"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ao vivo #123

















Dean Blunt (Foto: Vera Marmelo)

Peter Evans Quintet + Fennesz + Dean Blunt @ OUT.FEST 2014 - Casa da Cultura do Barreiro, 03/10/2014

Responsável, de há alguns anos a esta parte, por trazer animação a uma pequena cidade na qual a palavra "crise" é uma assombração desde há décadas, o OUT.FEST é um festival único no panorama nacional no que concerne há representação das diversas franjas da música popular. À semelhança de qualquer outro dos dias do evento (entre 2 e 5 últimos), o programa da passada sexta-feira atesta bem do alheamento dos programadores no tocante aos espartilhos estilísticos. No cartaz, cuja prioridade é abranger um largo espectro de tendências ainda não formatadas segundo os estereótipos do mainstream, também não há qualquer critério de antiguidade das carreiras, pelo que, tanto podemos contar com nomes estabelecidos no segmento leftfield, como com as últimas revelações ainda em estado proto-hipster.

Segundo estas premissas, a ementa da noite da última sexta, com cenário no ambiente kitsch pré-decadente da Casa da Cultura, a ordem dos concertos escalados poderia ser qualquer qualquer uma. Por nenhuma razão em especial, couberam as honras de abertura ao trompetista nova-iorquino Peter Evans, à frente de um quinteto que, além do expectável (contrabaixo, piano, bateria), inclui um operador electrónico que processa em tempo real a performance dos restantes músicos. Se a esta presença insólita acrescentar-mos a informação de que Evans é conhecido pela tendência para o improviso, já vejo alguns narizes a torcerem-se perante a ameaça de uma sessão de "ruído avulso". Porém, desenganem-se os cépticos, pois, não obstante uns lampejos de abstraccionismo, o concerto revela-se algo de bastante harmonioso, lúdico até, e isto sem abusarmos da boa-vontade. Ao longo de dos quase noventa minutos queimados num estalar de dedos, o quinteto é um óptimo entretenimento que percorre diferentes toadas, que tanto podem tanger os ritmos latinos, como o rock mais abrasivo. Cada elemento, mestre no seu ofício, tem direito a solo, destacamdo-se do todo, sem detrimento para os demais, o próprio Peter Evans pela sua incrível capacidade para explorar as potencialidades dos instrumentos (trompete convencional e de bolso), e o baterista guedelhudo, altamente preciso e responsável máximo pelas convulsões abruptas ao longo do concerto.

Bem mais breve foi o austríaco Christian Fennesz, nome de culto na electrónica contemporânea mas que, em boa verdade, é um guitarrista rendido ao processamento electrónico dos arpejos minimalistas. Como tal, apresenta-se numa pouco convencional postura: sozinho em palco, munido de guitarra e laptop. Na bagagem traz o recente Bécs, álbum reminiscente do já clássico Endless Summer (2001), que, portanto, é um contraste harmonioso à deriva abstraccionista dos anteriores trabalhos. Não se limita a reproduzir propriamente as peças daquele disco, embora as ambiências criadas, relativamente mais densas também por força de um som imponente, estejam próximas do clima de Bécs, este mais luminoso. Assim, por mais do que uma vez, sentimos estar na presença dos arremedos espectrais dos cinco Slowdive levados a cabo por um só elemento. É um conceito eficaz nesta brevidade, correndo o risco, se alongado, de se perder na eminência da repetição.

Embora não acrescente novidades significativas à apresentação de há menos de um ano, um concerto de Dean Blunt será sempre motivo de uma fascinante estranheza, sob qualquer óptica e ao fim de um infindável número de repetições da experiência. Toda a encenação teatralizada, a constante tensão latente, a presença imóvel de um segurança em respaldo ao artista, e a simplicidade do jogo de luz (e de longos períodos de escuridão absoluta), são truques simples que adicionam tempero a um espectáculo básico na essência. Tal como tinha acontecido no Teatro Maria Matos, Blunt apresenta uma versão sintetizada do excelente The Redeemer (2013), agora ainda mais reduzida porque também vai sendo hora de avançar com temas do já muito próximo Black Metal. A impressão que fica dos novos temas, que seguem a progressão do artista rumo a uma linguagem mais orgânica, com uma forte presença da guitarra, é que não destoam minimamente do carácter intimista dos restantes, prosseguindo, como tal, no relato confessional e despudorado de trechos do quotidiano sentimental (auto-biográfico ou talvez não). Praticamente conceptual, e sobretudo extremamente coeso, o concerto de Dean Blunt foi capaz, tal como o de Peter Evans antes dele, de arrancar intensos aplausos à mistura com expressões de estupefacção. Devidamente justificados, diga-se.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ao vivo #122

















Evan Parker & Matthew Shipp @ Fundação Calouste Gulbenkian, 02/08/2014

Precisamente no ano em que o programa do Jazz em Agosto da Gulbenkian conhece uma relativa abertura ao facilitismo do apelo às massas, dois nomes sobressaem no cartaz como sinónimo do maior arrojo que normalmente caracteriza um festival único no panorama nacional. São eles o saxofonista (tenor e soprano) inglês Evan Parker e o pianista norte.americano Matthew Shipp, separados na idade por uma geração. O primeiro é uma figura de relevo na história do jazz europeu, já com estatuto de lenda, enquanto o segundo para lá caminha. Figuras de proa na arte da improvisação, são ambos abertos à transposição do género, e para além de diversas colaborações registadas como dupla, já se encontraram em trabalhos do colectivo britânico Spring Heel Jack, este com berço no nicho da música electrónica.

Para os cépticos que catalogam a facção free-jazz como uma mera cacofonia desregrada, os primeiros instantes do concerto de sábado poderiam ser defesa de tal tese. Isto se a preguiça associada a tal convicção toldasse os sentidos ao ponto de não se reconhecer logo aqui a mestria de qualquer dos executantes, ambos com uma destreza que assusta nos tempos curtos desta primeira parte feita de texturas convulsas. Já tal tese é indefensável quando a dupla envereda por uma toada de assinalável harmonia, mas nem por isso menos imprevisível e experimentalista. A atmosfera delicada ganha realce quando Evan Parker assume o sax soprano, este que quando chega o momento do solo é capaz de sons que julgávamos inimagináveis naquele instrumento, ao mesmo tempo que demonstra todo o seu virtuosismo numa simbiose perfeita do fôlego com a agilidade dos dedos. Também Matthew Shipp tem o seu momento de brilho a solo, também num jogo do contraste entre os sons incisivos e o quase silêncio, sempre na linha de tempos curtos que caracterizou a actuação. No final, o curto encore soube a pouco como culminar de uma hora e um quarto que se esgotou num ápice.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ao vivo #121



Primavera Sound 2014 @ Parc del Fòrum - Barcelona, 28-31/05/2014

E com esta já se contam seis presenças no Primavera para o currículo, e à meia dúzia agudiza-se uma amarga sensação, anteriormente latente: aquele que era um festival exemplar para servir os diversos cultos está definitivamente (e irremediavelmente?) descaracterizado. A principal causa a apontar, que para alguns até pode soar a "fundamentalismo indie", é a rendição a cabeças de cartaz de desmesurada dimensão. É inegável que esta opção atrai um público mais vasto mas, logo aí, tem um efeito prejudicial nas condições de "trânsito" no recinto. Por outro lado, o dispêndio financeiro que a contratação desses nomes de monta acarreta, reflecte-se na impossibilidade de contratar um número de bandas e artistas de uma "média dimensão", classe na qual se inserem boa parte dos motivos de culto que outrora faziam do cartaz do festival catalão algo de inexcedível.

Tomemos como primeiro exemplo deste aburguesamento a presença dos Queens of the Stone Age, exemplar de uma espécie de dinossauros precoces que provocam alarme no actual espectro da música popular. O seu concerto é um desfile de clichés do circo rock, apoiado num relativo aparato de som e imagem. Bem espremida a coisa, falta-lhe em genuinidade o que lhe sobra em espalhafato. Pior ainda, os Nine Inch Nails têm no mentor Trent Reznor um espécime invulgar nesta era de todas as reciclagens: alguém que decidiu fazer um revivalismo de si próprio. Para agravar, ao nível técnico, o concerto foi desastroso, com uma voz arruinada e um som baixíssimo e pouco definido. O resultado é um longo bocejo. Quanto aos Arcade Fire, após uma breve observação da coisa, digamos que estes talvez ainda não estejam ainda tão dentro da "primeira divisão" como por aí se apregoa. Ou, pelo menos, a histeria à sua volta já não seja a mesma de outras eras, porque o público até nem é parvo e não engole toda a hipervalorização mediática que os envolve desde o primeiro álbum. Talvez a própria banda esteja consciente disso e, segundo rezam as crónicas, opta por conceder parte de leão no alinhamento a esse disco de estreia. 

Com base nos primeiros vinte minutos do concerto dos Pixies, sou quase levado a concordar com todos aqueles que condenam o regresso à vida de bandas que, curiosamente, "cresceram" durante a ausência. Não diria o mesmo dos Pixies de 2004, ainda plenos de vigor e dispostos a reclamar os louros (e o ouro) que lhes fugiram durante a primeira existência. Actualmente (e certamente sem qualquer relação com o abandono de Kim Deal, deixem-se de tretas!), esta é uma banda em piloto automático, deixando transparecer que está ali em palco apenas por frete. Porém, mudo de opinião acerca deste tipo de regressos quando relembro o magnífico concerto dos Slowdive, o qual excedeu todas as expectativas. Admitindo que duvidava do efeito da sua sonoridade em cima de um palco, é justo reconhecer ao quinteto a capacidade de gerar o mesmo tipo de emoções dos discos, reproduzindo na perfeição aquele misto de sonho enevoado e experimentalismo. Em idêntico patamar estiveram os Godspeed You! Black Emperor, dos quais se temia a perda de impacto num concerto a céu aberto, mas capazes de proporcionar as mesmas paisagens de desolação de sempre, ao longo das duas horas necessárias para o efeito de abandono ser pleno. Ainda em alto nível, refiram-se os Slint, que deixaram explícito que o angst juvenil entre a apatia e a fúria descontrolada do mítico Spiderland ainda é algo de bastante invulgar. Tanto estes como o colectivo canadiano cometeram a proeza de remeter a plateia a um quase total silêncio durante os temas, proporcionado momentos de rara introspecção em concertos em terras de nuestros hermanos. Quanto aos Television, e embora a idade avançada dos seus elementos possa ter um impacto negativo na ideia pré-concebida pelos menos conhecedores do histórico Marquee Moon, cedo desfizeram equívocos sobre a sua eficácia, pondo a nu a proveniência das ideias dos primeiros e celebrados The Strokes. Por fim, na secção da glórias de outrora, é imperioso referir tanto os Loop como Julian Cope. Os primeiros, ainda em plena luz do dia, deixaram inebriada a assistência com uma massa sonora demolidora e em alto volume, numa súmula de diferentes rebeldias da história rock. Um renegado por convicção, Julian Cope precisou apenas de uma guitarra e de uma voz a transpirar vitalidade para encher a imensidão de um auditório, e gerar, inclusive, alguma agitação sempre que revisitava momentos mais marcantes da sua vasta obra.

No mesmo auditório que recebeu o bardo inglês, aterrou o ovni do Primavera, representado pela Sun Ra Arkestra. Fazendo jus à expressão "velhos são os trapos", os antigos músicos acompanhantes da lenda da facção free do jazz (comemora-se presentemente o centenário de Sun Ra) deram um autêntico baile rítmico, que inclui acrobacias inesperadas de quem já entrou na terceira idade e mais do que uma incursão dos sopros pelo meio da assistência. O efeito é o de autêntico delírio. Em matéria de ritmo, mestria é aquilo que define Seun Kuti & Egypt 80, tónico perfeito para embalar pela noite dentro em crescendo de animação sob as vibrações positivas da música africana. Interventivo quanto baste, o filho da lenda Fela Kuti demonstrou que do pai não herdou apenas o talento. Em matéria de "aves-raras", porém, o vencedor foi Charles Bradley, o veterano cantor soul que apenas teve reconhecimento tardio e bastante recente, desde logo porque a minha devoção por estas sonoridades nem sempre é correspondida pela abundância de concertos do género. É notório que uma voz já envelhecida, e que não dispôs do treino "académico" de outros, tem as suas quebras nos momentos mais exigentes, mas estas são fácil e rapidamente esquecidas perante a mais genuína pureza de Bradley, que faz questão de repetir uma gratidão que só pode ser sincera. Quando este necessita de algum repouso, ou até mudar de indumentária, o ritmo não vacila, já que a banda primorosa que o acompanha assegura a animação.

Com a opção de assistir a um maior número de concertos completos, escasseou o tempo para espreitar bandas mais jovens. Mas sempre deu para reforçar a ideia de que os Real Estate nunca são piores que bons, particularmente num cenário propício de fim de tarde, como foi o caso. Ou ainda de que o mundo já tem uns Tame Impala para poder dispensar os Pond, estes com a agravante dos tiques da suposta animação colorida dos actuais e irritantes Flaming Lips. No mesmo palco Pitchfork, finalmente com um som condigno (aleluia!), que os australianos perpetraram uma tortura, os Speedy Ortiz foram o oposto, provando que ainda há espaço para a canção de travo indie, desde que bem urdida. Mesmo ali ao lado, no Vice ocorreu a grande revelação deste festival, na pessoa dos irlandeses Girl Band. Mantendo a esperança de que ainda haja vida no revivalismo post-punk mais obtuso, estes serão com toda a certeza merecedores de um aprofundamento muito além dos escassos minutos de concerto a que assisti. No mesmo palco, lamento que as sobreposições me tenham impedido de prolongar o deleite com os escoceses The Twilight Sad, uma banda que já não me move como outrora, mas que em palco ainda provoca o arrepio emocional que percorria o retumbante primeiro álbum. Quanto aos Temples, não fugindo sobremaneira ao registo gravado, escaparam sem mácula como uma das poucas bandas da presente regurgitação psicadélica com canções dignas desse nome para mostrar. Rematando no mesmo tom com que se iniciou esta resenha, tenho de vos dizer que ainda estou para perceber o porquê de uma coisa chamada Stromae, um belga que aparentemente é vedeta lá na terra e que fez as delícias do vasto contingente francófono. A roçar o gosto duvidoso do eurodance, o miúdo reforça a minha teoria de que, desde o advento electroclash, em matéria de música de dança, se perdeu completamente o crivo da decência.

OS 10+

  1. SLOWDIVE
  2. CHARLES BRADLEY
  3. SLINT
  4. SUN RA ARKESTRA
  5. GODSPEED YOU! BLACK EMPEROR
  6. LOOP
  7. REAL ESTATE
  8. TELEVISION (performing Marquee Moon)
  9. JULIAN COPE
  10. SEUN KUTI & EGYPT 80


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Fui...



...mas depois conto como foi.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Ao vivo #120
















Laraaji & Sun Araw @ Teatro Maria Matos, 20/05/2014

Nos programas irrepetíveis a que o Maria Matos já nos habituou, são já habituais as colaborações entre gente da actualidade das franjas da música popular. A última dessas propostas teve lugar na última terça-feira, e juntou paisagistas sonoros de duas diferentes geraçções, embora ambos estejam na ordem do dia. O mais velho é Laraaji, músico septagenário de formação académica radicado em Nova Iorque que tem como nome de baptismo Edward Larry Gordon. Figura do ambientalismo a tanger a new age, atravessa uma fase de redescoberta depois de no passado ter impressionado o figurão Brian Eno, com o qual chegou a colaborar com a sua citara adaptada a ferramenta electrónica. Substancialmente mais jovem, Cameron Stallones tem sido ultra-produtivo como Sun Araw, projecto de texturas moldáveis e inclassificáveis, numa nebulosa para a qual convergem o psicadelismo, o kraut, o tropicalismo, e até a pop.

O concerto conjunto consiste em três partes distintas mas ininterruptas, duas delas reservadas a cada um dos nomes do cartaz em separado, e a parte central dedicada à colaboração propriamente dita. Cabe ao texano migrado em Los Angeles a abertura, acompanhado do habitual manipulador electrónico Alex Gray. Na guitarra e nos teclados, Stallones liberta notas, à partida desconexas, que esbarram nas perturbações daquele. Gradualmente, do caos aparente nasce algo, um emaranhado de sugestões sensoriais sublinhadas pelo estilo único da guitarra, esta com uma soberba amplificação que ganha com as boas condições de acústica do Maria Matos. Da estranheza inicial, portanto, a dupla conquistou os sentidos da assistência, e preparou-a para o banho de misticismo prometido por Laraaji. Quando este entra em cena, torna-se o mestre de cerimónias, conduzindo a massa sonora para uma toada planante. Explorando, além da cítara, uma panóplia de percussões (sininhos, espanta-espíritos), permite aos Sun Araw um papel mais discreto, mas determinante na quase subida aos céus: Stallones limita-se a um silvo contínuo, Gray é mais reservado nas interferências. O todo, porém, é inseparável nas suas partes. Já em solitário, talvez a música de Laraaji peque pelo excessivo apelo ao misticismo, e pelo recurso às vocalizações de origem indefinida. É nesta derradeira parte do concerto que se escapa por um triz à actual conotação pejorativa do rótulo new age, embora este seja um momento extremamente didáctico no que concerne às potencialidades de uma citara.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ao vivo #119

















Calvin Johnson @ St. George's Church, 30/04/2014

Deixe-mos de merdas: independentemente da ironia da frase da epígrafe, este ainda é um pasquim assumidamente indie. Não do conceito entretanto subvertido e apropriado pelas modernas formas de distribuir música como quem distribui amostras de champô, mas sim daquilo que antes se definia como indie, implicando, se não uma estética definida, uma filosofia rigorosa. Noutros tempos, talvez poucos tivessem encarnado melhor o espírito da coisa do que Calvin Johnson, entusiasta e promotor de múltiplas iniciativas do-it-yourself, e ele próprio músico desafiador dos estereótipos da técnica musical, da qualidade das gravações, ou da postura das rock stars, sobretudo à frente dos Beat Happening. Consta que um jovem, um tal Kurt Cobain, era um entusiasta, não só de Calvin mas de muitas das suas almas-gémeas. Portanto, a partir de ontem, 30 de Abril passou a ser dia feriado aqui no April Skies.

Nome normalmente arredado dos grandes palcos, não só pelas regras actuais da modas passageiras, mas sobretudo por escolha própria, digamos que Calvin Johnson encontrou o seu habitat natural na igreja anglicana lisboeta: um belo templo, embora sóbrio e discreto, com a vantagem de proporcionar uma excelente acústica. Tal como se desconfiava, na bagagem não vinham os semi-clássicos dos Beat Happening, ou de qualquer de muitos outros projectos de duração variável, mas sim temas dos vários álbuns entretanto editados em nome próprio. Além disso, apenas uma guitarra acústica. Microfones ou cabos eléctricos nem vê-los, que este era o verdadeiro unplugged!

Convenhamos que, até para os mais familiarizados com o universo calviniano, o formato adoptado pode causar alguma estranheza num primeiro momento. Mas isso é algo que rapidamente se dissipa, quando aquele barítono irresistivelmente imperfeito enche a imensidão do templo. A guitarra assume papel secundário, para não dizer que é mesmo posta de parte logo ao terceiro tema, apresentado num rigoroso a capella. Por esta altura já estamos rendidos aos encantos destas canções, de eterna adolescência e com muita malandrice à mistura, que nas suas imperfeições são a essência do espírito pop imaculado. Ficamos com a sensação de que, quanto maior o despojamento, maior a eficácia destes pequenos extractos de uma juventude de espírito tardia. A título de exemplo refira-se a magnífica interpretação do Bond theme "Diamonds Are Forever", tema imponente no seu original, mas igualmente sedutor nesta versão praticamente reduzida ao esqueleto. Num ambiente completamente descontraído, Calvin Johnson não se priva ainda de nos provocar alguns sorrisos com várias tiradas de um sentido de humor apuradíssimo e pouco benevolente com a pátria estado unidense. Isto sem esquecer uma expressão corporal sui generis, imagem de marca do entertainer que desafia os paradigmas da "macheza" rock. Plenamente satisfeito ao fim de uns oitenta minutos, mais coisa menos coisa, apenas lamento que não tenham sido mais os que presenciaram um dos concertos mais peculiares a que esta cidade assistiu em vários anos. Estou quase certo de que em breve dificilmente teremos privilégio semelhante.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ao vivo #118
















Excepter + Tropa Macaca @ Galeria Zé dos Bois, 04/04/2014

Nascidos no mesmo viveiro da bizarria nova-iorquina dos Gang Gand Dance ou dos deslocados Animal Collective, os Excepter ainda não se podem gabar do reconhecimento mediático daqueles contemporâneos. No entanto, e pelo que ficou demonstrado na passada sexta-feira, poderão em breve causar sensação naquela espécie de dança esotérica que deu louros aos primeiros. Poderá ser algo que possa vir a acontecer no anunciado novo álbum, que já tarda, ou poderá ser apenas equívoco motivado por um feliz incidente. Passamos a explicar: o concerto da ZdB divide-se em duas partes distintas, separadas por um súbito corte de energia. Até esse imprevisto, com uma formação reduzida a trio, os Excepter tinham apresentado uma melting pot sonoro marcada pela guitarra robusta em duelo com as ferramentas electrónicas, com os devaneios exóticos e distorcidos da voz John Fell Ryan. Algo caótica, e sobretudo intuitiva, esta primeira parte contrasta com a fisicalidade apresentada a partir da breve interrupção. Com os problemas técnicos parcialmente debelados, os Excepter regressaram, é certo, com uma redução do volume, mas apostados em fazer mexer os corpos numa dança que convoca uma miríade de culturas deste mundo encolhido pela globalização, ou talvez apenas o caleidoscópio de ideias que surgem em catadupa, numa espécie de caos controlado pela figura xamânica de Fell Ryan. O público agradece, deixando-se levar pela esquizofrenia dos ritmos, ignorando quaisquer deficiências técnicas que se possam ter verificado.

Em termos de bizarria, digamos que os Excepter são meninos-de-coro perto dos Tropa Macaca. Cada aparição da dupla portuguesa é uma caixinha de surpresas, com denominador comum na estranheza inicial causada. Num primeiro momento, dir-se-ia mesmo que os sintetizadores - dela - e a guitarra - dele - foram chamados para concertos diferentes, que por caso foram marcados para o mesmo palco e à mesma hora. Inclassificável, esta proposta que alguém já catalogou de algo tão paradoxal como ambient-noise, começa no entanto a ganhar sentido quando os sons, aparentemente desconexos, parecem confluir para uma linha comum, nem que essa linha possa ser apenas traçada no nosso subconsciente. Mais do que uma curiosidade weirdo, os Tropa Macaca são um seguro desafio aos sentidos, aqui ou em qualquer parte.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ao vivo #117














Dirty Beaches: Landcapes In The Mist @ Teatro Maria Matos, 03/04/2014

Para além de uma óptima programação musical, o Teatro Maria Matos tem a ainda a particularidade de, não raras vezes, presentear o seu público com espectáculos exclusivos, preparados pelos artistas para a ocasião. Foi o caso de Alex Zhang Hungtai, nome de baptismo do alter ego Dirty Beaches, actualmente com residência artística na capital portuguesa e que trazia a palco um concerto alegadamente inspirado por esta nova experiência de uma vida quase nómada. O culto que granjeia por cá, somado da especificidade do espectáculo, terá contribuído para a total lotação da sala, mas cedo se percebeu que este era dia para se aplicar a expressão "a montanha pariu um rato".

Desejoso de ouvir a voz de crooner de Zhang Hungtai em estilhaços de canções enevoadas e de tons sépia, o público foi surpreendido pela total ausência de voz, numa única e longa peça para a qual contribuem também o habitual acompanhante Shub Roy (mais na guitarra, menos na electrónica) e o local André Gonçalves (sintetizadores modulares). Da tal voz nem um assomo, já que a estrela da companhia passou a quase hora e meia maioritariamente entregue ao saxofone, e a espaços também à guitarra e a alguns efeitos electrónicos. O início, para além de surpreendente, é até prometedor, com o trio naquilo que julgamos ser a introdução de algo que sugere imagens (os vários monitores de televisão ajudam) urbanas e nocturnas. Porém, este começo é o mote para toda a peça, sem grandes variações e até bastante simplista, ao ponto de motivar o abandono precoce de muitos. Não foi o meu caso, resisti até final, embora tenha de confessar que os 15 derradeiros minutos chegaram a ser penosos, antecipando mentalmente uma boa meia dúzia de vezes aquilo que julgaria ser um final adequado. Alex Zhang Hungtai e companhia não estiveram pelos ajustes, e prologaram ad nauseum o calvário de uma peça frustrada na qual a ambição não foi correspondida pela variedade de ideias.

domingo, 6 de abril de 2014

Ao vivo #116
















Sun Kil Moon + Thurston Moore @ Casa da Música, 29/03/2014

Para começar, uma confissão: não sou daqueles incondicionais que têm os Red House Painters no top das preferências da tendência sad/slowcore com mais de vinte anos. No entanto, sinto-me impressionado por uma boa meia dúzia de temas, mormente do trio inicial de álbuns, e pela voz de Mark Kozelek, capaz de condensar toda a tristeza do mundo mesmo que nos alheemos das palavras. O desinteresse foi crescendo com o avolumar da obra, e prolongou-se para o vasto catálogo subsequente, tanto em nome próprio como à frente do projecto Sun Kil Moon. De modos que, mesmo no auge da quase indigência, quando Kozelek era presença assídua no nosso país, nunca senti o estímulo para assistir a um dos seus concertos. A necessidade de colmatar tal lacuna foi provocada pelo recente e excelente Benji, pretexto também para a visita periódica e obrigatória à Invicta.

No espectáculo integrado em mais uma edição do Clubbing da Casa da Música, é precisamente esse trabalho que preenche na íntegra o alinhamento. Acompanhado por um trio de músicos (teclas, guitarra eléctrica e bateria) Kozelek apresenta-nos boa parte do álbum, baseado em memórias da infância e da juventude, com histórias povoadas pela sombra da morte mas com uma considerável dose de bom humor. Apesar da temática, este é seguramente a faceta mais upbeat conhecida do músico, progressivamente mais afoito e aventureiro na guitarra e com aquela voz - quase inexpressiva mas infalível - capaz de encher o mais amplo dos templos. Do concerto registe-se a capacidade de reproduzir cada tema quase a papel químico da sua versão gravada, pormenor que pode não conter o efeito surpresa, mas com o condão de preservar cada detalhe da complexidade destas canções, porém aparentemente simples numa audição desinteressada. Para o par de temas final, Kozelek ergue-se, larga a guitarra, e apenas de microfone em punho numa penumbra que contrasta com os holofotes que iluminam o trio acompanhante, mostra-se capaz de representar o entertainer. Ou, pelo menos, a antítese deste.

Perante a toda acústica do primeiro concerto da noite, seria expectável que Thurston Moore enveredasse pela mesma via, trazendo ao palco temas recolhidos do último par de álbuns em nome individual. Ao invés, o ex-Sonic Youth, à frente de um trio no qual pontifica o velho companheiro Steve Shelley na bateria, fez questão de mostrar os seus créditos ao serviço da manipulação da electricidade. O alinhamento assenta num novo álbum no horizonte, e será certamente ao desconhecimento por parte do público, mas também às muitas semelhanças entre temas, que fica a dever-se a recepção algo morna. Para fugir à monotonia, por um par de vezes Moore entre pela divagação free, aplaudida por muitos, rejeitada por outros tantos, mas bem demonstrativa das suas capacidades com uma guitarra em punho. Para o final, talvez o momento alto, pela revisitação de "Ono Soul", tema do já distante Psychic Hearts (1995), e paradigma daquele limbo entre a pop e o experimentalismo em que Thurston Moore é figura de proa.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ao vivo #115
















Sonic Boom / Experimental Audio Research @ Teatro Maria Matos, 06/02/2014

Embora com uma carreira pós-Spacemen 3 relativamente mais discreta em termos mediáticos que a do antigo companheiro Jason Pierce, não se pode dizer que Peter Kember se tenha entregue à preguiça nestas mais de duas décadas. Pelo contrário, é já vasta a obra editada tanto como Sonic Boom, "alcunha" que ganhou já nos tempos daquela banda lendária, como ainda à frente dos Spectrum ou dos Experimental Audio Research, este último um colectivo pelo qual têm passado outros rebeldes da coisa rock. Além disso, e com especial incidência nos anos mais recentes, tem sido bastante requisitado no papel de produtor. É precisamente nessas funções que se encontra no nosso país, novamente a produzir para Panda Bear, presença essa que possibilitou e motivou o concerto da passada quinta-feira.

Embora o espectáculo tenha sido anunciado com o título acima, aquilo a que pudemos assistir foi mais uma súmula das diferentes facetas de Kember, a possível no espaço de hora e meia face à longa duração de todas as peças apresentadas sem qualquer intervalo. Essa resenha acontece naquilo que poderemos designar como a primeira parte do concerto, espaço também para a versão (dos Kraftwerk) reverente às influências, algo do qual já os Spacemen 3 não se coibiam. É nesta fase que temos a oportunidade de escutar os temas mais próximos do formato canónico de canção, embora sempre corrompidos pela vontade de expandir os sons com o intuito de induzir os sentidos. Apesar da presença solitária em palco, acompanhado apenas da "maquinaria", este é um espectáculo bastante mais elaborado do que aquele, bastante informal, que Peter Kember trouxe há uns anos ao Museu do Chiado, como se afere das projecções preparadas para o efeito, em consonância com o cariz psicotrópico da música. Para a suposta segunda parte, está reservada apenas uma sumptuosa peça, a rondar os 40 minutos de duração, na qual desfilam todos os ingredientes que têm movido Kember desde a adolescência, todos extraídos das correntes renegadas do rock. Faz-se aqui jus ao experimentalismo a que a alude o nome do projecto em cartaz, com uma lenta progressão de sons refractados que conduzem a um estado lisérgico, no qual perdemos qualquer noção de tempo. Coadjuvado pela excelente efeito das imagens no fundo do palco, Sonic Boom desperta-nos do transe apenas com o singelo agradecimento que segue o último som, para arrancar um intenso e merecido aplauso.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Classe de 2013


À semelhança de anos anteriores, o ano que hoje termina, foi parco em discos marcantes, daqueles que vamos ouvir com quase igual assiduidade e idêntico entusiasmo no espaço de uma década. Neste particular, diria até, que foi um ano bastante pobre. E foi também um ano de desilusões, de gente que não conseguiu manter em álbum o nível que os pequenos formatos prometiam (olá Savages! olá King Krule!). Mas, por outro lado, foi recheado de discos com relativo interesse, portanto, bastante equilibrado em matéria de edições. Foi este o factor que dificultou a escolha dos álbuns preferidos dos ano, e que levou a que, de modo a criar injustiças irremediáveis, a lista do ano corrente seja aumentada em dez exemplares, dos trinta para os quarenta. É uma lista que reflecte os resultados variáveis dos vários regressos improváveis (mas desejados), num ano pródigo em finais de longos exílios. É também a mais ecléctica de todas as listas de fim de ano aqui publicadas, muito por culpa da crescente inspiração do mundo "electrónico", mas também do vigor da nova soul, ou até da renovação do hip-hop, depois de anos de estagnação. Senão, vejamos:

40 ÁLBUNS















  1. MAVIS STAPLES - One True Vine
  2. DEAN BLUNT - The Redeemer
  3. JULIA HOLTER - Loud City Song
  4. TIM HECKER - Virgins
  5. MIKAL CRONIN - MCII
  6. PARQUET COURTS - Light Up Gold
  7. THESE NEW PURITANS - Field Of Reeds
  8. PREFAB SPROUT - Crimson/Red
  9. MY BLOODY VALENTINE - m b v
  10. DEERHUNTER - Monomania
  11. BOARDS OF CANADA - Tomorrow's Harvest
  12. EDWYN COLLINS - Understated
  13. EARL SWEATSHIRT - Doris
  14. THE PASTELS - Slow Summits
  15. CHARLES BRADLEY - Victim Of Love
  16. ICEAGE - You're Nothing
  17. GROUPER - The Man Who Died In His Boat
  18. HOOKWORMS - Pearl Mystic
  19. SPEEDY ORTIZ - Major Arcana
  20. FOREST SWORDS - Engravings
  21. GRANT HART - The Argument
  22. SCOTT AND CHARLEN'S WEDDING - Any Port In A Storm
  23. SUPERCHUNK - I Hate Music
  24. JOANNA GRUESOME - Weird Sister
  25. THROWING MUSES - Purgatory/Paradise
  26. BROADCAST - Berberian Sound Studio
  27. RHYE - Woman
  28. WAXAHATCHEE - Cerulean Salt
  29. FAT WHITE FAMILY - Champagne Holocaust
  30. THEE OH SEES - Floating Coffin
  31. JULIAN COPE - Revolutionary Suicide
  32. PUBLIC SERVICE BROADCASTING - Inform - Educate - Entertain
  33. WIRE - Change Become Us
  34. DIRTY BEACHES - Drifters/Love Is The Devil
  35. PRIMAL SCREAM - More Light
  36. MERCHANDISE - Totale Nite
  37. MAZZY STAR - Season Of Your Day
  38. SCOUT NIBLETT - It´s Up To Emma
  39. VERONICA FALLS - Waiting For Something To Happen
  40. SEBADOH - Defend Yourself


10 SINGLES / EPs / MINI-ÁLBUNS















  1. DEAN WAREHAM - Emancipated Hearts
  2. THE CHILLS - Molten Gold
  3. BURIAL - Rival Dealer
  4. PARQUET COURTS - Tally All The Things That You Broke
  5. DEAN BLUNT - Stone Island
  6. KIDS ON A CRIME SPREE - Creep The Creeps
  7. INGA COPELAND - Don't Look Back, That's Not Where You're Going
  8. BEST COAST - Fade Away
  9. GIRLS NAMES - The Next Life
  10. ALEX CALDER - Time


10 REEDIÇÕES / COMPILAÇÕES















  1. SONGS: OHIA - The Magnolia Electric Co.
  2. BOBBY WOMACK - Everything's Gonna Be Alright: The American Singles 1967-76
  3. SHUGGIE OTIS - Inspiration Information / Wings Of Love
  4. THE THREE O'CLOCK - The Hidden World Revealed
  5. HONEY LTD. - The Complete LHI Recordings
  6. SEEFEEL - Quique
  7. TOY LOVE - Toy Love
  8. LEE FIELDS - Let's Talk It Over
  9. TEARS FOR FEARS - The Hurting
  10. THE BEATLES - On Air - Live At The BBC Volume 2


15 CONCERTOS
















  1. MY BLOODY VALENTINE @ Primavera Sound, Barcelona/Porto - 25 Mai./01 Jun.
  2. BLUR @ Primavera Sound, Barcelona/Porto - 24/31 Mai.
  3. JULIA HOLTER @ Galeria Zé dos Bois Lisboa, 23 Jul.
  4. BULT TO SPILL @ Lux Frágil - Lisboa, 04 Set.
  5. SCOUT NIBLETT @ Teatro Maria Matos Lisboa, 09 Out.
  6. BOB MOULD @ Primavera Sound - Barcelona, 23 Mai.
  7. PARQUET COURTS @ Primavera Sound - Barcelona, 22 Mai.
  8. DEAN BLUNT @ Teatro Maria Matos Lisboa, 05 Nov.
  9. DEERHUNTER @ Primavera Sound - Barcelona, 25 Mai.
  10. COME @ Primavera Sound - Barcelona, 26 Mai.
  11. PIXIES @ Coliseu dos Recreios - Lisboa, 09 Nov.
  12. LOS PLANETAS @ Primavera Sound - Porto, 01 Jun.
  13. DINOSAUR JR. @ Primavera Sound - Porto, 01 Jun.
  14. METZ @ Primavera Sound - Porto, 01 Jun.
  15. SAVAGES @ Primavera Sound - Porto, 01 Jun.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ao vivo #114















Adrian Utley's Guitar Orchestra @ Teatro Maria Matos, 18/12/2013

Das diferentes tendências da chamada música erudita contemporânea, nenhuma outra se terá imiscuído tanto nos meandros pop/rock quanto a do minimalismo. Tanto Philip Glass como Steve Reich, ou até Michael Nyman, já estiveram, de uma forma ou de outra, próximos das vertentes mais populares da música. Porém, o trabalho de Terry Riley é o mais frequentemente citado e apropriado neste universo menos académico. Em particular a obra-prima In C, de uma permissividade que permite a interpretação por colectivos de número de músicos variável e com qualquer instrumento. A composição consiste num conjunto de 53 frases musicais curtas, susceptíveis de alguma arbitrariedade na ordem e no tempo, o que pode resultar em durações totalmente díspares.

Apesar das inúmeras formas em que já foi interpretada, uma apresentação de In C por um ensemble de guitarras eléctricas é, no mínimo, tentador para o público menos conservador. É essa a proposta já tentada em disco por Adrian Utley, numa faceta completamente diferente daquela que lhe conhecemos dos Portishead, e agora trazida ao Maria Matos num conjunto com catorze guitarras, três teclados e um clarinete baixo. Entre os músicos participantes, e como já vem sendo hábito neste tipo de ocasiões, há diversos locais. Para além de relativamente insólita, a iniciativa tem a particularidade de levar ao extremo a liberdade interpretativa que In C permite, já que desta feita a duração de meia hora da gravação original de 1964 é estendida ao triplo daquele tempo. Obviamente, só com muito boa vontade e movidos pela curiosidade poderemos desfrutar destes 90 minutos com um nível de envolvimento permanente. Na verdade, a intensidade imprimida pelos músicos é bastante oscilante, chegando na parte intermédia a uma estagnação que parece não indicar saída. Porém, ela existe, e é seguida na recta final num crescendo de entrosamento dos músicos, proporcionando um final perto do apoteótico. Neste estado inebriado facilmente perdoamos a deriva algo inconsequente da meia hora anterior que, há falta de melhor proveito, serviu para desfazer aquele cliché de que o minimalismo mais não é do que repetição ad infinitum.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ao vivo #113















Pixies @ Coliseu dos Recreios, 09/11/2013

Tenho uma regra auto-imposta de evitar os concertos de chamada grande dimensão. Não, não é uma mania indie, apenas e só constatação resultante da experiência de que a presença das multidões raramente está em sintonia com os espectáculos mais vibrantes e intensos. A acrescer, é certo e sabido que os locais onde normalmente têm lugar (Coliseu ou aquela-coisa-arena) não têm propriamente as melhores condições de acústica para concertos rock. No passado sábado, e com um golpe de sorte de última hora à mistura, abri uma excepção para os Pixies, não só por tudo aquilo que eles representam no meu "crescimento musical", mas também porque nunca me desapontaram nos anteriores encontros, todos já após o regresso ao serviço da indústria da nostalgia.

Às 22 horas em ponto teve início o concerto, e desde o primeiro momento se confirmaram os piores temores relativamente às condições do Coliseu, com um som que, para além de demasiado baixo, tinha algo de unidimensional. Para agravar as primeiras impressões, a parte inicial foi dedicada essencialmente às músicas novas, que não soando propriamente más quando ouvidas isoladamente, sendo mais contemplativas, ficam a perder quando colocadas lado a lado com os inúmeros "clássicos" puramente lúdicos do catálogo dos Pixies. Este sabor agridoce prologou-se durante cerca de meia hora, mas dissipou-se, mesmo sem quaisquer melhorias técnicas, quando começaram a surgir de rajada os ditos "clássicos", um a seguir ao outro e não raras vezes acompanhados em uníssono pelo público. Nesta fase é difícil permanecer quieto sem incomodar a vizinhança, acto de rebeldia desencorajado pela atitude da maioria da assistência - na generalidade na casa dos trinta e muitos ou quarenta e poucos -, mais dada às irritantes palminhas sincopadas do que ao confronto físico. O crescendo de euforia tem o seu pico já perto do final do alinhamento principal, quando os Pixies, ao seu melhor estilo, descarregam uma boa meia dúzia de temas sem qualquer paragem, arruinando as reservas de energia e o fôlego de qualquer um, mas provocando uma agradável sensação de êxtase. Se havia reservas de algum cepticismo relativamente à substituição de Kim Deal pela nova recruta Kim Shattuck, a postura desta, irrequieta e enérgica como a outra nunca foi, conquistou a assistência. Sobre Joey Santiago apetece dizer que os seus riffs incisos não perderam ainda o seu efeito delirante. Quanto a Black Francis, em excelente forma vocal, a maturidade não lhe retirou a tendência para derivar para pequenos acessos de loucura, que ganham expressão nos muitos e súbitos assomos de berraria.

Quanto à parte do alinhamento mais do agrado do público, sobretudo centrado nos dois primeiros e fulgurantes álbuns, convém referir que Bossanova (1990) foi totalmente esquecido. Quanto a Trompe Le Monde (1991), outrora mal amado, mas reavaliado em alta com o passar dos anos, foi condignamente representado. Curiosamente, dos temas deste último desiludiu o incendiário "Planet Of Sound", talvez porque entalado naquele começo mortiço, e por isso menos devastador que o habitual. No entanto, volvida mais de hora e meia, aquele começo periclitante parecia já uma memória distante, depois do desfile de temas de excelência que se seguiu. Resumindo, no global este foi um concerto de nota alta, ambora mais desequilibrado que quaisquer dos outros dos Pixies a que anteriormente assisti.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ao vivo #112














Dean Blunt @ Teatro Maria Matos, 05/11/2013

Embora seja ainda um nome que não circula com insistência na boca das massas, é indesmentível que Dean Blunt seja já um dos músicos mais relevantes dos nossos dias. E também dos mais imprevisíveis na trajectória. Basta lembrar a evolução desde a revelação ainda como Hype Williams (juntamente com Inga Copeland), uma lufada de ar fresco no universo da electrónica, com um pé nas tendências vigentes entre artistas britânicos, e outro na minimal wave de um passado já algo distante. Desde o ano transacto, e em nome próprio, evoluiu para formas de expressão relativamente mais convencionais para os parâmetros pop, mas ainda algo improváveis, abarcando tanto a soul como a música erudita contemporânea, sem esquecer a técnica cut'n'paste que o notabilizou. Tudo começou com o EP The Narcissist II e teve prolongamento no álbum The Redeemer, já deste ano. São dois trabalhos que têm de ser vistos como complementares, o primeiro expositor de uma relação em desagregação, o segundo uma espécie de redenção após a separação.

É este último disco que Dean Blunt traz ao Maria Matos, não para o apresentar na íntegra, mas para nos brindar com uma encenação das confissões e reflexões que o percorrem. A leitura do folheto oferecido à entrada para o espectáculo anuncia-nos o cariz teatral do mesmo, algo que nos faz aumentar a curiosidade para o que a próxima hora nos reserva. Independentemente desse conhecimento prévio, tudo o que se passa no palco, num nível abaixo do da bancada é uma surpresa. A longa introdução, em completa escuridão e ao som de uma chuva diluviana faz aumentar o mistério. Ainda no escuro, Dean Blunt senta-se ao piano por breves instantes. Quando a luz tímida nos permite vislumbrar algo, já este tem um microfone à frente e um segurança daqueles gorilóides atrás. Este figurante aí havia de permanecer, imóvel, durante todo o espectáculo. Nas colunas ecoam sons pré-gravados, um trompetista invisível solta umas notas, e na penumbra um ser feminino vagueia, entra e sai de cena. Ela é Joanne Robertson, cantora e guitarrista convidada em The Redeemer que aqui representa a outra metade do casal dissoluto. Antes de colocar a voz profunda, Dean Blunt, hesita, contorna o segurança, reaproxima-se do microfone, parece querer rebentar num acesso de fúria, e hesita de novo. É toda uma encenação de desconforto perante a outra parte, e também de algum remorso. O mesmo desconforto contagia o público, levado a partilhar esta exibição da intimidade alheia. No final, já só com Joanne, mais a sua voz delicada e a sua guitarra desalinhada, em palco, toda a tensão se esvai. Neste momento, sentimos ter presenciado algo de especial, um espectáculo único, por um lado extremamente simples, por outro não menos intenso.

domingo, 3 de novembro de 2013

Ao vivo #111















A Place to Bury Strangers + Bambara @ Centro Cultural do Cartaxo, 02/11/2013

Não é apenas a austeridade dos tempos que me faz ser cada vez mais criterioso na escolha de concertos a ir, mas sobretudo o medo de uma eventual desilusão. No caso dos nova-iorquinos A Place To Bury Strangers, a indecisão até a uma data próxima da do concerto prendeu-se principalmente com dois motivos: o entusiasmo nulo relativamente à obra mais recente do trio, e o temor de uma possível mancha na boa memória de um concerto passado na capital espanhola, na altura ainda deslumbrado com o brilhantismo sob a forma de descarga sónica do primeiro álbum (e repetido, se não melhorado, no segundo).

Em boa hora tomei a decisão acertada, pois, pese embora o desinspirado Worship (2012) seja o prato forte do espectáculo, os A Place To Bury Strangers são ainda um caso sério em cima de um palco, uma descarga de electricidade e ruído que não deixa nenhum adepto do alto volume sonoro indiferente. É óbvio que não são particularmente originais, e que têm a seu desfavor alguns tiques "góticos" que se têm agudizado recentemente. Mas até neste último factor conseguem exibir algum bom-gosto, revelando apenas uma afeição pela escuridão nocturna e as temáticas dos amores no fio da navalha, sem resvalar para as patetices da devoção necrófila. A simpatia pela escuridão corporiza-se em palco no jogo cénico, não raras vezes mergulhando o auditório do CCC na total ausência de luz. Como nem só de música de faz um concerto rock, os APTBS são também um inteligente exercício de estilo, desde logo pelo abuso da escuridão e dos fumos, mas também pelo recurso insistente a strobs, tudo factores que potenciam a densidade da massa sonora que vem do palco. Inclusive na postura há algo de estudado, como por exemplo a destruição de duas guitarras por parte de Oliver Ackermann, número que saiu demasiado perfeito para que acreditemos não ser encenado. Face à frieza desta análise clínica, não se julgue que entro em contradição com o começo deste parágrafo, pois com todas as suas idiossincrasias, os APTBS ainda são daquelas bandas capazes de levar a adrenalina a níveis elevados, preferencialmente em salas sem o rigor dos lugares sentados, como foi o caso de ontem. A seu favor, face à inúmera concorrência da "escola sónica" contemporânea, terão sempre a omnipresença de uma linha melódica, o que faz dos seus temas, descargas de ruideira à parte, canções dignas desse nome. A este propósito, é inevitável compará-los com os conterrâneos e companheiros de estrada Bambara, responsáveis pelo aquecimento com uma massa sonora de volume bem alto e distorção, algo indistinta para quem já não é facilmente impressionável.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Ao vivo #110















Scout Niblett @ Teatro Maria Matos, 09/10/2013

Tanto em disco como em palco, já nos habituámos à imagem de uma Scout Niblett solitária, guerreira da causa da dor-de-corno armada de guitarra eléctrica. Na sua obra, para além da dureza das seis cordas e das palavras doridas, as raras intromissões de outros instrumentos são normalmente da sua responsabilidade. No seu devir, tem contado com a parceria de Steve Albini, talvez o mais indicado aliado para extrair da sua música toda a crueza pretendida. Com o recente álbum It's Up To Emma foi interrompida esta aliança já de vários anos, ao mesmo tempo que Scout abria a sua música à colaboração de outros músicos. Contrariamente ao esperado, o novo disco - auto-produzido - é talvez o mais pessoal dos seis já editados (esclareça-se que Emma é o nome de baptismo da moça), sem perder pitada da aridez que é característica dos anteriores trabalhos.

Sendo este último registo o mote para o concerto de ontem à noite, Scout Niblett fez questão de se acompanhar de baterista e segundo guitarrista para a reprodução o mais fiel possível do trabalho gravado. A estes juntaram-se, em temas específicos, um violinista e uma violoncelista, concedendo à música da cantautora uma nova riqueza textural. No entanto, a entrada em palco dá-se em solitário, para um par de temas de um passado recente em jeito de acontecimento. Só ao terceiro tema, com a trupe completa, se inicia o desfile dos temas de It's Up To Emma, tocado na íntegra com a excepção da versão de "No Scrubs", original das TLC. O desenrolar dos acontecimentos dá-se em crescendo de envolvimento, com os novos elementos, estranhos à catarse emocional da sua chefe de fila, a potenciarem a força destas canções que encontram local perfeito nas óptimas condições do Maria Matos. A estrela, porém, ainda é Scout Niblett, voz e guitarra, com a dupla acompanhante a limitar-se a participações esparsas, porém determinantes no sublinhar dos clímax de tensão. No ribombar da bateria sublima-se a profundidade da dor, nos desalinhos da guitarra assinala-se uma intenção mal contida de vingança. Nas muitas explosões sónicas é impossível não pensar na eterna comparação (algo injusta, diga-se) à PJ Harvey de outros tempos. Ontem, na sua melhor forma, Scout Niblett teve a seu favor o factor que melhor pode desfazer a colagem: uma evidente herança da folk britânica, por oposição aos arremedos bluesy da outra. O maior trunfo, no entanto, é aquela voz versátil de menina-mulher, ora dorida e delicada, ora erguendo-se com força renovada, quase sempre aguda para combinar com a rispidez da afinação aberta da guitarra. É uma voz que, no desconforto das palavras, que questionamos sejam todas inspiradas em experiências pessoais, chega a comover.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ao vivo #109

















Built to Spill @ Lux Frágil, 04/09/2013

À lista de concertos de sonho cumpridos ainda faltava acrescentar o nome dos Built to Spill. Não que ainda não tivesse havido oportunidade, mas na altura entendi que não estavam reunidas as condições ideais para uma experiência de quase religiosidade. A agradável surpresa, tanto mais nos tempos que correm em que apenas a última modinha inexplicável esgota bilhetes em minutos, é que o público era em bom número, mas ainda assim insuficiente para a imensidão desta banda, uma das poucas que restam impolutas da geração de noventas. Claramente, e porque os Built to Spill são banda de paixões que não se explicam pela divulgação nos media, na audiência escasseavam os curiosos, dando ao concerto um ambiente especial reservado a fieis.

Portanto, a ocasião revestia-se de grande exigência, acrescida pelo facto de se tratar de uma estreia há muito esperada em solo nacional. Mas nada que intimidasse Doug Martsch e seus pares, como é expectável de alguém que já adquiriu o insólito estatuto de guitar hero do universo indie e tem no reportório muitas das canções mais intensamente brilhantes destes últimos vinte anos. Intensidade era precisamente o que se esperava deste autor de temas de uma tristeza e beleza alarmantes, tristes sem dramatismos excessivos, belos sem lamechices, apenas e só a expressão em canção do íntimo de gente vulgar como nós. Com um vasto leque de escolhas só possível a bandas ainda do tempo em que se faziam carreiras, os Built to Spill souberam dosear essa intensidade num engenhoso alinhamento em crescendo de envolvimento banda-público. Para o começo reservaram essencialmente temas dos últimos trabalhos, mais complexos e ricos em variantes texturais, com primazia às longas derivas instrumentais. Portanto, esta foi a fase em que o nasalado à la Neil Young de Martsch teve apenas aparições esporádicas, surgindo a reverência ao mestre canadiano sobretudo nas cavalgadas das guitarras. Quebrado o gelo, com o avanço do concerto, Doug Martsch soltou-se com tiradas de um humor seco, mas fazendo a vontade ao público com várias escolhas dos superlativos discos Perfect From Now On (1997) e Keep It Like A Secret (1999). Nesta fase os arrepios sucederam-se, culminando invariavelmente em aplausos vigorosos e sinceros. Ao todo, com um longo encore incluído, foi mais de uma hora e meia de emoções fortes e mestria instrumental, com direito a dois temas alheios: "Here" dos Pavement e "How Soon Is Now?" dos Smiths. Se o primeiro era mais previsível, foi também mais fiel ao original, enquanto o segundo, que encerrou a contenda, é uma autêntica e inesperada apropriação.

A árdua tarefa de abrir a noite de altas expectativas (cumpridas) coube aos suíços Disco Boom, que souberam aproveitar a presença de um público de feição. Quarteto aparentemente já com alguma rodagem, são uma súmula do mesmo cenário "alternativo" que viu nascer os Built to Spill, deixando ecoar referências de gente como os saudosos Unwound, os  Sonic Youth, ou até os próprios cabeças de cartaz. Porém, cada tema reveste-se de uma imprevisibilidade que confere bastante carisma à banda de Zurique.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ao vivo #108














Julia Holter @ Galeria Zé dos Bois, 23/07/2013

Pelo ambiente circundante, em sintonia com a beleza delicada da música, dificilmente se supera a vivência daquele concerto de Julia Holter há pouco mais de um ano na igreja anglicana de Lisboa. A própria fez questão de o lembrar anteontem, referindo-se-lhe como o mais especial dos concertos da sua (ainda) curta carreira. Para nossa sorte, esta jovem californiana sabe como não profanar as nossas memórias mais gratas, investindo agora numa nova e superlativa abordagem aos temas, executados com tal primor que rapidamente os sentidos se alheam das condições precárias da exígua sala da ZdB em noite de Verão.

Agora com uma banda mais alargada, que integra um violinista, um violoncelista, um baterista, um saxofonista, e a própria nos teclados, Julia Holter, perdeu relativamente ao passado recente, como alguém me dizia, aquela frieza minimalista. Mas, em compensação, as suas canções ganham em humanidade, sublinhando a beleza intrínseca e a da voz da artista, e realçando os inúmeros detalhes das composições fruto de um enorme talento. As referências (Laurie Anderson, Robert Wyatt, David Sylvian, Kate Bush) são ainda visíveis, embora substancialmente mais depuradas numa roupagem que confere maior personalidade, à falta de melhor discrição, uma variante da dream-pop que assimila a música de câmara e o jazz. Provavelmente, será esta a linha condutora do iminente Loud City Song, terceiro álbum que merece especial destaque no alinhamento e que já está a elevá-la a outros patamares mesmo antes de ser editado. Embora desconhecedor destes temas novos, o público, em número considerável, mostra uma receptividade que é correspondida pela interacção de Julia Holter, mais interventiva no falatório do que se supunha. Esta empatia é premiada com o regresso para encore, sem qualquer queixa relativamente à sauna em que o "aquário" da ZdB entretanto se transformou. Terminado o idílio, ao fim de uma hora e pouco, o tal concerto da igreja era já uma memória distante.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Ao vivo #107


















Public Image Ltd. @ Casa da Música, 22/06/2013

Posso estar enganado, mas arrisco afirmar que os principais motivos para a forte afluência de público à Casa da Música terão sido essencialmente dois: a presença da "outra" banda de John Lydon depois dos Sex Pistols, e os hits moderados desses mesmos Public Image Ltd. em meados de oitentas. Isto sem esquecer os preços convidativos dos bilhetes, algo pouco usual por cá. Postas as coisas deste modo, até parece que os PiL não foram formados por Lydon como reacção aos Pistols (e principalmente a Malcolm McLaren), e que o seu principal legado não reside no primeiro par de álbuns, quando Keith Levene e Jah Wobble ainda militavam no colectivo, do mais revolucionário e influente da música popular desde finais de setentas para cá. Repito que posso estar enganado, mas foram impressões que ficaram das conversas alheias  e das reacções do público aos diferentes temas.

Sem o excelso guitarrista de então, assim como sem o baixista que fez nome a solo, Lydon socorre-se de uma formação de membros resgatados às diferentes reencarnações dos PiL. Pelo que vimos no sábado, e principalmente pelo que víramos num destes Primaveras, não se pode dizer que esteja mal acompanhado, já que estes se revelam músicos competentes, embora sem o rasgo de génio dos companheiros originais. Mas não é por isso que deixam de percorrer um alinhamento abrangente, incluindo os temas mais significativos daqueles dois discos essenciais. Os resultados da execução merecem, no entanto, uma apreciação algo dividida. Se num primeiro instante podemos desculpar os PiL do baixo volume do som, não sei se por inépcia do técnico responsável (começa a tornar-se um mau hábito...), se por opção dos senhores xoninhas da CdM, temos de lhes apontar o facto de os temas apresentados soarem demasiado semelhantes entre si. As razões para tal serão duas: os maneirismos vocais de John Lydon, com o habitual efeito da projecção da voz, e o protagonismo dado à pulsão do baixo. Por outro lado, esta última opção tem como ganho o realçar do apelo dançante da música dos PiL, algo que rendeu carreiras de milhões a muita boa gente ligada àquela coisa do neo-post-punk

Ao fim de quase duas de concerto, penso que esta opinião dividida é também a da maior parte do público, pelo menos tendo como fonte mais algumas das conversas acidentalmente ouvidas. Numa noite de dualidades, o próprio John Lydon, principal estrela da companhia, esteve em dois modos: ora com uma cordialidade que o tem caracterizado nos últimos tempos (não sabemos se com algum cinismo à mistura), ora com amostras da aplaudida irascibilidade que era imagem de marca de outrora.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ao vivo #106


Foto: Tonje Thilesen/Pitchfork Media

Primavera Sound 2013 @ Parc del Fòrum - Barcelona, 22-26/05/2013
Optimus Primavera Sound 2013 @ Parque da Cidade - Porto, 30/05-01/06/2013

Se ainda houver alguém desse lado, com certeza não estranhará a longa ausência, já que nas últimas semanas decorreu a temporada dos grandes festivais ibéricos. Este ano, excepcionalmente, a pausa foi preenchida com jornada dupla: primeiro a autêntica maratona na capital da Catalunha, depois a etapa mais modesta, mas igualmente digna de nota, na Cidade Invicta. Não obstante algumas irritações derivadas de algumas opções das respectivas organizações (a progressiva "comercialização" do festival catalão, as questões logísticas no Porto), a dupla edição do Primavera Sound foi, uma vez mais, um autêntico maná para quem gosta de música ao vivo. Nas dezenas de concertos a que assisti houve obviamente desilusões, algumas revelações,  o realizar de alguns sonhos antigos, mas, mais importante que tudo, um número considerável de espectáculos dignos de entrar para o restrito grupo dos "concertos de uma vida". Na falta de tempo para vos descrever cada um em pormenor, deixo-vos com os tops de preferências desta dupla aventura primaveril.

Barcelona:

  1. MY BLOODY VALENTINE
  2. BLUR
  3. BOB MOULD
  4. PARQUET COURTS
  5. DEERHUNTER (em dose dupla)
  6. COME
  7. WU-TANG CLAN
  8. DO MAKE SAY THINK
  9. THE JESUS AND MARY CHAIN
  10. TAME IMPALA
  11. THE BABIES
  12. DEATH GRIPS
  13. KURT VILE & THE VIOLATORS
  14. MERCHANDISE (em dose dupla)
  15. LOS PLANETAS


Porto:

  1. MY BLOODY VALENTINE
  2. BLUR
  3. METZ
  4. LOS PLANETAS
  5. DINOSAUR JR.
  6. SAVAGES
  7. DEERHUNTER
  8. THE BREEDERS
  9. DANIEL JOHNSTON
  10. NEKO CASE