"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quarta-feira, 7 de março de 2012

Selo de Qualidade #4















POSTCARD RECORDS OF SCOTLAND
Glasgow, Escócia [UK], 1979-1981; 1992-1995

Na vastidão do universo pop, e numa visão mais apaixonada que mercantilista, a importância de algo, seja uma banda, seja uma editora, não deverá ser medida pelos sucessos alcançados, mas sim pela herança que deixa para o futuro e que se reflecte na música que lhe sucede. Tomemos como exemplo a Postcard Records, nascida da mente de Alan Horne, um melómano a tempo inteiro mas um gestor de fraca qualidade, que nos pouco mais de dois anos de intensa actividade (se nos restringirmos à primeira vida, a que importa reter) ajudou a estabelecer as bases daquilo que é (ou já foi?) conhecido como indie-pop e inspirou a fundação de outras editoras significativas, como a Creation ou a Sarah. Para tal não foi necessário mais que uma dúzia de singles certeiros e um álbum, este, para que conste, lançado a contragosto da banda com o nome impresso na capa.

Sob o mote The Sound of Young Scotland, numa clara alusão à fábrica de hits da Motown, Horne tinha como meta o sucesso das novas bandas pop da Escócia natal, todas elas com reverência pelo passado e semi-indiferentes às movimentações post-punk que ocorriam mais a sul. Como bom escocês, claro está, gostava de afrontar Londres. Em Edwyn Collins, mentor dos Orange Juice encontrou uma alma gémea, e na sua banda, com igual obsessão pela soul e pelo funk como pelos Velvet Underground e pelos Byrds, o cartão de visita da editora. Nos meses que se seguiriam, até à bancarrota que implicou uma morte prematura, a Postcard lançaria quase tantos registos dos Orange Juice como de todas as outras bandas juntas. Uma dessas bandas foram os australianos The Go-Betweens que, antes de tentarem a sorte em Londres, assentaram arraiais em Glasgow. A ligação foi breve e não rendeu mais que um single, este assente numa estética jangle distante da pop agridoce imaculada da fase dourada da banda. Fora de Glasgow, Horne também a rede aos Josef K, banda de Edimburgo substancialmente mais cinzenta que os coloridos Orange Juice e com um forte cunho literário na sua jangle pop instrospectiva. Pertencer-lhes-ia o único álbum desta primeira vida da Postcard, ainda assim editado contra a vontade da banda insatisfeita com resultado. Este facto, somado da má gestão do sonhador Horne, e da partida dos Orange Juice para uma multinacional, precipitaria um fim que, nas palavras dos protagonistas, sempre esteve eminente. Pelo caminho, houve ainda tempo para a descoberta do talento adolescente Roddy Frame, tal como Edwyn Collins com uma fixação obsessiva pelos sons west-coast de sessentas. À frente dos Aztec Camera, Frmae daria à editora o par de singles mais bem acabados sob um ponto de vista audiófilo.

No início da década de 1990, e com alguns diferendos aparentemente sanados, Alan Horne reactivou a Postcard. O propósito motivador desta ressurreição foi o lançamento da carreira de Paul Quinn, uma espécie de crooner que, no passado, tinha cedido a sua voz singular a coros de canções dos Orange Juice. Em seu redor reuniu o The Independent Group, composto na totalidade por músicos com passado ligado à Postcard. Esta iniciativa renderia um par de álbuns, o último dos quais - Will I Ever Be Inside Of You - um dos tesouros perdidos de noventas e autêntico objecto de culto em círculos restritos. Antes de desaparecer novamente do mapa, sem contudo oficializar um fim definitivo, Horne não perderia o ensejo de lançar um dos álbuns de The Nectarine No. 9, projecto de Davey Henderson, antigo líder dos Fire Engines que, curiosamente tinham sido um desejo gorado de Horne na "primeira" Postcard, algo que ficou a dever-se ao curto período de actividade tanto da banda como da editora.

10 DISCOS ESSENCIAIS (8 singles + 2 álbuns)
  • ORANGE JUICE _ Falling And Laughing [1980]
  • ORANGE JUICE _ Blue Boy [1980]
  • THE GO-BETWEENS _ I Need Two Heads [1980]
  • JOSEF K _ It's Kinda Funny [1980]
  • ORANGE JUICE _ Simply Thrilled Honey [1980]
  • AZTEC CAMERA _ Just Like Gold [1981]
  • JOSEF K _ Sorry For Laughing [1981]
  • JOSEF K _ Only Fun In Town  (álbum) [1981]
  • AZTEC CAMERA _ Mattress Of Wire [1981]
  • PAUL QUINN & THE INDEPENDENT GROUP _ Will I Ever Be Inside Of You (álbum) [1994]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Selo de Qualidade #3












SARAH RECORDS
Bristol, Inglaterra [UK], 1987-1995

Fundada por Clare Wadd e Matt Haynes, a Sarah Records ficará para sempre conotada com essa expressão da inocência à qual convencionou chamar-se twee-pop. O último tinha já algum currículo como editor da fanzine Are Scared To Get Happy?, uma das muitas fundamentais para a emergência indie do Reino Unido de meados de oitentas, coroada na C86, a já mítica cassete oferecida pelo New Musical Express. Um pouco à semelhança da já estabelecida Creation Records, o objectivo da Sarah era recuperar e celebrar o espírito pop de sessentas, privilegiando o single em detrimento do álbum, formato que, na opinião destes puristas, matou esse mesmo espírito. A grande diferença no trajecto das duas editoras reside precisamente na maior resistência da Sarah à tentação de editar álbuns.

Numa primeira fase, a história faz-se essencialmente de edições frequentes de três bandas: The Sea Urchins (que figuraram na citada C86), Another Sunny Day (banda especialmente indicada a quem acha The Smiths demasiado mainstream), e os escoceses The Orchids. Neste período, a "aves raras" do catálogo eram os 14 Iced Bears, já com edições noutros selos e a ensaiar timidamente a rendição ao psicadelismo, e The Springfields, banda que serviu de embrião aos power-poppers Velvet Crush e que provinha dos Estados Unidos. Com um apoio firme da rádio e da imprensa especializadas, e promovendo festas vespertinas especialmente dirigidas à "tribo dos anoraques", rapidamente a Sarah se tornou a editora de eleição para um largo número de jovens que não se reviam nos tiques sexistas normalmente associados à música que povoava as tabelas de vendas.

Depois da afirmação, o período dourado, aquele que fica marcado pelas duas grandes "vedetas" do catálogo, às quais pertence uma boa parte dos escassos álbuns editados pela Sarah - The Field Mice e Heavenly. Os primeiros são, eventualmente, a banda com uma sonoridade mais elaborada na história da editora e foram fortemente divulgados pelo influente John Peel, enquanto os últimos integravam Amelia Fletcher, antiga líder dos seminais Talulah Gosh e uma espécie de heroína na nação twee. Nesta fase convém também destacar os escoceses The Wake, banda já com um largo historial que, no início, integrou um Bobby Gillespie pré-Mary Chain e pré-Primal Scream.

Na década de 1990, com a música de guitarras a seguir outras tendências (shoegaze, grunge, lo-fi), a Sarah conheceu a perda de protagonismo e o consequente declínio. À parte a prossecução da carreira dos Heavenly, com edições regulares, neste período merecem destaque os Boyracer, relativamente mais enérgicos que o restante catálogo, os norte-americanos Aberdeen, e os deliciosos Blueboy, banda cujo nome remete inevitavelmente para os Orange Juice, outra das fontes de inspiração predilectas da brigada twee.

O fim premeditado ficou assinalado pela edição da compilação retrospectiva There And Back Again Lane (o nome de uma rua em Bristol), justamente o centésimo lançamento com selo da Sarah. Nos dias que correm, o saudosismo e o espírito da Sarah são perpetuados por um extenso rol de editoras. Entre elas, destaque para a norte-americana Slumberland Records, responsável, juntamente com a incontornável Cherry Red, por um bom número de reedições do catálogo da seminal Sarah.


12 SINGLES ESSENCIAIS


  • The Sea Urchins _ Pristine Christine [1987]
  • Another Sunny Day _ Anorak City [1988]
  • 14 Iced Bears _ Come Get Me [1988]
  • The Springfields _ Sunflower [1988]
  • Another Sunny Day _ I'm In Love With A Girl Who Doesn't Know I Exist [1988]
  • The Field Mice _ Emma's House [1988]
  • The Wake _ Crush The Flowers [1989]
  • The Field Mice _ Sensitive [1989]
  • The Orchids _ What Will We Do Next? [1989]
  • Heavenly _ I Fell In Love Last Night [1990]
  • Blueboy _ Popkiss [1992]
  • Heavenly _ P.U.N.K. Girl [1995]


domingo, 13 de março de 2011

Selo de Qualidade #2














TOO PURE RECORDS
Londres, Inglaterra [UK], 1990-2008

Aquando da criação da Too Pure Records, precisamente na alvorada de noventas, os fundadores Paul Cox e Richard Roberts tinham como propósito o apoio à facção mais experimental do indie-rock britânico, universo então dividido pelo domínio das linguagens dançantes da Madchester e os sons etéreos do shoegaze. O remar contra as tendências instituídas haveria, de resto, acabar por ser a política omnipresente ao longo dos 18 anos de vida conturbada da editora londrina.

Ainda antes das primeiras edições discográficas, o manifesto de intenções foi tornado público nas noites de concertos multi-bandas designada Sausage Machine, posteriormente documentadas nos dois volumes da compilação Now That's Disgusting Music. Com as primeiras contratações, a Too Pure viu-se conotada na imprensa com a chamada Camden Lurch Scene, uma corrente artificial baseada na origem geográfica da maioria dos projectos. Desse primeiro lote de bandas, eventualmente o mais emblemático de todo o catálogo, faziam parte Stereolab, Th' Faith Healers e Moonshake, todos elas com manifesta influência kraut-rock, mas também PJ Harvey, na altura nome de power-trio que rivalizava com a crueza rock ruidosa que na altura vinha do outro lado do Atlântico. O apreço do tutelar John Peel pelo roster inicial da Too Pure foi imediato, ao ponto de o radialista promover sessões com a totalidade do quarteto de bandas ainda numa fase imberbe.

A seguir à euforia inicial, a Too Pure marcou novamente pontos com a edição dos Seefeel, banda responsável pelo cruzamento do shoegaze experimental de uns My Bloody Valentine com a electrónica vanguardista. A britpop estava eminente, e com ela avizinhavam-se tempos difíceis para todas as pequenas editoras não alinhadas com aquele movimento. Contudo, se as vendas caíram a pique, em termos meramente artísticos a Too Pure deu a volta por cima com a "descoberta" da incatalogável feitiçaria pop dos Pram, a dream-pop de cariz electrónico dos Laika, os abstraccionismos digitais dos germânicos Mouse on Mars, e a irrepreensível escrita de canções dos Hefner e dos Jack. Com o cenário da música independente transfigurado, e coincidindo com o abandono da dupla fundadora, em 1998, a Too Pure viu-se integrada no Beggars Group, então já um coglemerado com uma boa fatia na distribuição na música de filiação indie.

Após um período de escassa actividade, os primeiros anos do novo século trouxeram um novo fôlego. Primeiro com o post-hardcore jocoso dos galeses Mclusky, depois com o post-rock de inflexão kraut das Electrelane e o sadcore descarnado de Scout Niblett. Esta última parelha é representativa de uma certa tendência da Too Pure, na sua última fase, para as expressões rock no feminino, denunciada também pelas edições europeias das canadianas The Organ e do trio norte-americano The Rogers Sisters.

Inexplicavelmente, ou talvez derivado da conjunta económica, em 2008, a administração do grupo editorial decidiu encerrar a editora, transferindo as bandas ainda no activo para o selo da 4AD. De então para cá, a Too Pure tem dado excelente conta de si como mero singles club de edições esporádicas e de tiragem limitada.

10 DISCOS ESSENCIAIS
  • STEREOLAB _ Switched On (compilação) [1992]
  • TH' FAITH HEALERS _ Lido [1992]
  • PJ HARVEY _ Dry [1992]
  • MOONSHAKE _ Eva Luna [1992]
  • SEEFEEL _ Quique [1993]
  • PRAM _ Sargasso Sea [1995]
  • HEFNER _ The Fidelity Wars [1999]
  • MCLUSKY _ Do Dallas [2002]
  • ELECTRELANE _ The Power Out [2004]
  • SCOUT NIBLETT _ This Fool Can Die Now [2007]

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Selo de Qualidade #1


Nova rubrica, há muito pensada mas só agora concretizada. Com esta iniciativa pretende-se prestar tributo às editoras que desbravaram caminho, sendo habitualmente garante de qualidade para os seu público alvo. Isto no tempo em que "independência" era algo mais do que uma palavra para se usar a despropósito.











HOMESTEAD RECORDS
Long Island, Nova Iorque [US], 1983-1996

Fundada por Barry Tenenbaum ainda em pleno período de vigência pós-punk e pós-hardcore, a Homestead Records foi, inicialmente e naturalmente, poiso de alguns exemplares do rock mais abrasivo que à época se produzia nos Estados Unidos. O propósito do fundador era mesmo o de garantir alguma visibilidade a pequenas bandas, com algumas dificuldades de distribuição, bem como o licenciamento de artistas europeus em solo norte-americano. Nesta demanda contou, com a colaboração do manager Sam Berger, já com experiência ao leme da distribuidora Dutch East India Trading e com contactos no meio com vista às primeiras contratações. Entre esses neófitos contavam-se os Big Black, banda seminal nos espectro noise-rock que serviu de cartão de visita ao incontornável Steve Albini. Berger abandonaria o barco pouco depois, não sem antes sugerir a sua substituição por Gerard Cosloy, um puto de 18 anos que viria a desempenhar um papel fundamental na afirmação da Homestead como a casa por excelência do indie-rock nos E.U.A..

Ao fim de pouco tempo em funções, Cosloy, que mais tarde integraria a equipa da Matador Records com os resultados que se conhecem, assegurou o concurso dos Swans e dos Sonic Youth, bandas locais que viriam a ser determinantes nos caminhos seguidos no rock do último quarto de século. Em simultâneo, assegurou a distribuição na costa leste de bandas do outro extremo dos states, como os ainda imberbes Screaming Trees, Beat Happening ou Giant Sand. Nick Cave & The Bad Seeds, Einstürzende Neubauten, e algumas das bandas ligadas à neozelandesa Flying Nun teriam as primeiras edições americanas pela mão de Cosloy.

Porém, o auge da Homestead estava ainda iminente. Primeiro, com as contratações de Dinosaur Jr., Squirrel Bait (banda que esteve na origem dos Slint), e Volcano Suns (originários dos Mission of Burma), depois com Big Dipper, Live Skull (de Thalia Zadek), e My Dad is Dead. Embora hoje mergulhado numa certa obscuridade, este último lote foi, à época, determinante na afirmação do estatuto da editora. Daqui em diante, seria o declínio, muito por culpa da gestão danosa do controverso Tenenbaum, acusado de mau pagador por muitos dos artistas com quem se cruzou. 

Por motivos de gerência, a Homestead não soube aproveitar as oportunidades criadas pelo fenómeno Nevermind, pelo qual foi, de certa forma percursor. Para além do reconhecimento dos Sebadoh, última banda relevante no catálogo foram os Seam, caso de culto restrito mas consolidado em inícios da década de 1990. A falência em definitivo ocorreria em 1996. Porém, consta que os credores nunca conseguiram deitar mão à imensidão de discos ainda em armazém. Consta também que, ainda recentemente, esses mesmos discos estariam a ser comercializados por um vendedor misterioso na internet. As suspeitas apontam, obviamente, para que esse personagem seja o próprio Barry Tenenbaum, o trapaceiro que enganou meio mundo mas permitiu ao outro meio usufruir de  alguma da música mais entusiasmante dos últimos 25 anos.


10 DISCOS ESSENCIAIS

  • BIG BLACK _ Racer X EP (1984)
  • SONIC YOUTH _ Bad Moon Rising (1985)
  • VOLCANO SUNS _ The Bright Orange Years (1985)
  • DINOSAUR JR. _ Dinosaur (1985)
  • BIG BLACK _ Atomizer (1986)
  • SQUIRREL BAIT _ Skag Heaven (1987)
  • BIG DIPPER _ Heavens (1987)
  • LIVE SKULL _ Dusted (1987)
  • SEABADOH _ Gimme Indie Rock EP (1991)
  • SEAM _ Headsparks (1992)