"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ao vivo #108














Julia Holter @ Galeria Zé dos Bois, 23/07/2013

Pelo ambiente circundante, em sintonia com a beleza delicada da música, dificilmente se supera a vivência daquele concerto de Julia Holter há pouco mais de um ano na igreja anglicana de Lisboa. A própria fez questão de o lembrar anteontem, referindo-se-lhe como o mais especial dos concertos da sua (ainda) curta carreira. Para nossa sorte, esta jovem californiana sabe como não profanar as nossas memórias mais gratas, investindo agora numa nova e superlativa abordagem aos temas, executados com tal primor que rapidamente os sentidos se alheam das condições precárias da exígua sala da ZdB em noite de Verão.

Agora com uma banda mais alargada, que integra um violinista, um violoncelista, um baterista, um saxofonista, e a própria nos teclados, Julia Holter, perdeu relativamente ao passado recente, como alguém me dizia, aquela frieza minimalista. Mas, em compensação, as suas canções ganham em humanidade, sublinhando a beleza intrínseca e a da voz da artista, e realçando os inúmeros detalhes das composições fruto de um enorme talento. As referências (Laurie Anderson, Robert Wyatt, David Sylvian, Kate Bush) são ainda visíveis, embora substancialmente mais depuradas numa roupagem que confere maior personalidade, à falta de melhor discrição, uma variante da dream-pop que assimila a música de câmara e o jazz. Provavelmente, será esta a linha condutora do iminente Loud City Song, terceiro álbum que merece especial destaque no alinhamento e que já está a elevá-la a outros patamares mesmo antes de ser editado. Embora desconhecedor destes temas novos, o público, em número considerável, mostra uma receptividade que é correspondida pela interacção de Julia Holter, mais interventiva no falatório do que se supunha. Esta empatia é premiada com o regresso para encore, sem qualquer queixa relativamente à sauna em que o "aquário" da ZdB entretanto se transformou. Terminado o idílio, ao fim de uma hora e pouco, o tal concerto da igreja era já uma memória distante.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ao vivo #88















Julia Holter @ St. George's Church, 27/06/2012

Aquando do seu anúncio inicial, o concerto de anteontem estava programado para o espaço exíguo da ZdB. Depois da experiência vivida, tenho a dizer que, em boa hora, as gentes daquele espaço do Bairro Alto transferiram a coisa para a igreja anglicana para os lados da Estrela. A mudança, não só permitiu o acesso a público em maior número e com outra comodidade, como encontrou o ambiente perfeito para a proposta musical muito peculiar de Julia Holter. E ainda, com o benefício de, ao contrário do se previa à partida, o espaço dispor de óptimas condições de acústica.

Se a audiência, em número de cabeças apreciável, estava à partida conquistada, diria que, após pouco mais que um minuto, estaria completamente rendida. Para tal, bastaram apenas os primeiros sons saídos das cordas vocais de Julia, dona de uma voz significativamente mais expressiva e poderosa do que os registos em disco deixam adivinhar. Com ela vêm um baterista e um violoncelista, qualquer um com participações discretas que tentam apenas sublinhar um dos muitos pormenores escondidos nos interstícios de cada tema. As atenções vão todas para a pequena "diva", ela que, talvez derivado da tenra idade revela algum nervosismo, expresso tanto nos tiques do menear da cabeça, como nos gestos exagerados ao mover os dedos nas teclas. E como jovem emociona-se e impressiona-se com a imponência do local, tal como fez questão de deixar escapar naquele abrir de braços enquanto descia para o mais que desejado encore. Porém, em Julia Holter, com a juventude, contrasta uma lucidez inabalável que faz do concerto da passada quarta-feira algo de semi-conceptual ou, pelo menos, um espectáculo de alternância de tons: primeiro a luminosidade, depois as trevas, para um final de regresso à claridade. O público, rendido à solenidade do local e ao intimismo da música, e toldado no jogo de nuances, guarda o silêncio reverencial que as circunstâncias exigem. No final, todos saem com a certeza de ter presenciado algo de único nesta capital em que pouco de realmente relevante acontece.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Da tragédia ao êxtase















Deixem-me fazer futurologia e prever, para breve trecho, grandes parangonas para Julia Holter. Por ora, nas chamadas "franjas", o burburinho é já quase ensurdecedor. O motivo de todo o falatório são os dois discos que esta californiana editou no curto espaço de sete meses. Qualquer deles é merecedor daquele rótulo de "incatalogável", tão adequado quando o produto que se nos oferece congrega elementos da folk, da electrónica, da música erudita, ou da pop barroca, e ainda assim soa mais coeso e personalizado do que 99,5% da produção musical da última meia dúzia de anos. Sem desprimor, poderemos sempre referir que o trabalho de Holter não disfarça ecos das propostas mais arrojadas de uma Laurie Anderson ou de uma Kate Bush. Contudo, estaríamos a ser clamorosamente redutores ao confiná-la aos nichos específicos daquelas duas.

O primeiro desses discos, mas o segundo no catálogo da moça, é Tragedy, caído como uma nuvem plúmbea no pico do Verão do ano passado. Denso e quase monolítico, carrega um negrume que é também o de uma tal EMA, outro fruto atípico gerado sob o sol intenso da Califórnia. Também neste particular, Julia Holter faz questão de se demarcar da comparação fácil ao sublinhar a faceta "esquizóide" que o ouvinte com ouvidos desempoeirados assimila com um par de audições. Já deste ano, o mais recente Ekstasis é aquilo a que habitualmente chamamos evolução na continuidade. Igualmente arrojado na fuga à previsibilidade, é talvez até mais rico nos detalhes, com o piano a ganhar algum destaque. É também - pasme-se! - algo radioso e substancialmente mais arejado, pese embora pareça ter uma maior carga de intimismo. Qualquer deles irá, previsivelmente, merecer destaque no concerto já marcado pela ZdB para a Igreja de St. George, ali ao Jardim da Estrela. Será a 27 de Junho próximo, dia que, de resto, já está assinalado com um círculo vermelho no calendário de parede.

"Try To Make Yourself A Work Of Art" [Leaving, 2011]

   
"Moni Mon Amie" [RVNG Intl., 2012]