"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
He's a twentieth century boy With his hands on the rails Trying not to be sick again And holding on for tomorrow London ice cracks on a seamless line He's hanging on for dear life So we hold each other tightly And hold on for tomorrow
Quando apareceram, há quase vinte anos, os Blur eram uma banda hesitante entre abraçar o vaga shoegazer da ordem, ou apanhar o comboio baggy já em trajectória descendente. Já no segundo álbum, o menosprezado Modern Life Is Rubish, eliminaram qualquer traço de insegurança, assumindo uma bem marcada identidade que conheceria novos desenvolvimentos no fulgurante Parklife (1994). Ainda longe dos holofotes da fama, é este o primeiro manifesto de Damon Albarn como o Ray Davies para o fim de século, com uma visão saudosista de uma Inglaterra que, a ter existido, desapareceu para sempre. A servir de prenúncio a esse disco de viragem, "For Tomorrow" é a primeira tirada de reflexão sobre a sociedade britânica que conhecemos aos Blur. Sob a capa da melodia irresistivelmente orelhuda e do refrão pejado de la la las esconde-se o sarcasmo contundente que caracteriza muitos dos súbditos de Isabel II. Contrariando o tom de desencanto da canção, o vídeo promocional mostra-nos o de mais idílico resta ainda na gigantesca metrópole londrina.
Algures em meados da década passada, os Blur deram o pior passo de toda a sua carreira: entraram - e perderam - na batalha travada nos media britânicos com a banda do irmãos Gallagher. Lambidas as feridas, a banda renasce em 1997 com um surpreendente álbum homónimo fortemente alinhado nas tendências indie vindas do outro lado do Atlântico, algo que ficará a dever-se à amizade da banda com Stephen Malkmus, líder dos Pavement. Dois anos depois, os Blur apanham novamente desprevenidos os mais incrédulos com 13, afirmação definitiva do quarteto londrino como a única banda inglesa da geração de noventas capaz de se reinventar com renovado interesse. Nada mau para uma banda que nasceu hesitante entre as ondas baggy e shoegazer... Curiosamente, 13 foi concebido num clima marcado por duas cisões importantes no ambiente bluriano: a interrupção da ligação da banda a Stephen Street, o produtor de sempre, e o fim do romance do frontmanDamon Albarn com Justine Frischmann. O primeiro viu o seu o lugar ocupado por William Orbit, indutor da sujidade digital que percorre 13, enquanto Justine é o motivo da profunda melancolia expressa nas palavras e na voz de Albarn. Ainda que, pelos motivos referidos, este seja o disco mais pessoal do vocalista dos Blur, o produtor, inicialmente visto com algum cepticismo pelos seguidores da banda, acaba por ter um papel determinante no resultado final. Será a Orbit que fica a dever-se o alargar de fronteiras, criando um eficaz melting pot de estilos para o qual concorrem alguns truques já nossos conhecidos, mas também muitas novidades no léxico do Blur. Assim, temos canções de comunhão à volta da fogueira com coro gospel incluído("Tender"), a propensão de Graham Coxon para o lo-fi ("Coffe & TV"), um piscar de olho saudosista à infância do grupo ("1992"), ironia embrulhada em descargas punk ("B.L.U.R.E.M.I."), deriva espacial à la Spacemen 3 ("Battle"), nebulosidade trip-hop com vestígios kraut ("Trailerpark" e "Trimm Trabb"), e baladas confessionais de cortar a respiração (o soberbo "No Distance Left To Run"). Para este último tema, seguramente uma das mais bonitas break-up songs de sempre, o dinamarquês Thomas Vinterberg criou um original exercício de intimismo. Ou de voyeurismo, se preferirem...
Tecnicamente, não deveria classificar como dueto um tema em que a participação feminina se resume a uns sussurros em francês. Mas que se lixe o rigor técnico! Qualquer desculpa é válida para postar este belo vídeo ao melhor estilo nouvelle vague, numa descarada homenagem à obra de Alain Resnais. Um ano depois, este mesmo tema conheceria nova versão, com a estrela da chanson Françoise Hardy a tomar o lugar da moça da gravação original.
Depois de um começo com alguma indefinição entre as cenas baggy e shoegazing, os Blur souberam reinventar-se como os dignos recuperadores da cultura mod para o fim de século, tornando-se uma das maiores bandas do Reino Unido. Em 1997, cansados das "guerras" do brit pop alimentadas por uma certa imprensa tablóide, dá-se nova metamorfose no som da banda londrina com a edição do seu álbum homónimo, o quinto na sua carreira. Para a definição da sonoridade daquele que é muitas vezes considerado "o disco americano dos Blur" muito terá contribuído a amizade de Damon Albarn com Stephen Malkmus, líder dos incontornáveis Pavement. Os primeiros sinais dessa mudança, com evidentes aproximações ao som da referida banda ianque, foram logo dados por "Beetlebum", o fulgurante single de avanço para o álbum. Com uma notável performance de Graham Coxon na guitarra e a voz de Damon Albarn a fazer lembrar um Sir Paul dos tempos do White Album, "Beetlebum" teve ainda o condão de pôr os Blur a soar mais Beatles do que os Oasis alguma vez conseguiram. Fazendo justiça à importância histórica de "Beetlebum", os fãs elegeram-no o melhor single de sempre da carreira dos Blur através de uma votação on line realizada no sítio Blur Talk. A título de curiosidade, aqui ficam os "dez mais":
1. Beetlebum 2. The Universal 3. Coffee & TV 4. Popscene 5. For Tomorrow 6. To The End 7. End Of A Century 8. Song 2 9. Tender 10. Chemical World