"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

R.I.P.



JIMMY RUFFIN
[1936-2014]

Ao fim de um período de saúde francamente debilitada, a voz de Jimmy Ruffin calou-se para sempre na passada segunda-feira, dia 17. O desaparecimento acontece precisamente na altura em que se falava da preparação de um novo álbum de regresso, que certamente beneficiaria do recente renascimento do interesse pelas sonoridades soul da velha escola.

Quando comparado com as grandes lendas do género, temos de reconhecer que Jimmy Ruffin, que até nem era uma sobredotado em termos vocais, é apenas uma figura menor. Efectivamente, passou uma boa parte da carreira como cantor de sessão na fábrica de hits da Tamla Motown, e era habitualmente secundarizado em relação a David Ruffin, o irmão mais novo que integrou os Temptations da fase dourada. No entanto, Jimmy não deixou de, ele próprio, sentir o sabor doce do sucesso na recta final de sessentas com uns quantos singles como "I've Passed This Way Before", "Don't Miss Me A Little Bit Baby", e - o mais memorável de todos - "What Becomes Of The Brokenhearted?". Em qualquer deles, e por oposição à ligeireza da maioria dos hits do novo "som da América jovem", abordava temáticas mais sombrias; a carência de mestria vocal era compensada pela paixão que imprimia a cada interpretação. Homem de uma sobriedade rara numa época de excessos, e possuído por uma forte consciência social, Jimmy Ruffin era normalmente conhecido como a voz da classe operária de Detroit, cidade berço da Motown e cenário de inúmeras convulsões sociais ao longo de décadas.

Incapaz de manter acesa a chama do sucesso, talvez pela inadaptação aos desenvolvimentos da música negra, desligou-se da Motown em meados de setentas, chegou a militar pela "rival" Chess Records, e passou a dedicar-se quase em exclusivo ao público britânico. Em inícios da década seguinte passou, inclusive, a viver no Reino Unido, onde reencontrou o sucesso comercial com uma roupagem disco-soul. Foi também aí que, a reboque da chamada "nova pop", com uma forte componente soul, colaborou com gente como os Heaven 17 e Paul Weller. Com este último, igualmente um empenhado das causas da classe operária, e à época líder dos estilosos The Style Council, gravou o tema "Soul Deep", inicialmente creditado a The Council Collective, e um gesto de solidariedade com as famílias dos mineiros envolvidos na propalada greve de 1984-85, no auge do thatcherismo.

What Becomes of the Brokenhearted by Jimmy Ruffin on Grooveshark
[Tamla Motown, 1967]

Hold On (To My Love) by Jimmy Ruffin on Grooveshark
[RSO, 1980]

Soul Deep (Single) by The Style Council on Grooveshark
[Polydor, 1984]

Foolish Thing to Do by Heaven 17 on Grooveshark
[Virgin, 1986]

domingo, 26 de outubro de 2014

R.I.P.


JACK BRUCE
[1943-2014]

Ontem, sábado dia 25 de Outubro, o Panteão do Rock registou a entrada do músico escocês Jack Bruce. Tinha 71 e pereceu de doença hepática.

Com uma carreira activa ao longo de meio século, o principal papel ocupado por Bruce na História Rock foi como principal vocalista e baixista dos efémeros mas influentes Cream, nos quais coabitava como o guitarrista Eric Clapton e o baterista Ginger Baker. O embrião para esta espécie de super-grupo, imortalizado como o paradigma do power-trio, foram os Powerhouse, um projecto de vida breve que, além de Bruce e outros elementos, incluía Clapton e o vocalista Steve Winwood. Durante escassos dois anos de existência, recheados de convulsões internas, os Cream deixaram registados quatro álbuns. De todos, o destaque obrigatório é para a obra-prima Disraeli Gears (1967), autêntico tratado da fusão blues-rock com psicadelismo em voga à época em que também Jimi Hendrix agitava as mesmas águas.

Depois do fim dos Cream, em 1968, quando o trio entendeu que tinha chegado a um ponto de estagnação criativa, Jack Bruce iniciou uma carreira a solo que rendeu inúmeros álbuns, o último já deste ano. Participou também num número considerável de colaborações, sobretudo afiliadas dos blues, mas também numa vastidão de géneros que vai do jazz à música erudita. Músico com formação clássica, dominava ainda outros instrumentos como o piano ou o violoncelo. No entanto, é como baixista que ficará recordado como um dos mais notáveis e influentes do universo rock.

Sunshine Of Your Love by Cream on Grooveshark
[Reaction, 1967]

White Room by Cream on Grooveshark
[Polydor, 1968]

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

R.I.P.


STEPHEN SAMUEL GORDON
"THE SPACEAPE"
[?-2014]

Há uma expressão muito batida que diz que as más notícias correm rapidamente, mas que eu desconfio que apenas se aplica a pessoas com estatuto de estrela, mesmo que decadente. Isto porque, não me considerando propriamente um cidadão desinformado, só há algumas horas tive conhecimento da morte de Stephen Samuel Gordon, ocorrida já no passado dia 2, perdida que foi uma longa batalha contra uma forma rara de cancro. Sempre sob o pseudónimo The Spaceape, Gordon era o MC e poeta de serviço na britânica Hyperdub, seguramente a mais relevante editora no espectro da música urbana nos últimos dez anos.

Embora em nome próprio apenas lhe seja creditado o EP de 2012 Xorcism, o nome The Spaceape ganhou notoriedade junto dos mais atentos às novas tendências mais estimulantes com o par de álbuns gravados em parceria com Kode9, alter-ego de Steve Goodman, justamente o fundador da Hyperdub. Além disso, foi requisitado por um número considerável dos actuais estetas sonoros mais badalados, não apenas dentro do circuito do selo londrino, tais como Burial, The Bug, Jerry Dammers, ou Martyn. Salvo informação contrária, a sua voz profunda e as suas ponderações sobre a esquizofrenia do mundo actual foram pela última vez registadas em Killing Season, o novíssimo EP novamente creditado a The Spaceape e ao "patrão" Kode9.

Kode9 & The Spaceape - "The Devil Is A Liar" [Hyperdub, 2014]

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

R.I.P.



ROBERT YOUNG
[1964-2014]

A notícia só foi tornada pública nas primeiras horas de hoje mas, aparentemente, já data da passada terça-feira a morte, de causas ainda desconhecidas, de Robert Young, antigo guitarrista dos escoceses Primal Scream, que fundou juntamente com Bobby Gillespie há mais de três décadas. Alcunhado de Throb pelos seus companheiros, Young militou desde a fase embrionária em 1982 até 2006 na banda que, a partir da emulação dos seus ídolos, e com constantes reinvenções, influenciou, como poucas, sucessivas novas gerações no último quarto de século. No total, gravou com os Primal Scream qualquer coisa como oito álbuns.

Na realidade, o papel inicial de Robert Young era o de baixista, condição que exerceu no par de singles iniciais para a Creation Records e no álbum de estreia Sonic Flower Groove (1987), quando os Primal Scream ainda eram uns putos obcecados pelos Byrds, dificilmente diferenciáveis de milhentas bandas do contingente indie britânico de então. Por alturas do segundo longa-duração (Primal Scream, de 1989), transitou para a guitarra, num disco que apresenta uma considerável dureza rock mais do seu agrado, mas que não deixa saudades. A sorte mudaria com o excepcional Screamadelica (1991), ponte entre o útimo fôlego acid-house e a década do renascimento do rock que marcaria o resto dos 1990s. Curiosamente, o ponto de partida do álbum que mudaria a sorte dos Primal Scream foi o tema "Loaded", no fundo uma remistura de "I'm Losing More Than I'll Ever Have", tema do álbum anterior com um papel preponderante de Young. Sentiu-se novamente como peixe na água no desequilibrado Give Out But Don't Give Up (1994), nova inflexão ao rock de inspiração stonesy. No entanto, não torceu o nariz às experimentações levadas a cabo no celebrado Vanishing Point, trabalho em que o electrónica, o dub, e o kraut são matérias exploradas. Tal exploração conheceu novos desenvolvimentos no incendiário XTRMNTR (2000), que foi o último álbum da história da Creation, e no aceitável Evil Heat (2002), ambos com a trabalho de guitarra "tratado" pelo mestre Kevin Shields, então ainda no longo período sabático dos My Bloody Valentine. Young despediu-se das lidescom Riot City Blues (2006), apenas um disco mediano com o travo rock da sua predilecção.

Depois de abandonar a afamada vida boémia da sua banda de sempre, Robert Young afastou-se da música e dedicou-se essencialmente ao papel de pai e marido. Apesar do afastamento, Throb não foi esquecido pelos seus pares, de dentro e de fora dos Primal Scream, que ao longo de todo o dia lhe dispensaram sentidas e bonitas mensagens de homenagem.

Gentle Tuesday by Primal Scream on Grooveshark
[Elevation, 1987] 

I'm Losing More Than I'll Ever Have by Primal Scream on Grooveshark
[Creation, 1989]

Loaded by Primal Scream on Grooveshark
[Creation, 1990]

Kowalski by Primal Scream on Grooveshark
[Creation, 1997]

segunda-feira, 14 de julho de 2014

R.I.P.


TOMMY RAMONE
[1949-2014]

Com a morte de Thomas Erdelyi, imortalizado como Tommy Ramone, na passada sexta-feira, deixou o mundo dos vivos o último resistente da formação original dos Ramones. Portanto, fazia parte do gang dos quatro responsáveis pelo seminal álbum homónimo de estreia de 1976, na origem das sementes punk que se disseminariam logo a seguir no Reino Unido, e também percursor da ingenuidade que estaria na base da vaga twee pop que eclodiria no mesmo território na segunda metade de oitentas. A fórmula, caracterizada pela simplicidade dos "três acordes", mais não era do que a aceleração de canções baseadas no espírito pop dos Beach Boys e dos girl groups de sessentas ligados a Phil Spector.

Judeu de ascendência húngara, Erdelyi tinha já alguma experiência de estúdio como engenheiro de som quando se juntou aos restantes Ramones: Joey, Johnny e Dee Dee. Curiosamente, o seu papel original na banda foi o de manager, que acumulou com o de baterista quando se percebeu da inaptidão de Joey Ramone, que transitaria para vocalista, para a rapidez dos tempos das canções. Simultaneamente, foi co-produtor dos três primeiros álbuns da banda, precisamente aqueles em que fez parte da sua formação. Abandonou o seu lugar no quarteto em 1978, cedendo o lugar a Marky Ramone. Como manager, convenceu Phil Spector a produzir End Of The Century (1980), escolha óbvia atendendo à devoção dos Ramones pelas pérolas pop criadas por aquele. Ele próprio regressou à cadeira da produção para Too Tough To Die (1984), eventualmente o último trabalho indispensável da banda. Sensivelmente pela mesma altura, produziu Tim (1985), disco superlativo dos The Replacements, então coqueluches do circuito das college radios norte-americanas. O afastamento definitivo dos Ramones não foi totalmente pacífico, e coincidiu com o começo do declínio, até à caricatura hard rock em que se transformaram algures na década de 1990. Por acaso, tem sido Marky, o substituto de Tommy, que em nome próprio, mas com o legado da banda que lhe deu fama, quem tem vindo a perpetuar a longa agonia dos Ramones ao serviço do circo rock'n'roll, ao qual eram primordialmente figuras estranhas. 

No momento do luto por Tommy Ramone, constato que, por ironia do destino, foram apenas necessários treze escassos anos para que o cancro (e a heroína, no caso de Dee Dee), dizimasse a totalidade dos membros originais da banda que melhor personificou a eterna adolescência. Now, I wanna sniff some glue.

Blitzkrieg Bop by Ramones on Grooveshark
[Sire,1976]

I Wanna Be Your Boyfriend by Ramones on Grooveshark
[Sire, 1976]

Rockaway Beach by Ramones on Grooveshark
[Sire, 1977]

domingo, 29 de junho de 2014

R.I.P.


BOBBY WOMACK
[1944-2014]

Com o desaparecimento de Robert Dwayne Womack na passada sexta-feira, dia 27, vivem-se no April Skies alguns dos momentos de maior pesar desde o arranque deste pasquim. O clima é comparável ao que se seguiu às perdas de Alex Chilton e de Amy Winwhouse, ou de James Gandolfini, se extravasarmos o universo musical. Este profundo sentimento de perda é perfeitamente justificável perante o carinho deste que vos escreve pelas sonoridades soul ao ver partir o último dos grandes soul men, eventualmente aquele que teve uma carreira mais consistente, com pontos altos distribuídos por várias épocas. Não concordam? Bem, eu posso argumentar que, efectivamente, os lendários Sam Cooke e Otis Redding foram "as" vozes soul masculinas por excelência mas foram fugazes, ou que Marvin Gaye gravou "o" álbum definitivo mas tem uma discografia desequilibrada. Já Bobby Womack, esse pode nunca ter conquistado o estatuto de lenda dos referidos, mas ficou com o seu nome impresso nas capas de inúmeros discos de alto nível qualitativo, espalhados por diferentes décadas. Outros pontos a favor deste, para além do timbre grave nada desprezável, são os factos ter sido também um compositor prolífero e um dotado guitarrista (canhoto).

Dos 70 anos da vida conturbada de Womack, que incluiu várias recaídas no calvário das drogas, quase seis décadas foram dedicadas à música. Começou, portanto, em tenra idade na companhia dos irmãos na banda de suporte de Sam Cooke. O colectivo foi baptizado The Valentinos pelo próprio Cooke, em substituição do anterior Womack Brothers. Escassos três meses após a morte trágica do mestre em 1964, casou com a viúva deste, acontecimento que lhe causou dissabores vários, como acusações de traição, zangas com alguns mais próximos e um autêntico ostracismo dos seus pares. Como consequência, o arranque da carreira a solo foi discreto. Neste período, para ganhar a vida, Womack dedicou-se também a escrever para outrem e a participar como músico em discos alheios. Wilson Pickett e George Benson interpretaram canções da sua autoria, enquanto Dusty Springfield, Aretha Franklin, Sly Stone, ou até Elvis Presley, contaram com a presença da sua guitarra lânguida. 

O arranque para o sucesso em massa, com o esmorecer do "boicote", deu-se apenas com o início da década de 1970. Este período da carreira fica marcado pelos magistrais álbuns Communication (1971) e Across 110th Street (1972). O primeiro desvia-se do registo soul clássico com concessões ao mais moderno R&B, enquanto o último, banda sonora do filme blaxploitation homónimo, envereda pela tendência "progressiva" da soul em voga à época. Já com o advento disco sound Womack não foi tão conivente como muitos dos seus semelhantes, e em pleno frenesim daquele género hedonista teve o acto de rebeldia de gravar um improvável disco country (BW Goes C&W, de 1976). A opção de carreira questionável valeu-lhe o despedimento da editora United Artists, a que se seguiu uma recaída nas garras da cocaína e um dos períodos mais negros da sua vida, pessoal e artística.

O reaparecimento perante as massas e os louvores da crítica aconteceu na primeira metade da década de 1980, em simultâneo com o aparecimento de novas vozes revitalizadoras da soul, como Anita Baker, Teddy Pendergrass, ou Luther Vandross. São desta era os elegantes trabalhos The Poet (1981) e a sequela The Poet II (1984), este último distinguido como disco do ano pelo então influente New Musical Express. Tal como inúmeros artistas ligados à soul e derivados, também Bobby Womack foi prejudicado pelo desinteresse a que o género foi votado nas mais de duas décadas seguintes. O regresso à ribalta, por assim dizer, aconteceu apenas há um par de anos com a edição de The Bravest Man In The Universe, trabalho produzido e encorajado por Damon Albarn após uma aparição de Womack numa música dos Gorillaz, e uma autêntica modernização, não necessariamente descaracterizadora, da sonoridade soul clássica. 

O lançamento daquele álbum de 2012 chegou envolto na triste possibilidade de ser o último, com a notícia de que Womack padecia de um tumor cancerígeno em estado avançado. Porém, os meses seguintes trariam as notícias animadoras da regressão do cancro. No entanto, complicações várias de um estado de saúde altamente debilitado provocaram-nos, mesmo à entrada do fim-de-semana, o choque da perda deste verdadeiro bravo. Consta que, há data deste dia fatídico, havia já novo álbum concluído, intitulado The Best Is Yet To Come. Na hora da partida, resta-nos o optimismo da profecia do título, pois Bobby Womack deverá a este hora estar em paz, como uma das estrelas mais cintilantes no Paraíso Soul.

How I Miss You Baby by Bobby Womack on Grooveshark
[Minit, 1969]

That's the Way I Feel About 'cha by Bobby Womack on Grooveshark
[United Artists, 1971] 

Across 110th Street by Bobby Womack on Grooveshark
[United Artists, 1972]

Tell Me Why by Bobby Womack on Grooveshark
[Beverly Glen, 1984]

sexta-feira, 20 de junho de 2014

R.I.P.


GERRY GOFFIN
[1939-2014]

Com 75 anos de idade, morreu ontem Gerry Goffin, letrista lendário do tempo dos hitmakers da época dourada da pop na rádio maericana, de inícios até por volta de meados de sessentas. Talento precoce, fez parte do colectivo de autores e compositores que ocupou o Brill Building, o edifício de Manhattan que acolheu uma autêntica linha de montagem de hits intemporais e que deu também guarida a gente como Sonny Bono, Phil Spector, Neil Diamond, ou Shadow Morton, e ainda a duplas criativas como Burt Bacharach & Hal David, Ellie Greenwich & Jeff Barry, ou Jerry Leiber & Mike Stoller. O próprio Goffin escreveu essencialmente em parceria, na circunstância com Carole King, aquela que foi a sua esposa entre 1959 e 1968.

Logo após a decisão de abandonar uma carreira académica, o casal desatou a escrever canções em série, com sucessos em cadatupa como "Will You Love Me Tomorrow", "The Loco-Motion", "He Hit Me (It Felt Like A Kiss)", "Pleasent Valley Sunday", ou "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman". Estes e muitos outros temas tiveram como clientes directos The Shirelles, The Drifters, The Monkees, Little Eva, The Crystals, Aretha Franklin, ou The Chiffons, e ainda reinterpretações de sucesso a cargo de Donny Osmond, Kylie Minogue, Dusty Springfield, ou Billy Fury.

Mesmo após o divórcio, a dupla criativa manteve-se ainda por mais algum tempo, agora essencialmente centrada na carreira discográfica da própria Carole King, que conheceu o pico do sucesso nos alvores da década de 1970. O próprio Gerry Goffin tentou a sua sorte com um par de discos, embora sem a mesma visibilidade da ex-companheira. Com o decorrer dos anos, e com um estado de saúde mental debilitado pelo uso de drogas químicas, e ainda após algumas parcerias criativas relativamente bem sucedidas, este foi remetido praticamente ao esquecimento. A data de hoje, deste tempo em que parece que se perdeu essa nobre arte da canção pop sem merdas supérfluas, é um óptimo dia para relembrar o nome de Gerry Goffin por via de algumas da pérolas mais perfeitas da sua lavra:

Will You Love Me Tomorrow by The Shirelles on Grooveshark
[Scepter, 1961]

The Locomotion by Little Eva on Grooveshark
[Dimension, 1962]

He Hit Me (And It Felt Like a Kiss) by The Crystals on Grooveshark
[Philles, 1962]

Pleasant Valley Sunday by The Monkees on Grooveshark
[RCA, 1967]

terça-feira, 18 de março de 2014

R.I.P.



SCOTT ASHETON
[1949-2014]

Morreu no passado sábado, dia 15, aos 64 anos e de causas ainda desconhecidas, Scott Asheton, baterista fundador dessa verdadeira instituição da rebelião rock chamada The Stooges.

À data da morte, e para além do frontman Iggy Pop, era o único membro constante de toda a existência da lendária banda de Ann Arbor, Michigan, que os dois formaram em 1967 juntamente com o guitarrista Ron Asheton (irmão de Scott, m. 2009) e o problemático baixista Dave Alexander (m. 1975). Durante a sua primeira vida, entre a fundação e a dissolução em 1974, os Stooges editaram três álbuns essenciais para se entender o quão selvagem o rock consegue ser. Menos politizados que aqueles, mas igualmente irreverentes e dados ao desacato, protagonizaram juntamente com os MC5 um pequeno movimento de contra-cultura com origem na zona de Detroit na viragem dos sessentas para os setentas. Uns e outros, pela sua postura e pela rispidez suja da música, seriam pedras basilares da toda a estética punk. Se, tal como no caso de tantos outros percursores, aqueles três discos editados pelos Stooges não foram propriamente sucessos comerciais na altura do seu lançamento, ganhariam estatuto de culto com o passar dos anos, tornando-se referências para toda uma facção rebelde do rock. Talvez tenha sido esse significativo reconhecimento tardio que tenha estado na origem do regresso à actividade, em 2003, proporcionando a uma nova geração uma ideia do que seria o reboliço dos concertos seminais. Desde aquela data, já lançaram dois álbuns de estúdio, qualquer deles apenas uma sombra pálida daquele catálogo verdadeiramente clássico.

No Fun by The Stooges on Grooveshark
[Elektra, 1969]

Search and Destroy by Iggy & The Stooges on Grooveshark
[Columbia, 1973]

sábado, 15 de março de 2014

R.I.P.



GARY BURGER
[1941-2014]

Morreu ontem aos 72 anos, vitimado por um cancro do pâncreas, Gary Burger, vocalista e guitarrista dos lendários The Monks, eventualmente a mais seminal de todas as bandas do garage-rock da década de sessentas.

A formação dos The Monks é no mínimo insólita, já que todos os seus cinco elementos eram militares americanos estacionados na Alemanha Ocidental, nos tempos da Guerra Fria. Com a conclusão do serviço militar, a banda embarcou numa sucessão de concertos electrizantes pelos afamados clubes rock alemães, pouco antes frequentados pelos Beatles. Ganharam fama de subversivos, com as suas letras mescladas de hedonismo e manifesto de oposição à guerra do Vietname. A ajudar tinham um visual algo arrojado para o seu tempo, no qual se incluíam os "uniformes" e os cortes de cabelo, ambos adaptados a partir dos verdadeiros monges. Mas, mais que isso, notabilizaram-se por uma sonoridade única, dinamitada pelas explosões ainda recentes do rock'n'roll genuíno e das beat bands britânicas. Deixaram gravado apenas um único álbum - Black Monk Time (1966) -, registo prenhe de rudeza primitiva com a proeminência do órgão Phlicorda e o recurso pouco usual do banjo eléctrico. Embora escassa, a obra gravada deixou uma infindável descendência, que começa no kraut-rock e vai até diferentes expressões post-punk, passando obrigatoriamente pelo petardo punk. Entre os nomes que lhes confessaram reverência incluem-se Can, Swell Maps, The Teardrop Explodes, The Fuzztones, Pixies, Clinic e, acima de todos, Mark E. Smith, que à frente dos The Fall já levou a cabo vários tributos sob a forma de versões de originais dos The Monks.

Depois da extinção da banda, em 1967, a actividade musical de todos os cinco músicos limitou-se a pouco mais que uma quantas reuniões esporádicas. Confrontado com a vasta descendência, o quinteto tem sido normalmente humilde nas suas raras declarações públicas, optando por referir a aventura The Monks apenas como uma boa memória dos tempos da rebeldia juvenil. No caso de Gary Burger, a escolha por uma vida pacata levou-o a passar os últimos anos de vida numa localidade minúscula do Minnesota, chegando inclusive a ser eleito mayor da dita.

Monk Time by The Monks on Grooveshark
"Monk Time" [Polydor, 1966]

I Hate You by The Monks on Grooveshark
"I Hate You" [Polydor, 1966]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

R.I.P.


Marty Thau com Malcolm McLaren e Bernie Rhodes (segundo e terceiro, dir. para esq.), 
agentes dos Sex Pistols e dos The Clash, respectivamente

MARTHY THAU
[1938-2014]

Morreu hoje, com 75 anos de idade e de causa ainda desconhecida, Marty Thau, agente de bandas rock, produtor, empresário, e nome intimamente ligado ao underground nova-iorquino, nomeadamente ao submundo punk e new-wave de finais de setentas.

Não obstante este estatuto, a entrada de Thau no circo rock'n'roll até aconteceu no meio mainstream, primeiro na revista Billboard, depois como executivo de subsidiárias das grandes editoras. Foi nesta qualidade que esteve directamente ligado às edições americanas de discos históricos de peixes graúdos como Van Morrison e John Cale, ainda durante os sixties. No início da década seguinte, por vontade própria, abandonou a big league e dedicou-se exclusivamente ao underground. Para a história ficará lembrado como o agente dos New York Dolls, banda semi-falhada nos intentos de sucesso, mas determinante no lançamento das sementes punk. Os frutos forma colhidos pelo próprio Thau, que gravou as primeiras demos dos Ramones e esteve também presente nos primeiros passos dos Blondie. Porém, como produtor, o seu trabalho mais significativo é o seminal álbum de estreia homónimo dos Suicide, de 1977. Para o lançamento deste disco fundou a Red Star Records, primeira grande editora independente americana depois do fim dos sessentas, e selo também de trabalhos de bandas como Richard Hell & The Voidoids, The Real Kids, ou The Fleshtones. Da sua exclusiva responsabilidade é também uma compilação de bandas new-wave, ainda antes desta tendência dominar a primeira metade da década de 1980 da MTV. Consta que, até esta data, Marty Thau dedicava-se ainda à conclusão da auto-biografia Rockin' The Bowery: From The New York Dolls To Suicide, na qual teria certamente muitas histórias para revelar desse fascinante pedaço da história da música popular.

 
Suicide "Ghost Rider" [Red Star, 1977]

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

R.I.P.


PETE SEEGER
[1919-2014]

Há vidas assim, longas e plenas. Como foi a de Pete Seeger, que ontem morreu com 94 anos, a maior parte deles dedicadas à folk, tornando-se uma autêntica lenda da música de raiz americana.

Para ficar com o seu nome gravado no livro das memórias da música popular, teria bastado a Pete Seeger a autoria - a partir do Livro de Eclesiastes - de "Turn, Turn, Turn!", tema originalmente editado pelo trio The Limeliters, e posteriormente gravado próximo da perfeição na versão popularizada pelos The Byrds. Mas houve muito mais incidências, numa carreira iniciada na década de 1940, essencialmente com canções inspiradas pelas atrocidades da Guerra Civil Espanhola. O teor fortemente politizado da escrita de Seeger fez dele um dos principais percursores da folk interventiva, comparável em importância a Woody Guthrie. Foi, portanto, uma forte influência de Bob Dylan, de quem foi também um impulsionador nos primeiros tempos de carreira. Com a Guerra do Vietname, o discurso de Seeger agudizou-se, e as suas ligações a movimentos de ideologia comunista valerem-lhe o veto do establishment norte.americano. Talvez por isso, passou por décadas de total esquecimento, voltando à ordem do dia apenas em finais de noventas, quando a folk e o americana voltaram a ser motivo de interesse de novas gerações. Com mais vale tarde que nunca, em 2006, Bruce Springsteen dedicou-lhe um álbum inteiro de canções por si inspiradas. Poucos anos antes, já suspeitos do costume como o próprio Boss, Billy Bragg ou Ani Di Franco, haviam participado num disco de tributo.

"Where Have All The Flowers Gone?" [ao vivo em Estocolmo, 1968]

sábado, 4 de janeiro de 2014

R.I.P.



PHIL EVERLY
[1937-2014]

Morreu ontem em Los Angeles, perto de completar 75 anos, Phil Everly, uma das metades da dupla de sucesso The Everly Brothers, juntamente com o irmão Don. O sucesso precoce dos dois irmãos despontou na década de 1950, quando o rock'n'roll ainda gatinhava e ao qual eles adicionavam umas pitadas de country. A outra característica para o reconhecimento imediato, mesmo a principal, foi o enorme talento da dupla para as harmonias vocais, muito em voga à época.

Iniciados nas lides musicais ainda crianças, no seio da Everly Family, cedo os dois irmãos se destacaram dos progenitores, não só pelo referido dom inato, mas também pelo invulgar jeito entre os cantores da altura para escrever as suas próprias canções. Porém, os maiores sucessos datam da época em que estiveram ligados a Felice e Boudleaux Bryant, o casal de hitmakers responsável pela escrita de clássicos como "Wake Up Little Susie", "All I Have To Do Is Dream", ou "Bird Dog". Também a gravação de versões foi uma constante na carreira dos Everly Brothers, chegando inclusive a dar maior visibilidade a temas originalmente gravados por estrelas da dimensão de Elvis Presley ou Roy Orbison. O sucesso retumbante da dupla, assinalado também pelo hit "Crying In The Rain" (1962), foi refreando com o avançar dos sixties, à medida que as propostas pop mais sofisticadas iam chegando de Inglaterra. A separação ocorreu em 1973 e prolongou-se por uma década de trabalhos a solo, até que o estranho revivalismo motivado pela tendência de alguns teen movies de oitentas motivou o regresso. Até ontem, os Everly Brothers mantinham-se activos, com aparições esporádicas em concertos que o saudosismo de todas as eras que estes nossos tempos possibilita.

Bye Bye Love by The Everly Brothers on Grooveshark
[Cadence, 1957] 

All I Have to Do Is Dream by The Everly Brothers on Grooveshark
[Cadence, 1958]

Crying in the Rain by The Everly Brothers on Grooveshark
[Warner Bros., 1962]

terça-feira, 29 de outubro de 2013

R.I.P.


LOU REED
[1942-2013]

A esta hora já quase tudo foi dito sobre a morte de Lou Reed, notícia recebida com alguma surpresa na tarde do passado domingo, dia 27. No tocante à conversa de circunstância, diria até que já se disse demasiado. Pela importância do cidadão nascido Lewis Allan Reed, há 71 anos em Nova Iorque, e o seu contributo para a música rock nas últimas cinco décadas, não poderia, no entanto, deixar de fazer a justa homenagem.

Como se dizia acima, a triste notícia da morte de Lou Reed, inesperada pelo desconhecimento do seu estado de saúde, foi uma surpresa para uma imensa multidão. Na despedida, este vulto das facções mais rebeldes do rock, acabou por ser coerente com o trajecto de uma longa carreira, feita de muitas viragens e outras tantas surpresas. As primeiras foram a bordo dos The Velvet Underground, banda unanimemente reconhecida pelo seu contributo para o derrubar de muitas barreiras e clichés estabelecidos na linguagem rock, com enorme abertura à experimentação. Cada um dos quatro álbuns da banda em que participou, sempre como a principal força criativa, apesar das limitações técnicas, abre um novo capítulo evolutivo, feito tão mais valoroso se tivermos em conta que entre o primeiro e último distam apenas três anos e meio. Neles, a sua verve poética, fruto do precoce interesse pela literatura, é a transposição da cultura de rua nova-iorquina para canções que deixaram uma descendência imensurável, que vai das tendências arty aos maiores desafios experimentalistas da música popular. Feita de muitos altos, mas também de alguns baixos, a carreira a solo (pontuada também por discos de colaboração com outrem) prossegue essa aversão à estagnação, percorrendo diferentes géneros e aproximando aquilo a que chamamos "alta" e "baixa cultura", nunca temendo a controvérsia. Nada mal para quem, em tempos, apenas esperava pelo dealer com uns quantos dólares na mão...

I’m Waiting for the Man by The Velvet Underground on Grooveshark
[Verve, 1967]
 
Satellite of Love by Lou Reed on Grooveshark
[RCA, 1972]

Dirty Blvd. by Lou Reed on Grooveshark
[Sire, 1989]

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

R.I.P.


JON BROOKES
[1969-2013]

Na passada terça-feira, dia 13, morreu Jon Brookes, baterista dos britânicos The Charlatans, vítima de um tumor cerebral que lhe fora diagnosticado há três anos. Esta baixa é já a segunda na formação original da banda, depois da morte do problemático teclista Rob Collins em 1996, na sequência de um acidente rodoviário.

Jon Brookes esteve, portanto, na origem dos The Charlatans, em 1989, em pleno frenesim Madchester. Acompanhou todo o percurso, desde as nem sempre abonatórias comparações a bandas como Inspiral Carpets ou The Stone Roses, passando pela resistência e aceitação junto da geração britpop, até à consagração como uma das bandas britânicas mais consistentes do último quarto de século. O estatuto adquirido ao longo dos tempos, enquanto a quase totalidade dos contemporâneos ia ficando pelo caminho, seria algo difícil de prever pelos olhares de desconfiança dos primeiros tempos. Mesmo sendo uma banda habituada a duros reveses, teme-se agora pela continuidade, já que o vocalista Tim Burgess parece de uma vez por todas apostado na carreira a solo. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...

 
The Charlatans - "Weirdo" [Situation Two, 1992]

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

R.I.P.



TIM WRIGHT
[1952-2013]

Morreu no passado domingo, dia 4 de Agosto, Tim Wright, músico intimamente ligado ao underground norte-americano de finais de setentas e inícios de oitentas. Talvez derivado ao facto de ter vivido as últimas três décadas em quase completa obscuridade, a notícia da sua morte chega com algum atraso.

Em 1975, Wright foi um dos membros fundadores dos Pere Ubu. Nas funções de baixista, gravou ao lado David Thomas & C.ª alguns dos primeiros singles da lendária banda de Cleveland, entre eles os seminais 30 Seconds Over Tokyo e Final Solution. Permaneceu com estes até 1978, data da edição de The Modern Dance, álbum de estreia no qual ainda chegou a participar em alguns temas. Depois de abandonar os Pere Ubu, rumou a Nova Iorque onde se juntou a Arto Lindsay e Ikue Mori nos DNA. Permaneceu até à sua dissolução, em 1982, tendo sido determinante como baixista na sonoridade da banda, já que veio substituir um teclista. No entanto, a sua chegada não se deu a tempo de participar nos temas destes agitadores no-wave na compilação No New York, o talvez sobrevalorizado resumo da "cena" nova-iorquina produzido por Brian Eno. O encontro com o produtor britânico dar-se-ia na condição de convidado para My Life In The Bush Of Ghosts (1981), disco conjunto deste com David Byrne, marco pioneiro na arte do sampling e da fusão com expressões musicais do mundo ocidental com a chamada world music.

Ainda não oficialmente confirmada, a causa da morte de Tim Wright poderá ter sido uma overdose.

30 Seconds Over Tokyo by Pere Ubu on Grooveshark
[Hearthan, 1975] 

New Fast by DNA on Grooveshark
[American Clavé, 1981]

terça-feira, 23 de abril de 2013

R.I.P.



STORM THORGERSON
[1944-2013]

Na passada quinta-feira, dia 18 de Abril, sucumbiu a um cancro Storm Elvin Thorgerson. Por muitos, este inglês de ascendência norueguesa é considerado o melhor criador de capas de álbuns de todos os tempos.

O seu trabalho mais representativo confunde-se com a a história pop/rock da década de 1970, em particular da facção prog. Tendo trabalhado para inúmeras bandas, talvez se tenha destacado pela longa e estreita ligação aos Pink Floyd. Para estes, criou a icónica capa de Dark Side Of The Moon (1973), mas também outros trabalhos fabulosos como o são as capas de Atom Heart Mother (1970) e Animals (1977). As suas criações de sugestão cósmica serviram ainda de capa para discos do próprio ex-Floyd Syd Barrett, Genesis, Peter Gabriel, Black Sabbath, ou 10cc, sempre com imagens que eram uma extensão da própria música contida nesses discos. Mais recentemente, trabalhou para bandas tão inconsequentes e de gosto tão duvidoso como os Muse, os Cranberries, os Dream Theater, ou os Biffy Clyro, curiosamente com criações que já acusam algum desgaste de uma fórmula, talvez porque ainda coladas à mesma imagética que outrora tinha muito de futurista.

Nesta longa aventura não esteve só, pois, juntamente com o amigo Aubrey Powell, fundou em 1968 o colectivo de design Hipgnosis, autêntica marca registada nos meandros prog-rock. Aos dois, juntar-se-ia mais tarde Peter Christopherson, também músico fundador dos Thobbing Gristle e dos Coil. Quando se extinguiu, em 1983, a companhia tinha também já vasto currículo no florescente mercado dos videoclips.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

R.I.P.



SCOTT MILLER
[1960-2013]

Com 53 anos de idade, morreu no passado dia 15, segunda-feira, o músico e escritor norte-americano Scott Miller. As causas de tão prematuro desaparecimento continuam desconhecidas.

Eventualmente hoje esquecido pelas massas, nos idos de oitentas, Miller foi uma das figuras de proa da "cena" college-rock americana, equivalente ianque ao emergente meio indie-pop britânico. Ao longo dessa década encabeçou os Game Theory, nos quais era vocalista, guitarrista e principal compositor. Embora o sucesso comercial nada tenha querido com a banda, esta foi alvo do entusiasmo dos críticos e de um culto fervoroso de uns quantos fieis. Nascidos na zona da Baía de San Francisco, os Game Theory ficaram ligados à génese do movimento musical californiano que ficou conhecido como Paisley Underground, embora a sua música, extremamente imediata e melódica, se encaixe mais adequadamente no compartimento power-pop. Neste sub-género, normalmente dado às insignificâncias das letras, distinguiam-se pelas constantes referências literárias contidas nas canções de Miller. Deixaram gravados oito álbuns, entre os quais se destacam The Big Shot Chronicles (1986) e Lolita Nation (1987). Este último, com uma clara alusão à obra mais conhecida de Vladimir Nabokov, é um duplo álbum que funciona como um autêntico festim melódico, apesar de muitas vezes ensombrado por uma atmosfera de gravidade que reclama a herança de Third/Sister Lovers, o álbum maldito dos Big Star. Admiradores confessos eram os R.E.M. ("What's The Frequency, Kenneth?" pilha o título do intro que abre aquele disco duplo), os grandes triunfadores do mesmo universo college-rock que viu nascer os Game Theory. Curiosamente, para estes foram feitas previsões - falhadas - de idêntico assalto ao estrelato.

Com o fim dos Game Theory envolto em muitas tensões internas, rapidamente Scott Miller ergueu os The Loud Family, banda extremamente activa ao longo da década de 1990, com prolongamento mais contido no novo século. Nos discos editados, em número considerável e a alto nível qualitativo, Miller desenvolvia o amadurecimento da fórmula ganhadora da banda do passado. Consumidor ávido de música pop, Scott Miller também se envolveu na escrita sobre o tema com Music: What Happened?, livro que compila textos publicados on-line sobre canções específicas lançadas no hiato 1957-2009. Consta que, à data da sua morte, estivesse já a trabalhar naquele que seria o disco de regresso dos Game Theory. O início das gravações, diz-se, estaria previsto para muito em breve.

 
Game Theory _ "Erica's Word [Enigma, 1986]
  
 
The Loud Family _ "Don't Respond, She Can Tell" [Alias, 1997]

segunda-feira, 18 de março de 2013

R.I.P.



JASON MOLINA
[1973-2013]

Morreu no passado sábado, dia 16, Jason Molina, um dos intérpretes e compositores mais aclamados dos universos alt-country e americana que, desde há mais de década e meia, mudou a forma de encarar a música de raíz norte-americana por parte de um público melómano "adulto". A causa oficial da morte é uma falha múltipla de órgãos, derivada do consumo excessivo de álcool, problema que era também a causa de um estado de saúde debilitada que durava pelo menos desde 2009, data a partir da qual entrou em absoluta inactividade musical.

Depois de uma juventude passada como baixista em várias bandas heavy metal que não fizeram história, Jason Molina deu-se a conhecer ao mundo em meados de noventas, quando lançou o primeiro registo como Songs: Ohia. O projecto consistia apenas no próprio, com os músicos que o acompanhavam a variar em cada um da dezena de álbuns e a miríade de outros formatos que lançou sob esse nome. A música, sombria mas profusamente melódica, versava muitas vezes sobre a condição da classe trabalhadora, sem deixar de lado um forte cunho pessoal. Foi muitas vezes alvo de comparações com as mil e uma reencarnações de Will Oldham, apesar de a música dos Songs: Ohia aspirar a algo mais grandioso, por vezes com uma aura quase épica. Depois de um trio de álbuns em nome próprio, formou os Magnolia Electric Co., estes já uma banda de pleno direito que foi buscar o nome ao título do último registo como Songs: Ohia. Nesta condição lançou uma mão cheia de trabalhos, incluindo um álbum ao vivo e um boxset. Curiosamente, apesar de concebida por um colectivo, a música caracterizava-se agora por uma maior simplicidade e um maior apego às raízes. O último registo dos MEC foi Josephine (2009), um disco soberbo na sua pureza descarnada, marca registada de Steve Albini, responsável ainda pela gravação de muitos outros discos de Molina numa bem sucedida e longa parceria. Do mesmo ano data Molina & Johnson, álbum conjunto com Will Johnson, membro dos texanos Centro-matic, que acabaria por ser o último trabalho com a voz e as estranhas afinações de guitarra de Jason Molina.

Farewell Transmission by Songs: Ohia on Grooveshark
[Secretly Canadian, 2003] 

The Handing Down by Magnolia Electric Co on Grooveshark
[Secretly Canadian, 2009]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

R.I.P.



KEVIN AYERS
[1944-2013]

Se nas últimas semanas este "tasco" se começava a assemelhar a uma página de necrologia, a partir de hoje assume-se em definitivo como tal. Hoje cumpre-me registar mais uma triste notícia, concretamente a morte de Kevin Ayers, ocorrida anteontem, dia 18, alegadamente durante o sono na sua casa em França, país onde vivia há alguns anos e pelo qual tinha especial afeição. Símbolo do psicadelismo britânico, e um dos excêntricos do universo pop/rock, Ayers era dono de uma voz única, profundamente britânica e carregada de perversão, tal como a descrevia o radialista John Peel, seu amigo e um dos seus grandes entusiastas.

O início do percurso musical aconteceu ainda em meados de sessentas, na companhia de Robert Wyatt e de Hugh Hopper nos The Wilde Flowers, uma banda que, apesar de não deixar obra registada, desempenha um papel fulcral na chamada Canterbury scene. Tudo porque Ayers e Wyatt, ambos como vocalistas, o último também como baterista, foram fundadores dos lendários Soft Machine, o nome maior da "cena". Hopper juntar-se-ia posteriormente ao colectivo. Com uma forte componente jazzística, somada à deriva psicadélica, a música dos Soft Machine acabaria por deixar vasta descendência, apesar da fraca visibilidade comercial. O contributo de Ayers na obra gravada resume-se ao primeiro álbum, homónimo, registado a meio de uma tour de suporte a Jimi Hendrix. A rescisão foi amigável, não deixando Ayers de se queixar da crescente complexidade que a música ia assumindo. Adepto da boémia, foi viver para Ibiza, na palavras do próprio, apenas para gozar a vida.

O afastamento da música seria breve, já que no retiro espanhol aconteceu o reencontro com Daevid Allen, também ele um ex-Soft Machine, e do reencontro gerou-se o clique para a composição de Joy Of A Toy (1969), o primeiro álbum de Ayers a solo e talvez o mais celebrado. Com a constante promessa de ascender ao estrelato, nos anos seguintes gravou álbuns com uma frequência assinalável. Como convidados, e para além de velhos camaradas dos Soft Machine, contou com a presença de gente como Syd Barrett, Mike Oldfield ou Elton John. No currículo tem ainda um disco (ao vivo) juntamente com Nico, John Cale e Brian Eno. Ao todo deixou mais de dezena e meia de álbuns, sempre com aceitável nível qualitativo. O último data de 2007 e chama-se The Unfairground. Neste, Ayers contou com a colaboração de toda uma nova geração de entusiastas e seguidores, entre eles Norman Blake (Teenage Fanclub), Euros Childs (Gorky's Zygotic Mynci), ou Julian Koster (Neutral Milk Hotel). Curiosamente, foi um dos trabalhos mais bem sucedidos comercialmente da sua carreira.

Why Are We Sleeping? by Soft Machine on Grooveshark
[Probe, 1968] 

Song for Insane Times by Kevin Ayers on Grooveshark
[Harvest, 1969] 
 
Cold Shoulder by Kevin Ayers on Grooveshark
[LO-MAX, 2007]