"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
Mostrar mensagens com a etiqueta PAWS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PAWS. Mostrar todas as mensagens

sábado, 24 de maio de 2014

Teenage kicks, so hard to beat
















Apesar de "pop" e "juventude" serem conceitos praticamente indissociáveis, não estão fáceis as coisas para quem faz dessa combinação uma forma de vida. Talvez derivado da permanência no activo, e do consequente envelhecimento, de quem habitualmente escreve sobre e divulga música, fica a sensação que a inanidade primordial caiu em desuso, e tudo o que merece atenção tem de ter uma certa profundidade. Há, porém, bolsas de resistência, como vamos detectando na Escócia, quanto mais não seja pela longa tradição das highlands na devoção à causa pop. Foi de lá que, no final de 2012, recebemos os PAWS com o álbum Cokefloat!, um disco com a irreverência própria da tenra idade do trio que recuperava aquela forma de fazer as coisas à maneira dos alvores de noventas, isto é, com igual comprometimento entre o chinfrim e a estrutura de canção pop. Foi um trabalho que passou despercebido à maioria, mas não a uma minoria irredutível que ainda busca algo para além do que lhe tentam impingir.

Um ano e meio volvido, os PAWS estão de volta ao local do crime com Youth Culture Forever, segundo álbum com um título que não deixa dúvidas quanto aos propósitos do trio de Glasgow. Na comparação com o anterior regista-se um relativo abrandamento da sonoridade, em favor de uma maior focagem na ortodoxia das canções (pop, obviamente), ainda que, paradoxalmente, realce o espírito lo-fi que já aflorava em Cokefloat!. No entanto, ainda abundam os temas buliçosos, herdeiros directos da escola punk-pop que tem nos americanos Superchunk figura tutelar. Por contraste com estes petardos de adrenalina, uma mão cheia de temas são contemplativos o bastante, pese embora façam uso e abuso da fórmula quiet-loud-quiet. É nestes, e no ennui que lhes está subjacente, que o título Youth Culture Forever ganha outro significado que não o literal. Ou seja, na moderada amargura da voz de Phillip Taylor, estão expressos os primeiros desgostos de uma juventude em estado terminal, e também a constatação da inevitabilidade da idade adulta. Tema atípico no alinhamento, feito de canções breves e imediatas, é o derradeiro "War Cry", longo de perto dos doze minutos, uma boa parte dos quais ocupados com devaneios guitarrísticos carregados de feedback. Este número de maior complexidade pode indicar pistas para um próximo trabalho, isto se acaso os PAWS não quiserem saborear a juventude que se esvai até ao último instante.

 
"Tongues" [FatCat, 2014]

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pernas para andar

















Fazer balanços de um ano musical ordenando os discos da nossa preferência tem os seus riscos. Um deles, menos grave, é a possibilidade de determinado disco, cotado em alta na data do balanço, venha posteriormente a descer na nossa consideração. Risco mais grave é o de deixarmos de fora óptimos discos que ainda nem sequer tínhamos ouvido no final do ano visado ou, pior do que isso, discos aos quais não demos a devida atenção na altura certa.

Nesta última "categoria" tenho de incluir Cokefloat!, álbum de estreia dos PAWS (assim mesmo, com maiúsculas) que merecia ter feito boa figura nos melhores de 2012. Isto se não tivesse ficado um um ror de tempo em stand-by, mesmo atendendo a que pertence a uma trio vindo de terras com tão boa tradição como são as da Escócia. Para se falar de Cokefloat! é imperioso referir novamente a recuperação tão em voga das sonoridades de inícios de noventas, quando os jovens elementos dos PAWS ainda gatinhavam e muitas bandas não tinham qualquer receio de usar as guitarras para armar um chinfrim. Não obstante algumas referências aos tutelares Dinosaur Jr. e Sonic Youth, o disco tem como ponto de orientação principal a punk-pop enérgica dos Superchunk. No entanto, e tal como os ingleses Yuck antes deles, os PAWS sabem como urdir uma boa melodia orelhuda, algo que terão colhido dos ensinamentos dos conterrâneos Teenage Fanclub. Além disso, não se coíbem de, aqui e ali, enveredarem pela berraria de uns Nirvana ou, muito frequentemente, pelo sarcasmo em registo lo-fi de uns Pavement ou de uns Urusei Yatsura. Claro que podemos sempre questionar se o mundo precisa de mais um disco pejado de referências óbvias. Eu respondo que sim, quando se tem em mãos um trabalho preenchido com canções todas elas desempoeiradas, das mais dignas desse nome na produção recente.

"Bloodline" [live @ Fat Cat Session, 2012]