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30 maio 2011

Prenderam-nos?!


Como é possível?! Então e o direito das minorias às suas tradições?! Cá para mim isto foi mas é uma judiaria qualquer dos sionistas...

"Ucrânia: Jovem muçulmana morta por participar concurso beleza

Uma jovem muçulmana de 19 anos foi apedrejada até à morte por ter participado num concurso de beleza, na Ucrânia, segundo o jornal britânico Daily Mail.

Katya Koren foi encontrada morta, numa vila na região da Crimeia.

Os seus amigos contaram que a rapariga gostava de se vestir com roupas da moda e que tinha ficado em sétimo lugar num concurso de beleza. A sua participação foi considerada como uma ofensa à fé islâmica por três jovens que, em nome da ´sharia`, a lei muçulmana, apedrejaram a rapariga.

Um dos rapazes, Bihal Gaziev, de 16 anos, já foi preso e disse que não se arrepende do assassínio porque a Katya «violou as leis do islão».

O corpo da jovem foi encontrado enterrado numa floresta, perto da sua casa, uma semana após o crime."

E, se calhar, ainda vão ter o descaramento de os condenarem!

16 maio 2011

Isto está cada vez mais...


15 maio 2011

Abobrinha, bin Laden


... e mais não digo (mas, já agora, cliquem também aqui).

08 maio 2011

"Qual, afinal, a legalidade da morte de bin Laden?"


É este o título de um outro texto de Luís Dolhnikoff, que transcrevo neste segundo post de hoje:

1.

Meu pai nasceu em 1932. Próximo de completar 80 anos, parece ter muito menos, e fora um recente susto que afinal não passou de um susto, está perfeitamente saudável, mais ágil do que eu, fisicamente (ele nada com regularidade), e provavelmente mais lúcido. A relevância disto está no fato de que ele chegou à idade adulta em 1950, início da Guerra Fria. E a consequência foi que adotou, então, uma posição político-ideológica clara num mundo claramente polarizado em termos político-ideológicos: tornou-se um “homem de esquerda”, como se dizia. Tornou-se e se manteve. Eu não. Tendo sido (bem)educado por ele, fui, ao contrário, “de esquerda” até chegar à idade adulta. Pois a minha maioridade foi marcada por um evento político-ideológico diferente: a chegada ao poder, em 1979, pela primeira vez na história recente, do islamismo político, através da instauração da teocracia no Irã.

O motivo de a retrovolução iraniana abalar meu esquerdismo juvenil foi que acreditei, nos anos precedentes, no resumo segundo o qual o xá representava o mal, pois ele era aliado dos EUA, o Mal. Obviamente, a posição “oficial” da esquerda afirmava ser contra o xá porque ele era um ditador, mas isso sempre fora um tanto cínico, porque a mesma esquerda apoiava então, com entusiasmo igual ao repúdio pelo xá, as piores ditaduras de esquerda. A questão portanto não era, na verdade, ditadura versus democracia, mesmo porque a esquerda desprezava a democracia “burguesa” (e ainda despreza), mas sim ditaduras boas versus ditaduras ruins. E entre as piores estava a do xá. Daí o grande regozijo quando foi derrubado por uma revolução popular.

Popular e antiamericanista. Popular, antiamericanista... e islâmica. No verdor dos meus 18 anos esquerdistas, achei surpreendente e estranho. Afinal, ser de esquerda, ao menos da esquerda “de verdade”, podia ser resumido em acreditar e esperar que a felicidade da humanidade seria alcançada quando “o último burguês fosse enforcado nas tripas do último padre”. E padre, aqui, era apenas uma metonímia para religioso, não a manifestação de uma “preferência” por sacerdotes católicos, o que não excluía, portanto, as demais religiões. Como explicar, então, a continuidade do entusiasmo pela “revolução” iraniana apesar de afinal liderada por um homem de turbante chamado aiatolá Kohmeini?

Eu ainda não tinha idade bastante para me manifestar com segurança, mas ao menos meu cérebro era suficiente para notar que alguma coisa estava errada. Não demorei a perceber que o fascismo religioso resultante da “revolução” iraniana era “aceitável”, e era “aceitável” porque antiamericanista. Havia, então, além de ditaduras boas e ditaduras más, também fascismos maus e fascismos bons (os antiamericanos)? Fiquei, afinal, tão desconfiado quanto confuso. E voltei à biblioteca. Segundo meu pai, quando reemergi depois de uns poucos anos, era um jovem adulto completamente “de direita”.

É por isso que hoje recebo no meu e-mail os Boletins Carta Maior, com as últimas do site do mesmo nome, ligado à Carta Capital, publicação brasileira de esquerda mais notória. Meu pai me adicionou à lista do site, com a intenção expressa de, mais uma vez, tentar me emendar. Não funcionou. A culpa não é dele se, desde antes de 1979, o pensamento de esquerda não para de descer ladeira abaixo em termos de inteligência, numa queda surpreendente porque, ao contrário de tudo o mais no universo, parece não ter fim.

O mais recente Boletim Carta Maior é dedicado, obviamente, à morte de Bin Laden. Também obviamente, traz os resumos e os links de vários artigos perfeitamente idiotas (com a licença de Vargas Llosa).

São perfeitamente idiotas porque não conseguem ou não tentam mais disfarçar que o único instrumento mental com o qual contam para “compreender” o mundo, e explicar tudo e todos, é tão somente o antiamericanismo. O exemplo mais ridículo da última edição é o do “escritor” paquistanês Tariq Ali, para quem não sabe, um dos atuais heróis intelectuais da esquerda mundial (pensar que esse lugar já foi ocupado por Marx, Gramsci, Lúkacs, deveria ser o bastante para dar a medida da irresistível decadência da esquerda, mas nada é o bastante). Seu título, em todo caso, é suficiente: “O que interessa agora é saber quem denunciou Bin Laden” (http://www.cartamaior.com.br). Sério? E eu que imaginava ser de grande interesse, por exemplo, tentar compreender a situação política interna instável e perigosa do Paquistão, o que poderia explicar tanto as causas quanto as consequências de Bin Laden ter sido encontrado ali, a poucos metros do principal quartel do exército paquistanês. Mesmo porque, entre outras coisas, trata-se de uma equação envolvendo o maior terrorista de massa da história, militares paquistaneses e bombas atômicas (que estes possuem). Nada disso: o que interessa agora é saber quem denunciou Bin Laden. Pois, obviamente, ele foi denunciado. Caso contrário, ter-se-ia de dar crédito à eficiência dos serviços de inteligência norte-americanos. O fato de a frase e o ponto de vista trazerem uma quase indisfarçada simpatia pelo personagem naturalmente não preocupa seu autor. Afinal, tudo o que há para se ocupar e se preocupar é descobrir quem denunciou Bin Laden...

Mas se a desinteligência da esquerda é tão pouco surpreendente quanto a inteligência militar paquistanesa (notoriamente islamista), a posição de analistas menos comprometidos ainda o é. Pois eis que me deparo – e me surpreendo –, em vários sites e em muitos jornais “burgueses”, digo, da “grande imprensa”, com analistas se revelando, em sua grande maioria, idiotas da objetividade.

2.

O resumo é simples: não há por que aceitar e muito menos louvar a morte de Bin Laden, pois ela foi ilegal. Aceitá-la e louvá-la é então louvar e aceitar a ilegalidade, logo, a injustiça. Ao contrário do que afirmou Barak Obama, a justiça foi desservida.

Primeiro, porque se invadiu um país, desrespeitando sua soberania. Segundo, e principalmente, porque a justiça implicaria na captura e no julgamento de Bin Laden, e na sua eventual condenação, e não em sua execução sumária, que não passa, portanto, de um crime, pois um assassinato.

Houve quem se assomasse em super-humanista, ou supercristão, afirmando que não se pode aceitar ou louvar a morte de nenhum ser humano. A maioria, porém, insistiu mesmo em certa objetividade formalista-legalista. A justiça foi desservida. Além do fato em si, abre-se um precedente perigoso... Ou seria: escancara-se mais um presidente (americano) belicoso?

Os argumentos nesse sentido se tornaram mais ousados com o passar dos dias e com as novas notícias, depois das informações iniciais, de que Bin Laden não usou sua mulher como escudo e não estava armado. Portanto, assassinato.

A objetividade idiota de tais argumentos omite, em primeiro lugar, que foram as mesmas fontes do governo norte-americano que forneceram ambas as versões. Pois a esses analistas interessa dar, porque de fato dão, um tom de “armação” para a primeira versão, e de “revelação” para a segunda. Bin laden, “na verdade”, não estava armado. Logo, assassinato.

Mas isso é mentira. Ou seja, que ele não estava armado. Em primeiro lugar, não há uma só imagem do sujeito desarmado, ao longo das duas últimas décadas. Em segundo lugar, estando escondido e fugindo da maior caçada da história, e estando sempre armado, ele obviamente era o tipo do sujeito que dormia com um revólver sob o travesseiro (o ataque foi pouco depois da meia-noite, no horário local). Em terceiro lugar, não apenas havia uma arma na cena como sei inclusive seu tipo e sua marca: uma pistola Makarov de fabricação russa. E o sei pelas mesmas fontes que os tais analistas idiotamente objetivos usam para “suspeitar” de quem querem suspeitar: o governo norte-americano. Basta ler os informes com certa atenção – e alguma honestidade. Ora, se até a marca da pistola que ele tentou alcançar durante a investida dos marines foi divulgada, como usar parcialmente (e portanto de forma inteiramente desonesta) tais informações para afirmar que se tratou de um assassinato, pois ele “não estava armado”? Não estava, como divulgaram os próprios norte-americanos. Mas apenas porque sua pistola Makarov não estava afinal sob o travesseiro, mas em um móvel qualquer.

Havia dezenas de pessoas no complexo habitacional de Bin Laden, incluindo muitas mulheres (o sujeito era polígamo) e muitas crianças. Todas estão vivas e inteiras. A tal mulher que Bin Laden teria usado como escudo afinal se lançara sobre ele para protegê-lo, e foi por isso acuradamente atingida na perna por um soldado americano, recebendo, portanto, um tiro não-letal. Enfim, está viva como a quase totalidade das pessoas na casa. Uma análise realmente objetiva conclui, então, que não houve nenhuma fuzilaria. Na verdade, apenas quatro pessoas foram mortas, e todas eram homens adultos: Bin Laden, um de seus filhos e dois mensageiros-guarda-costas. Imaginar que esses homens não tenham resistido ou tentado resistir aos marines é na verdade mais do que idiota: é ridículo, risível, estúpido e a soma de tudo isso.

Mas então de onde vem toda essa confusão? Meus instintos de ex-esquerdista e ex-antimericanista treinado e devotado me dizem que grande parte dos analistas da “grande imprensa” também é, assim como seus colegas oficialmente de esquerda, devidamente antiamericanista, anti-imperialista etc., porém se apresenta travestida de humanista, legalista e objetivista. Talvez não se apresente apenas, mas acredite realmente nisso. A autoilusão, porém, não é mais verdadeira do que a mitomania.

Eu deveria, agora, demonstrar por que o objetivismo legalista de tais analistas (com o perdão da rima) é na verdade idiota, não sendo, portanto, de fato nem objetivista nem legalista. Mas me poupo de fazê-lo, e poupo assim o leitor de ler-me, não por preguiça, muito menos por falta de argumentos, mas porque os melhores argumentos sobre isso foram há pouco redigidos e publicados por um profissional, Jon Silverman, professor de Justiça Criminal da Universidade de Bedfordshire. Seu artigo se intitula simplesmente: “Osama Bin Laden deveria ter sido julgado?”, e pode ser lido em http://noticias.uol.com.br/bbc/2011/05/05/analise-osama-bin-laden-deveria-ter-sido-julgado.jhtm. Os verdadeiros motivos por que Bin Laden não poderia ser julgado, na prática, ou seja, na realidade, estão todos ali. Quem não o ler, é porque não está interessado nos fatos, mas nos (próprios) argumentos. Concluo, então, com duas citações. José Mindlin: “Contra argumentos, não há fatos”. T. S. Eliot: “After such knowledge, what forgiviness?”.


Noutro registo, leia-se ainda este texto publicado no Fiel Inimigo.

03 maio 2011

Uma outra abordagem da morte de Bin Laden

Osama Bin Laden, em 1998


... a de Luís Dolhnikoff:


QUAL, AFINAL, O SIGNIFICADO DA MORTE DE BIN LADEN?


1. A morte do líder e a vitalidade do movimento

A pergunta relevante sobre a morte do terrorista saudita Osama bin Laden, fundador e líder da rede Al Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001, é a do título: qual o seu real significado? Porém é impossível compreendê-lo sem compreender o que significava a própria atuação de Bin Laden.

Osama bin Laden não era um lobo – muito menos um louco – solitário. Tampouco liderava um bando amalucado de renegados do islã. Toda a sua atuação tem um contexto histórico compreensível. Este não é, porém, a revolta desesperada dos desesperados do mundo contra a agressão imperialista ocidental.

Em primeiro lugar, seu grupo não é único. Existem inúmeros grupos terroristas islâmicos. Uma lista breve inclui a Jihad Islâmica egípcia, o Grupo Combatente Islâmico Líbio, o Exército Islâmico do Iêmen, o Jamaat al Tawhid wal Jihad iraquiano, o Lashkar-Taiba e o Jaish-e-Muhammad da Cachemira, o Movimento Islâmico do Uzbequistão, a Al Qaeda do Magreb Islâmico, o Grupo Armado Islâmico (GIA) da Argélia, o grupo Abu Sayaf das Filipinas e a Jemaah Islamiya do sudeste asiático. Mas talvez o mais importante seja que tais grupos ainda não oferecem o quadro geral.

Pois eles compartilham, se não o método do terrorismo, a ideologia e o objetivo estratégico com outros grupos, justamente, não-terroristas. Esses outros grupos são, na verdade, movimentos políticos de massa – dos quais o mais conhecido é a Irmandade Muçulmana. Mas incluem, também, o Hezbollah libanês e o Hamas palestino (que imediatamente lamentou a morte de Bin Laden e o declarou um grande mártir do causa islâmica).

Para compreender a morte de Bin Laden é preciso, então, compreender não apenas a origem dos grupos terroristas islâmicos, mas igualmente sua contraparte, os movimentos islâmicos de massa.

2. Dando nomes aos bois (ou melhor, aos touros)

Os movimentos islâmicos de massa tiveram sua aparição mais dramática na história recente em 1979, no Irã, em sua versão xiita, com a tomada do poder por uma revolução popular contra a ditadura do xá. Modelo que se teme, com razão, poder reermergir agora no mundo árabe sunita: revoltas populares contra autocracias corruptas derrubam o governo que, em seguida, por golpe ou por eleição, é tomado por grupos que instauram a teocracia islâmica.

Eis o contexto histórico e ideológico para a compreensão da atuação e, portanto, da morte de Bin Laden: o movimento internacional pela teocracia islâmica, atuante com mais ou menos força em todos os países muçulmanos. E mal conhecido e pior nomeado como terrorismo islâmico, jihadismo ou fundamentalismo.

O movimento internacional pela teocracia islâmica, que pode ser resumido como movimento islamista internacional (notar que islamista não é igual a islâmico ou a muçulmano), não se confunde com o terrorismo islâmico. Primeiro, porque este é somente um método – o objetivo estratégico ou político é a instauração da teocracia. Além disso, o terrorismo é o método de apenas parte dos grupos que lutam e/ou atuam pela instauração da teocracia islâmica – que incluem, como dito, também movimentos ou partidos de massa.

O movimento islamista internacional tampouco pode ser chamado de jihadista. Porque a jihad, ou guerra santa, isto é, a guerra de muçulmanos contra “infiéis”, é um conceito religioso islâmico histórico e geral. É utilizado por grupos terroristas islâmicos, mas não os define (o que os define é o uso o terrorismo como método na luta pela teocracia islâmica).

Por fim, nem os grupos terroristas nem os movimentos de massa podem ser ditos fundamentalistas.

O termo fundamentalismo surgiu nos EUA, no início do século XX, para se referir a grupos protestantes que decidiram reagir ao criticismo bíblico, ou seja, às análises históricas, teológicas, sociológicas, linguísticas etc., de que a Bíblia se tornara objeto no Ocidente desde o século XIX. A essa transformação da Bíblia em literatura e em tema acadêmico, e em reação paralela à modernidade em geral e ao evolucionismo darwiniano em particular, grupos protestantes americanos pretenderam voltar aos fundamentos de uma sociedade cristã, tendo por “mapa do caminho” os Evangelhos. Seu método seria então a leitura literal das Escrituras. Isso nada tem a ver com o islã. Ou com o judaísmo.

Judeus ortodoxos são judeus ortodoxos, não “fundamentalistas”. E nenhum muçulmano é ou pode ser fundamentalista. Pois, neste caso, todos os muçulmanos do mundo, cerca de 1,5 bilhão de pessoas, seriam fundamentalistas: a leitura literal do Corão é a norma teológica do islã desde sempre. As escolas corânicas, as madrassas, baseiam-se na leitura e releitura direta até que o aluno memorize partes crescentes do Corão.

O islã como ideologia política não é, portanto, “fundamentalista”. Pois tampouco se trata de voltar aos fundamentos de um modo vida islâmico em seu sentido confessional ou religioso, mas sim de um projeto de poder, de uma ideologia. O objetivo do islã político é, como dito, a instauração da teocracia islâmica (a adoção de um modo de vida islâmico, portanto, não é na verdade seu objetivo, mas uma de suas consequências).

A mídia ocidental e a preguiça intelectual consagraram os termos fundamentalismo e fundamentalista para se referir a qualquer coisa que cheire a ortodoxia religiosa, sem poupar, naturalmente, a islamismo político. O atual movimento político islâmico internacional, que tem como objetivo a instauração de teocracias nos vários países islâmicos, é na verdade muito mais semelhante ao movimento comunista do que ao fundamentalismo cristão.

3. O nascimento da revolução islâmica mundial

O comunismo como ideologia e projeto de poder nasceu, grosso modo, em 1848, com as revoltas trabalhistas que varreram então a Europa, com o lançamento do Manifesto Comunista por Marx e Engels e com a fundação da Internacional Comunista. O antecedente islâmico equivalente é a fundação da Irmandade Muçulmana nos anos 1920, no Egito e na Turquia, visando restabelecer o Califado, ou império islâmico, depois da derrota e da derrocada do Império Otomano. O Marx do islamismo foi Hassan Banna, fundador e primeiro teórico da Irmandade Muçulmana, e seu Lênin, Sayyd Qutb, seu sucessor e defensor de uma moderna jihad em várias frentes e de vários modos contra a modernidade, o Ocidente e os EUA.

A primeira grande derrota dos islamistas se deu já nos 1920, na Turquia, onde Kemal Ataturk, o criador da República Turca dos escombros do Império Otomano, emergiu como um déspota esclarecido, erguendo um Estado oficialmente laico e, dentro do possível, moderno, ao mesmo tempo em que, por isso mesmo, combatia não apenas os grupos islamistas, mas as próprias instituições e práticas culturais islâmicas.

Em seguida, durante boa parte do século XX, o movimento islamista sofreria a concorrência de grupos nacionalistas árabes e dos próprios comunistas árabes, que após o fim dos impérios otomano e europeus, e com o surgimento de novos países árabes independentes nas ex-colônias, defenderam a modernização como caminho para a estruturação e o fortalecimento desses novos Estados. Na prática, os grupos nacionalistas, ao tomarem o poder, como regra por golpes militares, degeneraram em ditaduras autocráticas, enquanto os comunistas foram encampados ou eliminados por nacionalistas “de esquerda” que, por sua vez, ao tomarem o poder, como regra por golpes militares, degeneraram em ditaduras autocráticas... Os islamistas não desaparecerem, mas perderam seu ímpeto inicial e se tornaram oposição a essas novas autocracias árabes, cujo discurso não era “islâmico”, mas “modernizante”, e cuja prática era oligárquica, afastando os demais grupos – incluindo os comunistas e os islamistas – do poder.

4. O renascimento da revolução islâmica mundial

Assim como o chamado comunismo internacional teria sua primeira grande vitória na Revolução Russa de 1917, o movimento islamita internacional teve sua primeira vitória importante na Revolução Iraniana de 1979. O déspota esclarecido do Irã, o xá Reza Pahlevi, que tentava modernizar o país enquanto combatia toda oposição política, incluindo nacionalistas, comunistas e islamistas, foi derrubado por uma revolução popular – que sofreu então uma “revolução” dentro da revolução, liderada pelo clero xiita e pelo aiatolá Kohmeini. Sua retrovolução seria a primeira vitória da teocracia islâmica no mundo contemporâneo. Fruto de um movimento de massa, a retrovolução teocrática iraniana tinha a particularidade de se dar em um país xiita, enquanto a maioria dos muçulmanos é sunita.

No mesmo ano de 1979, porém, a URSS invadiria o Afeganistão, país sunita que tinha então no poder um “despotismo esclarecido” de esquerda, liderado pelo Partido Comunista local com apoio dos soviéticos. Foi a ameaça a esse governo comunista afegão representada, mais uma vez, por grupos nacionalistas e islamistas, que levou à invasão soviética.

Essa invasão por uma potência estrangeira serviu não apenas para agrupar e fortalecer a oposição ao governo comunista afegão, mas também para atrair jovens muçulmanos de todo o mundo, já exaltados pela Revolução Iraniana, para uma nova jihad. Pois o invasor era uma “potência ateia”, porque comunista. Um dos que iriam lutar no Afeganistão seria o jovem milionário saudita Osama bin Laden.

A derrota da URSS em 1989 não levou, porém, nenhum grupo afegão ao poder, mas o país à guerra civil, após a saída das tropas soviéticas. A guerra civil afegã seria vencida pelo grupo islamista Taleban em 1996, resultando na instalação de uma nova teocracia islâmica, desta vez sunita.

O que se seguiu foi uma cadeia de eventos maior e mais imprevisível do que qualquer islamista poderia imaginar em seus sonhos mais loucos.

Em parte, ao menos, pelos grandes gastos militares com a invasão do Afeganistão e a guerra subsequente de dez anos (o “Vietnã” dos soviéticos), e em parte pelo desprestígio internacional e os problemas políticos de sua derrota (além de todos seus problemas econômicos e estruturais), a URSS acabaria entrando em colapso logo após a retirada do Afeganistão. O fim da URSS, o “império ateu”, foi então interpretado pelos islamistas de todo o mundo como uma consequência direta de sua derrota para os islamistas afegãos.

Isso daria uma nova força e também um novo sentido para a Al Qaeda, criada durante a guerra civil afegã. Pois a libertação do Afeganistão das tropas soviéticas e a instauração ali da teocracia islâmica, em vez de serem vistas como um fim, a partir da queda da URSS foram vistas como um início. Se uma superpotência, como se dizia à época, podia ser derrotada – e afinal destruída – pelos islamistas, então a outra superpotência, os EUA, também poderia. Em termos ideológicos, os EUA eram tão “ateus”, ou seja, materialistas e “infiéis” quanto a URSS; em termos políticos, apoiavam boa parte das autocracias árabes que combatiam os islamistas locais.

5. Questão de método

Mas se o combate à URSS fora pela guerra de guerrilha contra as tropas soviéticas em solo afegão, a luta contra os EUA não poderia sê-lo, pela inexistência, então, de tropas americanas atuando em qualquer Estado muçulmano. O caminho alternativo foi o terror em larga escala, o terror de massa, o terror midiático e internacional, a fim de enfraquecer o inimigo em termos estratégicos, e o forçarem a abandonar seus aliados árabes, em termos políticos imediatos, abrindo caminho para que os movimentos islamistas nacionais, como a Irmandade Muçulmana, instaurassem a teocracia (não por acaso, o número dois da Al Qaeda, o egípcio Ayman Al Zawahiri, que deve agora suceder Bin Laden, era antes um membro destacado da Jihad egípcia, próxima da Irmandade Muçulmana).

Isso demonstra outra semelhança com o antigo revolucionarismo comunista. Além de este também ter se dividido, quanto ao método, em grupos de “vanguarda” e em partidos de massa, se dividira quanto às fronteiras de atuação: os partidos comunistas atuavam dentro de limites nacionais, os grupos de “vanguarda” agiam transnacionalmente.

Como as Brigadas Vermelhas italianas, o grupo alemão Baader-Meinhof (na verdade, Fração do Exército Vermelho), o Exército Vermelho japonês, a Frente de Libertação da Palestina etc. se uniram nos anos 1970 numa espécie de internacional terrorista de esquerda, atacando tanto alvos nacionais nos respectivos países como alvos ocidentais, americanos e judaico-israelenses em todo o mundo, vários grupos islamistas se uniriam nos anos 1990 sob inspiração e orientação da Al Qaeda e de Osama bin Laden, numa internacional do terror islâmico. Osama bin Laden tornou-se assim o grande líder da corrente que pretendia “exportar a revolução” teocrática mundial – e, neste sentido, a comparação com um Che Guevara islâmico, feita por alguns analistas em função de seu carisma e popularidade entre jovens muçulmanos, é politicamente correta.

Por falar em popularidade, houve um contraste gritante, no mundo muçulmano, entre os dias 11 de setembro de 2001 e 1º de maio de 2011. Na primeira data, inúmeras manifestações de rua saudaram os atentados terroristas e a figura de Osama bin Laden. Na segunda data, a de sua morte, um enorme silêncio emergiu dos países islâmicos.

6. Porque numa fortaleza paquistanesa – e não numa caverna afegã

Osama bin Laden foi localizado e morto (antes tarde do que nunca) próximo a Islamabad, a capital paquistanesa. E ainda mais próximo de uma instalação militar na localidade de Abottabad. Por fim, não em um cortiço obscuro qualquer, mas numa espécie de grande fortaleza residencial. Não é difícil entender por quê.

Ele era protegido pelo governo paquistanês. Se não por todo o governo paquistanês, por seu aparato militar e de inteligência. O que significa um governo paquistanês dividido, fraturado. Assim como a sociedade paquistanesa.

Há uma diminuta classe média e uma ainda menor elite empresarial e política que gostariam de ver o Paquistão como uma democracia moderna. Porém uma parte importante da cultura política paquistanesa vê o mundo por lentes islâmicas. Ela é hoje dominante no aparato militar e de inteligência.

O próprio Paquistão, no mesmo contexto histórico de emergência do islamismo político moderno, foi concebido e criado por um partido islâmico indiano, a Liga Muçulmana, que em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, nos primórdios do que viria a ser o movimento pela independência da Índia, adotou, contra a vontade de Gandhi, a doutrina dos Dois Estados, ou seja, a divisão da Índia em um Estado hindu e um islâmico, nas áreas de maioria muçulmana. A divisão se efetivaria em 1947, quando da independência da Índia, com a partição do país não em dois, mas em três Estados: o Paquistão Ocidental (atual Paquistão), a Índia e o Paquistão Oriental (Bangladesh). Paquistão significa “terra dos puros” (ou “dos fiéis”), e Islamabad, sua capital, Cidade do Islã.

Além de razões históricas e ideológicas, a comunidade militar e de inteligência paquistanesa é islamista por dois motivos geopolíticos. Primeiro, ela usa a causa islamista para manter tensa a situação na Cachemira indiana, com sua maioria muçulmana, e assim tentar enfraquecer a Índia perante a reivindicação paquistanesa sobre esse território indiano, cuja razão é religiosa. Segundo, a comunidade militar e de inteligência paquistanesa vê o Afeganistão como uma aérea de recuo estratégico. A geografia explica. O Paquistão é uma tira de terra espremida entre a Índia e o Afeganistão. Numa eventual invasão indiana, em função da disputa pela Cachemira, o exército paquistanês, menor que o indiano, acredita precisar, na retaguarda, de um governo aliado no Afeganistão, a fim de garantir um recuo para além de suas fronteiras, e permitir um contra-ataque. E um governo afegão cativamente aliado é concebido pelo viés religioso (não por acaso, o Taleban foi criado, durante a guerra civil afegã, por exilados afegãos em território paquistanês, com o apoio da inteligência paquistanesa).

O Paquistão tem bombas nucleares e mísseis funcionais. A descoberta de que um assassino de massa como Bin Laden estava ali protegido por sua comunidade militar comprovaria todas as suspeitas sobre a divisão do governo paquistanês. E sobre a simpatia de alguns de seus setores pelo terror islâmico.

As acusações que fatalmente virão da comunidade e da opinião pública internacionais pela conivência paquistanesa – ainda que parcial – com a Al Qaeda aumentarão as tensões dentro do próprio establishment paquistanês. O problema é que tal aumento de tensão pode, no limite, desestabilizar o governo, e resultar na transformação do Paquistão em uma teocracia islâmica. E nuclear.

7. Consequências

Haverá ataques da Al Qaeda e de grupos aparentados, de várias magnitudes e em várias partes do mundo, em retaliação pela morte de Bin Laden. Além da vingança, eles precisam demonstrar que ainda estão vivos.

O governo paquistanês será tratado com ainda mais desconfiança no cenário mundial, e as suas tensões internas crescerão. Inclusive porque a Al Qaeda também deve atacar no próprio Paquistão, como vingança pela proteção ineficaz.

As atuais revoltas árabes não deverão sofrer impacto. Os movimentos islamistas de massa locais continuarão com seu objetivo de tomar o poder e instaurar a teocracia islâmica, mas o momento dependerá da correlação de forças. Em todo caso, ao contrário de Bin Laden e dos grupos terroristas, eles não têm pressa. Pois têm certeza do resultado final.

01 maio 2011

Intifada, intifada, intifada!


Ainda às voltas com circunstâncias de grande imprevisibilidade futura, dou de novo a palavra a Luís Dolhnikoff:

PREPARANDO A TERCEIRA INTIFADA

Por um momento, hesitei se deveria pôr a palavra intifada em itálico no título. Depois, decidi deixá-la em redondo. Porque a palavra, de certo modo, tornou-se internacional, e se é internacional, também faz parte do português. Além disso, todos sabem do que se trata: revolta popular palestina contra Israel.

Já houve duas, sem que as lideranças palestinas soubessem capitalizar sua força para fazer avançar, não apenas o processo de paz com Israel, mas seu próprio processo político interno, de que também depende, afinal, o primeiro. Agora, uma terceira intifada está a caminho. A previsão para por aqui. Não inclui, portanto, suas consequências.

A terceira e nascente intifada palestina não pode ser prevista por qualquer incipiente movimentação popular nos territórios, como a ocupação de alguma praça, ao estilo das atuais revoltas árabes. Há um intrigante silêncio popular nos territórios palestinos. A previsão de uma terceira intifada vem, portanto, de estranhos movimentos da cúpula política palestina. Pois tais movimentos não fazem nenhum sentido sem a sombra de uma nova intifada crescendo por trás deles.

Seu fato mais importante foi o anúncio-surpresa de um acordo político entre o Hamas, que governa Gaza, e o Fatah, que governa a Cisjordânia, recém anunciado no Cairo – cidade onde foi costurado em surdina. Mas acordo sobre o quê? E por que agora?

A primeira pergunta não tem resposta, porque se trata de um acordo sobre nada, no sentido de que nenhuma posição política nova o justifica. Não houve renovação nos velhos, ineptos e corruptos quadros do Fatah, nem alteração nas posições doutrinárias do Hamas, que segue se recusando a renunciar ao terrorismo, a aceitar os acordos já assinados com Israel e a reconhecer Israel. O acordo ora anunciado se resume, assim, à libertação dos respectivas presos políticos, à formação de um governo interino unificado e ao anúncio de futuras eleições gerais. Resta saber por que agora.

Simplesmente, porque ambos sabem que mesmo a paciência da população palestina, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, tem limites. E esses limites estão dia a dia sendo estreitados pelo exemplo das revoltas árabes na vizinhança contra os governos locais.

Outra consequência das atuais revoltas árabes é, portanto, a lição de que usar o espantalho do inimigo externo já não funciona. Não porque Israel não seja um inimigo externo verdadeiro, no caso palestino. Mas porque nem todas as mazelas palestinas vêm de fora.

Em Gaza, paradoxalmente, tudo piorou desde a saída dos colonos e do exército de Israel e a vitória eleitoral do Hamas sem que ele renunciasse ao terrorismo, do que adveio a rejeição internacional à sua eleição e o cerco a que Gaza está submetida desde então. Na Cisjordânia, a corrupção e a inépcia da Autoridade Palestina, liderada pelo Fatah, somam-se à presença das colônias e dos bloqueios israelenses para tornar a vida cotidiana perfeitamente insuportável. A revolta popular palestina, portanto, virá.

Preparando-se para ela, o Hamas quer aumentar sua credibilidade. Daí aproximar-se do Fatah. O Fatah, por sua vez, quer incrementar sua popularidade. Daí aproximar-se do Hamas. Ambos reagem, assim, aos rearranjos e incógnitas no mundo árabe, em um movimento preventivo e defensivo. Se o Fatah perdeu o apoio do Egito de Mubarak, o Hamas agora prevê perder o suporte da Síria de Assad.

Mas há algo ainda “melhor” do que o abraço oportunista em si. Juntos, e apenas juntos, os dois grupos podem pretender declarar unilateralmente a criação de um Estado palestino – ou seja, sem conseguir chegar a um acordo com Israel – e ter alguma chance de um reconhecimento internacional significativo. E é isso, na verdade, o que se prepara.

Não porque as lideranças palestinas vejam qualquer realismo nisso. Mas porque o que seu realismo lhes aponta é a inevitabilidade de uma revolta palestina no curto prazo. Sua dúvida, então, é saber se ela será uma terceira intifada, ou seja, outra revolta contra Israel, ou algo novo, seguindo diretamente as atuais revoltas árabes: uma revolta popular palestina contra as ineptas, corruptas e inúteis lideranças palestinas.

Por isso o próximo movimento dos dois grupos recém “unificados” deverá ser o anúncio unilateral da “criação” de um Estado palestino. Porque isso será frustrado e frustrante. Ou será frustrado por um insuficiente apoio internacional, ou será frustrante por causa do suficiente apoio internacional, impotente, porém, para se impor no terreno. Em qualquer caso, a revolta palestina será então dirigida para e contra Israel.

Israel, por seu lado, não terá alternativa senão recusar qualquer nova negociação, pois necessariamente o “novo Estado” será anunciado tendo por fronteiras aquelas de 1967. Uma demanda histórica e ideológica palestina, mas, mais uma vez, não realista geopoliticamente, em função da impossibilidade de remoção das maiores colônias judaicas hoje na Cisjordânia, com centenas de milhares de habitantes. Quem faria tal remoção? O exército de Israel? Talvez os terroristas do Hamas? Ou será que os colonos sairão por conta própria? Mas se a proposta não é realista, não é verdadeira, ou seja: apesar dos idiotas úteis que a repetem ao redor do mundo, as lideranças palestinas sabem de sua impossibilidade, e apenas insistirão nela, então, porque não se trata do que parece.

Tanto a súbita “união” dos dois principais grupos palestinos como a provável declaração próxima da “independência” palestina não visa a resolver politicamente os problemas palestinos, mas a resolver politicamente os problemas das lideranças palestinas. Outra única previsão possível, ou provável, é então o aumento do derramamento – inútil – de sangue.

26 abril 2011

"Síria para idiotas"


Um problema de saúde de um familiar próximo tem-se reflectido na minha disponibilidade para vir até aqui. Espero retomar o ritmo dentro desta semana. Mas, até lá, deixo um novo texto que me foi enviado por Luís Dolhnikoff:

SÍRIA PARA IDIOTAS

1.

Mário Vargas Llosa, se não me engano, criou outrora, se não me engano novamente, a expressão “perfeito idiota latino-americano” para se referir, bem, a um perfeito idiota latino-americano. Existem sujeitos perfeitamente idiotas em outras paragens, obviamente. Mas o perfeito idiota alheio não é perfeitamente igual ao perfeito idiota local. Este tem algumas particularidades, por exemplo, ser “de esquerda”, o que por aqui significa, como regra, se posicionar de maneira perfeitamente idiota, a partir de argumentos idealmente idiotas, sobre tudo aquilo sobre o qual se posiciona. Se idiotas não pensam bem, idiotas perfeitos pensam muito mal. Já o perfeito idiota latino-americano pensa perfeitamente mal.

Faço essa pequena digressão inicial para retomar a discussão sobre as atuais revoltas árabes, depois das manifestações perfeitamente idiotas de muitos luminares da esquerda latino-americana sobre a ajuda militar da OTAN aos rebeldes líbios, e antes de discutir a possível ajuda aos rebeldes sírios.

O líder supremo dos idiotas latino-americanos, Fidel Castro, assim que começaram os protestos na Líbia, ou seja, antes de a ONU votar a ajuda aos rebeldes, prenunciou e anunciou que não havia revolta na Líbia, mas uma manobra de propaganda das potências ocidentais a fim de preparar a invasão do país pela OTAN. E não é que, pouco depois, forças da OTAN começaram a bombardear a Líbia? Logo, Fidel estava certo... Ao menos segundo outros perfeitos idiotas latino-americanos, como Hugo Cháves.

A realidade, obviamente, é diferente, apesar das aparências. Todo mundo, incluindo os países da Liga Árabe e da União Africana, pediu alguma ação militar para proteger os civis líbios das forças de Kadafi, a começar de uma zona de exclusão aérea.

Quando essa hipótese se tornou uma resolução da ONU, os fatos e as discussões haviam avançado no sentido de constatar que Kadafi não fazia uso apenas de aviões para bombardear os civis, mas também de artilharia de terra. Logo, a exclusão aérea, impedindo a aviação militar de Kadafi de decolar, não impediria os massacres, pois não impediria a artilharia de terra de atirar. E como a zona de exclusão aérea implicaria na utilização de aviação militar, fazia mais sentido aprovar uma resolução mais abrangente, que incluísse o bombardeio das forças de terra de Kadafi. Isso foi feito. Foi também quando recomeçou a gritaria dos perfeitos idiotas latino-americanos, incluindo muitos representantes do governo brasileiro, de que se queria promover a “troca de governo” etc., para não falar de argumentos ainda mais perfeitamente idiotas. Por exemplo: no Bahrein havia igualmente repressão, mas não havia bombardeio da OTAN. Corolário: já que o governo do Bahrein “podia” matar barenitas, o governo líbio também deveria poder matar líbios...

Eis que emerge o caso sírio. Os perfeitos idiotas latino-americanos estão no momento cheios de dúvidas perfeitamente idiotas, pois é difícil negar que o governo sírio esteja massacrando sua população. As cobranças por uma ação à maneira Líbia já começam a aparecer na imprensa mundial. Se se intervém para tentar proteger os rebeldes líbios, por que não os sírios? Um homem (e mesmo uma mulher) “de esquerda” deveria apoiar uma possível intervenção, ou deve considerá-la uma ação neocolonialista? Neste caso, os mortos sírios são todos falsos, artefatos da propaganda ocidental, como clama o governo sírio, ou pró-ocidentais que devem mesmo ser coibidos pelo governo sírio, glorioso inimigo de Israel e não menos glorioso aliado do “resistente” Irã, para não falar dos gloriosos grupos da “resistência” palestina, como o Hamas?

É tudo complicado demais até para mentes imperfeitamente idiotas.

Mas ouso tentar ajudar. Não porque eu não seja idiota, mas porque não consigo ser perfeito em nada, o que inclui minha possível ou provável idiotia.

2.

A Síria é governada por um partido-irmão do falecido partido do falecido líder iraquiano, Saddam Hussein. Trata-se do velho Baath. O Baath não tem quaisquer credenciais democráticas, mas isso não tiraria o sono de ninguém que seja espertamente “de esquerda”. Portanto, pretendo discutir aqui outro aspecto da ditadura síria.

Pois ela tem um caráter duplo. De um lado, se baseia numa estrutura de partido único terceiro-mundista, ou seja, numa oligarquia corrupta apoiada num imenso aparato de segurança e na opressão política. Mas por outro lado, ela sobrepõe a isso o fato de ser também sectária. Pois o aparato do partido único, assim como o de segurança, para não falar dos principais mecanismos econômicos, no caso sírio estão concentrados nas mãos de uma minoria religiosa, os alauítas, que não passam de uma seita xiita. Em suma, a Síria é um grande e poderoso país árabe sunita governado despoticamente pela minoria xiita.

A queda do governo de Bashar Assad, portanto, implicaria na queda da minoria alauíta-xiita, e na subida ao poder da maioria sunita. As consequências podem ser resumidas em duas palavras: guerra civil.

Mas não uma guerra civil “qualquer”, como a atual que empata a Líbia. Pois a Síria não é a Líbia.

A Síria, ao lado da Arábia Saudita, é o principal país árabe e sunita, em termos históricos, o país onde fica uma das mais importantes cidades sunitas e árabes depois da própria Meca e de Bagdá, Damasco. Por isso, a Síria sempre esteve no centro das preocupações dos fundamentalistas islâmicos. Como escrevi há pouco, em fevereiro de 1982, o exército sírio cercou com tanques a pequena cidade de Hama, selando-a, enquanto a aviação pulverizava tudo e todos que ali se encontravam, de casas a cães e bebês, passando por homens, mulheres e crianças. Foi o (anti)clímax de uma revolta islâmica liderada pela Irmandade Muçulmana síria, iniciada em 1976. Os números de mortos variam entre 10 mil e 30 mil, com algumas estimativas chegando a falar em 80 mil. O que não se discute é ter sido o evento de Hama o maior massacre pontual praticado por um governo árabe contra seu próprio povo na história recente.

Afinando porém a última afirmação, tratou-se de um massacre sunita praticado por um governo xiita. Isso apenas exemplifica o que aconteceria com a minoria xiita caso perdesse agora o poder: ser alvo dos mesmos métodos que usou nas últimas décadas contra a maioria sunita, com o tempero adicional de ser objeto de sua vingança.

Mas uma leitura atenta desse episódio também aponta para a força do fundamentalismo religioso na população e na política sírias. Pois essa grande revolta liderada pela Irmandade Muçulmana síria foi anterior mesmo à retrovolução iraniana contra o xá, em 1979, que para todos os efeitos inaugurou o renascimento contemporâneo do islã político.

Portanto, no caso sírio, o fundamentalismo islâmico não é um mero fantasma empunhado pelo governo tirânico com apoio ocidental para se manter no poder. Em primeiro lugar, o governo não tem nenhum apoio ocidental. E jamais teve. Em segundo lugar, esses fantasmas fundamentalistas sírios estão bem vivos. Apesar de todos os esforços do governo para espantá-los.

Para complicar um pouco mais, a Síria está em estado de guerra oficial com Israel desde 1967, por causa do contencioso fronteiriço das colinas de Golã.

Para complicar ainda mais, a Síria é o grande patrocinador, ao lado do Irã, do Hezbollah libanês. E como o aumento da instabilidade política na Síria redundará fatalmente no aumento (!) da instabilidade política no Líbano, encurtar-se-ia o caminho para o partido-milícia-grupo-terrorista xiita Hezbollah tomar o poder. Entre outros inúmeros motivos, para tentar ajudar os irmãos xiitas sírios na guerra civil que então se desenrolaria ali ao lado.

Pergunto então ao perfeitos idiotas latino-americanos de plantão o que se deve fazer: acusar o Ocidente de omissão, por permitir o massacre da oposição síria, ou acusar o Ocidente de pretender derrubar o governo antiocidental e anti-israelense sírio com a desculpa de proteger a oposição síria?

De qualquer forma, enquanto a oposição síria não for contida pela opressão do governo sírio, ela não deve recuar. Neste caso, a instabilidade síria irá aumentar de qualquer maneira. E, no limite, isso significará a queda do governo sírio.

Porém a queda do governo sírio significará a queda dos xiitas sírios e a ascensão dos sunitas. Sunitas que, no caso sírio, são historicamente mais fundamentalistas do que os xiitas...

Respondo então a parte das dúvidas dos perfeitos idiotas latino-americanos: podem ficar tranquilos, o Ocidente não intervirá na Síria. Nem o Ocidente nem ninguém. Pois se a situação síria é cada vez mais menos sustentável, nenhum cenário resultante é aceitável. A Síria é o próprio pesadelo da história de que falava Joyce: um do qual não se desperta, e que se vive à luz do dia. Um dia que ainda pode escurecer bastante, apesar de estação “primaveril” atualmente em curso no mundo árabe.

22 abril 2011

Quarto e último post de hoje

Juliano Mer-Khamis
(Nazaré, 29 de maio de 1958 - Jenin, 4 de abril de 2011)


Luís Dolhnikoff enviou-me, anteontem, este outro óptimo texto, entretanto já publicado na revista on-line Sibila:


JUDEU, CRISTÃO, ISRAELENSE, PALESTINO – E MORTO

1.

Escrevo este artigo em homenagem a um homem incomumente corajoso, a ponto de ter pago com a própria vida por sê-lo. Apesar de avisado. Mas escrevo-o, também, em nome de certos fatos que afloram de suas últimas declarações, em um lugar e sobre um tema em que prevalecem os mitos, as mentiras, os preconceitos e as ideologias. Seu nome era Juliano Mer-Khamis, morto com vários tiros dados por covardes mascarados há uma semana em Jenin, na Cisjordânia. O tema e o lugar são, obviamente, a Cisjordânia e o conflito com Israel.

Mas o óbvio pára aí. Pois Juliano Mer-Khamis (ator, cineasta, ativista e diretor de teatro no campo de refugiados de Jenin) tinha uma particularidade biográfica que o torna um ser quase impossível, uma quimera. De fato, impossível e quimérico, o que não é uma redundância. Pois quimera, além de haver adquirido o sentido de uma impossibilidade, também significa um animal híbrido. E Juliano Mer-Khamis era judeu e cristão, israelense e palestino, filho de uma judia israelense e de um palestino cristão.

Sua morte na principal cidade da Cisjordânia, por outro lado, nada tem de surpreendente, pois houve, como dito, ameaças e avisos. Ele tampouco ignorava os motivos, explicitados em declarações recentes. Além disso, Mer-Khamis também deixa claro por quem seria morto: militantes palestinos. A questão que resta é: militantes do quê?

Sua identidade dupla lhe ajuda a entender melhor os dois lados?

Minha mãe era judia, meu pai palestino cristão. Pela tradição judaica, sou judeu. Pela tradição cristã, sou cristão. Na prática é o contrário: para os palestinos, sou judeu. Para os israelenses, sou árabe. Ao mesmo tempo, não me sinto parte de nenhum dos lados, e acho isso maravilhoso. Quem quer pertencer a essas duas nações? Prefiro ser o outro. Não estou em Jenin porque morro de amores pelos palestinos. Estou aqui para lutar contra a injustiça. Não sou bem-vindo em Jenin. As pessoas não gostam muito de mim aqui. Primeiro, porque me veem como um judeu. Mas o que mais incomoda é que eu critico a vida que eles levam.


O seu teatro não é uma forma de resistência contra a ocupação israelense?

O teatro não pode resistir a Israel. Isso é uma romantização. O teatro não tem como resistir a um Exército. O que o teatro pode fazer é resistir à opressão, à discriminação, ao racismo, à opressão sexual. Eu vim a Jenin para lutar contra a ocupação, mas logo percebi que isso é besteira. O teatro luta por valores humanos. A ironia amarga é que meu trabalho serve para libertar mulheres que são oprimidas por homens oprimidos por Israel. É por isso que muita gente aqui gostaria de se ver livre de mim.


Por quê?

A Palestina hoje não é um lugar nada amigável. É religioso, conservador, arruinado, corrupto, chauvinista e extremamente racista. Há 15 anos eu achava que havia um espírito de resistência entre os palestinos, um senso de liberdade, de justiça. Hoje isso acabou (Marcelo Ninio, "Muita gente aqui quer se livrar de mim", Folha de S. Paulo, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1904201110.htm).

Antes de responder à pergunta que importa, três observações.

1) Apesar da clareza de Mer-Khamis, o repórter, comprometendo a análise de suas próprias informações em nome de qualquer falso equilíbrio, insinua na introdução da entrevista que ele pode ter sido morto por Israel: “Sua morte foi obra de mascarados não identificados, supostamente insatisfeitos com suas críticas duras e frequentes às lideranças dos dois lados”. O que é afinal ridículo: ninguém morre por críticas aos “dois lados”. Mer-Khamis foi morto por um motivo, por um grupo, por um lado. E ele mesmo aponta os militantes palestinos.

2) Mer-Khamis foi, durante boa parte de sua vida, radicalmente pró-palestino. Mas não apenas a favor do movimento palestino e contra a ocupação de Israel dos territórios de Gaza e Cisjordânia. Provavelmente, a maior parte das pessoas sensatas, e cada vez mais boa parte das insensatas, é contra a ocupação dos territórios palestinos. Mer-Khamis, porém, fez parte de um grupo ainda minoritário, mas crescente, que além de defender a “resistência” palestina, demoniza radicalmente Israel. Considerando, entre outras coisas, que a demonização radical, nos sentidos conotativo e também denotativo, de ir à raiz, do estado de Israel de alguma forma serve àqueles, hoje liderados pelo Irã, que sonham com sua destruição, não o acompanho nesse passo. No limite, se fosse possível demonstrar que a direita israelense está certa, e que a ocupação é necessária, não para a mera segurança, mas para a sobrevivência de Israel, eu afirmaria sem pudor que a opressão de alguns é um preço defensável para a não supressão de outros. Mas, em primeiro lugar, é impossível demonstrar essa hipótese. Em segundo lugar, não acredito nela, por vários motivos, entre os quais a evidência empírica de que a ocupação cobra um preço político no longo prazo insustentável para o próprio estado de Israel. Em suma, não creio no que diz a direita israelense, que a ocupação é necessária à segurança de Israel, assim como não creio no que diz a esquerda internacional, incluindo Mer-Khamis durante muitos anos, que Israel e o movimento nacionalista judaico que lhe deu origem como ideia no final do século XIX (conhecido como sionismo) sejam demonizáveis.

3) Escrevi “resistência” palestina entre aspas porque a resistência palestina não é meramente, ou seja, integralmente, um movimento de resistência. Na verdade, ela só se tornou resistência porque fracassou em ser agressão. Fechando o círculo, isso nos leva de volta à questão: os militantes palestinos, entre os quais os que mataram Mer-Khamis, militam pelo quê?

A resposta óbvia é a causa palestina. Óbvia, porém falsa. Mer-Khamis: “Estou aqui [na Cisjordânia] para lutar contra a injustiça”. E no entanto, para ele próprio a causa palestina havia morrido: “Há 15 anos eu achava que havia um espírito de resistência entre os palestinos, um senso de liberdade, de justiça. Hoje isso acabou”. Mas por que acabou? E o mais importante: por que nunca venceu?

O motivo de o movimento palestino haver morrido é debitado na conta de Israel, e mais particularmente, da ocupação dos territórios. Mas fazê-lo apenas reitera o verdadeiro motivo de esse movimento haver fracassado. Qual é, afinal, a causa palestina?

2.

Não há uma resposta. E não porque não haja qualquer resposta, mas porque há várias. Isso significa, em primeiro lugar, que a resposta não é dada, não é óbvia. Ou seja, a causa palestina não é a criação de um Estado palestino baseado na “autodeterminação” dos povos e no direito internacional. Fosse isso, o Estado palestino teria sido criado entre 1948 e 1967.

Porque Israel invadiu a Cisjordânia e Gaza em 1967, e apenas em 1967. Logo, Israel não invadiu Gaza e a Cisjordânia antes de 1967. Ao mesmo tempo (literalmente), nesse período Israel foi fundado e efetivamente criado, a ponto de ser uma potência militar em 1967. Por que, então, nesse mesmo período não foi criado, nos territórios palestinos, o Estado palestino?

A resposta é tão simples quanto verdadeira: porque os palestinos não quiseram. E não quiseram porque seu objetivo político primeiro e principal não era criar um Estado palestino, mas destruir o estado de Israel. E apenas depois criar seu Estado, em toda a antiga Palestina Britânica.

Nada disso é uma opinião, mas são fatos. Pois os fatos existem, apesar de tudo. Por exemplo: a OLP, Organização para a Libertação da Palestina, foi criada em 1964. Porém em 1964 Gaza e Cisjordânia não estavam ocupadas por Israel. Na verdade, não havia ali nenhum cidadão ou soldado israelense. Mas se a Cisjordânia e Gaza não estavam ocupadas em 1964, ou a OLP foi criada baseada no uso de alguma bola de cristal, prevendo uma invasão israelense que só aconteceria três anos no futuro, ou não foi criada para libertar a Cisjordânia e Gaza. Obviamente, a OLP não foi criada para libertar Gaza ou a Cisjordânia. Mas foi criada, então, para libertar o quê? Israel.

Além das datas, tais fatos podem ser confirmados por sua explicitação nos estatutos originais da OLP. Cujo nome, portanto, é propaganda enganosa. Não se tratava de uma organização para “libertar” a Palestina, mas sim para destruir Israel. Em vez de OLP, ODI (Organização para a Destruição de Israel).

Em 1948, a ONU votou a divisão da ex-colônia britânica da Palestina em dois novos Estados, “um judeu e um árabe”. As lideranças da comunidade judaica da Palestina Britânica aceitaram a divisão, as lideranças árabes a recusaram. Tinham todo o direito de fazê-lo, de um ponto de vista político. Mas ao optar por esse cainho, tinham também a obrigação, igualmente política, de ao menos prevenir seu povo sobre a decisão de arriscar seu futuro geopolítico – e prepará-lo para o pior. Pois se a aceitação da partilha teria implicado na criação de um Estado palestino imediatamente, no mesmo ano de 1948, a recusa implicava em tentar impor essa decisão à comunidade judaica da Palestina Britânica – ou seja, lutar contra ela e vencê-la. Foi, de fato, o que os árabes fizeram.

Portanto, em vez de declarar a criação de seu Estado no mesmo dia da declaração da fundação de Israel, e ao lado dele, declararam guerra a Israel e tentaram invadir as partes do território destinadas pela ONU ao Estado judeu (a ação militar foi obra da Legião Árabe, que contava com o apoio de todos os países árabes, tanto em homens quanto em armas). Seria sua primeira derrota militar. A partir daí, o movimento palestino consolidou um objetivo estratégico: reverter a derrota de 1948, destruir Israel e construir a Grande Palestina.

Eis o motivo de a OLP ter sido criada em 1964. Pois além de ter sido criada nessa data, foi criada no Cairo (e não em Gaza ou na Cisjordânia, então, repita-se, não ocupadas por Israel). Porque a razão imediata de sua criação foi acoplar o movimento palestino à política do ditador egípcio, Gamal Nasser, patrocinador da criação da OLP.

Nasser estava então dedicado à montagem de um grande exército, armado e treinado pela URSS, com o objetivo específico de invadir e destruir Israel, o que o tornaria (além de um novo genocida do povo judeu) um novo Saladino (o vencedor dos cruzados), o grande herói do pan-arabismo. Os preparativos militares de Nasser seriam concluídos no início de 1967, levando-o a um movimento tão arriscado quanto estúpido, porque ameaçador mas não decisivo: ele remilitarizou o deserto do Sinai, expulsando os observadores da ONU ali postados desde 1956, e levou suas tropas até a fronteira com Israel; além disso, bloqueou o porto de Eilat, cidade no extremo sul de Israel e sua saída para o Mar Vermelho. Acontece que o bloqueio militar de um porto é um ato de guerra. A reação de Israel ficaria conhecida como a Guerra dos Seis Dias, tempo necessário para o Egito e em seguida a Jordânia e a Síria (que atacaram Israel pelo oeste e pelo norte seguindo um apelo egípcio) serem derrotados.

A derrota árabe na guerra de 1967 foi também a derrota histórica da OLP em seu nascedouro. E que derrota: pois em vez de “libertar” a “Palestina”, três anos depois de fundada, viu Gaza e a Cisjordânia serem ocupadas por Israel.

3.

No último meio século, desde o fim dos impérios europeus após a Segunda Guerra, praticamente todas as causas nacionais foram vitoriosas, das maiores às menores. A maior foi, sem dúvida, a Índia, que derrotou o colonialismo inglês sob a liderança de Gandhi, e a menor o Timor Leste, que se livrou em 2000 de um quarto de século de invasão e ocupação (brutais) pela Indonésia. No meio, fica a África do Sul do apartheid, afinal derrotado sob a liderança de Nelson Mandela. Houve ainda, entre inúmeros outros, o Vietnã, a Nicarágua de Somoza, libertada pelos sandinistas de uma ditadura criada e apoiada pelos EUA, a revolução iraniana, que se livrou do xá, e a luta dos talebans, que expulsou a URSS do Afeganistão. Não faço, aqui, julgamentos de valor, pois não sou simpático nem aos sandinistas, nem à retrovolução teocrática iraniana nem aos talebans. Apenas aponto um fenômeno histórico, de vitórias em série das forças políticas internas ou nacionais, num arco histórico de mais de meio século e num arco geográfico que abarca todo o planeta, e que recentemente incluiu o Kosovo em relação à Sérvia e o sul do Sudão em relação ao norte: ou seja, movimentos políticos nacionais que conseguiram inclusive a proeza de dividir países já estabelecidos. Em tal contexto histórico, os palestinos são uma exceção: os grandes derrotados da história mundial recente. Deve haver um bom motivo.

A explicação não é simplesmente o “poder judaico”, expresso pela força do sionismo e da comunidade judaica, afirmações que mal escondem seu antissemitismo, ou sua forma mais racional, a ocupação israelense. O Vietnã derrotou os EUA, o Afeganistão expulsou a URSS. Não é a força do inimigo que explica a derrota histórica palestina, mas a sua própria fraqueza.

Mesmo aceitando o argumento maniqueísta que reduz o sionismo a um erro ou um crime, o que ele não é (pois sionismo é fundamentalmente o nome da causa nacional judaica, nascida no fim do século XIX no contexto da emergência do nacionalismo como conceito geopolítico central da época), nada pode ser pior do que o apartheid. E ainda que se aceite que a ocupação israelense é um novo apartheid, o que ela não é (porque não há semelhanças verdadeiras em dois processos históricos e políticos totalmente distintos – a comparação é apenas um slogan bom demais para ser dispensado), o apartheid original foi derrotado. Por que, afinal, os palestinos são incapazes de vencer? E por que, diferentemente, os negros sul-africanos, como tantos outros, venceram?

Uma parte importante da resposta, ou ao menos uma parte grandemente reveladora, está nas diferentes qualidades das respectivas lideranças históricas. Nelson Mandela tornou-se Nelson Mandela não por sobreviver a 23 anos de prisão, mas porque aceitou ser libertado depois desse período para usar todo seu capital político acumulado a fim de mudar o discurso e os objetivos históricos do CNA, o Congresso Nacional Africano, principal grupo da resistência sul-africana. Não haveria revanche contra os brancos, expulsão dos brancos, expropriação de suas propriedades ou mesmo julgamento político. Mandela tornou-se Mandela ao transcender a política para se tornar estadista, decretando que a vitória dos negros não seria a derrota dos brancos, o que significaria a guerra civil e a destruição do país. Não há e nunca houve um Mandela palestino – pois seu lugar foi ocupado por um homem muito menor, um oportunista político e afinal um covarde, Yasser Arafat, que no final de 2000 declarou temer ser morto caso assinasse os acordos de Camp David, o mais perto que se chegou de uma solução definitiva para o conflito israelense-palestino. Acontece que os Acordos de Camp David significavam que os palestinos teriam de trocar o discurso pelos fatos, e os mitos pela história. Não haveria vitória da “justiça”, os “refugiados” (a maioria, na verdade, já nascida no exílio) não “retornariam” em massa para a “Palestina”, ou seja, para Israel, etc. Em suma, os brancos não seriam derrotados para os negros serem vitoriosos. Israel não seria destruído para a causa palestina ser vitoriosa. E se Israel não seria destruído, os “refugiados” não retornariam (o que significaria a destruição demográfica de Israel) etc. Fim do apartheid, sim, mas com o fim concomitante de qualquer possibilidade de revanche contra os brancos sul-africanos. Ou seja: fim também do “apartheid” reverso dos radicais do movimento negro, que pretendiam, no limite, expulsar todos os brancos sul-africanos, esses europeus colonialistas, exploradores racistas, não-nativos etc. Os negros sul-africanos, na prática, tiveram de “engolir” os brancos, ou seja, sua presença no país. O mesmo tem de acontecer no movimento palestino.

Os ingênuos, os mal-informados ou os mal-intencionados afirmam que isso já foi feito, pois a OLP, hoje Autoridade Palestina, reconhece desde 1993 (Acordos de Oslo) o direito de existência de Israel, e pleiteia a criação de um Estado palestino “nas fronteiras anteriores a 1967”. O que prova ser tal reconhecimento, em termos políticos reais (e não de discurso), fals

4.

Insistir nas fronteiras de 1967 é uma tentativa vã e ideológica, e vã porque ideológica, de tentar reverter ao menos parcialmente a derrota histórica do movimento palestino, girando para trás o relógio da história, senão para 1948, para o meio do caminho. Mas o mundo não parou desde 1967. Além disso, tentativas subsequentes de destruir Israel por meios militares, com apoio político palestino, como a invasão pelo Egito e pela Síria em 1973 (Guerra do Yom Kippur), adiaram ainda mais uma solução. Quando a OLP afinal mudou seu discurso histórico em 1993, trocando o objetivo de destruir Israel pelo da construção de um Estado palestino em Gaza e na Cisjordânia, o tempo e a história cobraram seu preço. Porque foi muito tarde. E porque foi muito pouco.

Muito tarde, porque a ocupação militar israelense já havia se tornado ocupação colonial, com a construção de colônias. E muito pouco, porque o movimento palestino, presa política de seu próprio discurso histórico, ainda insistiria em outras causas perdidas – além do retorno às fronteiras de 1967, a volta dos “refugiados” de 1948.

Porém as fronteiras de 1967 não ressurgirão no mapa mundi. Porque não é real ou realista que Israel, uma democracia com um exército de caráter miliciano, em que todos os cidadãos são soldados, possa ou vá lançar seu exército numa guerra civil deliberada, que é o que aconteceria caso decidisse desalojar as centenas de milhares de colonos hoje estabelecidos na Cisjordânia. A opção realista já foi dada por Israel: trocar terras (mais exatamente, do norte de Israel, na região da Galileia, pelas áreas equivalentes da Cisjordânia que ficariam com Israel). E os milhões de “refugiados” palestinos de 1948 (a maioria, na verdade, nascida nos países de exílio) jamais “retornarão” a Israel. Mas isso contraria o discurso e a crença dos “direitos sagrados” do povo palestino.

Ainda mais importante, esse longo período histórico, a partir de 1948, criou uma ideologia palestina anti-israelense, um verdadeira visão de mundo, popular e popularizada, que não iria e não poderia desaparecer certa manhã, depois de a OLP decidir assinar em Oslo um acordo reconhecendo o direito de Israel de existir. De repente, meio século de crença e de discurso não valiam mais. Mas não é assim que as coisas funcionam. Ou melhor, essas coisas só têm chance de funcionar se avalisadas por um gigante como Mandela, cujo gigantismo político tem força para impor tal reversão de curso e de expectativas. À falta dele, o resultado necessário é a emergência de um grupo que mantenha o antigo curso e o velho discurso. Neste caso, ele se chama Hamas.

Daí a “falsidade” do reconhecimento pela OLP, ou pela AP. Pois sendo pouco e sendo tardo, na prática (que é o que importa) implicou na emergência de um grupo baseado na manutenção do recém (e mal) abandonado discurso histórico, a destruição de Israel antes da construção do Estado palestino. E porque sendo tardo e sendo pouco, na verdade não foi um reconhecimento real, integral, “mandeliano”, mas sim presa de ambiguidades – como a insistência na volta dos “refugiados” e das fronteiras de 1967.

A Palestina hoje não é um lugar nada amigável. É religioso, conservador, arruinado, corrupto, chauvinista e extremamente racista. Há 15 anos eu achava que havia um espírito de resistência entre os palestinos, um senso de liberdade, de justiça. Hoje isso acabou.

A “Palestina”, neste caso, a Cisjordânia, e nela o movimento palestino, se encontra no estado assim descrito por Juliano Mer-Khamis – assassinado em parte por seu meio judeu, e em parte por dizer tais palavras por inteiro –, não tanto ou não apenas pelos atos de Israel, mas também pelos erros palestinos. Nenhum, entre os incontáveis movimentos de libertação que venceram ao redor do mundo contra forças superiores no último meio século, pediu licença para vencer, ou para ter um adversário mais fraco. Todos venceram os adversários que se apresentaram, não porque esses adversários fossem fracos, mas porque tais movimentos souberam se tornar fortes.

Alguns militarmente, a maioria politicamente. A “causa” palestina, com suas ambiguidades históricas, jamais foi uma causa única, clara, definida, ou seja, a construção desde sempre de um Estado nacional palestino, pois nasceu, cresceu e viveu impregnada, intoxicada, marcada e cindida por outro objetivo, na verdade o primeiro, o mais antigo e o mais historicamente duradouro, o de destruir Israel. Não se trata de um bom objetivo, ao menos para pessoas de bom senso, e por isso jamais foi forte politicamente perante a opinião pública mundial, como a luta contra o apartheid sul-africano. Ao ser abandonado de forma abrupta, inconsistente e inconvincente por uma OLP política e historicamente derrotada em 1993, tal objetivo não desapareceu num passe de mágica, mas continuou presente em muitas mentes e corações palestinos – para não falar de grupos como o Hamas.

Nunca houve uma “causa” palestina, no singular, porque ela foi, a maior parte do tempo, dupla e dúplice: de um lado, a causa defensável de construir um Estado palestino; de outro, a causa indefensável de destruir Israel. Tal duplicidade e tal ambiguidade jamais foi de fato abandonada. Nem em um recorte horizontal, pois o espectro político palestino ainda conta com grupos pró-destruição de Israel, do qual o Hamas é apenas o mais poderoso e notório, nem em um recorte vertical, pois muitos, não apenas em Gaza, mas também na Cisjordânia, onde Mer-Khanis foi morto, “aceitam” a solução de dois Estados por falta de opção, quando na verdade prefeririam, inconfessadamente, “jogar os judeus no mar”. Um deles, apesar de sê-lo apenas pela metade, acaba de ser lançado aos tubarões.