"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Singles Bar #91









ORANGE JUICE
Felicity
[Polydor, 1982]




Pode parecer exagero, mas é praticamente indesmentível que os Orange Juice tenham estado na base de toda a excelente produção musical oriunda da Escócia desde a sua curta existência. Até diria mais: a eles pertence o mérito pela definição das regras da canção indie-pop, tal como a coisa era entendida na década de oitentas. Foram os principais pioneiros de toda uma tendência arredada das tabelas de vendas, contando com aliados como os conterrâneos Aztec Camera e Josef K. Na demanda da pureza e da perenidade pop em era dada a "futurismos" rapidamente datados, todas estas bandas contaram com a alto patrocínio de Alan Horne, fundador da lendária Postcard Records. A ideia por detrás da editora de Glasgow, baseada no exemplo da Motown, era a de lançar singles perfeitos com o objectivo de se tornar, tal como a fonte de inspiração, uma fábrica de hits. O sucesso era também a meta de Edwyn Collins, vocalista e principal compositor dos Orange Juice, mas cedo percebeu que a Postcard não dispunha dos meios nem da organização para tal.

Escrito pelo guitarrista James Kirk, "Felicity" faz parte do lote de temas originalmente lançados ainda nos tempos da independência, numa versão pouco polida e até algo rude, dadas as parcas condições que Horne tinha para oferecer. Com a ruína da Postcard, e a deslocação dos Orange Juice para uma multinacional, o mesmo tema foi recuperado, regravado em melhores condições e escolhido para single promocional do excelso álbum de estreia You Can't Hide Your Love Forever. Foi apenas um de vários hits menores para a banda, mas paradigmático de uma proposta que se destacava de qualquer tendência vigente à época. Reverentes às suas influências, os Orange Juice conciliavam aqui o inconciliável: por um lado a guitarra desengonçada e chocalhada dos Velvet Underground, por outro o pulsar do ritmo funk dos Chic. Outras músicas negras, nomeadamente a soul, estão patentes no tom grave e na cadência de Edwyn Collins. Na letra, embora não da sua autoria, este exprime um exacerbado romantismo ingénuo, talvez enganador se atentarmos no cinismo latente, imagens de marca da sua própria escrita omnipresentes em toda a obra da banda. Ao largo, uma miríade de bandas tirava e notas e esperava para acontecer, norteada pelos princípios dos Orange Juice. Do vasto rol, só a título de exemplo, destacamos duas que poderiam não ter acontecido tal como as conhecemos, não fossem canções como "Felicity": The Smiths e The Wedding Present. Não será por acaso que estes últimos reconheceram a reverência gravanso a sua própria versão do tema.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Rip it up and start again


Aproxima-se a passos largos a altura dos balanços finais de ano. Mas, antes disso, é tempo de pensar nas prendinhas musicais para o Natal daquelas pessoas que nos são realmente queridas. Pela parte que me toca, já tratei todas as questões burocráticas no sentido de oferecer a mim próprio ...Coals To Newcastle, a "caixa" definitiva dos escoceses Orange Juice (OJ), recentemente chegada às boas lojas com selo de uma Domino Records investida em repor bandas descatalogadas que urge (re)descobrir. No caso dos OJ, não há fome que não dê em fartura, pois a editora londrina disponibiliza de uma assentada todo o valioso legado da banda idealizada e liderada por Edwyn Collins entre 1979 e 1985. Ao todo, e para além de um livro rico em informação e profusamente ilustrado, ...Coals To Newcastle contém seis CDs e um DVD. Nas rodelas musicais podem encontrar a recente compilação The Glasgow School, com temas dos primórdios da banda, as gravações das várias BBC Sessions, e os quatro álbuns de originais, todos eles acrescentados com faixas extra [You Can't Hide Your Love Forever (1982), Rip It Up (1982), Texas Fever (1984) e The Orange Juice (1984)]. No DVD, para além da gravação de um concerto, podem encontrar o par de videoclipes gravados pela banda, e ainda algumas aparições televisivas.
Surgidos em Glasgow em pleno período pós-punk, conjugando de forma inaudita o funk mais desempoeirado, o sentir da soul, a pureza pop dos Byrds, e a insurreição dos Velvet Underground, os OJ foram, meio sem querer, os principais responsáveis pela criação do "som indie pop". Juntamente com os Aztec Camera e os Josef K, no catálogo da seminal mas caótica Postcard Records de Alan Horne, seguindo o espírito da Motown, personificaram o Sound of Young Scotland, algo que causou mossa junta das gerações de músicos vindouras da Escócia. Edwyn Collins nunca escondeu o sucesso e, como tal, o casamento com as multinacionais foi inevitável. O que se seguiu foi uma sucessão de grandes discos e discos bons, todos eles comercialmente falhados, quer seja pelas convulsões internas, pelas políticas editoriais, ou simplesmente por causa das tendências dominantes junto do grande público. À parte as referências avulsas dos Wedding Present e do omnipresente John Peel, bem como de uma escassa falange de devotos, os OJ quase caíram no esquecimento. Já com este século em andamento, com a curiosidade de músicos e público focada no período abordado no livro de Simon Reynolds com o mesmo título deste post, felizmente, tanto Edwyn Collins como os Orange Juice começaram a ser citados amiúde por um número crescente de neófitos.
Para aguçar o apetite do eventual incauto, ou do adepto franz-ferdinandiano à beira da descrença, deixo-vos com um filmezinho de uma pop borbulhante. Tal como outros da autoria do malogrado Derek Jarman, tem um ligeiro traço homo-erótico. No caso, até bastante ligeiro...

"What Presence?!" [Polydor, 1984]

terça-feira, 13 de julho de 2010

Falling & Laughing
















Os mui recomendáveis My Teenage Stride já os citavam algo timidamente. Os hipervalorizados Vampire Weekend herdaram parte do seu código genético, embora não o admitam. É pois, com alegria que constato a chegada de uma banda que não se envergonha de lembrar os valorosos Orange Juice, colectivo escocês que, há cerca de três décadas, lançou as sementes daquilo a que se decidiu chamar indie-pop (no sentido estrito do termo, entenda-se). São californianos de São Francisco estes Magic Bullets e vão já no segundo álbum (homónimo), no qual nos oferecem uma boa meia dúzia de canções com as mesmas guitarras chocalhadas, o mesmo balanço, e a mesma joie de vivre das da banda que lhes serve de principal referência. Têm até um tema intitulado "Pretend & Descend" que penso ser uma alusão indirecta a "Falling & Laughing", tema-título do clássico primeiro single dos de Glasgow. Uma boa parte do tempo que lhes resta ocupam-no a parafrasear os Smiths, também eles orgulhosos descendentes de Edwyn Collins & C.ª. Não os Smiths mais miserabilistas e das produções sofisticadas da fase evoluída, mas aqueles da ingenuidade desarmante dos primórdios. Porém, mais do que pela soma das suas significativas influências, os Magic Bullets merecem ser louvados pelo engenho na feitura de canções prenhes de luminosidade e jovialidade que nos fazem esquecer qualquer colagem mais óbvia.


"Lying Around" [Mon Amie, 2010]

sábado, 7 de novembro de 2009

I was waiting for my mag





















Cliente fiel da Uncut vai para dez anos, tenho vindo a notar um decréscimo de interesse dos conteúdos nos últimos quatro/cinco, de certa forma em sintonia com produção musical. Neste período, repetem-se as capas com os Stones, com o Springsteen, com o Dylan, com os Grateful Dead, ou com os Beatles, ao ponto de deixar o mais indefectível verdadeiramente enfastiado. E, no caso dos últimos, sei do que falo... O bater-no-fundo terá mesmo sido a lista dos 150 "melhores" álbuns da década publicada na edição do mês passado, com escolhas de gosto duvidoso dignas de uma Q...
E, eis que a redenção surge já no mais recente número, com a melhor edição da revista em mais de meia década. Na capa, os incontornáveis Velvet Underground, no interior um artigo com os primeiros anos da relação artística e pessoal algo acrimoniosa de John Cale e Lou Reed, nas palavras do primeiro, e, para mais, recheado com fotos inéditas. Há ainda outras matérias de interesse com Edwyn Collins; Purple Rain (o filme) do pequeno génio que dá (ou dava?) pelo nome de Prince; o making of do clássico indie "Freak Scene", dos Dinosaur Jr.; o maverick Graham Coxon; a história resumida das Slits, a propósito do regresso das percursoras do movimento riot grrrl; e ainda a resenha da reedição comemorativa dos 20 anos de Bleach, o primeiro álbum dos Nirvana, com depoimentos de alguns intervenientes. A cereja no topo do bolo é o habitual CD gratuito, provavelmente o melhor dos doze anos e meio de história da revista, com quinze temas a prestar vénia ao legado de Reed, Cale & C.ª. Entre as escolhas criteriosas desta "revolução de veludo" contam-se temas fabulosos de Suicide, Smog, Vivian Girls, The Feelies, Thee Oh Sees, Loop, The Black Angels, e esta pérola das eminências escocesas que ousaram combinar a rugosidade dos VU com o acetinado da soul para "inventar" o indie pop:


Orange Juice
"Blue Boy" [Postcard, 1980]

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Good cover versions #17











ORANGE JUICE "L.O.V.E. Love" (Polydor, 1981)
[Original: Al Green (1975)]

Se o mundo fosse um lugar perfeito e justo, aos Orange Juice estaria reservado um importante capítulo no Grande Livro da História da Pop. Sem eles, provavelmente, não teria havido The Smiths. Também não teria havido The Wedding Present, Belle & Sebastian, ou Franz Ferdinand. Talvez até os Vampire Weekend não soassem como soam, mas isso seria um mal menor... Resumindo: sem os Orange Juice não haveria indie pop.
Oriundos de Glasgow, na Escócia, os Orange Juice vieram acrescentar alguma frescura ao cenário post-punk. Por oposição à maioria dos contemporâneos, eram donos de um romantismo ingénuo e sonhador, muitas vezes traduzido numa atitude anti-machista. Na música, mostravam igual apego à escuridão da cave dos Velvet Underground, à perfeição pop dos Byrds, e ao charme dos mestres da música negra. Perante estas premissas, não surpreende que o single de antecipação a You Can't Hide Your Love Forever (o clássico álbum de estreia cuja capa inspirou o nome dos... hhhmmm... Delfins!) tenha sido este "L.O.V.E. Love", tema originalmente intepretado na voz quente do ícone soul Al Green. Nesta versão com a duração perfeita de 3'33'', por entre sopros ostensivos e coros sumptuosos, do alto dos seus 22 aninhos, a voz de Edwyn Collins exibe uma inusitada maturidade.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

ARTE POP #3

ORANGE JUICE
You Can't Hide Your Love Forever
(Polydor, 1982)

Alinhamento:

Falling And Laughing
Untitled Melody
Wan Light
Tender Object
Dying Day
L.O.V.E. Love
Intuition Told Me (Part 1)
Upwards And Onwards
Satellite City
Three Cheers For Our Side
Consolation Prize
Felicity
In A Nutshell

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

DE UM TEMPO AUSENTE - 2.ª Parte

Uma boa parte da humanidade continua a ignorar a passagem dos Orange Juice por este mundo. Não obstante a indiferença, em inícios da década de 1980, este combo escocês, juntamente com os conterrâneos Josef K e Aztec Camera, ao misturar em doses iguais o funk dos Chic e a vertigem dos Velvet Underground, lançou as bases daquilo que viria a ficar conhecido como indie pop. Bandas como os Belle & Sebastian, The Smiths, ou The Wedding Present, decerto que estarão gratos por este feito.
Enquanto existiram, os Orange Juice nunca esconderam que perseguiam o sucesso. Este, no entanto, esteve perto mas virou-lhes as costas.
Iguais intentos tinha EDWYN COLLINS quando, em 1989, iniciou uma carreira a solo. Ainda que fugazmente, o sucesso haveria de lhe sorrir: corria o ano de 1994 e "A Girl Like You", uma cançoneta pop perfeita, soulful até mais não, tornava-se um hit planetário. Seria o seu primeiro e último.
Quando, há pouco mais de dois anos foi vítima de uma hemorrogia cerebral, pensou-se que as sequelas o iriam calar para sempre. Mas, como bravo escocês que é, Edwyn Collins iniciou um programa de reabilitação que lhe permitiu concluir Home Again, o álbum a editar pela Heavenly Records na próxima semana. E é bom saber que aquela voz que parece carregar o peso do mundo continua não só intacta, como também mais madura e sentida.
Wellcome back, Edwyn!
Edwyn Collins no MySpace