"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ao vivo #123

















Dean Blunt (Foto: Vera Marmelo)

Peter Evans Quintet + Fennesz + Dean Blunt @ OUT.FEST 2014 - Casa da Cultura do Barreiro, 03/10/2014

Responsável, de há alguns anos a esta parte, por trazer animação a uma pequena cidade na qual a palavra "crise" é uma assombração desde há décadas, o OUT.FEST é um festival único no panorama nacional no que concerne há representação das diversas franjas da música popular. À semelhança de qualquer outro dos dias do evento (entre 2 e 5 últimos), o programa da passada sexta-feira atesta bem do alheamento dos programadores no tocante aos espartilhos estilísticos. No cartaz, cuja prioridade é abranger um largo espectro de tendências ainda não formatadas segundo os estereótipos do mainstream, também não há qualquer critério de antiguidade das carreiras, pelo que, tanto podemos contar com nomes estabelecidos no segmento leftfield, como com as últimas revelações ainda em estado proto-hipster.

Segundo estas premissas, a ementa da noite da última sexta, com cenário no ambiente kitsch pré-decadente da Casa da Cultura, a ordem dos concertos escalados poderia ser qualquer qualquer uma. Por nenhuma razão em especial, couberam as honras de abertura ao trompetista nova-iorquino Peter Evans, à frente de um quinteto que, além do expectável (contrabaixo, piano, bateria), inclui um operador electrónico que processa em tempo real a performance dos restantes músicos. Se a esta presença insólita acrescentar-mos a informação de que Evans é conhecido pela tendência para o improviso, já vejo alguns narizes a torcerem-se perante a ameaça de uma sessão de "ruído avulso". Porém, desenganem-se os cépticos, pois, não obstante uns lampejos de abstraccionismo, o concerto revela-se algo de bastante harmonioso, lúdico até, e isto sem abusarmos da boa-vontade. Ao longo de dos quase noventa minutos queimados num estalar de dedos, o quinteto é um óptimo entretenimento que percorre diferentes toadas, que tanto podem tanger os ritmos latinos, como o rock mais abrasivo. Cada elemento, mestre no seu ofício, tem direito a solo, destacamdo-se do todo, sem detrimento para os demais, o próprio Peter Evans pela sua incrível capacidade para explorar as potencialidades dos instrumentos (trompete convencional e de bolso), e o baterista guedelhudo, altamente preciso e responsável máximo pelas convulsões abruptas ao longo do concerto.

Bem mais breve foi o austríaco Christian Fennesz, nome de culto na electrónica contemporânea mas que, em boa verdade, é um guitarrista rendido ao processamento electrónico dos arpejos minimalistas. Como tal, apresenta-se numa pouco convencional postura: sozinho em palco, munido de guitarra e laptop. Na bagagem traz o recente Bécs, álbum reminiscente do já clássico Endless Summer (2001), que, portanto, é um contraste harmonioso à deriva abstraccionista dos anteriores trabalhos. Não se limita a reproduzir propriamente as peças daquele disco, embora as ambiências criadas, relativamente mais densas também por força de um som imponente, estejam próximas do clima de Bécs, este mais luminoso. Assim, por mais do que uma vez, sentimos estar na presença dos arremedos espectrais dos cinco Slowdive levados a cabo por um só elemento. É um conceito eficaz nesta brevidade, correndo o risco, se alongado, de se perder na eminência da repetição.

Embora não acrescente novidades significativas à apresentação de há menos de um ano, um concerto de Dean Blunt será sempre motivo de uma fascinante estranheza, sob qualquer óptica e ao fim de um infindável número de repetições da experiência. Toda a encenação teatralizada, a constante tensão latente, a presença imóvel de um segurança em respaldo ao artista, e a simplicidade do jogo de luz (e de longos períodos de escuridão absoluta), são truques simples que adicionam tempero a um espectáculo básico na essência. Tal como tinha acontecido no Teatro Maria Matos, Blunt apresenta uma versão sintetizada do excelente The Redeemer (2013), agora ainda mais reduzida porque também vai sendo hora de avançar com temas do já muito próximo Black Metal. A impressão que fica dos novos temas, que seguem a progressão do artista rumo a uma linguagem mais orgânica, com uma forte presença da guitarra, é que não destoam minimamente do carácter intimista dos restantes, prosseguindo, como tal, no relato confessional e despudorado de trechos do quotidiano sentimental (auto-biográfico ou talvez não). Praticamente conceptual, e sobretudo extremamente coeso, o concerto de Dean Blunt foi capaz, tal como o de Peter Evans antes dele, de arrancar intensos aplausos à mistura com expressões de estupefacção. Devidamente justificados, diga-se.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ao vivo #121



Primavera Sound 2014 @ Parc del Fòrum - Barcelona, 28-31/05/2014

E com esta já se contam seis presenças no Primavera para o currículo, e à meia dúzia agudiza-se uma amarga sensação, anteriormente latente: aquele que era um festival exemplar para servir os diversos cultos está definitivamente (e irremediavelmente?) descaracterizado. A principal causa a apontar, que para alguns até pode soar a "fundamentalismo indie", é a rendição a cabeças de cartaz de desmesurada dimensão. É inegável que esta opção atrai um público mais vasto mas, logo aí, tem um efeito prejudicial nas condições de "trânsito" no recinto. Por outro lado, o dispêndio financeiro que a contratação desses nomes de monta acarreta, reflecte-se na impossibilidade de contratar um número de bandas e artistas de uma "média dimensão", classe na qual se inserem boa parte dos motivos de culto que outrora faziam do cartaz do festival catalão algo de inexcedível.

Tomemos como primeiro exemplo deste aburguesamento a presença dos Queens of the Stone Age, exemplar de uma espécie de dinossauros precoces que provocam alarme no actual espectro da música popular. O seu concerto é um desfile de clichés do circo rock, apoiado num relativo aparato de som e imagem. Bem espremida a coisa, falta-lhe em genuinidade o que lhe sobra em espalhafato. Pior ainda, os Nine Inch Nails têm no mentor Trent Reznor um espécime invulgar nesta era de todas as reciclagens: alguém que decidiu fazer um revivalismo de si próprio. Para agravar, ao nível técnico, o concerto foi desastroso, com uma voz arruinada e um som baixíssimo e pouco definido. O resultado é um longo bocejo. Quanto aos Arcade Fire, após uma breve observação da coisa, digamos que estes talvez ainda não estejam ainda tão dentro da "primeira divisão" como por aí se apregoa. Ou, pelo menos, a histeria à sua volta já não seja a mesma de outras eras, porque o público até nem é parvo e não engole toda a hipervalorização mediática que os envolve desde o primeiro álbum. Talvez a própria banda esteja consciente disso e, segundo rezam as crónicas, opta por conceder parte de leão no alinhamento a esse disco de estreia. 

Com base nos primeiros vinte minutos do concerto dos Pixies, sou quase levado a concordar com todos aqueles que condenam o regresso à vida de bandas que, curiosamente, "cresceram" durante a ausência. Não diria o mesmo dos Pixies de 2004, ainda plenos de vigor e dispostos a reclamar os louros (e o ouro) que lhes fugiram durante a primeira existência. Actualmente (e certamente sem qualquer relação com o abandono de Kim Deal, deixem-se de tretas!), esta é uma banda em piloto automático, deixando transparecer que está ali em palco apenas por frete. Porém, mudo de opinião acerca deste tipo de regressos quando relembro o magnífico concerto dos Slowdive, o qual excedeu todas as expectativas. Admitindo que duvidava do efeito da sua sonoridade em cima de um palco, é justo reconhecer ao quinteto a capacidade de gerar o mesmo tipo de emoções dos discos, reproduzindo na perfeição aquele misto de sonho enevoado e experimentalismo. Em idêntico patamar estiveram os Godspeed You! Black Emperor, dos quais se temia a perda de impacto num concerto a céu aberto, mas capazes de proporcionar as mesmas paisagens de desolação de sempre, ao longo das duas horas necessárias para o efeito de abandono ser pleno. Ainda em alto nível, refiram-se os Slint, que deixaram explícito que o angst juvenil entre a apatia e a fúria descontrolada do mítico Spiderland ainda é algo de bastante invulgar. Tanto estes como o colectivo canadiano cometeram a proeza de remeter a plateia a um quase total silêncio durante os temas, proporcionado momentos de rara introspecção em concertos em terras de nuestros hermanos. Quanto aos Television, e embora a idade avançada dos seus elementos possa ter um impacto negativo na ideia pré-concebida pelos menos conhecedores do histórico Marquee Moon, cedo desfizeram equívocos sobre a sua eficácia, pondo a nu a proveniência das ideias dos primeiros e celebrados The Strokes. Por fim, na secção da glórias de outrora, é imperioso referir tanto os Loop como Julian Cope. Os primeiros, ainda em plena luz do dia, deixaram inebriada a assistência com uma massa sonora demolidora e em alto volume, numa súmula de diferentes rebeldias da história rock. Um renegado por convicção, Julian Cope precisou apenas de uma guitarra e de uma voz a transpirar vitalidade para encher a imensidão de um auditório, e gerar, inclusive, alguma agitação sempre que revisitava momentos mais marcantes da sua vasta obra.

No mesmo auditório que recebeu o bardo inglês, aterrou o ovni do Primavera, representado pela Sun Ra Arkestra. Fazendo jus à expressão "velhos são os trapos", os antigos músicos acompanhantes da lenda da facção free do jazz (comemora-se presentemente o centenário de Sun Ra) deram um autêntico baile rítmico, que inclui acrobacias inesperadas de quem já entrou na terceira idade e mais do que uma incursão dos sopros pelo meio da assistência. O efeito é o de autêntico delírio. Em matéria de ritmo, mestria é aquilo que define Seun Kuti & Egypt 80, tónico perfeito para embalar pela noite dentro em crescendo de animação sob as vibrações positivas da música africana. Interventivo quanto baste, o filho da lenda Fela Kuti demonstrou que do pai não herdou apenas o talento. Em matéria de "aves-raras", porém, o vencedor foi Charles Bradley, o veterano cantor soul que apenas teve reconhecimento tardio e bastante recente, desde logo porque a minha devoção por estas sonoridades nem sempre é correspondida pela abundância de concertos do género. É notório que uma voz já envelhecida, e que não dispôs do treino "académico" de outros, tem as suas quebras nos momentos mais exigentes, mas estas são fácil e rapidamente esquecidas perante a mais genuína pureza de Bradley, que faz questão de repetir uma gratidão que só pode ser sincera. Quando este necessita de algum repouso, ou até mudar de indumentária, o ritmo não vacila, já que a banda primorosa que o acompanha assegura a animação.

Com a opção de assistir a um maior número de concertos completos, escasseou o tempo para espreitar bandas mais jovens. Mas sempre deu para reforçar a ideia de que os Real Estate nunca são piores que bons, particularmente num cenário propício de fim de tarde, como foi o caso. Ou ainda de que o mundo já tem uns Tame Impala para poder dispensar os Pond, estes com a agravante dos tiques da suposta animação colorida dos actuais e irritantes Flaming Lips. No mesmo palco Pitchfork, finalmente com um som condigno (aleluia!), que os australianos perpetraram uma tortura, os Speedy Ortiz foram o oposto, provando que ainda há espaço para a canção de travo indie, desde que bem urdida. Mesmo ali ao lado, no Vice ocorreu a grande revelação deste festival, na pessoa dos irlandeses Girl Band. Mantendo a esperança de que ainda haja vida no revivalismo post-punk mais obtuso, estes serão com toda a certeza merecedores de um aprofundamento muito além dos escassos minutos de concerto a que assisti. No mesmo palco, lamento que as sobreposições me tenham impedido de prolongar o deleite com os escoceses The Twilight Sad, uma banda que já não me move como outrora, mas que em palco ainda provoca o arrepio emocional que percorria o retumbante primeiro álbum. Quanto aos Temples, não fugindo sobremaneira ao registo gravado, escaparam sem mácula como uma das poucas bandas da presente regurgitação psicadélica com canções dignas desse nome para mostrar. Rematando no mesmo tom com que se iniciou esta resenha, tenho de vos dizer que ainda estou para perceber o porquê de uma coisa chamada Stromae, um belga que aparentemente é vedeta lá na terra e que fez as delícias do vasto contingente francófono. A roçar o gosto duvidoso do eurodance, o miúdo reforça a minha teoria de que, desde o advento electroclash, em matéria de música de dança, se perdeu completamente o crivo da decência.

OS 10+

  1. SLOWDIVE
  2. CHARLES BRADLEY
  3. SLINT
  4. SUN RA ARKESTRA
  5. GODSPEED YOU! BLACK EMPEROR
  6. LOOP
  7. REAL ESTATE
  8. TELEVISION (performing Marquee Moon)
  9. JULIAN COPE
  10. SEUN KUTI & EGYPT 80


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Fui...



...mas depois conto como foi.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ao vivo #106


Foto: Tonje Thilesen/Pitchfork Media

Primavera Sound 2013 @ Parc del Fòrum - Barcelona, 22-26/05/2013
Optimus Primavera Sound 2013 @ Parque da Cidade - Porto, 30/05-01/06/2013

Se ainda houver alguém desse lado, com certeza não estranhará a longa ausência, já que nas últimas semanas decorreu a temporada dos grandes festivais ibéricos. Este ano, excepcionalmente, a pausa foi preenchida com jornada dupla: primeiro a autêntica maratona na capital da Catalunha, depois a etapa mais modesta, mas igualmente digna de nota, na Cidade Invicta. Não obstante algumas irritações derivadas de algumas opções das respectivas organizações (a progressiva "comercialização" do festival catalão, as questões logísticas no Porto), a dupla edição do Primavera Sound foi, uma vez mais, um autêntico maná para quem gosta de música ao vivo. Nas dezenas de concertos a que assisti houve obviamente desilusões, algumas revelações,  o realizar de alguns sonhos antigos, mas, mais importante que tudo, um número considerável de espectáculos dignos de entrar para o restrito grupo dos "concertos de uma vida". Na falta de tempo para vos descrever cada um em pormenor, deixo-vos com os tops de preferências desta dupla aventura primaveril.

Barcelona:

  1. MY BLOODY VALENTINE
  2. BLUR
  3. BOB MOULD
  4. PARQUET COURTS
  5. DEERHUNTER (em dose dupla)
  6. COME
  7. WU-TANG CLAN
  8. DO MAKE SAY THINK
  9. THE JESUS AND MARY CHAIN
  10. TAME IMPALA
  11. THE BABIES
  12. DEATH GRIPS
  13. KURT VILE & THE VIOLATORS
  14. MERCHANDISE (em dose dupla)
  15. LOS PLANETAS


Porto:

  1. MY BLOODY VALENTINE
  2. BLUR
  3. METZ
  4. LOS PLANETAS
  5. DINOSAUR JR.
  6. SAVAGES
  7. DEERHUNTER
  8. THE BREEDERS
  9. DANIEL JOHNSTON
  10. NEKO CASE

terça-feira, 23 de abril de 2013

Ao vivo #104



















O Phestival @ Hard Club, 19-20/04/2013

Talvez esta coisa d'O Phestival pouco ou nada diga àqueles que não pertencem a essa congregação chamada Igreja Universal dos Fazedores de Bonitas Listas Musicais dos Últimos Dias, ou IUFBLMUD para encurtar. Esses, provavelmente, não são autênticos geeks que, noite após noite, aguardam impacientemente pelas doze badaladas para alimentar esse vício das listas musicais, ou "Síndroma Alta Fidelidade", como noutros tempos lhe chamava o Criador da seita. Aos infiéis, convenhamos, também não me parece que fosse particularmente apelativo um naipe de bandas com pouco nome na praça, com a particularidade de cada uma delas incluir pelo menos um "fiel" da IUFBLMUD. Por isso, é natural que, no passado fim-de-semana, o Hard Club fosse local de peregrinação quase exclusivamente para fervorosos fundamentalistas da causa para assistir ao evento que o sonho de uns quantos e o trabalho de muitos tornou possível. Para tão solene ocasião os "irmãos" músicos não se fizeram rogados, e arrancaram concertos de nível qualitativo bem acima do habitual em bandas nacionais, até mesmo das mais habituadas aos festivais "institucionais". Em particular precisamente aquelas que incluem pessoas das quais me orgulho de ser amigo: Malcontent, Olavo Lüpia e Tallowate.

Com uma formação renovada relativamente à única vez que se tinham cruzado no meu caminho, os Malcontent deixaram meio mundo boquiaberto com a sua prestação rock da escola sónica amiga da distorção. Os Mary Chain ainda são a principal fonte de inspiração, mas discípulos como os A Place To Bury Strangers ganham terreno a bem da imponência da muralha sonora. Se a colagem aos mestres pode ser um aspecto negativo, os Malcontent compensa-no com um lote de canções soberbas e um savoir faire pouco habitual mesmo em bandas de muito maior dimensão. Quanto a Olavo Lüpia, esse trovador do lado errado da vida, era muita a vontade de o encontrar em cima de um palco, depois de ficar babado de orgulho com as canções que este grande amigo me foi dando a conhecer previamente. Nos temas mais convencionais, se é que podemos chamar convencionais a estas trovas amargas, talvez o nosso bom homem acuse alguma maciez que não lhe imaginava. Vamos ser optimistas e pensar que a rudeza seguirá dentro de momentos, em ocasiões não revestidas de tão grande carga emocional. Porém, a secura ainda marca presença, sobretudo quando Olavo embarca numa toada bluesy, com a mesma autenticidade de um ceguinho do Mississippi dos tempos da Grande Depressão. Por fim, queria falar-vos dos Tallowate, essa entidade que encerra em si diferentes tendências da linha dura do rock. À frente têm o verdadeiro animal de palco, um vocalista a quem baptizo desde já como "o Steve Albini da Cedofeita". É este ser movido a adrenalina, velho conhecedor do rock sem meias tintas, que capitaliza as atenções, quase ofuscando um trio de músicos competentíssimos, talvez a máquina musical mais bem oleada de todo O Phestival.

Deste evento recheado de acontecimentos para registar nas melhores memórias de uma vida de rock'n'roll, poderia ainda falar-vos de uma data de pequenas coisas que não acontecem noutros festivais. Mas não o vou fazer porque não quero maçar-vos com emoções demasiado pessoais a que o vosso estatuto de infiéis talvez não atribua a devida importância. E também, porque, com uma pequena dose de mistério, talvez vos crie água na boca para a segunda edição d'O Phestival.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Vai ser bonita a phesta, pá!



No dia das mentiras, queria dar-vos conta de um acontecimento marcado para breve que, não o parecendo, é a mais pura realidade. Fala-vos d'O Phestival, o primeiro festival de música organizado neste país, e quiçá na galáxia, por um grupo do Facebook. O grupo em questão dá pelo nome de Igreja Universal dos Fazedores de Bonitas Listas Musicais dos Últimos Dias, IUFBLMUD para os amigos, e é composto por um generoso número de devotos das listas musicais, entre os quais me orgulho de estar deste o primeiro dia, há quase três anos e meio.

A ter lugar na Cidade Invicta, nos próximos dias 19 e 20 de Abril, O Phestival decorre essencialmente no Hard Club, embora muitas actividades paralelas estejam programadas para o Radio Bar. Do cartaz, composto por bandas ainda - e sublinho o "ainda" - com pouca projecção, gostaria de ser parcial e destacar as bandas que incluem alguns amigos. A saber: os Malcontent com o seu fuzz-rock de inspiração marychainiana, os Tallowate com o seu post-hardcore incendiário, a pop melódica e emocional dos Jameson Blair, e, last but not least, o cantautor Olavo Lüpia com as suas trovas da dor-de-corno. No dito, incluem-se ainda os Denário, O Abominável, Blaze & The Stars, e Our New Lie. Em cada uma das datas, a noite será também abrilhantada até às quinhentas por seis duplas de DJs, todos eles ilustres membros da IUFBLMUD, à razão de três parelhas por noite.

Resta acrescentar que, nesta primeira edição, o cartaz d'O Phestival contempla apenas bandas com pelo menos um membro fiel da IUFBLMUD, cenário que, estamos em crer, poderá mudar no futuro, dependendo do sucesso da organização e da adesão a esta iniciativa pioneira. Vá lá, agora toca a comprar as entradas, que o resto está bem entregue!


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ao vivo #96














Amplifest 2012 @ Hard Club - Porto, 28/10/2012

Pelo segundo ano consecutivo, e num espírito de verdadeira independência, o Amplifest tem sido responsável pela vinda a este país de bandas e sonoridades normalmente arredadas dos cartazes dos festivais "corporativistas", isto apesar do culto sólido em seu redor. A minha estreia, ainda que só por um dia, foi motivada pela grande atracção de encerramento, e só foi possível graças à generosidade de algumas benditas almas a quem daqui se endereçam os mais sinceros agradecimentos. À parte os cabeças-de-cartaz, a oportunidade serviu também para satisfazer a curiosidade sobre alguns conhecidos e outros totalmente desconhecidos, como se retira das parcas linhas a seguir.

Após o habitual reconhecimento do terreno, e de alguns cumprimentos a amigos e conhecidos, aventurei-me pela sala 2 do Hard Club, onde me deparei com os ingleses Necro Deathmort já em plena função. Afecta das tonalidades negras, esta dupla conjuga elementos díspares como o industrial, o drum'n'bass, algumas pinceladas do chamado gótico, e até o metal menos tradicional, sem que, contudo, haja qualquer comprometimento com alguma das filiações. Conseguem, por isso, agradar às diferentes "tribos" presentes, criando na sala um ambiente algures entre o solene e o dançante.

Ainda que reduzidos a metade, era alguma à expectativa para a recepção aos Oxbow, apropriadamente rebaptizados para a ocasião de Oxbow Duo. Como esperado, a presença de Eugene S. Robinson faz valer a sua imponência, não só pela pela presença física como pela capacidade performativa, na qual, neste formato, penso que seriam de evitar as insistências na característica postura "macho". Pormenores à parte, o homem ostenta uma voz capaz de sublinhar a violência das palavras até um nível quase cinemático, como se imagens fossem projectadas à nossa frente. Não derivando muito de um registo spoken word, com um ou outro urro lancinante, Robinson encontrou no guitarrista Niko Wenner parceiro à altura, capaz de, sozinho, sustentar toda a intensidade instrumental do concerto. É certo que se perdeu a adrenalina noisy que a banda completa propiciaria mas, em contrapartida, ganhou-se uma crueza de processos que evidencia o elemento bluesy da música dos Oxbow.

Depois de uma breve descrição ouvida em antecedência, os ouvidos ansiavam pela proposta dos italianos Ufomammut. Num primeiro momento, o trio deriva por uma sonoridade spacey que convida ao entorpecimento dos sentidos. Depois deste princípio prometedor, vão evoluindo para territórios menos atractivos do sludge-metal, até caírem num emaranhado de repetição e previsibilidade. O abandono foi prematuro, até porque o estômago precisava de estar recomposto para o próximo acto.

Por fim, com a sala apinhada e muita ansiedade a pairar, chegavam os Godspeed You! Black Emperor, o numeroso colectivo canadiano que nos abandonou durante quase uma década mas que, nem por isso, parece ter perdido fiéis. Cada prestação dos GY!BE é uma espécie de cerimónia, e a do Hard Club não foi excepção, com os instrumentos a entrarem à vez, até se unirem num uníssono capaz de extrair a mais encantadora beleza do cenário da maior destruição imaginável. Com o novo álbum ainda fresco nos ouvidos dos presentes, "Mladic" foi já recebido como se de um "clássico" se tratasse, convidando, inclusive, no trecho intermédio de inflexões étnicas, a um tímido e inesperado ensaio de dança no público. Recebido com igual entusiasmo foi o segmento inicial do já histórico "Sleep", este num limbo entre o árido e o idílico, como só os GY!BE são capazes. Com a audiência rendida, a mais de hora e meia de concerto passa num ápice, e após o abandono gradual do palco, ninguém arreda pé na esperança de um regresso. Este acontece mas, porém, para frustração de público e banda, a tentativa de encore sai encurtada por problemas técnicos com uma das guitarras, o que impede a execução da peça musical com o rigor e a precisão que hoje os GY!BE ostentam. O incidente levou um dos membros do colectivo a tecer um paralelismo com o estado sócio-político de Portugal e da Europa, demonstração da consciência inconformista dos GY!BE apesar da quase total ausência de palavras na sua música. Feito o merecido e prolongado aplauso, fomos todos para casa, ainda aterrados com as visões do Apocalipse, mas conscientes de uma ténue luz de esperança.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ao vivo #90

















Foto: JN

Optimus Alive 2012 @ Passeio Marítimo de Algés, 13/07/2012

Chamem-me pretensioso, chamem-me mete-nojo, mas cada vez me falta mais a paciência para os festivais realizados no rectângulo (desde que não organizados por espanhóis, está claro!). O Optinus Alive em particular, com as pretensões a Rock in Rio, tem a particularidade de me afugentar como nenhum outro. Ele é a salganhada do cartaz, ele é a morosidade inexplicável no acesso ao recinto, ele é o próprio recinto de dimensões mais que reduzidas para o número de público... Só que, no meio da salganhada, vai de quando em quando aparecendo um nome que me faz esquecer a fobia e lá me faz rumar ao circo de Algés. Foi assim há quatro anos por causa dos Spiritualized, e foi assim na passada sexta-feita por causa dos Stone Roses

Sobre a actuação da regressada banda de Manchester já muito se disse, em particular da fraca prestação vocal de Ian Brown. São justas as críticas, mas se querem que lhes diga dele não esperava propriamente um tenor, pelo que neste aspecto não fui tomado de surpresa. Porém, também serei justo se referir que o rapaz se desenrasca com maior desenvoltura quando se lhe pede que cante num tom mais melódico, e isso acontece na maioria dos temas que interessam, ou seja, os do simbólico primeiro álbum. Pontos altos, sem falhas dignas de nota, foram "This Is The One", o fulgurante final com "I Am The Resurrection", e "Fools Gold". Neste último, transfigurado para palco, com Brown fora de cena, John Squire, Mani e Reni, qual máquina afinada, proporcionam uma longa deriva psicadélica que sacia a maioria dos fiéis. Voltando aos débeis dotes vocais de Ian Brown, eles estiveram mais evidentes quando procurava ser mais contido, e isso aconteceu essencialmente com os temas do desequilibrado segundo disco, pelo que penso que ninguém que realmente tenha alguma devoção pelos Stone Roses terá ficado particularmente desiludido. Excepção feita, claro está, a "Love Spreads" e "Ten Storey Love Song", o par de canções pelos quais o disco ainda vale a pena, e onde o vocalista não comprometeu. Quando ao resto da banda, e em adenda ao que acima se disse, estará hoje tecnicamente mais evoluída do que no seu período de maior fulgor, na viragem dos oitentas para os noventas. Mas não é por isso que entra em demonstrações técnicas desnecessárias, limitando-se a executar a música na sua essência, com um ou outro floreado que em nada a descaracteriza.

Do resto do cartaz gostava ainda de realçar, muito pela positiva, os Death in Vegas. Antes do início do concerto disse a alguém que o aguardava com alguma curiosidade e algumas reticências, tal a particularidade dos discos do projecto de Richard Fearless, normalmente pejados de convidados que, obviamente, estavam ausentes. Cedo se desvaneceu o cepticismo, com a imersão numa espiral de densidade que incorpora laivos de kraut em fundo de negritude. Combinando o lado electrónico com a vertente orgânica sem predominância de nenhuma das facetas, a banda transfigura cada tema como parte de um todo, deixando escapar pontos de reconhecimento, quanto mais não seja pelas extractos de vozes sampladas. No final, soube a pouco pela curta duração.

Gostava ainda que ficassem a saber que, à margem de um verdadeiro delírio infanto-juvenil, tomei finalmente contacto com a música do fenómeno LMFAO. E se querem que lhes diga, palhaçadas da dupla à parte, detectei um hip-hop festivo de travo clássico que não me causa qualquer aversão. O mesmo não se poderá dizer de uma tal Zola Jesus, que quando se cruzou pela primeira vez no meu caminho mal sabia ainda encarar o público em cima de um palco. Agora é toda ela de uma teatralidade despropositada, e como tal, não menos ridícula. Quanto à "música" propriamente dita, é toda uma súmula de clichés da facção mais negra do post-punk, com os tiques de uma Siouxsie mais madura (e mais desinteressante) em maior evidência.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ao vivo #86

















Foto: JN

Optimus Primavera Sound @ Parque da Cidade - Porto, 09/06/2012

Perante a falta de vontade (ou de engenho, ou de interesse) dos promotores nacionais em apostar em cartazes de festivais que não sejam apenas mais-do-mesmo, nada como uns bons ventos vindos de Espanha. Ainda que substancialmente menos recheado que o congénere catalão, o primeiro Primavera Sound portuense soube atrair um público numeroso que procura nos festivais algo mais que o previsível "banda consagrada decadente + hype efémero do momento". Quem não esteve pelos ajustes foi o São Pedro, que sabotou o início do último dia de concertos no Parque da Cidade com uma irritante chuva, miúda mas persistente, o que me leva a ponderar se não estará o santo ao serviço dos ditos promotores roídos de inveja. Mesmo em processo de recuperação física e emocionalmente do festival-mãe, não pude deixar de marcar presença, ainda que só por um dia. O cartaz de sábado assim o exigia, e as gentes mais hospitaleiras que existem neste rectângulo também. Portanto, houve convívio, mas também alguns concertos. Cinco ao todo, relatados nas breves linhas que se seguem:

Spiritualized
Prejudicados pelo horário (19h00?), pela teimosia da chuva, e pelo som demasiado baixo, não lograram os níveis de empolgamento do festival catalão. Ainda assim, J Spaceman e a banda que lhe tem servido de suporte presentearam os corajosos com um concerto de bom nível, com alinhamento alternado pelos (poucos) temas do novo álbum, os "hits" do magistral Ladies And Gentlemen..., o devaneio psicadélico em loop, e o inevitável recuo ao tempo dos seminais Spacemen 3. À falta de melhor atestado para o sucesso do espectáculo, refira-se a resistência às condições adversas por parte do público, que na sua esmagadora maioria não arredou pé até final.

The Afghan Whigs
Com condições diametralmente opostas, Greg Dulli e os seus foram absolutamente demolidores. O horário mais tardio, o som com um volume monstruoso e uma limpidez próximo da perfeição, e a entrega absoluta de um número considerável de fiéis, foram meio caminho andado para o melhor concerto realizado em solo luso nos últimos meses. O outro meio foi o próprio Dulli, com a voz numa forma assombrosa, ainda capaz de exprimir todo o angst berrado das mais viscerais canções de dor-de-corno. As pontes com a música negra são por demais evidentes, isto apesar da fúria incessante das guitarras. Tal união de contrastes não poderia ter final mais feliz, quando, em jeito de remate, "Faded" se funde com um assomo de "Purple Rain", do pequenote de Minneapolis.

Wavves
Momento mais dado ao convívio do que propriamente ao desenrolar dos acontecimentos em palco. Apesar da desatenção, pude verificar que Nathan Williams e seus acólitos agitadores persistem na demanda de fazer do surf-punk uma festa recheada de pequenas provocações. Pelo canto do olho, verifiquei que "So Bored" e a versão de "100%" foram motivo para significativa agitação da turba mais próxima do palco.

Saint Etienne
Por falar em festa, faça-se descer a bola de espelhos! A banda sonora fica a cargo de Sarah Cracknell e companhia. Para os convivas, trazem um manancial de canções que, apesar de invariavelmente resvalarem para o Ibiza-touch ou para o easy listening de hotel burguês, mantêm-se sobriamente do lado de cá da fronteira do bom-gosto. Pena foi que o público não tivesse aderido em maior número a esta lição de história da pop ministrada numa versão ligeirinha.

The xx
Tenho uma especial simpatia por estes miúdos, tantas vezes injustiçados pelas dualidades de um hype que não pediram. Se em disco há que lhes reconhecer o feito de desenvolver canções dignas desse nome assentes numa base dubstep, é no palco que essas mesmas canções, prenhes de uma ingenuidade apaixonada, ganham toda a sua dimensão. Para tal, usam os recursos mínimos, sem quaisquer artifício supérfluo: uma guitarra esparsa, um baixo, os beats e os samples certeiros de Jamie xx, e duas vozes em de uma contenção próxima do sussurro em constante diálogo. Trazem novos temas de um álbum que se avizinha, e que, a julgar pela amostra, desenvolve uma veia mais orgânica sem, contudo, descaracterizar a premissa inicial. No passado sábado, o público de milhares não merecia aquela irritante falha técnica da distorção dos graves durante demasiado tempo para ser admissível em profissionais no seu ofício. Muito menos a banda, que na sua timidez juvenil quase militante, se mostrou imperturbável.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ao vivo #85


Foto: Bloodbuzzed

San Miguel Primavera Sound 2012 @ Arc de Triomf, Parc del Fòrum - Barcelona, 30/05-03/06/2012

À semelhança de anos anteriores gostaria de lhes fazer uma resenha exaustiva, concerto a concerto, daquele que será, porventura, o melhor festival de música popular da actualidade no continente europeu. Porém, a escassez de tempo, algo que o meu vasto auditório já terá detectado pela redução drástica no número de postadelas mensais, impede-me de o fazer. Não queria, no entanto, defraudar as expectativas de um punhado de gente que ainda tem a paciência para ler o que por aqui se escreve e gostava de deixar uns breves considerandos.

Por exemplo, gostava de vos dizer que, não obstante o acréscimo de público das últimas edições, o Primavera Sound ainda é festival para deixar o melómano menos dado aos cartazes assentes em valores seguros plenamente satisfeito. Este ano, e em particular no campo das electrónicas, ninguém se pôde queixar. A tendência dominante é a do recuperação dos sons da época dourada de noventas, a cargo de gente como Hype Williams, Benga, Rustie, ou Aeroplane. Mais radical, a dupla Demdike Stare impressiona com a sua muralha drone de paisagens apocalípticas. 

Como não podia deixar de ser, as velhas "glórias" indie, algo que, ao contrário do que sucede por cá, o público espanhol ainda não deixou de acreditar, foram representadas por Saint Etienne, Spiritualized, Yo La Tengo e The Wedding Present. Os últimos eram desejo antigo deste escriba, que foi contemplado com o magistral Seamonsters na íntegra e ainda dois ou três clássicos da dor-de-corno. A prestação da banda merecia um tratamento de som mais esmerado. Também os regressos ao serviço do saudosismo preencheram boa parte do cartaz. Com diferentes níveis de interesse, Archers of Loaf, Mazzy Star, Codeine, The Afghan Whigs e The Pop Group não desapontaram e, no caso dos últimos, apesar do estado ébrio de Mark Stewart, atingiram níveis próximos da perfeição. O mesmo se pode dizer da maioria das novas coqeluches (The Drums, Girls Names, Lower Dens, The xx, The Walkmen, e os incontornáveis Real Estate). Uns furos abaixo estiveram Dirty Beaches e os dinamarqueses Iceage, em qualquer dos casos prejudicados pelo som sofrível do palco Pitchfork, algo que, lamentavelmente, já começa a tornar-se um hábito. Por seu turno, os Wild Beasts, aos quais dava ainda o benefício da dúvida, só não levam o coroa de bosta do festival à conta de um tal Neon Indian. À falta de personalidade e de garra, some-se uma irritante e ostensiva "deriva U2" (algo de que as novas canções dos The Walkmen tmabém padecem mas que é compesado com uma entrega inesgotável), para obter o momento mais amorfo de todo o festival

O escasso tempo disponível entre concertos e deslocações entre palcos permitiu ainda assim algumas abertas, aproveitadas na circunstância para espreitar as chamadas "sonoridades extremas". Os contemplados pela minha faceta voyeurista foram os Napalm Death e os Mayhem. Nos primeiros apreciei a atitude positiva que a brutalidade e algum preconceito nem sempre permitem discernir. Nos últimos, sai reforçada a ideia pré-concebida de que são um bando de sociopatas dos quais, em habitat natural, não teria a coragem de me aproximar.

A finalizar gostava de realçar a melhor organização dos últimos quatro anos em termos logísticos (bares, casas-de-banho), o que evitou as sempre desagradáveis esperas, tanto mais quando o tempo urge. Ou ainda o ambiente descontraído que prevaleceu, agora que os hipsters e o cocaine chic parecem começar a perder terreno.

Portanto, praticamente só notas positivas para um festival que teve a particularidade de me oferecer um bom punhado de concertos para mais tarde recordar. Um em particular, por diversas ordens de razões, algumas emocionais, entra directamente para aquele grupo restrito dos concertos de uma vida. Mais do que um concerto, um verdadeiro all-star: Jody Stephens, Ken Stringfellow, Jon Auer, Norman Blake, Ira Kaplan, Mitch Easter, Georgia Hubley, Ken Stringfellow, Jon Auer, Mike Mills, Alexis Taylor, Sharon van Etten, Jeff Tweedy, Chris Stamey e mais uns quantos em homenagem à memória de Alex Chilton e das suas canções. Com arranjos de cordas de Stamey, porque a POP com maiúsculas se presta a estes serviços, reinterpretou-se essencialmente o disco maldito Third/Sisters Lovers, mas também um par de pérolas esquecidas dos Big Star e outras tantas de Chris Bell. No final, o estado de êxtase era tal que, ninguém resistiu a quebrar a circunspecção do auditório e todos correram para as proximidades do palco a pular de alegria e satisfação ao som de "September Gurls". Foi bonito, pá!

TOP 15:

  1. BIG STAR'S THIRD
  2. THE POP GROUP
  3. MAZZY STAR
  4. THE AFGHAN WHIGS
  5. SPIRITUALIZED
  6. THE DRUMS
  7. REAL ESTATE
  8. THE WALKMEN
  9. THE WEDDING PRESENT
  10. LOWER DENS
  11. THE xx
  12. YO LA TENGO
  13. BENGA
  14. GIRLS NAMES
  15. DEMDIKE STARE

terça-feira, 29 de maio de 2012

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ao vivo #66

















San Miguel Primavera Sound @ Poble Espanyol, Parc del Fòrum - Barcelona, 25-29/05/2011

Dos três Primaveras consecutivos que já conto no cadastro, o do presente ano é o vencedor no que à qualidade de concertos diz respeito. O grau de satisfação é tal que, só agora, duas semanas após o "dia seguinte, o do choque do regresso ao mundo real, me sinto em condições de uma análise "a frio", que evite opiniões exacerbadas pelo estado de semi-delírio. No aspecto organizativo, o saldo é também francamente positivo, com falhas a apontar "apenas" no que respeita ao rotundo falhanço da forma de pagamento adoptada para os bares, e as já habituais deficiências sonoras registadas no palco Pitchfork. Este, agora afastado da zona central do Fòrum, já não sofre a interferência do som de outros palcos. Porém, repete as falhas técnicas do ano passado. Desta feita, as principais vítimas foram The Fresh & Onlys e The Black Angels. Em qualquer dos casos, a prestação das bandas merecia outro tratamento do pessoal técnico. Os texanos ainda tiveram a compensação no encerramento realizado na "sauna" do Apolo, sala com características óptimas para a catarse xamânica que caracteriza a música da banda.

Este foi também o ano em que praticamente abdiquei dos concertos realizados no palco principal. As excepções dignas de registo foram The Flaming Lips e os regressados Pulp, e ambas corresponderam a semi-desilusões. Os americanos porque apenas a espaços conseguem extrair o lado celebratório da sua música, perdendo uma boa parte do tempo com considerações de uma freakalhice balofa, e os britânicos, mais competentes, contudo, porque optaram pelo "zona de conforto" de resumir o espectáculo, basicamente, ao par de álbuns mais conhecidos. Fica também registada a performance de Jarvis Cocker, num registo que chegou a roçar o auto-caricatural. No imediato, a opção poderá fazer o delírio da turba feminina, mas pode, a médio trecho revelar-se uma armadilha. No mesmo cenário, e por breves instantes, houve ainda tempo para o aborrecimento a cargo de M. Ward, Fleet Foxes e Animal Collective. Idênticos bocejos, mas noutros cenários, foram tUnE-yArDs e Warpaint, estas últimas algo perdidas na orientação a transpor para palco, mas com a atenuante do regalo para a vista. Já os Of Montreal têm sempre novidades no esgrouviamento festivo, e revelam-se eficientes para quem estiver no mesmo comprimento de onda. Por fim, fica a impressão de que a nova faceta pop ensolarada dos Belle & Sebastian, tal como a introspecção de outros tempos, fica a ganhar em cenários mais recatados.

À semelhança das ocasiões anteriores, este foi mais um ano de triunfo dos veteranos, alguns recentemente regressados às lides para colher os louros de outras eras. Foi o caso dos Public Image Ltd. que, com uma formação composta por óptimos executantes das várias reencarnações do passado, passam em desfile um autêntico best of de forma irrepreensível. O agitador John Lydon parece estar em dia sim e, só por isso, mereceria público em maior número. Igualmente carismático, David Thomas lidera os Pere Ubu vai para trinta e muitos anos. Para o Primavera trouxe toda a causticidade das canções do primórdios, intercaladas por delirantes notas do humor mais corrosivo. E por falar um corrosão, vêm à baila os Suicide, autênticos sabotadores do estatuto pioneiro que ostentam, num espectáculo de pura violência sónica. Irreverência é o que também não falta a Glenn Branca, que aqui dirige um ensemble de jovens músicos. À formalidade do registo opõem-se as fustigadelas de ruído e a postura negligente do "maestro". Regressando à normalidade, falemos dos Echo & The Bunnymen que, apesar de notoriamente envelhecidos e com algum desmazelo que seria impensável nos idos de oitentas, redimensionam a grandiosidade das canções com a experiência adquirida. Will Sargeant revela-se um guitarrista inventivo e pouco dado à previsibilidade, enquanto Ian McCulloch ainda ostenta um vozeirão que os inúmeros cigarros consumidos não conseguem arruinar. Igualmente imponentes, os Mercury Rev são daqueles raros casos em que o excesso de pompa fica bem. Para a ocasião trazem a magnitude de Deserter's Songs, o que arrebata o público para um dos momentos mágicos do festival. No final, era visível o êxtase em ambas as partes, banda e audiência. O outro número de enfeitiçamento ficou a cargo de Dean Wareham, que não traz os Galaxie 500 mas traz as canções sépia daqueles, agora engrandecidas no lado performativo, mas igualmente reservadas no sentimento. Perante os constantes arrepios, a imponência da figura da companheira Britta Phillips é apenas pormenor de somenos importância. Vindos de um viveiro indie limítrofe, os Half Japanese aparecem apostados em quebrar regras, sobretudo o neurótico Jad Fair que faz prevalecer a pureza sincera das canções sobre qualquer rigor técnico. Quanto aos, Low enveredam desta feita por realçar o poder contemplativo da sua música. A opção por um volume mais baixo pode não propiciar as explosões de tensão a que nos habituaram. Contudo, o espectáculo fica francamente a ganhar em intimismo enegrecido.

Nas curiosidades indie, os resultados foram variáveis. Os Yuck, por exemplo, destilam na perfeição a energia juvenil que emana do seu superlativo disco de estreia. Fica, contudo, a sensação que ficariam a ganhar com o aparato sonoro de um horário mais tardio. Mais compenetrados, e sobejamente mais experimentados, os Monochrome Set trazem um punhado de canções carregadas de literacia. Tal como os BMX Bandits, donos de um cancioneiro recheado de pequenas pérolas do mais inocente romantismo. Nestes, a presença de Duglas T. Stewart, e das suas tiradas de humor positivo (o negativo do citado David Thomas, se quiserem) quase ofusca a trupe que o acompanha. Ainda com algum caminho a percorrer, os My Teenage Stride exibem já um considerável conhecimento da essência pop que presidiu à obra de gente como Orange Juice ou The Smiths. Idêntico "estudo" tem marcado a carreira dos Comet Gain. Porém, neste caso apenas os temas mais ritmados, ou com refrões mais orelhudos, conseguem descolar da mediania pela qual se pauta o concerto. Uns bons furos abaixo, os canadianos Suuns, donos de um debute com muitos pontos de interesse, são em palco uma das bandas mais amorfas que me passaram pela frente. Dos Mogwai não se espera algo mais do que rigor e empenho, e desta feita não desiludiram quem já se habituou aos seus emaranhados de proporções épicas. Já começam a escassear os elogios que faça justiça aos Deerhunter, tal a quantidade de novos truques que a banda ostenta a cada novo disco e/ou prestação ao vivo. Embora referencial, a sua pop, perdida entre o fuzzy e sonhador, é destilada com tal paixão que são já caso único entre as bandas nascidas neste século.

No capítulo das "bizarrias e outros delírios", o triunfo incontestado vai para os Gang Gang Dance, aposta pessoal para uma iminente subida de divisão. Para o Primavera traziam disco novo, e revelaram-se verdadeiramente hipnóticos na abordagem a uma espécie de música de dança liquifeita e recheada de elementos étnicos. A turba de curiosos, já em número considerável, poderá vir a crescer a breve trecho. Menos imediatos, mas igualmente delirantes, os Emeralds apontam essencialmente ao escapismo intuitivo. Outrora mais impenetrável, a sua música começa a estender tapetes sonoros propiciadores de ambientes convidativos à introspecção. Sem termo de comparação com o passado recente, arrisco afirmar que os Battles pouco ficam a perder com o abandono de Tyondai Braxton. Reduzidos a trio, balanceiam nas doses adequadas uma música que tem tanto de cerebral como de rítmica. 

Aos concertos resumidos, acrescentem-se ainda Caribou, que destilou eficazmente o pendor mais prático e dançante do último registo, e Moon Duo que, à hipnose das mantras de psicadelia, acrescentam a vistosa presença da teclista.

Por fim, uma palavra para as sessões gira-disquistas, no meu caso reduzidas às prestações de Girl Talk e do inevitável DJ Coco. O primeiro, dono de um curioso coglomerado de samples facilmente reconhecíveis, surpreende ao vivo pela facilidade com que combina estilhaços de hits das mais variadas proveniências. Acima de tudo, é lúdico. A jogar em casa, o último traz uma série de escolhas que, embora previsíveis para os habitués, revelam-se de primeira água para o folião mais exigente. Pena foi que, por motivos inexplicados, a festa tivesse sido abruptamente encurtada na sua duração.

Foto: Shannon McClean / Pitchfork Media

TOP 12

01. Dean Wareham plays Galaxie 50
02. Glenn Branca Ensemble
03. Mercury Rev performing Deserter's Songs
04. Deerhunter
05. Low
06. Public Image Ltd.
07. Pere Ubu plays "The Annotated Modern Dance"
08.BMX Bandits
09. Suicide performing First LP
10. Gang Gang Dance
11. Echo & The Bunnymen performing Crocodiles & Heaven Up Here
12. The Black Angels (@ Apolo)

terça-feira, 24 de maio de 2011

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ao vivo #59
















Foto: Juan Perez-Fajardo

San Miguel Primavera Club 2010 - Madrid, 24-28/11/2010

Pelo segundo ano consecutivo decidi-me a rumar ao frio da capital espanhola para assistir in loco a mais uma edição do Primavera Club, espécie de montra promocional ao festival que em finais de Maio costuma ter lugar em Barcelona. Relativamente ao ano transacto, constato um considerável aumento de público, ao qual não será alheia a crescente difusão da marca "Primavera". Contudo, sou mais levado a pensar que a principal razão para tal se prenda com o empenho da organização em oferecer um cartaz mais apelativo, tanto em quantidade quanto em qualidade. Pela parte que me toca, vislumbro na suculenta oferta pelo menos três das chamadas lendas indie. Duas delas eram mesmo sonhos adiados, a outra era um reencontro desejado. Refira-se que, em qualquer dos casos, as expectativas foram largamente. Ainda a favor da organização tenho a acrescentar o cuidado posto no ordenamento dos concertos, evitando indesejáveis sobreposições para a várias "tribos" presentes. No caso pessoal, aquilo que ficou por ver (Twin Sister, Wild Nothing, John Grant) deveu-se simplesmente a uma súbita mudança no plano inicialmente traçado. Em seguida, e em estilo telegráfico, a resenha possível. Para o final, guardo o top 10 dos melhores concertos.

» Ganglians  Pop solarenga corrompida por alguma rugosidade. As melodias surf espreitam a cada trecho. Alguma verdura atira a coisa para um nível inferior ao dos interessantes resultados em disco. 
» Lou Barlow  Solitário e em regime acústico, como já é habitual sempre que se apresenta em nome próprio. É neste formato que estas canções de remorso e dor-de-corno (sacadas às várias experiências de carreira) ganham outra dimensão, com maior ênfase nas palavras. Esgotado o set programado, por entre tiradas de alguma mordacidade, abre a secção discos-pedidos, outro dos seus hábitos.
» Wavves  Quem os viu em postura anárquica (acriançada, dirão alguns) não os reconheceria. Sem deixar de lado alguma subversão, destilam o surf-punk do último disco a um ritmo alucinante. 
» Eat Skull  Das cinzas dos Hospitals nasce um colectivo apostado na absurdite lo-fi que lembra os Pavement. Aqui e ali espreitam um ou outro devaneio sónico. A embriaguez é notória. Com arremesso de cadeira e queda aparatosa incluídas. Título de "freakalhice" do festival. 
» Zola Jesus  O vampirismo oitentista que nos massacra com o insuportável toque de telemóvel do D'Artacão é o mesmo que traz de volta a fantochada dark-wave. Já estão fartos da Fever Ray? Então, nos próximos seis meses, saciem-se com a Nika Roza Danilova, uma miúda que ainda confunde o espelho do quarto lá de casa com o palco. Consta que não gosta das comparações com Siouxsie. Consta... 
» Josephine Foster & The Victor Herrero Band  Ainda que por breves instantes, sabe bem descobrir uma faceta desconhecida da música tradicional de Espanha. Melhor ainda, sabe a voz de fada da mutante Josephine. 
» Holy Fuck  NEU! e resquícios de drum'n'bass em embalagem acetinada. Um ou outro apontamento da música de dança dos primórdios, já completamente assimilado. Resulta a algo aparentado de Fuck Buttons (frente-a-frente incluído), mas suprido de qualquer risco. A previsibilidade cativa as massas. 
» Frankie Rose & The Outs  Ligeiramente nervosas no primeiro concerto, transpiram confiança (e provocação) no segundo. É neste que melhor discorre o encontro da pop de sonho com a ruideira adocicada, tudo coadjuvado pelos assomos de surf-music
» Tweak Bird  São dois, são irmãos, são jovens, mas devem ter uma colecção recheada de discos antigos. O fantasma de Hendrix paira no ar. Revisitam-se os Blue Cheer. Stoner-rock vitaminado a arrecadar o título "transpiração". 
» Mount Kimbie  Batidas gélidas. Texturas austeras. Dupla britânica a operar na fronteira avançada do dubstep, ou The xx mudos e em câmara lenta. Ganham em hipnotismo o que perdem em imediatismo. 
» Edwyn Collins  É penoso verificar as sequelas do infortúnio. Mas é gratificante saber que os grandes resistem e contornam a morte. O resto é POP com maiúsculas, da carreira a solo e dos lendários Orange Juice. A banda é formada por velhas raposas que sabem honrar o protagonista deste festim de bom-gosto. Por breves instantes, o jovem Edwyn, o da "franja à Roger McGuinn", toma a palco na pessoa do filho. Para arquivar nas "memórias de uma vida". 
» Teenage Fanclub  O último álbum dá o mote mas não impede que pelo palco desfilem duas mãos cheias de clássicos de uma das mais relevantes bandas da última vintena de anos. Para a perfeição só faltou esse pedaço de inanidade chamado "What You Do To Me". Ao longo de cerca de hora e meia, os refrões entoam-se em uníssono. Durante a contenda, reina uma espécie de espírito de comunhão entre banda e extensa turba. O ar de satisfação que assinala aqueles momentos únicos é patente no rosto de todos. 
» Triángulo de Amor Bizarro  Electro-rock galego (obviamente) filiado na escola New Order? É altura de relaxar no hall do Círculo de Bellas Artes. Ao fundo, adivinham-se hipsters em delírio. 
» Jaill  Desilusão do festival a cargo de uma banda incapaz de transpor para palco a frescura saltitante que exibe em disco. Os temas soam indistintos e instala-se algum enfado. Só perto do final, no efusivo "The Stroller", a banda parece reagir e provocar algum frenesim. 
» Male Bonding  A fechar o pódio britânico em festival predominantemente ianque, um trio amigo do pop-punk desempoeirado, ruidoso, e inconformista. Os petardos, impregnados de feedback, são disparados a um ritmo que não permite concessões. Concerto curto e directo, sem espaço para conversa de circunstância, mas tremendamente eficaz. 
» Beach Fossils  Premissas semelhantes às dos Ganglians, mas com um pendor de ortodoxia pop mais acentuado. Neste caso, "a verdura" deve ser entendida como "frescura juvenil". Tenham a sorte de figurar no alinhamento de "compilação da moda" e ainda poderão ser motivo de micro-fenómeno do género The Drums. 
» Screaming Females  Palmo-e-meio de mulher, rosto de menina, um vozeirão de outro mundo, e riffs que qualquer guitar-hero macho não desdenharia. É assim a vocalista deste trio de New Jersey, fruto de uma possível experiência com os genes de Hendrix, de PJ Harvey em modo rocker, e de Jon Spencer. Perante tal personagem, os dois matulões que a acompanham cumprem papel de meros figurantes.

TOP TEN

  1. TEENAGE FANCLUB
  2. EDWYN COLLINS
  3. MALE BONDING
  4. LOU BARLOW
  5. FRANKIE ROSE & THE OUTS [@ Nasti, 27/11]
  6. BEACH FOSSILS
  7. JOSEPHINE FOSTER & THE VICTOR HERRERO BAND
  8. WAVVES
  9. MOUNT KIMBIE
  10. EAT SKULL

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Primavera en el Otoño















Em Madrid, de quarta a domingo com...

Beach Fossils » DJ Coco » Eat Skull » Edwyn Collins » Frankie Rose & The Outs » Ganglians » Holy Fuck » Jaill » The Jim Jones Revue » John Grant » Josephine Foster & The Victor Herrero Band » Lou Barlow » Male Bonding » Tamaryn » Teenage Fanclub » Twin Sister » Wavves » Wild Nothing » Zola Jesus » e mais uns quantos...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ao vivo #54
















Foto: Pitchfork Media

San Miguel Primavera Sound 2010 @ Parc del Fòrum - Barcelona, 27 a 29/05/2010

Cada regresso do Primavera é marcado por um misto de cansaço e tristeza. Desta vez, à tristeza inerente ao fim da longa maratona anual junta-se a tristeza de não ter aguentado o concerto dos mui venerados Built to Spill durante mais que três temas - o constante charlar de nuestros hermanos e os incontáveis encontrões derivados do incessante vai-vem de gente não combinam com a intensidade da música de Doug Martsch e C.ª. Ainda como nota negativa, registe-se o som "embrulhado" comum a muitos concertos, com especial incidência no palco Pitchfork. Que o digam os Antlers, que se ficaram pelo óptimo, quando, noutras condições, teriam sido memoráveis. Relativamente à edição anterior, o PS2010 ganhou em público aquilo que perdeu em surpresas provocadas por bandas novas. À falta de grandes revelações, o "meu" Primavera caracterizou-se por um longo exercício de saudosismo - espectáculo com bailarinos e mudanças de cenário incluído -, o que me leva a pensar que estou a ficar velho. A reforçar esta tese, atente-se no Top 12 abaixo, elaborado já "a frio" e deixando de fora os concertos a que assisti apenas "de relance".

  1. PAVEMENT
  2. JAPANDROIDS
  3. THE CHARLATANS performing Some Friendly
  4. TITUS ANDRONICUS
  5. SUPERCHUNK
  6. MICHAEL ROTHER & FRIENDS present Neu! Music
  7. REAL ESTATE
  8. THE ANTLERS
  9. PIXIES
  10. WIRE
  11. PET SHOP BOYS
  12. DUM DUM GIRLS (@ Parc Joan Miró, 30/05/2010)

Bom: Surfer Blood; BEAK>; Shellac; Liquid Liquid; The Clean; Pixies; Best Coast; Apse; Built to Spill; The Fall; Les Savy Fav

Suficiente: Bis; Fuck Buttons; Harlem; The Slits; HEALTH; The xx

Medíocre: Broken Social Scene; The New Pornographers; Condo Fucks

Abaixo de cão: The Bloody Betroots Death Crew 77; Marc Almond; Sic Alps

quarta-feira, 26 de maio de 2010

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Me voy a Madrid!


Mini-férias na capital espanhola com:














A Place To Bury Strangers . Beach House . The Black Heart Procession . Cass McCombs . Cymbals Eat Guitars . David Holmes . Devendra Banhart . HEALTH . Jeffrey Lewis & The Junkyard . Kid Congo & The Pink Monkey Birds . Kurt Vile & The Violators . Marissa Nadler . The Pastels . Port O'Brien . School Of Seven Bells . Scout Niblett . The Soundtrack Of Our Lives . Sr. Chinarro . Ted Leo & The Pharmacists . Woods . e mais uns quantos!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ao vivo #40















Foto: Álvaro C. Pereira / Blitz

Festival Paredes de Coura 2009, 29 Jul-01 Ago

Férias grandes dignas desse nome já não passam sem a habitual peregrinação a Paredes de Coura (PdC), pequena vila minhota onde anualmente tem lugar o único festival nacional em que a música é protagonista. Na corrente edição, e apesar de algumas cedências a modas passageiras, o cartaz faz-nos crer ter havido uma tomada de consciência por parte da organização do papel que PdC representa no universo festivaleiro portuga. Nas linhas que se seguem tecem-se breves considerações sobre o melhor, o pior, e o assim-assim deste PdC '09. No final, o top five dos concertos.

Dia 29

Para abrir em beleza o "dia de aquecimento" o colectivo coimbrão Sean Riley & The Slowriders prova que, em território nacional, não tem concorrência à altura no domínio das sonoridades americana (Raindogs?! Quem?!). Além disso, o vocalista tem uma pronúncia da língua inglesa que não envregonha.
Vindos dos states, os Strange Boys são quatro rapazolas filiados na actual fornada de bandas garage rock. Uma aproximação ao palco permite aferir da tenra idade do quarteto, mas também da destreza com que cruzam influências que vão dos históricos Royal Trux aos actuais Black Lips. Uma agradável surpresa.
Principal atracção do dia, Patrick Wolf é um daqueles músicos dirigidos a um nicho específico que, tradicionalemente, dá especial atenção aos cuidados postos na imagem. Com uma indumentária carnavalesca e tiques alegadamente provocadores, foi protagonista do primeiro número circense do festival. Tecnicamente, esperava algo mais do que uma mescla de ritmos dançáveis com sons de violinos que não andam longe de um qualquer sinal de chamada em espera. Pelo meio, e numa tentativa de exibir algum ecletismo, teve o "atrevimento" de interpretar um excerto de Kate Bush (de repente tornou-se a musa de meio mundo... ) e outro de "Gigantic", dos Pixies. Houve quem gostasse...
Para abanar os corpos resistentes, estava reservado o set da dupla Bons Rapazes, autores do programa com o mesmo nome na Antena 3. Ou melhor, estava reservado o DJset de remisturas a cargo de Miguel Quintão, já que Álvaro Costa se limitou a servir de mestre de cerimónias do radialista renega a música que recomendava há meia dúzia de anos, e que conta com uma vasta horda de seguidores/imitadores. E é assim, mesus amigos, que se arruína um estatuto construído pelos excelentes serviços prestados ao longo de décadas... Risível, surreal, e triste...

Dia 30

E esta, hein?! Uma banda australiana que não faz música de carrosel! Num primeiro instante, The Temper Trap surpreendem com a sua pop melódica e delicodoce com alguns laivos de soul, cortesia de um jovem vocalista claramente dotado. Mais à frente, descambam para um desinteressante aparentado dos Bloc Party. O futuro confirmará (ou não) alguns dos excelentes apontamentos deixados.
Coqueluche do meio indie no corrente ano, os Pains of Being Pure at Heart parecem acusar algum nervosismo num concerto algo desinspirado e, por isso, incapaz de causar chispa. Apesar de se apresentarem com uma formação alargada a quinteto, pareceram pequenos demais na imensidão do palco.
Se há dois meses, em Barcelona, os The Horrors denotavam ainda alguma verdura na transposição para palco desta nova faceta, PdC presenciou o à-vontade com que a banda executa os novos temas, claramente influenciados pelas tendências mais negras e atmosféricas da new wave. Num espectáculo denso e intenso, não faltaram algumas saudadas viagens a um passado recente, como o electrizante "Count In Fives".
Sem espalhafato, os Supergrass mostram o porquê de serem dos poucos sobreviventes da vaga britpop que, parecendo que não, surgiu há já 15 anos. Talvez por isso, pareceu-me haver algum desconhecimento dos temas por parte do público mais jovem. Sem pompa, mas com extrema competência, desfilam hinos como "Moving", "Grace", "Pumping On Your Stereo", "St. Petersburg", "Richard III", ou "Caught By The Fuzz", todos eles com lugar reservado no Grande Livro da Pop Britânica. Faltou "Alright", hit maior do qual, desconfio, Gaz Combes & C.ª tentam demarcar-se. Em compensação, os breves instantes de "Sunday Morning" tiveram tanto de inesperado como de mágico. No final, ficou a promessa de um regresso. Que seja para breve...
Estrelas da noite e, quiçá, de todo o festival, os Franz Ferdinand tinham, à partida, a imensa massa humana na mão. Sem surpresas, as reacções de euforia extremada surgiram desde o instante que pisaram o palco. Na primeira meia hora, há que admiti-lo, os escoceses foram demolidores. Foi precisamente neste período que deram especial destaque ao primeiro disco, sem qualquer risco de errar, a obra definitiva do quarteto. A partir daí, a mediania (para não dizer mediocridade) dos novos temas, os evidentes tiques de estrela, e a infindável sucessão de la-la-las, tornam penoso um concerto que se deveria ter ficado por uma duração mais de acordo com os parâmetros festivaleiros.
No palco secundário, a reciclagem do synth-pop descartável ficou a cargo dos Chew Lips, um trio em que pontifica uma menina de carinha laroca e tenra idade. Para o ano, outros ocuparão este lugar.
Em formato DJing, os Holy Ghost! encerram a noite dando continuidade à receita de sons sintetizados para os quais há cada vez menos paciência.

Dia 31

Admitamos que os Bauhaus tenham sido uma banda efectivamente relevante. Mesmo perante este cenário hipotético torna-se incompreensível o número de sósias de Peter Murphy que este pequeno rectângulo continua a gerar, e que tem no vocalista dos Mundo Cão um dos mais recentes exemplos. Levadas a sério, as letras pretensiosas e desprovidas de métrica, da autoria de Adolfo Luxúria Canibal levam-nos a crer que o rapaz (também é actor, dizem-me) é bem capaz de sucumbir a uma overdose de tesão a qualquer momento...
Uma guitarra, uma bateria, dois elementos apenas. Com um indie rock musculado os Blood Red Shoes mostram-se gigantes naquele palco enorme. O público, embora desconhecedor, parece ter gostado.
Há falta dos Mars Volta, a pompa prog foi assegurada pelos americanos Portugal The Man (que raio de nome!). Demasiado aborrecido para merecer quaisquer outras considerações.
Revelada como nome a seguir nas franjas do hip hop, Peaches não é hoje mais que uma figura cartoonesca que deverá ser vista como tal. Por conseguinte, o concerto não é mais que um circo camp de deboche gratuito no qual têm lugar todos os clichés do mau gosto. Para grande surpresa minha, é dela um hit com presença habitual nas pistas de dança da moda.
Embora seja hoje um rebelde no meio discográfico, editando música de forma independente pelos canais abertos pelas novas tecnologias, Trent Reznor tem plena consciência que o pedaço de história reservado aos Nine Inch Nails é assegurado por dois registos editados no período em que era um "servo" da indústria: Pretty Hate Machine (1989) e, sobretudo, The Downward Spiral (1994). Não surpreende então que estes dois discos mereçam especial destaque no concerto de PdC, onde o negro da indumentária de banda e público contrastam com o verde do meio envolvente. Extremamente competentes e profissionais, os NIN foram capazes de despertar em mim um sentimento de saudável saudosismo, ainda que não veja muito sentido num senhor que é hoje rico, sóbrio e feliz (e eu fico feliz por ele) a berrar tiradas do género "too fucked-up to care anymore". O final, ao som do esperado "Hurt", foi deveras tocante.
Logo em seguida, no palco secundário, o momento-Crystal-Castles do ano, com descargas electrónicas básicas e menina berradeira, fica assegurado por uns tais de Kap Bambino.
Do set de fim de noite a cargo dos Punks Jump Up pouco ou nada lembro, o que me leva a crer que não terá diferido sobremaneira dos antecessores. O que, como se sabe, de punk pouco ou nada tem...

Dia 1

Manel Cruz é o melhor letrista português da última década e meia, ponto. E é também um compositor multifacetado, capaz de recorrer a ferramentas pouco tradicionais, como é o caso nestes Foge Foge Bandido, projecto que se socorre de uma parafernália de instrumentos para construir canções de cariz intimista extremamente envolventes. Fica, porém, a sensação de que as canções seriam mais eficazes no recato de uma pequena sala.
Com o quantidade de boas bandas que há no país vizinho, e logo tínhamos de ser brindados com a presença destes The Right Ons (não falta ali um e?)... Quando forem grandes, estes rapazes hão-de ser os Rolling Stones, nem que, para isso, tenham de snifar as cinzas dos pais. Por ora, não passam de uma cópia pálida dos Black Crowes ou dos Spin Doctors, o que, no fundo, vai dar ao mesmo.
Com os Howling Bells é chegada a hora da elegância, tanto pela presença da belíssima Juanita Stein, como pela filigrana das melodias exemplarmente interpretadas. Com um alinhamento democraticamente repartido pelos dois álbuns de originais, parecem ter conquistado novos adeptos numa plateia maioritariamente desconhecedora da sua obra.
Na esperança vã de escutar algum tema da banda que o tornou célebre, é numerosa a plateia para assistir ao concerto de Jarvis Cocker, o que contrasta com a indiferença com que foram recebidos os dois discos editados a solo. Pouco intimidado com a responsabilidade, o ex-Pulp sabe ao que vem: canções maduras recheadas de conselhos aos mais incautos, intercaladas com momentos de puro improviso nonsense. É desta massa que se fazem os melhores performers!
Quando nos cruzamos pela terceira vez com os The Hives, é natural que algumas das piadas do vocalista comecem já a acusar algum desgaste. No que respeita à música, os suecos continuam a debitar uma descarga de rock'n'roll retrógrado, com muita energia e poucos neurónios.
Devido à proximidade geográfica, os portuenses Sizo contaram com uma vasta falange de apoio no palco secundário. Em certos momentos, poderiam ser a encarnação rockeira dos X-Wife, noutros têm o nervo dos Girls Against Boys. Porém, a placidez das canções não justificava os quase sessenta minutos de duração do concerto.
As honras de encerramento do PdC '09 couberam ao actor Nuno Lopes, aqui na sua faceta deejay. Iniciou o set com os previsíveis MGMT e prosseguiu com sonoridades similares. É nestas alturas que me vem à memória a expressão tantas vezes usada pelo meu professor de Inglês no secundário: "Sapateiro, não passes da chinela.".

O Top 5

  1. JARVIS COCKER
  2. SUPERGRASS
  3. THE HORRORS
  4. NINE INCH NAILS
  5. HOWLING BELLS