferece mais meia dúzia de temas, às vezes semi-baladas, às vezes semi-declamados, mas sempre prenhes de nostalgia, remorso e tensão. A voz seca, vagamente nasalada, confere a crueza própria dos poetas-músicos malditos. [7,5]


MOUNT EERIE _ Wind's Poem [P.W. Elverum & Sun Ltd.]

Mount Eerie é, de há uns anos a esta parte, o alter ego de Phil Elverum, personagem extremamente prolífica que os seguidores das musicalidades lo-fi reverenciam desde os tempos em que respondia pela nomenclatura The Microphones. No período que antecipou o lançamento de Wind's Poem especulou-se que este seria a incursão de Elverum pelos meandros do black metal. Efectivamente, uma boa parte dos temas do alinhamento caracterizam-se pela profusão de drones demolidores e arrastados. Porém, a passagem pelo filtro do retardador, a aparência doméstica da coisa, e a fragilidade da voz ,frustam qualquer prespectiva de aproximação à pretensa imponência do "género maldito". As faixas restantes são lamentos débeis ,carregados de profundo intimismo, com as electrónicas paisagísticas a espreitar aqui e ali. No conjunto, Wind's Poem é um longo mantra catalizador de cenários de devastação. Da terra queimada, Elverum ergue-se com o lirismo e espiritualidade que o título sugerem. [8,5]


TIMES NEW VIKING _ Born Again Revisited [Matador, 2009]

Depois da relativa aclamação de Rip It Off (2008), os Times New Viking poderiam ter optado por uma metamorfose estética por considerarem que a fórmula se havia esgotado. Não o fizeram, e isso significa que Born Again... repete a dose de guitarras rudes e órgãos desalinhados, debaixo dos quais se tentam erguer melodias inapelavelmente pop. Na chinfrineira sente-se o apego às regras ditadas pelos pioneiros do garage, nos esboços de canções o afecto pelas girl-groups de uma era próxima. No todo, estão implícitos os princípios básicos do lo-fi. Daqui se conclui que os TNV não são deste tempo. E também, que este tempo poderá não ser o deles se a breve trecho não adicionarem outros condimentos à receita. [7]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

R.I.P.

ROWLAND S. HOWARD
[1959-2009]

Morreu hoje, vítima de cancro do fígado, Rowland S. Howard, guitarrista australiano de créditos firmados que deixou a sua técnica peculiar espalhada pela obra de bandas como Boys Next Door e os subsequentes The Birthday Party (ambas com Nick Cave), e ainda Crime & The City Solution e These Immortal Souls. No currículo contava ainda com uma série de trabalhos em colaboração com outros "malditos" de alto calibre, tais como Nikki Sudden, Jeffrey Lee Pierce, ou Lydia Lunch. Ainda recentemente a revista Uncut, a pretexto da edição de Pop Crimes - apenas o segundo longa-duração a solo - lhe dedicara a rubrica Unsung Heroes. Nesse disco podem encontrar uma insteressante versão de "Life's What You Make Of It", dos Talk Talk, tão a propósito da vida desregrada que Howard viveu...