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02 junho 2011

Nem de propósito


Cerca de duas semanas atrás, respondi o seguinte a um comentário do meu "cliente" Flávio Josefo a este meu textículo:

"Desde o século XVIII que, na Maçonaria, os aprendizes tomaram o lugar dos mestres. Foram eles que levaram a meter-se na política algo que era de raiz revolucionária, isto é, cultural. As mudanças na economia fizeram com que a instituição passasse a depender dos prósperos comerciantes e industriais, os aprendizes. E os aprendizes querem sempre resultados rápidos. A revolução maçónica passou a ser pensada em termos da impaciência própria da imaturidade e da superficialidade, do sucesso fácil e rápido. A maçonaria ligou-se ao dinheiro e, onde ele corre, é inevitável o aparecimento dos mais diversos tipos de mafia. A maçonaria tornou-se, por isso, na expressão e no instrumento de grupos de interesses que nada têm a ver com os objectivos da humanidade do Grande Arquitecto. Se é que ela alguma vez interessou à humanidade..."

Hoje mesmo, encontrei este excelente texto (via Blasfémias), que transcrevo integralmente:


Maçonaria e revolução

Um dos assuntos mais controversos da Revolução Francesa, provavelmente o mais difícil de todos, tem a ver com o papel que a Maçonaria nela desempenhou. As opiniões vão, neste assunto, do zero ao infinito, e ora é atribuída à Ordem Maçónica um papel central e decisivo, fosse na preparação de uma conspiração e uma conjura para fazer eclodir o furor revolucionário contra a Família Real, fosse na transmissão dos valores que a inspiraram, ora lhe atribuindo um estatuto de algoz, responsável pelas mortes de Setembro e do Terror, ora fazendo dela uma vítima entre as muitas que sucumbiram sob os golpes incontáveis da guilhotina. Não me apetece dizer, como é comum neste género de polémicas históricas, que a verdade se encontrará algures no permeio das duas extremidades. Sou – confesso-o de imediato – mais propenso à tese de que a Maçonaria foi devorada por uma revolução que apenas ajudou a preparar pela influência do pensamento dominante da época, pensamento, de resto, que não era nem uniforme, nem originariamente seu, nem, tão-pouco, partilhado unanimemente entre os seus membros – os Irmãos -, e para a qual somente contribuiu pela acção individual de alguns maçons, mas nunca em função de qualquer plano pré-estabelecido. Em contrapartida, não hesito em afirmar que muita da Maçonaria que hoje conhecemos – concretamente a que está sob a órbita do Grande Oriente de França – foi visceralmente influenciada pelos valores saídos da revolução, entre eles o anti-clericalismo, a laicidade, o republicanismo e o igualitarismo. Por outras palavras, não foi a Maçonaria que influenciou a Revolução, mas a Revolução que influenciou a Maçonaria.

Existem dificuldades metodológicas intransponíveis na convicção de que a Maçonaria foi determinante numa conspiração revolucionária na França de 1789. A primeira é óbvia: não houve uma mas, pelo menos, quatro Revoluções Francesas, entre 89 e 99, e cada uma das que se ia seguindo devorou apressada e violentamente a anterior. A primeira dessas revoluções foi aristocrática e constitucional, por um lado partidária do Duque de Órleans (Grão-Mestre do Grande Oriente de França, bem sei e já lá iremos...), por outro simplesmente defensora de um sistema de monarquia constitucional com Luís XVI, segundo o modelo inglês, ou, preservando a monarquia, seguindo os passos do constitucionalismo liberal norte-americano. Nesse período pontificam homens como La Fayette, Mirebeau, Barnave, entre outros. Alguns eram maçons, como terá sido o caso do primeiro e do segundo, outros, como Barnave, sobre quem recaiu também essa suspeita, estão hoje, como eles, ilibados pela maioria dos historiadores, visto o seu nome não constar de nenhum quadro das lojas onde foi referenciado (sobre Barnave vd. Albert Soboul, La Franc-Maçonnerie et la Rèvolution Française, Annales Historiques de la Rèvolution Française, 1969, nº 3). Em todo o caso, na Assembleia Constituinte saída do Jogo da Péla, calcula-se que perto de 200 deputados seriam maçons, num total de cerca de 1177. Iso não significa, todavia, que esses deputados estivessem irmanados de um qualquer plano revolucionário-maçónico, de que tivessem sido incumbidos por um qualquer directório secreto. Os tempos eram de excessivo fervor para tamanha contenção.

A segunda revolução – a Revolução Girondina – foi burguesa, defensora dos direitos de propriedade, monárquica e constitucionalista, por convicção, e parcialmente regicida, por necessidade, ainda que só a Convenção tenha decidido sobre o destino de Luís XVI. Dos deputados da Assembleia Legislativa deste tempo, calcula-se que mais de 200 fossem maçons, num total de 745. Muitos dos chefes girondinos eram igualmente maçons, como Brissot, segundo se crê, membro da loja Les Neuf Soeurs, também frequentada por Danton e Desmoulins, cuja acção foi, todavia, determinante em levá-lo, a Brissot e ao directório girondino, ao cadafalso... A terceira revolução, jacobina, teve também protagonistas maçons, entre eles, segundo se acredita, os seus chefes principais, Georges-Jacques Danton e Maximilien Robespierre. Ainda que este último não fosse devoto obediente da Ordem, frequentara em Arras, na juventude, a loja Hesdin, enquanto Danton e outros, como Desmoulins e Hérbert, sejam tidos como obreiros da célebre loja de Paris Les Neuf Soeurs. Isso não logrou, todavia, que a célebre «harmonia maçónica» reinasse entre eles, ao ponto dos três últimos – Hérbert, Desmoulins e Danton, terem visto as suas vidas findarem na guilhotina, por acção do primeiro. E o mesmo sucedeu no ciclo seguinte da Revolução Thermidoriana, na qual padeceram, por sua vez, os maçons Robespierre e Couthon, entre outros também, às mãos de maçons, alguns deles que, tal como eles, pertenciam até ao Comité de Salvação Publica, como, segundo parece, Collot d’Herbois e o próprio Barras.

Não obstante a polémica sobre a filiação maçónica de muitos destes homens (há quem afirme que não existem provas seguras da ligação à Maçonaria de nomes como o próprio Mirebeau e até mesmo de Danton), a verdade é que essa é uma questão desnecessária para se poder avaliar a importância da Ordem Maçónica nos momentos determinantes da Revolução. Na verdade, a tese favorável mais radical inclina-se para afirmar que a Revolução foi obra da Maçonaria e que se desenrolou consoante os seus planos. Ora, isso é desmentido pela evidência dos factos e pela lógica das coisas. Primeiro, não houve «uma» revolução, mas uma sequência de golpes e contra-golpes que levaram à sucessão e destituição de diferentes grupos políticos no poder, assim como à instauração de regimes políticos também eles desiguais nos valores estruturantes. Por conseguinte, nada disto era planificável e foi andando ao sabor dos acontecimentos e dos protagonismos individuais e de pequenos grupos dirigentes, e a factos muitas vezes comprovadamente acidentais. Segundo, porque se alguma coisa caracteriza os dez anos da Revolução foi o facto dela ter, como dizia premonitoriamente Vergniaud, «como Saturno, devorado os seus filhos», ou, utilizando linguagem maçónica, devorado muitos dos seus irmãos. Por outras palavras, não se vê possível um complot maçónico (ou outro qualquer) que traçasse um plano tão caótico quanto o foi a sucessão de acontecimentos da Revolução Francesa, nem se imagina que os homens que eventualmente o tivessem gizado semelhante tragédia quisessem ser suas vítimas pela sua própria morte e pela morte de muitos dos seus amigos. Não é, pois, razoável imaginar que os acontecimentos da Revolução Francesa fossem susceptíveis de um plano pré-concebido, menos ainda que tivesse sido imaginada e executada por quem quer que fosse, menos ainda pelas suas sucessivas vítimas.

Ainda que a maior parte dos historiadores do tempo e da primeira parte do século XVIII (entre eles Michelet e Blanc) quase a não refiram elhe não dêm relevo, a tese da influência maçónica na Revolução é práticamente contemporãnea dos primeiros acontecimentos revolucionários, e é devida ao Abade Lefranc, um dos mais de 180 padres assassinados nos massacres de Setembro de 92, que, nesse mesmo ano, publicou um livro extenso intitulado Conjuration contre la religion catholique et les souverains, dont le projet conçut en France doit s’exécuter dans l’Univers entier, no qual defendeu a tese de que fora a Maçonaria a autora da Revolução. Lefranc foi seguido na literatura anti-maçónica e anti-revolucionária pelo célebre Abade Augusto Barruel, que, em 1798, publicou o seu não menos célebre livro Mémoires pour servir à la histoire du jacobinisme. Estas obras ajudaram a criar a ideia da existência de uma conspiração vinda de fora da França contra a França e as monarquias europeias, que originou a Revolução, da qual seria responsável a Franco-Maçonaria francesa, enquanto mero tentáculo espúrio da «sinistra» Ordem dos Iluminados da Baviera, os célebres Illuminati que ainda hoje enchem páginas imensas da literatura «histórica» fantasiosa, como são o caso dos folhetins de David Brown (sobre as teorias históricas conspirativas, entre elas as que envolvem a Revolução Francesa e a Maçonaria, os Illuminati e os Templários, vd. a interessante obra de Nicholas Hagger, The Secret History of the West, 2005).

É evidente que, quanto mais não fosse, o facto destas obras contemporâneas da Revolução a envolverem com a Maçonaria, obriga-nos a não ser ingénuos e a perceber que a Maçonaria não terá sido um elemento absolutamente neutro no curso dos acontecimentos, embora isso não faça dela, como acima já adiantámos, um agente particularmente activo da Revolução. Vejamos, então, se estes dois aspectos são ou não conciliáveis entre si.

Comecemos pela constatação de uma evidência: a Maçonaria tinha, muito antes dos primeiros acontecimentos da Revolução, uma expressão forte na sociedade francesa, principalmente nos centros urbanos, como Paris, onde a Revolução verdadeiramente eclodiu. As primeiras lojas em solo francês (não necessariamente «francesas», como veremos já em seguida) surgiram logo após 1717 e á fundação, nesse ano ocorrida, da Grande Loja de Londres, a casa-mãe da chamada moderna Maçonaria Especulativa ou Filosófica, em contrapartida à Maçonaria Operativa dos artesãos e construtores de templos e catedrais vinda do final da Idade Média e do período do Renascimento. Em 1735 eram inúmeras as lojas de origem inglesa (e também escocesa) sediadas em França, ao ponto de, contrariando as intenções hegemónicas dos ingleses, ter sido proclamada a necessidade de nomeação de um Grão-Mestre próprio para França. A 24 de Junho de 1738, reunidos numa assembleia geral de maçons, foi instituído o cargo de Grãp-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino de França, cargo confiado ao Duque d’Antin, e foi criada a Grande Loja de França (a denominação formal é, contudo, apenas de 1765). Em 1743, em virtude da morte do primeiro Grão-Mestre, é nomeado para o cargo o Irmão Conde de Clermont, um Bourbon e aristocrata, primo de Luís XVI, ao qual se sucede, em 1772, o Irmão Duque de Chartes, mais tarde, Duque d’Orléans, no cargo agora designado de Sereníssimo Grão-Mestre da Ordem de França, Ordem essa designada, desde esse ano, por Grande Oriente de França. O novo Grão-Mestre, que atravessou os acontecimentos de 89, ficou célebre, mais tarde, com o epíteto de Philippe-Egalité...

Antes de entrarmos na suposta «conspiração orléanista» a que Philippe deu azo, segundo a qual uma conjura maçónica-revolucionária teria por fim pôr no trono esse primo de Luís XVI (o que, mantendo-se a tese conspirativa, desvia, contudo, o seu foco da conspiração jacobina e republicana), uma nota somente para dizer que, antes do começo da Revolução e até ao surto da emigração aristocrática, a Maçonaria francesa era sobretudo composta pela aristocracia citadina e pela alta burguesia, à qual se juntava um número expressivo de padres católicos (sobre a presença de padres católicos na Maçonaria do tempo da Revolução, vd. o interessante trabalho de doutoramento de José A. Ferrer Benimeli, Arquivos Secretos do Vaticano e a Maçonaria: História de uma Condenação Pontifícia, 1976). A Maçonaria francesa não era, por conseguinte e pela natureza de quem a compunha, um antro de conspiradores que quisessem destruir a nobreza francesa, o clero e, muito menos ainda, implantar a República. Sobre os sentimentos republicanos dos primeiros revolucionarios franceses, vale a pena recordar que Desmoulins disse, pouco antes de morrer, que em 1789, na Tomada da Bastilha, os republicanos não seriam, em França, mais do que meia-dúzia (o próprio Robespierre só se confessa republicano pouco antes da queda do Rei e, mesmo assim, com grandes cautelas e hesitações). Ou seja, a deriva republicana de 92, 93 e 94 não estava manifestamente no espírito dos revolucionários de 89, menos ainda dos maçons dessa altura. A Maçonaria era, assim, nesses tempos primevos da Revolução, um ponto de convergência entre a nobreza e a alta burguesia e o clero, na qual se debatiam, sem dúvida, as «novas ideias», sobretudo as que eram veículadas pelos Enciclopedistas, mas não propriamente onde se preparasse uma conspiração com a finalidade de retirar do vértice do poder político e social as pessoas e as ordens sociais que efectivamente a compunham. Alguns exemplos para melhor ilustrar o que aqui fica dito: a Loja Les Amis Réunis, fundada em 1786, era composta, no seu período aúreo, por 68 obreiros, dos quais 3 padres, 22 burgueses e os restantes aristocratas; a La Nouvelle Union contava com 70 membros, dos quais 19 nobres, 8 padres e os demais pertencentes à burguesia próspera de Paris. Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas há um facto inquestionável: dos sans-culottes, a verdadeira «vanguarda revolucionária», não encontramos o mais ténue vestígio nos quadros dos obreiros das lojas. Em contrapartida, muitos dos membros proeminentes da Maçonaria francesa emigram ainda antes de 92 (alguns, por sinal membros proeminente, logo em 89), outros são presos ou mortos (veja-se o caso da célebre Princesa Laballe, amiga privilegiada de Maria Antonieta – também ela tida, por alguns historiadores, como membro da maçonaria feminina -, que foi morta nos massacres de Setembro, do mesmo modo que o padre Lefranc, e que chegou a ser Venerável da loja «Le Contrat Social»), sendo que a maioria das lojas abate colunas em 91 e em 92, após o 10 de Agosto, o que denota o seu claro afastamento dos caminhos republicanos e regicidas seguidos pela Revolução.

Tratemos, então agora, do caso particular de Philippe-Egalité, Grão-Mestre do Grande Oriente de França, indiscutível pretendente ao trono em substituição do seu primo Luís XVI, e a cujas influências se imputam muitos dos primeiros acontecimentos revolucionários. Parece hoje inquestionável que, apoiado por homens como Mirebeau e Choderlos de Laclos e, até - há quem o sustente - pelo próprio Danton, o Duque de Orléans conspirou contra o seu primo e gastou nessa actuação uma verdadeira fortuna, ele que era o segundo maior proprietário do reino, imediatamente a seguir a Luis XVI. Estas eram, pelo menos, as suspeitas de Luís XVI e, sobretudo, de Maria Antonieta, que votava a Philipe uma desconsideração muito particular, embora hoje se acredite que a sua participação no fomento do fervor revolucionário não teve a dimensão, pelo menos nas ruas de Paris, que alguma historiografia lhe concedeu. É certo que ele foi, como já vimos, Grão-Mestre do GOF, mas parece também que a sua proximidade à Maçonaria era mais honorífica e formal do que material. O verdadeiro administrador-geral do Grande Oriente foi, por esses tempos e até 1789, quando emigrou para Inglaterra na sequência dos primeiros acontecimentos revolucionários (e, nesse mesmo ano, para Lisboa, onde veio a morrer), o émigré Sigismond de Montemorency-Luxembourg, adversário declarado do Duque d´Orléans e fiel partidário da Monarquia (na melhor das hipóteses, Constitucional...), que queria ver protagonizada por Luís XVI e não pelo seu duvidoso primo. Deste modo, poderemos concluir que os acontecimentos que levam até 1789 ultrapassam qualquer conspiração da Maçonaria, ou de uma loja maçônica, que pudesse ter sido concebida em favor das pretensões de Orléans. Esta, a ter existido, muito rapidamente perdeu fôlego e foi ultrapassada, pouco tempo depois de 14 de Julho, pela radicalização popular e sans-coulotte do processo revolucionário. Após a queda do Rei e o fim da Monarquia a 10 de Agosto de 92, o pobre Duque tornou-se uma figura verdadeiramente patética e transformou-se no absurdo Citoyen Égalité, ele que ainda no começo desse ano tentara uma reconciliação com Luís XVI, apenas frustrada pela intransigência, mais do que justificada, diga-se, do Rei. Caído em desgraça, foi preso a 6 de Abril de 1793, ainda pelo regime do Primeiro Terror. Em estado de desespero, o pobre homem tentou mesmo desmarcar-se do seu passado maçônico (o que demonstra bem que essa não era uma qualidade apreciada pela nova República), demitiu-se do cargo de Grão-Mestre a 5 de Janeiro de 93, e publicou uma deplorável carta de contrição no Jornal de Paris, a 22 de Fevereiro seguinte, pedindo desculpa por ter sido maçon nestes termos: «Não conhecendo a maneira pela qual se compõe o Grande Oriente e não devendo haver, na minha opinião, nenhum mistério e nenhuma assembléia secreta numa República, sobretudo no princípio do seu estabelecimento, já não quero envolver-me em coisa nenhuma do Grande Oriente, nem saber das assembleias de franco-maçons». O acto foi-lhe de nenhuma utilidade, já que a lâmina da guilhotina lhe trataria competentemente do pescoço a 6 de Novembro de 93.

Parecendo, assim, evidente, que a Maçonaria, enquanto organização, não participou num «plano» para realizar a Revolução Francesa, plano esse por si mesmo impossível de gizar, fica então pendente a possibilidade de ela ter sido, através das lojas, o veículo de divulgação das idéias revolucionárias, sobretudo do pensamento dos Philosophes. Se parece pacífico que Diderot, Rousseau e o próprio Condorcet (que teve um triste fim, como é sabido, nas prisões do Terror) foram maçons, e se as lojas terão servido para, por um lado, promover a aproximação social e até política da nobreza dominante e da burguesia ascendente, e, por outro lado, para que estas pessoas partilhassem, entre si, de uma considerável liberdade de expressão e de opinião no espaço maçónico, que lhes era socialmente muito mais reduzida antes de 89, a verdade é que muitos dos elementos tipológicos da idiossincrasia filosófica de alguma Maçonaria posterior, concretamente da francesa, não a influenciavam nesse tempo e foram adquiridos muito depois. Referimo-nos, muito concretamente, ao anti-clericalismo, ao republicanismo e até ao princípio da laicidade. Antes e imediatamente após o começo da Revolução, a Maçonaria francesa era monárquica, parte dela aceitava os valores estruturantes do Ancien Régime, embora a maioria fosse adepta do reformismo constitucional. Esta era a influência vinda de Inglaterra, mas, sobretudo, dos Estados Unidos, país inequivocamente fundado por maçons, que Lafayette trouxera e fizera plasmar no texto da primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada em 2 de Outubro de 1789 pela Assembleia Nacional. E que valores são esses? São os da liberdade e da igualdade civil, do primado da lei, da propriedade, da necessidade da contenção do poder soberano, da Constituição, da separação de poderes, etc.. São ideias que, em bom rigor, provêm, em parte, do Iluminismo inglês e escocês, mais até do que do Iluminismo francês patente nas obras de Rousseau. Não por acaso, a defesa da ditadura de Robespierre – um fanático admirador de Jean-Jacques, haveria de fazer-se para além, ou mesmo contra estes valores e contra esta Declaração e a Constituição de 91, que é sua legítima filha. Por outro lado, os valores que, mais tarde, marcariam parte da Maçonaria de França, entre eles o anti-clericalismo e o jacobinismo republicano, não podem atribuir-se ao pensamento maçônico do tempo da Revolução. Voltaire, o grande filósofo anti-clerical, seria feito maçon a 7 de Março de 1778, menos de três meses antes de morrer, a 30 de Maio desse ano. Voltaire, anti-clerical e anti-católico toda a sua vida, terá querido morrer católico (segundo Carlos Valverde, que exibiu o número de Abril de 1778 da revista francesa Correspondence Littéraire Philosophique et Critique, onde está publicada uma declaração do filósofo anunciando a sua conversão e a sua confissão a um padre católico, o Padre M. Gautier), pelo que não terá procurado a Maçonaria para a tentar influenciar com um anti-clericalismo que já não possuía, como alguns autores defendem, obviamente sem qualquer sustentação. Não é igualmente correcto atribuir-se a Constituição Civil do Clero a qualquer influência maçônica, já que essa intromissão da política na Igreja de França se pode inscrever mais nos conflitos seculares entre os Estados católicos e a Igreja, de que a História de França é rica (vejam-se, por exemplo, os Papados de Avinhão e os conluios que a política internacional estabeleceu em torno do Grande Cisma), como foi rica a História de Portugal, com as inúmeras excomunhões de reis portugueses, com o Beneplácito Régio de Pedro I, para além das muitas Concórdias e Concordatas celebradas entre as autoridades políticas do Estado Português e a Igreja Católica, com o fim de pôr termo ou de evitar conflitos recíprocos. Para além disto, o ateísmo que marca hoje alguma Maçonaria Francesa era claramente rejeitada pelos maçons de então, até mesmo por Maximillien Robespierre, que tinha profundas convicções religiosas, e que atacou os herbertistas também pelo facto deles se declararem ateus (é célebre a fúria de Robespierre pela colocação de alguns cemitérios da frase «A morte é o sono eterno» devida a jacobinos partidários de Hérbert).

A questão da República também não era pertinente na Maçonaria pré e imediatamente pós-revolucionária. A Maçonaria, quando a República se implantou, praticamente desapareceu e, antes dela, era praticamente defensora da Monarquia Constitucional e avessa a uma via revolucionária que rompesse com os princípios originários da primeira Revolução. No Verão de 93 existiam em Paris 4 ou 5 lojas. No ano seguinte, o principal sustentáculo do que restara do Grande Oriente e que era seu administrador-geral, o banqueiro Tassin, foi condenado à morte e executado em Maio. O Grande Oriente desapareceu e ressuscitou, coxo e débil, com Napoleão, que fez dele um instrumento do seu poder pessoal, até 1815. Os valores republicanos que hoje o GOF reivindica, e que não fazem necessariamente parte do patrimônio de outras Obediências francesas, como as actuais Grande Loja Nacional Francesa e Grande Loja de França, acabaram por ser incorporados mais tarde, juntamente com o anti-clericalismo, e seriam pano de fundo da maioria dos movimentos e das revoluções republicanas européias e sul-americanas, do final do século XIX e do começo do seguinte. Destas e de outras questões dogmáticas, como a crença em Deus como o Grande Arquitecto do Universo, viria a ocorrer o cisma maçônico de 1877 entre a chamada Maçonaria Regular, de influência inglesa e sob a tutela da UGLE (United Grand Lodge of England) e a chamada Maçonaria Irregular, ou tradicional, nos países onde, como em Portugal, tem profundas raízes históricas, e que orbita em torno da tradição francesa do GOF. Esse cisma, que continua, hoje ainda, a dividir as Maçonarias do mundo inteiro, foi sendo gerado com o tempo, e de modo algum se pode dizer que, nos seus elementos dogmáticos, estivesse sequer latente durante a Revolução. Diga-se, assim, que neste como noutros temas que hoje a marcam, a Maçonaria francesa é mais filha do que mãe da Revolução iniciada em 1789 e declarada como finda em 1799, por Napoleão Bonaparte.

03 maio 2011

Uma outra abordagem da morte de Bin Laden

Osama Bin Laden, em 1998


... a de Luís Dolhnikoff:


QUAL, AFINAL, O SIGNIFICADO DA MORTE DE BIN LADEN?


1. A morte do líder e a vitalidade do movimento

A pergunta relevante sobre a morte do terrorista saudita Osama bin Laden, fundador e líder da rede Al Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001, é a do título: qual o seu real significado? Porém é impossível compreendê-lo sem compreender o que significava a própria atuação de Bin Laden.

Osama bin Laden não era um lobo – muito menos um louco – solitário. Tampouco liderava um bando amalucado de renegados do islã. Toda a sua atuação tem um contexto histórico compreensível. Este não é, porém, a revolta desesperada dos desesperados do mundo contra a agressão imperialista ocidental.

Em primeiro lugar, seu grupo não é único. Existem inúmeros grupos terroristas islâmicos. Uma lista breve inclui a Jihad Islâmica egípcia, o Grupo Combatente Islâmico Líbio, o Exército Islâmico do Iêmen, o Jamaat al Tawhid wal Jihad iraquiano, o Lashkar-Taiba e o Jaish-e-Muhammad da Cachemira, o Movimento Islâmico do Uzbequistão, a Al Qaeda do Magreb Islâmico, o Grupo Armado Islâmico (GIA) da Argélia, o grupo Abu Sayaf das Filipinas e a Jemaah Islamiya do sudeste asiático. Mas talvez o mais importante seja que tais grupos ainda não oferecem o quadro geral.

Pois eles compartilham, se não o método do terrorismo, a ideologia e o objetivo estratégico com outros grupos, justamente, não-terroristas. Esses outros grupos são, na verdade, movimentos políticos de massa – dos quais o mais conhecido é a Irmandade Muçulmana. Mas incluem, também, o Hezbollah libanês e o Hamas palestino (que imediatamente lamentou a morte de Bin Laden e o declarou um grande mártir do causa islâmica).

Para compreender a morte de Bin Laden é preciso, então, compreender não apenas a origem dos grupos terroristas islâmicos, mas igualmente sua contraparte, os movimentos islâmicos de massa.

2. Dando nomes aos bois (ou melhor, aos touros)

Os movimentos islâmicos de massa tiveram sua aparição mais dramática na história recente em 1979, no Irã, em sua versão xiita, com a tomada do poder por uma revolução popular contra a ditadura do xá. Modelo que se teme, com razão, poder reermergir agora no mundo árabe sunita: revoltas populares contra autocracias corruptas derrubam o governo que, em seguida, por golpe ou por eleição, é tomado por grupos que instauram a teocracia islâmica.

Eis o contexto histórico e ideológico para a compreensão da atuação e, portanto, da morte de Bin Laden: o movimento internacional pela teocracia islâmica, atuante com mais ou menos força em todos os países muçulmanos. E mal conhecido e pior nomeado como terrorismo islâmico, jihadismo ou fundamentalismo.

O movimento internacional pela teocracia islâmica, que pode ser resumido como movimento islamista internacional (notar que islamista não é igual a islâmico ou a muçulmano), não se confunde com o terrorismo islâmico. Primeiro, porque este é somente um método – o objetivo estratégico ou político é a instauração da teocracia. Além disso, o terrorismo é o método de apenas parte dos grupos que lutam e/ou atuam pela instauração da teocracia islâmica – que incluem, como dito, também movimentos ou partidos de massa.

O movimento islamista internacional tampouco pode ser chamado de jihadista. Porque a jihad, ou guerra santa, isto é, a guerra de muçulmanos contra “infiéis”, é um conceito religioso islâmico histórico e geral. É utilizado por grupos terroristas islâmicos, mas não os define (o que os define é o uso o terrorismo como método na luta pela teocracia islâmica).

Por fim, nem os grupos terroristas nem os movimentos de massa podem ser ditos fundamentalistas.

O termo fundamentalismo surgiu nos EUA, no início do século XX, para se referir a grupos protestantes que decidiram reagir ao criticismo bíblico, ou seja, às análises históricas, teológicas, sociológicas, linguísticas etc., de que a Bíblia se tornara objeto no Ocidente desde o século XIX. A essa transformação da Bíblia em literatura e em tema acadêmico, e em reação paralela à modernidade em geral e ao evolucionismo darwiniano em particular, grupos protestantes americanos pretenderam voltar aos fundamentos de uma sociedade cristã, tendo por “mapa do caminho” os Evangelhos. Seu método seria então a leitura literal das Escrituras. Isso nada tem a ver com o islã. Ou com o judaísmo.

Judeus ortodoxos são judeus ortodoxos, não “fundamentalistas”. E nenhum muçulmano é ou pode ser fundamentalista. Pois, neste caso, todos os muçulmanos do mundo, cerca de 1,5 bilhão de pessoas, seriam fundamentalistas: a leitura literal do Corão é a norma teológica do islã desde sempre. As escolas corânicas, as madrassas, baseiam-se na leitura e releitura direta até que o aluno memorize partes crescentes do Corão.

O islã como ideologia política não é, portanto, “fundamentalista”. Pois tampouco se trata de voltar aos fundamentos de um modo vida islâmico em seu sentido confessional ou religioso, mas sim de um projeto de poder, de uma ideologia. O objetivo do islã político é, como dito, a instauração da teocracia islâmica (a adoção de um modo de vida islâmico, portanto, não é na verdade seu objetivo, mas uma de suas consequências).

A mídia ocidental e a preguiça intelectual consagraram os termos fundamentalismo e fundamentalista para se referir a qualquer coisa que cheire a ortodoxia religiosa, sem poupar, naturalmente, a islamismo político. O atual movimento político islâmico internacional, que tem como objetivo a instauração de teocracias nos vários países islâmicos, é na verdade muito mais semelhante ao movimento comunista do que ao fundamentalismo cristão.

3. O nascimento da revolução islâmica mundial

O comunismo como ideologia e projeto de poder nasceu, grosso modo, em 1848, com as revoltas trabalhistas que varreram então a Europa, com o lançamento do Manifesto Comunista por Marx e Engels e com a fundação da Internacional Comunista. O antecedente islâmico equivalente é a fundação da Irmandade Muçulmana nos anos 1920, no Egito e na Turquia, visando restabelecer o Califado, ou império islâmico, depois da derrota e da derrocada do Império Otomano. O Marx do islamismo foi Hassan Banna, fundador e primeiro teórico da Irmandade Muçulmana, e seu Lênin, Sayyd Qutb, seu sucessor e defensor de uma moderna jihad em várias frentes e de vários modos contra a modernidade, o Ocidente e os EUA.

A primeira grande derrota dos islamistas se deu já nos 1920, na Turquia, onde Kemal Ataturk, o criador da República Turca dos escombros do Império Otomano, emergiu como um déspota esclarecido, erguendo um Estado oficialmente laico e, dentro do possível, moderno, ao mesmo tempo em que, por isso mesmo, combatia não apenas os grupos islamistas, mas as próprias instituições e práticas culturais islâmicas.

Em seguida, durante boa parte do século XX, o movimento islamista sofreria a concorrência de grupos nacionalistas árabes e dos próprios comunistas árabes, que após o fim dos impérios otomano e europeus, e com o surgimento de novos países árabes independentes nas ex-colônias, defenderam a modernização como caminho para a estruturação e o fortalecimento desses novos Estados. Na prática, os grupos nacionalistas, ao tomarem o poder, como regra por golpes militares, degeneraram em ditaduras autocráticas, enquanto os comunistas foram encampados ou eliminados por nacionalistas “de esquerda” que, por sua vez, ao tomarem o poder, como regra por golpes militares, degeneraram em ditaduras autocráticas... Os islamistas não desaparecerem, mas perderam seu ímpeto inicial e se tornaram oposição a essas novas autocracias árabes, cujo discurso não era “islâmico”, mas “modernizante”, e cuja prática era oligárquica, afastando os demais grupos – incluindo os comunistas e os islamistas – do poder.

4. O renascimento da revolução islâmica mundial

Assim como o chamado comunismo internacional teria sua primeira grande vitória na Revolução Russa de 1917, o movimento islamita internacional teve sua primeira vitória importante na Revolução Iraniana de 1979. O déspota esclarecido do Irã, o xá Reza Pahlevi, que tentava modernizar o país enquanto combatia toda oposição política, incluindo nacionalistas, comunistas e islamistas, foi derrubado por uma revolução popular – que sofreu então uma “revolução” dentro da revolução, liderada pelo clero xiita e pelo aiatolá Kohmeini. Sua retrovolução seria a primeira vitória da teocracia islâmica no mundo contemporâneo. Fruto de um movimento de massa, a retrovolução teocrática iraniana tinha a particularidade de se dar em um país xiita, enquanto a maioria dos muçulmanos é sunita.

No mesmo ano de 1979, porém, a URSS invadiria o Afeganistão, país sunita que tinha então no poder um “despotismo esclarecido” de esquerda, liderado pelo Partido Comunista local com apoio dos soviéticos. Foi a ameaça a esse governo comunista afegão representada, mais uma vez, por grupos nacionalistas e islamistas, que levou à invasão soviética.

Essa invasão por uma potência estrangeira serviu não apenas para agrupar e fortalecer a oposição ao governo comunista afegão, mas também para atrair jovens muçulmanos de todo o mundo, já exaltados pela Revolução Iraniana, para uma nova jihad. Pois o invasor era uma “potência ateia”, porque comunista. Um dos que iriam lutar no Afeganistão seria o jovem milionário saudita Osama bin Laden.

A derrota da URSS em 1989 não levou, porém, nenhum grupo afegão ao poder, mas o país à guerra civil, após a saída das tropas soviéticas. A guerra civil afegã seria vencida pelo grupo islamista Taleban em 1996, resultando na instalação de uma nova teocracia islâmica, desta vez sunita.

O que se seguiu foi uma cadeia de eventos maior e mais imprevisível do que qualquer islamista poderia imaginar em seus sonhos mais loucos.

Em parte, ao menos, pelos grandes gastos militares com a invasão do Afeganistão e a guerra subsequente de dez anos (o “Vietnã” dos soviéticos), e em parte pelo desprestígio internacional e os problemas políticos de sua derrota (além de todos seus problemas econômicos e estruturais), a URSS acabaria entrando em colapso logo após a retirada do Afeganistão. O fim da URSS, o “império ateu”, foi então interpretado pelos islamistas de todo o mundo como uma consequência direta de sua derrota para os islamistas afegãos.

Isso daria uma nova força e também um novo sentido para a Al Qaeda, criada durante a guerra civil afegã. Pois a libertação do Afeganistão das tropas soviéticas e a instauração ali da teocracia islâmica, em vez de serem vistas como um fim, a partir da queda da URSS foram vistas como um início. Se uma superpotência, como se dizia à época, podia ser derrotada – e afinal destruída – pelos islamistas, então a outra superpotência, os EUA, também poderia. Em termos ideológicos, os EUA eram tão “ateus”, ou seja, materialistas e “infiéis” quanto a URSS; em termos políticos, apoiavam boa parte das autocracias árabes que combatiam os islamistas locais.

5. Questão de método

Mas se o combate à URSS fora pela guerra de guerrilha contra as tropas soviéticas em solo afegão, a luta contra os EUA não poderia sê-lo, pela inexistência, então, de tropas americanas atuando em qualquer Estado muçulmano. O caminho alternativo foi o terror em larga escala, o terror de massa, o terror midiático e internacional, a fim de enfraquecer o inimigo em termos estratégicos, e o forçarem a abandonar seus aliados árabes, em termos políticos imediatos, abrindo caminho para que os movimentos islamistas nacionais, como a Irmandade Muçulmana, instaurassem a teocracia (não por acaso, o número dois da Al Qaeda, o egípcio Ayman Al Zawahiri, que deve agora suceder Bin Laden, era antes um membro destacado da Jihad egípcia, próxima da Irmandade Muçulmana).

Isso demonstra outra semelhança com o antigo revolucionarismo comunista. Além de este também ter se dividido, quanto ao método, em grupos de “vanguarda” e em partidos de massa, se dividira quanto às fronteiras de atuação: os partidos comunistas atuavam dentro de limites nacionais, os grupos de “vanguarda” agiam transnacionalmente.

Como as Brigadas Vermelhas italianas, o grupo alemão Baader-Meinhof (na verdade, Fração do Exército Vermelho), o Exército Vermelho japonês, a Frente de Libertação da Palestina etc. se uniram nos anos 1970 numa espécie de internacional terrorista de esquerda, atacando tanto alvos nacionais nos respectivos países como alvos ocidentais, americanos e judaico-israelenses em todo o mundo, vários grupos islamistas se uniriam nos anos 1990 sob inspiração e orientação da Al Qaeda e de Osama bin Laden, numa internacional do terror islâmico. Osama bin Laden tornou-se assim o grande líder da corrente que pretendia “exportar a revolução” teocrática mundial – e, neste sentido, a comparação com um Che Guevara islâmico, feita por alguns analistas em função de seu carisma e popularidade entre jovens muçulmanos, é politicamente correta.

Por falar em popularidade, houve um contraste gritante, no mundo muçulmano, entre os dias 11 de setembro de 2001 e 1º de maio de 2011. Na primeira data, inúmeras manifestações de rua saudaram os atentados terroristas e a figura de Osama bin Laden. Na segunda data, a de sua morte, um enorme silêncio emergiu dos países islâmicos.

6. Porque numa fortaleza paquistanesa – e não numa caverna afegã

Osama bin Laden foi localizado e morto (antes tarde do que nunca) próximo a Islamabad, a capital paquistanesa. E ainda mais próximo de uma instalação militar na localidade de Abottabad. Por fim, não em um cortiço obscuro qualquer, mas numa espécie de grande fortaleza residencial. Não é difícil entender por quê.

Ele era protegido pelo governo paquistanês. Se não por todo o governo paquistanês, por seu aparato militar e de inteligência. O que significa um governo paquistanês dividido, fraturado. Assim como a sociedade paquistanesa.

Há uma diminuta classe média e uma ainda menor elite empresarial e política que gostariam de ver o Paquistão como uma democracia moderna. Porém uma parte importante da cultura política paquistanesa vê o mundo por lentes islâmicas. Ela é hoje dominante no aparato militar e de inteligência.

O próprio Paquistão, no mesmo contexto histórico de emergência do islamismo político moderno, foi concebido e criado por um partido islâmico indiano, a Liga Muçulmana, que em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, nos primórdios do que viria a ser o movimento pela independência da Índia, adotou, contra a vontade de Gandhi, a doutrina dos Dois Estados, ou seja, a divisão da Índia em um Estado hindu e um islâmico, nas áreas de maioria muçulmana. A divisão se efetivaria em 1947, quando da independência da Índia, com a partição do país não em dois, mas em três Estados: o Paquistão Ocidental (atual Paquistão), a Índia e o Paquistão Oriental (Bangladesh). Paquistão significa “terra dos puros” (ou “dos fiéis”), e Islamabad, sua capital, Cidade do Islã.

Além de razões históricas e ideológicas, a comunidade militar e de inteligência paquistanesa é islamista por dois motivos geopolíticos. Primeiro, ela usa a causa islamista para manter tensa a situação na Cachemira indiana, com sua maioria muçulmana, e assim tentar enfraquecer a Índia perante a reivindicação paquistanesa sobre esse território indiano, cuja razão é religiosa. Segundo, a comunidade militar e de inteligência paquistanesa vê o Afeganistão como uma aérea de recuo estratégico. A geografia explica. O Paquistão é uma tira de terra espremida entre a Índia e o Afeganistão. Numa eventual invasão indiana, em função da disputa pela Cachemira, o exército paquistanês, menor que o indiano, acredita precisar, na retaguarda, de um governo aliado no Afeganistão, a fim de garantir um recuo para além de suas fronteiras, e permitir um contra-ataque. E um governo afegão cativamente aliado é concebido pelo viés religioso (não por acaso, o Taleban foi criado, durante a guerra civil afegã, por exilados afegãos em território paquistanês, com o apoio da inteligência paquistanesa).

O Paquistão tem bombas nucleares e mísseis funcionais. A descoberta de que um assassino de massa como Bin Laden estava ali protegido por sua comunidade militar comprovaria todas as suspeitas sobre a divisão do governo paquistanês. E sobre a simpatia de alguns de seus setores pelo terror islâmico.

As acusações que fatalmente virão da comunidade e da opinião pública internacionais pela conivência paquistanesa – ainda que parcial – com a Al Qaeda aumentarão as tensões dentro do próprio establishment paquistanês. O problema é que tal aumento de tensão pode, no limite, desestabilizar o governo, e resultar na transformação do Paquistão em uma teocracia islâmica. E nuclear.

7. Consequências

Haverá ataques da Al Qaeda e de grupos aparentados, de várias magnitudes e em várias partes do mundo, em retaliação pela morte de Bin Laden. Além da vingança, eles precisam demonstrar que ainda estão vivos.

O governo paquistanês será tratado com ainda mais desconfiança no cenário mundial, e as suas tensões internas crescerão. Inclusive porque a Al Qaeda também deve atacar no próprio Paquistão, como vingança pela proteção ineficaz.

As atuais revoltas árabes não deverão sofrer impacto. Os movimentos islamistas de massa locais continuarão com seu objetivo de tomar o poder e instaurar a teocracia islâmica, mas o momento dependerá da correlação de forças. Em todo caso, ao contrário de Bin Laden e dos grupos terroristas, eles não têm pressa. Pois têm certeza do resultado final.

01 maio 2011

Intifada, intifada, intifada!


Ainda às voltas com circunstâncias de grande imprevisibilidade futura, dou de novo a palavra a Luís Dolhnikoff:

PREPARANDO A TERCEIRA INTIFADA

Por um momento, hesitei se deveria pôr a palavra intifada em itálico no título. Depois, decidi deixá-la em redondo. Porque a palavra, de certo modo, tornou-se internacional, e se é internacional, também faz parte do português. Além disso, todos sabem do que se trata: revolta popular palestina contra Israel.

Já houve duas, sem que as lideranças palestinas soubessem capitalizar sua força para fazer avançar, não apenas o processo de paz com Israel, mas seu próprio processo político interno, de que também depende, afinal, o primeiro. Agora, uma terceira intifada está a caminho. A previsão para por aqui. Não inclui, portanto, suas consequências.

A terceira e nascente intifada palestina não pode ser prevista por qualquer incipiente movimentação popular nos territórios, como a ocupação de alguma praça, ao estilo das atuais revoltas árabes. Há um intrigante silêncio popular nos territórios palestinos. A previsão de uma terceira intifada vem, portanto, de estranhos movimentos da cúpula política palestina. Pois tais movimentos não fazem nenhum sentido sem a sombra de uma nova intifada crescendo por trás deles.

Seu fato mais importante foi o anúncio-surpresa de um acordo político entre o Hamas, que governa Gaza, e o Fatah, que governa a Cisjordânia, recém anunciado no Cairo – cidade onde foi costurado em surdina. Mas acordo sobre o quê? E por que agora?

A primeira pergunta não tem resposta, porque se trata de um acordo sobre nada, no sentido de que nenhuma posição política nova o justifica. Não houve renovação nos velhos, ineptos e corruptos quadros do Fatah, nem alteração nas posições doutrinárias do Hamas, que segue se recusando a renunciar ao terrorismo, a aceitar os acordos já assinados com Israel e a reconhecer Israel. O acordo ora anunciado se resume, assim, à libertação dos respectivas presos políticos, à formação de um governo interino unificado e ao anúncio de futuras eleições gerais. Resta saber por que agora.

Simplesmente, porque ambos sabem que mesmo a paciência da população palestina, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, tem limites. E esses limites estão dia a dia sendo estreitados pelo exemplo das revoltas árabes na vizinhança contra os governos locais.

Outra consequência das atuais revoltas árabes é, portanto, a lição de que usar o espantalho do inimigo externo já não funciona. Não porque Israel não seja um inimigo externo verdadeiro, no caso palestino. Mas porque nem todas as mazelas palestinas vêm de fora.

Em Gaza, paradoxalmente, tudo piorou desde a saída dos colonos e do exército de Israel e a vitória eleitoral do Hamas sem que ele renunciasse ao terrorismo, do que adveio a rejeição internacional à sua eleição e o cerco a que Gaza está submetida desde então. Na Cisjordânia, a corrupção e a inépcia da Autoridade Palestina, liderada pelo Fatah, somam-se à presença das colônias e dos bloqueios israelenses para tornar a vida cotidiana perfeitamente insuportável. A revolta popular palestina, portanto, virá.

Preparando-se para ela, o Hamas quer aumentar sua credibilidade. Daí aproximar-se do Fatah. O Fatah, por sua vez, quer incrementar sua popularidade. Daí aproximar-se do Hamas. Ambos reagem, assim, aos rearranjos e incógnitas no mundo árabe, em um movimento preventivo e defensivo. Se o Fatah perdeu o apoio do Egito de Mubarak, o Hamas agora prevê perder o suporte da Síria de Assad.

Mas há algo ainda “melhor” do que o abraço oportunista em si. Juntos, e apenas juntos, os dois grupos podem pretender declarar unilateralmente a criação de um Estado palestino – ou seja, sem conseguir chegar a um acordo com Israel – e ter alguma chance de um reconhecimento internacional significativo. E é isso, na verdade, o que se prepara.

Não porque as lideranças palestinas vejam qualquer realismo nisso. Mas porque o que seu realismo lhes aponta é a inevitabilidade de uma revolta palestina no curto prazo. Sua dúvida, então, é saber se ela será uma terceira intifada, ou seja, outra revolta contra Israel, ou algo novo, seguindo diretamente as atuais revoltas árabes: uma revolta popular palestina contra as ineptas, corruptas e inúteis lideranças palestinas.

Por isso o próximo movimento dos dois grupos recém “unificados” deverá ser o anúncio unilateral da “criação” de um Estado palestino. Porque isso será frustrado e frustrante. Ou será frustrado por um insuficiente apoio internacional, ou será frustrante por causa do suficiente apoio internacional, impotente, porém, para se impor no terreno. Em qualquer caso, a revolta palestina será então dirigida para e contra Israel.

Israel, por seu lado, não terá alternativa senão recusar qualquer nova negociação, pois necessariamente o “novo Estado” será anunciado tendo por fronteiras aquelas de 1967. Uma demanda histórica e ideológica palestina, mas, mais uma vez, não realista geopoliticamente, em função da impossibilidade de remoção das maiores colônias judaicas hoje na Cisjordânia, com centenas de milhares de habitantes. Quem faria tal remoção? O exército de Israel? Talvez os terroristas do Hamas? Ou será que os colonos sairão por conta própria? Mas se a proposta não é realista, não é verdadeira, ou seja: apesar dos idiotas úteis que a repetem ao redor do mundo, as lideranças palestinas sabem de sua impossibilidade, e apenas insistirão nela, então, porque não se trata do que parece.

Tanto a súbita “união” dos dois principais grupos palestinos como a provável declaração próxima da “independência” palestina não visa a resolver politicamente os problemas palestinos, mas a resolver politicamente os problemas das lideranças palestinas. Outra única previsão possível, ou provável, é então o aumento do derramamento – inútil – de sangue.

26 abril 2011

"Síria para idiotas"


Um problema de saúde de um familiar próximo tem-se reflectido na minha disponibilidade para vir até aqui. Espero retomar o ritmo dentro desta semana. Mas, até lá, deixo um novo texto que me foi enviado por Luís Dolhnikoff:

SÍRIA PARA IDIOTAS

1.

Mário Vargas Llosa, se não me engano, criou outrora, se não me engano novamente, a expressão “perfeito idiota latino-americano” para se referir, bem, a um perfeito idiota latino-americano. Existem sujeitos perfeitamente idiotas em outras paragens, obviamente. Mas o perfeito idiota alheio não é perfeitamente igual ao perfeito idiota local. Este tem algumas particularidades, por exemplo, ser “de esquerda”, o que por aqui significa, como regra, se posicionar de maneira perfeitamente idiota, a partir de argumentos idealmente idiotas, sobre tudo aquilo sobre o qual se posiciona. Se idiotas não pensam bem, idiotas perfeitos pensam muito mal. Já o perfeito idiota latino-americano pensa perfeitamente mal.

Faço essa pequena digressão inicial para retomar a discussão sobre as atuais revoltas árabes, depois das manifestações perfeitamente idiotas de muitos luminares da esquerda latino-americana sobre a ajuda militar da OTAN aos rebeldes líbios, e antes de discutir a possível ajuda aos rebeldes sírios.

O líder supremo dos idiotas latino-americanos, Fidel Castro, assim que começaram os protestos na Líbia, ou seja, antes de a ONU votar a ajuda aos rebeldes, prenunciou e anunciou que não havia revolta na Líbia, mas uma manobra de propaganda das potências ocidentais a fim de preparar a invasão do país pela OTAN. E não é que, pouco depois, forças da OTAN começaram a bombardear a Líbia? Logo, Fidel estava certo... Ao menos segundo outros perfeitos idiotas latino-americanos, como Hugo Cháves.

A realidade, obviamente, é diferente, apesar das aparências. Todo mundo, incluindo os países da Liga Árabe e da União Africana, pediu alguma ação militar para proteger os civis líbios das forças de Kadafi, a começar de uma zona de exclusão aérea.

Quando essa hipótese se tornou uma resolução da ONU, os fatos e as discussões haviam avançado no sentido de constatar que Kadafi não fazia uso apenas de aviões para bombardear os civis, mas também de artilharia de terra. Logo, a exclusão aérea, impedindo a aviação militar de Kadafi de decolar, não impediria os massacres, pois não impediria a artilharia de terra de atirar. E como a zona de exclusão aérea implicaria na utilização de aviação militar, fazia mais sentido aprovar uma resolução mais abrangente, que incluísse o bombardeio das forças de terra de Kadafi. Isso foi feito. Foi também quando recomeçou a gritaria dos perfeitos idiotas latino-americanos, incluindo muitos representantes do governo brasileiro, de que se queria promover a “troca de governo” etc., para não falar de argumentos ainda mais perfeitamente idiotas. Por exemplo: no Bahrein havia igualmente repressão, mas não havia bombardeio da OTAN. Corolário: já que o governo do Bahrein “podia” matar barenitas, o governo líbio também deveria poder matar líbios...

Eis que emerge o caso sírio. Os perfeitos idiotas latino-americanos estão no momento cheios de dúvidas perfeitamente idiotas, pois é difícil negar que o governo sírio esteja massacrando sua população. As cobranças por uma ação à maneira Líbia já começam a aparecer na imprensa mundial. Se se intervém para tentar proteger os rebeldes líbios, por que não os sírios? Um homem (e mesmo uma mulher) “de esquerda” deveria apoiar uma possível intervenção, ou deve considerá-la uma ação neocolonialista? Neste caso, os mortos sírios são todos falsos, artefatos da propaganda ocidental, como clama o governo sírio, ou pró-ocidentais que devem mesmo ser coibidos pelo governo sírio, glorioso inimigo de Israel e não menos glorioso aliado do “resistente” Irã, para não falar dos gloriosos grupos da “resistência” palestina, como o Hamas?

É tudo complicado demais até para mentes imperfeitamente idiotas.

Mas ouso tentar ajudar. Não porque eu não seja idiota, mas porque não consigo ser perfeito em nada, o que inclui minha possível ou provável idiotia.

2.

A Síria é governada por um partido-irmão do falecido partido do falecido líder iraquiano, Saddam Hussein. Trata-se do velho Baath. O Baath não tem quaisquer credenciais democráticas, mas isso não tiraria o sono de ninguém que seja espertamente “de esquerda”. Portanto, pretendo discutir aqui outro aspecto da ditadura síria.

Pois ela tem um caráter duplo. De um lado, se baseia numa estrutura de partido único terceiro-mundista, ou seja, numa oligarquia corrupta apoiada num imenso aparato de segurança e na opressão política. Mas por outro lado, ela sobrepõe a isso o fato de ser também sectária. Pois o aparato do partido único, assim como o de segurança, para não falar dos principais mecanismos econômicos, no caso sírio estão concentrados nas mãos de uma minoria religiosa, os alauítas, que não passam de uma seita xiita. Em suma, a Síria é um grande e poderoso país árabe sunita governado despoticamente pela minoria xiita.

A queda do governo de Bashar Assad, portanto, implicaria na queda da minoria alauíta-xiita, e na subida ao poder da maioria sunita. As consequências podem ser resumidas em duas palavras: guerra civil.

Mas não uma guerra civil “qualquer”, como a atual que empata a Líbia. Pois a Síria não é a Líbia.

A Síria, ao lado da Arábia Saudita, é o principal país árabe e sunita, em termos históricos, o país onde fica uma das mais importantes cidades sunitas e árabes depois da própria Meca e de Bagdá, Damasco. Por isso, a Síria sempre esteve no centro das preocupações dos fundamentalistas islâmicos. Como escrevi há pouco, em fevereiro de 1982, o exército sírio cercou com tanques a pequena cidade de Hama, selando-a, enquanto a aviação pulverizava tudo e todos que ali se encontravam, de casas a cães e bebês, passando por homens, mulheres e crianças. Foi o (anti)clímax de uma revolta islâmica liderada pela Irmandade Muçulmana síria, iniciada em 1976. Os números de mortos variam entre 10 mil e 30 mil, com algumas estimativas chegando a falar em 80 mil. O que não se discute é ter sido o evento de Hama o maior massacre pontual praticado por um governo árabe contra seu próprio povo na história recente.

Afinando porém a última afirmação, tratou-se de um massacre sunita praticado por um governo xiita. Isso apenas exemplifica o que aconteceria com a minoria xiita caso perdesse agora o poder: ser alvo dos mesmos métodos que usou nas últimas décadas contra a maioria sunita, com o tempero adicional de ser objeto de sua vingança.

Mas uma leitura atenta desse episódio também aponta para a força do fundamentalismo religioso na população e na política sírias. Pois essa grande revolta liderada pela Irmandade Muçulmana síria foi anterior mesmo à retrovolução iraniana contra o xá, em 1979, que para todos os efeitos inaugurou o renascimento contemporâneo do islã político.

Portanto, no caso sírio, o fundamentalismo islâmico não é um mero fantasma empunhado pelo governo tirânico com apoio ocidental para se manter no poder. Em primeiro lugar, o governo não tem nenhum apoio ocidental. E jamais teve. Em segundo lugar, esses fantasmas fundamentalistas sírios estão bem vivos. Apesar de todos os esforços do governo para espantá-los.

Para complicar um pouco mais, a Síria está em estado de guerra oficial com Israel desde 1967, por causa do contencioso fronteiriço das colinas de Golã.

Para complicar ainda mais, a Síria é o grande patrocinador, ao lado do Irã, do Hezbollah libanês. E como o aumento da instabilidade política na Síria redundará fatalmente no aumento (!) da instabilidade política no Líbano, encurtar-se-ia o caminho para o partido-milícia-grupo-terrorista xiita Hezbollah tomar o poder. Entre outros inúmeros motivos, para tentar ajudar os irmãos xiitas sírios na guerra civil que então se desenrolaria ali ao lado.

Pergunto então ao perfeitos idiotas latino-americanos de plantão o que se deve fazer: acusar o Ocidente de omissão, por permitir o massacre da oposição síria, ou acusar o Ocidente de pretender derrubar o governo antiocidental e anti-israelense sírio com a desculpa de proteger a oposição síria?

De qualquer forma, enquanto a oposição síria não for contida pela opressão do governo sírio, ela não deve recuar. Neste caso, a instabilidade síria irá aumentar de qualquer maneira. E, no limite, isso significará a queda do governo sírio.

Porém a queda do governo sírio significará a queda dos xiitas sírios e a ascensão dos sunitas. Sunitas que, no caso sírio, são historicamente mais fundamentalistas do que os xiitas...

Respondo então a parte das dúvidas dos perfeitos idiotas latino-americanos: podem ficar tranquilos, o Ocidente não intervirá na Síria. Nem o Ocidente nem ninguém. Pois se a situação síria é cada vez mais menos sustentável, nenhum cenário resultante é aceitável. A Síria é o próprio pesadelo da história de que falava Joyce: um do qual não se desperta, e que se vive à luz do dia. Um dia que ainda pode escurecer bastante, apesar de estação “primaveril” atualmente em curso no mundo árabe.

05 outubro 2010

A República e a Maria da Fonte

Designa-se por Revolução da Maria da Fonte um conjunto de acontecimentos que teve lugar em Portugal entre Abril de 1846 e Junho de 1847, mas que, de facto, se estende bastante para além deste intervalo. De facto, a insurreição militar de 1 de Maio de 1851, dando origem à Regeneração, e a revolta da Janeirinha, em 1868, que termina com este período, mais não foram do que os últimos episódios decisivos das convulsões que atravessaram a sociedade portuguesa dos meados do século XIX.

Se nos cingirmos, porém, ao que se passou nos 15 meses que medeiam as duas Primaveras sucessivas deparamo-nos com um facto inédito, até e depois dessa altura, no nosso país e estranho à história da quase totalidade, se não mesmo à da totalidade dos restantes povos da Europa. Refiro-me à necessidade da rainha se ver forçada a pedir a ajuda de tropas estrangeiras para dominar uma rebelião popular em que, do Minho (onde começara) ao Algarve, todo o Portugal se envolvera. Uma rainha que pede auxílio aos exércitos da Quádrupla Aliança, nomeadamente aos de França, Espanha e Grã-Bretanha, para esmagar a revolta do seu próprio povo. A pretexto de este estar a ser manobrado por uma estranha aliança entre Setembristas (a esquerda, se assim se lhe podemos chamar) e Miguelistas, estes últimos pretendendo devolver a coroa a um tipo de monarquia que, tal como seu pai, D. Pedro IV, afirmava ser retrógrada. Quádrupla Aliança que interveio, assim, no sentido de que Portugal e a própria Espanha, onde começavam a soprar ventos semelhantes, se tornassem ingovernáveis - pela monarquia liberal e seus apoiantes e promotores.

Deixarei de lado a enumeração e a cronologia dos factos, por considerar que nos links inseridos no início deste texto ambas são suficientemente estabelecidas, bem como os nomes dos principais intervenientes. Julgo que, muito embora se trate somente de artigos incluídos na Wikipedia, não contêm incorrecções e, portanto, não falseiam o que os historiadores que se demoraram, com maior ou menor atenção, a analisar este episódio acharam por bem dizer sobre ele. Mas acerca disto mesmo voltarei mais tarde.

Basta-me lembrar o essencial: que na sequência das lutas civis que tiveram lugar na primeira metade novecentista entre partidários (com diferentes graus de radicalidade) do estabelecimento das monarquias constitucionais, de influência francesa, e os que pretendiam o regresso à fórmula que vigorava anteriormente a 1820, se desenrolava o último acto do braço-de-ferro de acesso ao poder. E que era Costa Cabral, ministro do constitucionalismo mais moderado, quem detinha o poder governamental. Por detrás de tudo isto, defrontavam-se ainda o fantasma de D. Pedro IV, materializado na rainha e nos seus apoiantes, e o ainda bem vivo D. Miguel, representantes, respectivamente de cada um dos tipos de regime.

Portugal era um país rural, mas de um ruralismo já diferente na sua relação com o país, mercê das alterações trazidas pela revolução de 1820. Alterações que não haviam trazido a reforma agrária que Almeida Garrett reclamava como urgente e decisiva, mas apenas a troca de proprietários das grandes extensões. Em vez da distribuição das terras confiscadas a ordens religiosas e alguma nobreza pelos camponeses, o que se verificou foi a compra dessas grandes propriedades pela burguesia endinheirada da capital. O camponês passou da condição de servo para a de assalariado de alguém cujo rosto poucas vezes tinha ocasião de ver ou que até desconhecia por completo, de alguém distante, com quem não possuía, portanto, qualquer ligação afectiva ou contacto. Mas que o obrigava, em nome das novas liberdades conquistadas, das quais ele não tinha grande noção e muito menos proveito que se visse, a pagar impostos cuja utilidade não lhe era clara nem dos quais retirava qualquer benefício que lhe fosse útil. Matemos, pois, esses Cabrais!

Rural e municipalista. E os municípios, cacicados ou não, têm cada vez menos poder decisório perante a necessidade de centralização que é vital para a imposição da nova ordem social e económica. Estão sobrecarregados de impostos para satisfazer os requisitos dos novos dirigentes do novo modelo de Estado. E os caciques, também eles, afinal, povo, rosnam, ameaçam os novos figurões, conspiram agora com os antigos senhores das terras que os formam. E nem sempre se limitam a sussurrar: “Matemos os Cabrais, que são falsos à nação!”. É que o coro dos munícipes faz-se ouvir por detrás deles, dá-lhes força. Os donos de Lisboa e do Porto julgam-se donos do país. Mas não são.

Rural e católico. Religioso ou supersticioso ou ambas as coisas, não interessa. Somente um ser suficientemente humano para interrogar a vida para além do cumere, do bubere, do bailare e do. O ser mais que meramente animal, que interroga a existência na sua relação com a morte nem que por um único dia na vida. O ser que, por isso mesmo, se abre à noção do que possa haver para além dela e, consequentemente, à outra, a do sagrado. O ser que determina o local onde se dá essa tentativa de ligar ou religar ao Princípio de todos os princípios. O ser que constrói a casa no local onde essa união se efectua e que, por isso, confere a esse local toda uma simbologia estreitamente ligada ao significado mais profundo da vida e da morte. O local onde, por ter sido sacralizado, deverão descansar os que morrem. O espaço da igreja. Onde, por razões duvidosas para os seus conhecimentos e por decreto de uma Lisboa distante, fria e opressora, cada vez mais ímpia e impiedosa, deixarão futuramente de poder ser enterrados. O cerne do significado último de tudo é, deste modo, abalado. A partir deste momento, nada mais há a perder! Matemos os Cabrais, que ardam para sempre nos infernos!

E é no lugar onde vida e morte surgem iniludivelmente ligados que tudo começa. Foi, como se sabe, talvez inevitavelmente, num funeral que tudo começou. Foi de lá que a fúria do povo rolou pelo país inteiro, uma fúria feita de varapaus, navalhas, machados, forquilhas, fuzis. E, por fim, soaram os canhões. Os dos constitucionalistas, de um lado. Do outro, em simultâneo, os dos setembristas e os dos miguelistas. E o povo revoltoso, o povo do “país real” de então, o que andava descalço e deu, por isso, ensejo a quem o desprezava de chamar à sua guerra a “guerra da Patuleia”, onde estava?

É precisamente aqui que se começa a supor um vislumbre de explicação de um outro facto, bastante estranho. Refiro-me ao facto de, face a um fenómeno social desta dimensão e com as consequências que se conhecem, os historiadores consagrados da nossa praça passarem, em geral, por ele mais ou menos apressadamente, que nem cão por vinha vindimada, como diria a expressão popular. Oliveira Marques, por exemplo, atribuiu-lhe um espaço reduzidíssimo na sua História para estudantes universitários em dois volumes, se tivermos em conta a dimensão da obra e a atenção que dá a outros acontecimentos, bem menos importantes e dramáticos. Porquê este silêncio ou, pelo menos, este desvio generalizado do olhar e da atenção? Aceitando como verdadeiro o que se afirma na cadeira de Teoria da História e o bom senso confirma, consubstanciado numa observação que ouvi a um dos professores que mais respeito me mereceu: “História? Histórias!”, avançarei eu agora com uma possível razão para esse silêncio.

Retomando o que estava a dizer: por onde andava a revolta do povo do país profundo, o povo português “esmagadoramente maioritário”? Como se distribuía no apoio aos movimentos políticos armados militarmente? Relembro que um dos motivos que justificou a decisão da Quádrupla Aliança de intervir contra os revoltosos foi que a mesma tendência se verificava já em Espanha. Qual era essa tendência anti-liberal estabelecida? A dos Setembristas? Bem, não eram estes, afinal, o liberalismo numa versão mais radical, mais “esquerdista”? Não eram eles, afinal, mais um movimento de intelectuais de pendor aguerrido no alcance e nos meios de fazer vingar as suas convicções? E não era precisamente contra essa perspectiva de ordenação da sua existência que o povo se erguera? Herdeira de Marx, que perspectivou a Patuleia como não mais do que um episódio da luta pré-revolucionária europeia que o proletariado, atendendo à dialéctica da História, estaria futuramente destinado a comandar, a esquerda e, em particular, a extrema-esquerda, tornaram-na bandeira da sua luta, em Portugal, como exemplo da luta pelas medidas “progressistas” e emancipadoras dos trabalhadores. O que é, a meu ver, uma conveniente descontextualização dos factos para o seu melhor aproveitamento ideológico.

O povo, à excepção provável de uns quantos elementos, não tem grandes ligações com esses intelectuais. Tem, isso sim, com os antigos senhores, pelos quais, passada a primeira ilusão de se haver visto livre de um fardo, voltou a suspirar 26 anos depois. Entenda-se: o nobre, senhor das terras, vê-as como parte do seu eu, como uma sua extensão. É uma visão orgânica, não uma visão comercial. Tem amor, mesmo que puramente possessivo, ao que é a marca do seu estatuto, a terra é como que o prolongamento do seu corpo. Não a encara com a frieza comercial do burguês, ou como objecto que confirma a ascensão social desse mesmo burguês, feito barão de extracção política recente - Foge, cão, que te fazem barão!/Para onde, se me fazem visconde?, ironizava Garrett. Nem aplica, impessoal e indiscriminadamente, os mesmos impostos, como faz o governo igualitário central, em nome da maior justiça social, iluminada pela racionalidade universal.

E, mesmo quando explora os seus servos, estes recorrem muitas vezes a uma arma ímpar. É que há sempre um, ou uma, ou uns, ou umas - há sempre quem tenha tido o privilégio de haver sido, na infância, companheiro de brincadeiras, fiel amigo e até confidente, quando não muito para além disso. E que acaba por, intercedendo em favor próprio ou dos restantes, amenizar ou anular os efeitos indesejáveis de uma decisão errada ou prepotente. A relação com o nobre tem um carácter, positivo e negativo, de afecto, é um contacto, no seu melhor como no seu pior, feito de humanidade. Está-se em contacto directo com o poder e é possível ou, ao menos, existe a esperança de poder chamá-lo à razão. Com Lisboa, não. A universalidade desprotegeu o camponês da arbitrariedade, da prepotência, da arrogância e da exploração do seu trabalho. E ainda ataca, com arrogância e verdadeiro desprezo, as suas tradições e convicções profundas.

O camponês, o povo, apoia os miguelistas, apoia os seus antigos senhores, aqueles com quem aprendeu, durante séculos, a conviver e relacionar-se. O povo recusa violentamente os novos senhores, os que o enganam com promessas de liberdade e justiça para os tornarem mais indefesos aos poderosos, através da universalidade da lei. O povo percebe que a ideia abstracta é uma forma de dominação concreta, que a ideia pode ser a cadeia que o aprisiona muito mais eficaz e perversamente do que qualquer nobre podia concebeu.

Que o povo apoiou em massa os miguelistas é um facto que, embora não o escondam, é, contudo ignorado pelos historiadores, inclusive os ligados à mais conhecida facção dos monárquicos portugueses, os quais, tal como os seus colegas republicanos, intercalam nos seus textos sobre o assunto expressões sintomáticas de um certo desdém pelo povo “atrasado”, como facilmente se pode verificar naqueles cuja leitura proponho. Estão, evidentemente, e possivelmente com maiores razões do que as minhas, no seu direito. Mas, além de ser também meu o direito de discordar, nesse aspecto, do que afirmam ou insinuam, julgo descortinar no tratamento que fazem do tema e nesses indícios de um menor apreço pelo grau de discernimento dessa revolução popular um factor fundamental, que procurei pôr a claro neste meu texto, escrito quase de rajada e, por consequência, insuficientemente cuidado quer literária quer argumentativamente.

É que, tal como dizia esse meu velho professor, “História? Histórias!”. E a perspectiva dos actuais historiadores, o estado de espírito individual e social de onde partem para construírem as suas Histórias, é o consequente à defesa desses tais ideais abstractos de liberdade e igualdade perante a lei com que se justificaram os poderes que decorreram da Revolução Francesa. Está nelas implícito um louvor à superior humanidade e humanismo que trouxe a queda da Bastilha consigo bem como à superioridade, no mesmo plano e no plano da competência de quem nos governa e que o povo pode escolher livremente. O resto são trevas.

Analisar seriamente a Maria da Fonte equivaleria à desmistificação da realidade sobre a democracia e a saúde social do nosso tempo republicano. Como se pôde ver, aliás, em tudo o que esteve ligado às comemorações oficiais desta semana.

(dedico este desabafo mal-amanhado à memória de Manuel Grangeio Crespo, que, muitos anos atrás, me alertou para alguns dos aspectos que hoje referi e aos desiludidos do 25 de Abril).