"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ao vivo #117














Dirty Beaches: Landcapes In The Mist @ Teatro Maria Matos, 03/04/2014

Para além de uma óptima programação musical, o Teatro Maria Matos tem a ainda a particularidade de, não raras vezes, presentear o seu público com espectáculos exclusivos, preparados pelos artistas para a ocasião. Foi o caso de Alex Zhang Hungtai, nome de baptismo do alter ego Dirty Beaches, actualmente com residência artística na capital portuguesa e que trazia a palco um concerto alegadamente inspirado por esta nova experiência de uma vida quase nómada. O culto que granjeia por cá, somado da especificidade do espectáculo, terá contribuído para a total lotação da sala, mas cedo se percebeu que este era dia para se aplicar a expressão "a montanha pariu um rato".

Desejoso de ouvir a voz de crooner de Zhang Hungtai em estilhaços de canções enevoadas e de tons sépia, o público foi surpreendido pela total ausência de voz, numa única e longa peça para a qual contribuem também o habitual acompanhante Shub Roy (mais na guitarra, menos na electrónica) e o local André Gonçalves (sintetizadores modulares). Da tal voz nem um assomo, já que a estrela da companhia passou a quase hora e meia maioritariamente entregue ao saxofone, e a espaços também à guitarra e a alguns efeitos electrónicos. O início, para além de surpreendente, é até prometedor, com o trio naquilo que julgamos ser a introdução de algo que sugere imagens (os vários monitores de televisão ajudam) urbanas e nocturnas. Porém, este começo é o mote para toda a peça, sem grandes variações e até bastante simplista, ao ponto de motivar o abandono precoce de muitos. Não foi o meu caso, resisti até final, embora tenha de confessar que os 15 derradeiros minutos chegaram a ser penosos, antecipando mentalmente uma boa meia dúzia de vezes aquilo que julgaria ser um final adequado. Alex Zhang Hungtai e companhia não estiveram pelos ajustes, e prologaram ad nauseum o calvário de uma peça frustrada na qual a ambição não foi correspondida pela variedade de ideias.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Do amor e outros demónios

















De algo que Alex Zhang Hungtai já não se livra é das comparações aos pioneiros Suicide. Não que essa forte influência seja algo que o rapaz, nascido em Taiwan mas residente na cidade canadiana de Montreal, que grava desde há meia dúzia de anos como Dirty Beaches tente sequer desmentir. Com efeito, no brilhante Badlands (2011), são notórios os ecos do trabalho daquela dupla nova-iorquina, com a mesma obsessão por um Elvis decadente num lote de canções turvas que parecem saídas da Twin Peaks imaginada por David Lynch. No entanto, antes de o arrumar nesse espartilho redutor, é necessário ouvir o seu trabalho prévio ao disco que o projectou para um público mais vasto, substancialmente mais experimental e abstracto, bem como os registos de pequeno formato que desde então tem lançado em quantidade assinalável.

Se ainda assim não ficarem convencidos de que o rapaz tem algo mais para dar, sugiro a audição do novo Drifters/Love Is The Devil, disco duplo, mas não excessivamente longo, essencialmente gravado em Berlim, que abre muitas novas possibilidades a uma carreira que - acreditem - já experimentou diversas linguagens. Menos próximo do formato canção que o antecessor, o novo álbum exige maior paciência na sua assimilação, algo que com o tempo e correndo bem pode evoluir para autêntica devoção. Ainda assim, recorrendo mais amiúde à voz, talvez a metade intitulada Drifters seja mais imediata. É, no entanto, um lote de canções de forte densidade, uma espécie de synthpop nocturno e sufocante a tender para o industrial quando recorre à colagem de "sons de campo". Este factor, somado ao título, às várias referências a cidades, e às diferentes línguas utilizadas, sugere ser um registo de memórias de viagens. Já Love Is The Devil, quase integralmente instrumental, explora todas as potencialidades cinemáticas da música de Zhang Hungtai, ele que, registe-se, já compôs música para diversos projectos independentes. Mesmo na quase total ausência de palavras, a melancolia reinante e as múltiplas sugestões de solidão levam-nos a acreditar que esta metade seja uma catarse de algum desgosto amoroso. Não sendo o conjunto dos dois discos a mais fácil audição para quem ficou preso a Badlands, estou em crer que a já robusta falange de seguidores aqui no rectângulo luso possa alargar-se. Saibam porquê a seguir:

"Casino Lisboa" [Zoo Music, 2013]

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ao vivo #68















Dirty Beaches @ Galeria Zé dos Bois, 21/07/2011

Tal como no caso de Alan Vega, dos Suicide, Alex Zhang Hungtai, o rapaz que adoptou a denominação Dirty Beaches, tem uma obsessão com o ícone do Elvis decadente. Mas, se o primeiro tem uma abordagem visceral e de confronto, o nativo de Taiwan migrado na Califórnia, via Vancouver, opera com algum recolhimento, numa espécie de tela sépia que remete para a beleza extraída das sombras nas películas de David Lynch.

As diferenças acima referidas, evidentes em disco, esbatem-se em palco. Neste habitat, Alex, sozinho com guitarra eléctrica e "máquinas", solta-se e entremeia o balbuciar melancólico com urros catárticos. A adopção deste cenário minimalista, combinado com os ecos e o baixo volume do som granuloso, revela-se o ideal para uma música de tons esbatidos, percorrida por um certo sentimento de nostalgia. O público, em número invulgarmente alto para uma quinta-feira, sabe ao que vai, e sintoniza-se desde o primeiro instante. 

Com tal clima de empatia mútua, o concerto não se poderia ficar pelos cerca de 40 minutos, e Alex percebe-o, adiando até ao limite a saída de palco. Primeiro com uma versão dos DNA, tocada com igual teor cacofónico ao das lendas da no-wave. Seria o fim perfeito, não fosse o músico ceder aos caprichos da turba e tocar mais dois ou três temas que soaram mal preparados. Mais do que empobrecer o resultado do todo, este final serviu, essencialmente, como momento de comunhão que satisfez ambas as partes.