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19 maio 2011

"A democracia nada virtual"


Uma seta certeira de Luís Dolhnikoff:

Um príncipe saudita sai nu do banheiro do seu quarto de hotel e se depara com uma camareira dobrada sobre a cama, arrumando-a. “Naturalmente”, decide possuí-la. Em seguida, pela reação da mesma ao estupro, decide se manda seus seguranças sequestrá-la, matá-la e “sumi-la”, ou calá-la com dinheiro. Seja como for, uma camareira, depois de “derrubada” por um príncipe saudita, não derruba um príncipe saudita. Ou o filho de um Kadafi. Etc. Mas pode derrubar um “príncipe” das finanças mundiais, Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional e principal candidato às eleições presidenciais francesas

Mas se ele é um homem potente, ou poderoso, e ela uma mulher impotente, ele um político de expressão mundial, ela uma camareira de hotel, como pode a camareira derrubar o “príncipe”, em vez de o “príncipe” derrubar definitivamente a camareira? Porque a impotência dela e a potência dele são anuladas e equilibradas por outro poder, por outra força, a da lei. Mais exatamente, pela força da igualdade perante a lei. Se há igualdade, não há diferença. Se não há diferença, as diferenças de potência ou poder se anulam.

Os significados da prisão de Dominique Strauss-Kahn em Nova York são claros e marcantes.

Em primeiro lugar, os EUA são uma verdadeira democracia, apesar da antipropaganda dos antiamericanistas. Uma democracia de fato, de fatos.

Em segundo lugar, a democracia “burguesa” não é valor descartável. Pois apenas ela garante uma significativa igualdade perante a lei. E nada é mais relevante do que isso, ao menos para os fracos e impotentes.

Em terceiro lugar, a democracia brasileira, mais formal do que real, pois contempla o formalismo eleitoral mas se limita a ele, é menos real do que formal. A famosa e infame impunidade brasileira, ou seja, a inação estrutural e histórica da justiça, anula, na prática (que é o que importa), a igualdade perante a lei. E essa anulação anula, por sua vez, a base mais profunda da democracia. Porque os poderosos, por definição, defendem-se a si mesmos. Apenas os impotentes precisam da lei.

O episódio da denúncia e prisão de Dominique Strauss-Kahn em Nova York é tão luminoso e iluminador que faz o que parecia impossível, promover um curto-circuito nas teorias da conspiração. Um todo-poderoso das finanças mundiais ataca sexualmente, na intimidade de seu quarto de hotel de luxo, uma mera camareira, e ela o denuncia em seguida. Um crime crível. Verosímil. Comum. Ou que o seria, não fosse tudo o que tem de absolutamente inusual. Tão inusual quanto a verdadeira igualdade perante a lei.

05 abril 2011

"Mas por que não se pode queimar o Corão?"


Título deste novo e EXCELENTE texto que Luís Dolhnikoff acabou de me enviar "a quente":

No dia 11 de setembro de 2010, um pastor evangélico norte-americano anunciou que queimaria 200 exemplares do Corão, para lembrar a ligação do islã com a queima do World Trade Center em 2001, e a morte de 3000 inocentes. Houve reações planetárias. Da Casa Branca ao Vaticano, passando pela Interpol e o comandante norte-americano no Afeganistão, todos pediram ao pastor que recuasse, porque isso levaria a reações violentas de fanáticos muçulmanos e daria munição a terroristas islâmicos. De fato, houve inúmeras manifestações no mundo islâmico. Incomparavelmente maiores e mais contundentes, em sua quantidade e em sua indignação, do que aquelas registradas no próprio dia 11 de setembro de 2001. Para o mundo muçulmano, parece, queimar edifícios (ao menos edifícios ocidentais) é menos grave e ofensivo do que queimar livros, ou ao menos, exemplares do Corão.

Eis que agora o mesmo pastor volta à carga (ou às chamas) e, mais modesto, queima não 200, mas um exemplar do Corão. Em reação, fanáticos muçulmanos no Afeganistão invadem uma missão da ONU e matam por linchamento nove funcionários. Além dos assassinatos vis, há inúmeras manifestações de condenação violenta da queima do livro, tanto por autoridades políticas do mundo muçulmano quanto do Ocidente, além de autoridades religiosa islâmicas. As manifestações de repúdio à queima são maiores e mais frequentes, ou ao menos mais audíveis, do que a condenação aos assassinatos.

Qual o problema, porém, de se queimar o Corão?

Não se trata, em todo caso, de algo semelhante aos antecedentes mais célebres, os autos-de-fé medievais, em que a Igreja queimava livros proibidos, ou seus equivalentes nazistas: porque estes eram atos de exercício do poder político, no contexto da censura oficial a esses mesmos livros. Tampouco é semelhante a famosos e infames atos históricos de barbarismo, como o do

comandante árabe que no ano de 642, depois de ter entrado em Alexandria [até então uma cidade cristã], mandou que todos os livros da grande biblioteca fossem queimados. O que está nela e também no Corão, teria dito, não precisa ser conservado; o que está nela e não está no Corão, não serve para nada (D. J. Struik, “Por que estudar a história da matemática”, in Ruy Gama (org.), História da técnica e da tecnologia, São Paulo, Edusp, 1985, p. 191).

Qual é então, afinal, o problema de se queimar o Corão? Tenho um exemplar do Corão na minha biblioteca (Alcorão Sagrado, trad. Samir El Hayek, São Paulo, Marsam, 2001). Se um dia eu decidir me desfazer dele, não posso, portanto, jogá-lo no lixo? Principalmente se decidir queimar nesse dia o meu lixo? Ou seja, o que eu decidir fazer ou não com o exemplar do Corão de minha propriedade, que faz parte, com o resto dos meus livros, da minha biblioteca particular, diz respeito ao islã em geral e aos muçulmanos em particular?

Do ponto de vista islâmico, surpreendentemente, sim, porque o islã não conhece, ou não reconhece, a separação entre vida religiosa e vida civil, portanto, entre a esfera pública e a privada, marcas definidoras da modernidade ocidental. Por isso, preciso tomar cuidado com o que faço com meu próprio exemplar do Corão em minha casa, assim como uma mulher não pode fazer com o seu próprio corpo o que queira (inclusive escolher o modo de se vestir). Por isso, também, o islã se comporta, como regra, como um corpo estranho na sociedade aberta ao estilo ocidental: pois o fundamento dela é a lei civil, que além de laica, tem como objetivo primordial a defesa do indivíduo e de sua liberdade individual, inclusive contra ações do próprio Estado, que dirá das religiões.

Quando eu era mais jovem, vi muita gente enrolar cigarros de maconha em páginas da Bíblia. Porque o famoso papel-bíblia, por sua finura, servia como um substituto palatável ao papel de cigarro, quando este faltava. Mas além do aspecto pragmático, havia também no gesto uma clara dimensão cultural, ou melhor, contracultural: pois ao ato de se consumir uma substância ilícita que alterava a consciência se acrescentava a queima de páginas das Escrituras sagradas. A soma da cena era, em suma, a afirmação de que não há nada mais sagrado do que a própria liberdade individual.

A sacralidade da liberdade individual versus a sacralidade da religião: na história ocidental, a modernidade é, de certa forma, o resultado da vitória sócio-político-cultural da primeira sobre a segunda, a partir do fim da Idade Média, marcada pela predominância do poder da Igreja, limado e eliminado com a ascensão do laicismo republicano e da sociedade aberta. No mundo islâmico, a sacralidade da religião ainda não foi historicamente posta em xeque. Daí ela ser uma questão política e social, e não meramente da esfera privada. Daí a liberdade individual, como a de manifestação antirreligiosa, poder ser vista como afronta à religião, quando, na verdade, é a religião não-reformada, não-modernizada e não-privatizada que afronta a liberdade individual e a modernidade.

A destruição de um livro por um indivíduo (assim como de uma bandeira), como manifestação de opinião pessoal ou ato performático de qualquer tipo, é um direito individual inalienável, indiscutível. “Comprar” os argumentos religiosos, de que se trata de afronta à religião, e que por isso seria condenável, é questionar a liberdade de manifestação. Não por não se tratar de uma afronta à religião: mas porque se pode, sim, afrontar religiões, assim como se pode afrontar qualquer sistema de ideias, ou seja, questioná-las. Religiões não são indivíduos, são crenças, e crenças são objetos perfeitos de questionamento no embate das ideias. Daí decorre que o outro argumento, de que tais atos incitam o ódio religioso e mesmo racial, é falso. Em primeiro lugar, nada aí de “racial”. Muçulmanos não são uma “raça”. Em segundo lugar, o que na verdade incita o ódio religioso é a própria religião, não seus questionamentos. Ou seja, é a impermeabilidade das religiões e dos religiosos ao questionamento, manifestada por reações de ódio a esses mesmos questionamentos, o que alimenta e realimenta o ódio religioso, e esse ódio se volta afinal contra a liberdade expressão, que é a liberdade de questionamento.

O assassinato, por outro lado, principalmente o movido por ódio (no caso, o ódio religioso) é que se constituí aqui o único e verdadeiro crime – um crime vil, infame, indefensável, que deve ser condenado do modo mais claro e inquestionável possível.

16 fevereiro 2011

E o segundo post do dia...


... é para dizer que não tive tempo para escrever o que planeava, mas que recomendo a leitura disto.
Até amanhã.

14 fevereiro 2011

26 outubro 2010

Islamismo, Ocidente e Liberdade - 3

A propósito dos dois posts anteriores, deixo mais este texto que Nicolau Saião me enviou, dias atrás:

Estudo da Fundação Friedrich Ebert

Xenofobia e anti-islamismo em crescendo “muito significativo” na Alemanha http://www.publico.pt/includes/img/vazio.gif

A atitude negativa na Alemanha em relação aos cidadãos estrangeiros a residirem no país aumentou drasticamente, com um terço dos alemães a defenderem a repatriação e mais de metade (58,4 por cento) a manifestarem-se favoráveis a restrições à prática do islão.

Estas tendências, reveladas no estudo “Crise na Alemanha Média”, publicado ontem pela Fundação Friedrich Ebert (com ligações ao Partido Social Democrata, na oposição), passam ainda por 55,4 por cento dos inquiridos a dizerem “compreender que os árabes sejam vistos por algumas pessoas como sendo desagradáveis”. In PÚBLICO

Nota do autor do post - No final, o estudo acha mal esta reacção dos cidadãos alemães. Claro…

Mas, meus caros concidadãos

O truque, ei-lo!

Este estudo é transparente. Basta sabermos ler com alguma argúcia. Ele diz que cresce, e cito, o anti-islamismo. E eu diria: e daí? Não se pode ser anti-islamita? Mesmo que seja pelas melhores e mais justas razões?

Porque, vejamos, se o anti-islamismo cresce, isso é devido aos anticorpos que o fanatismo islâmico, ora brutal ora habilidoso e falsamente "moderado", está a despertar. E isso, o estudo branqueia discretamente, preferindo dizer que se deve a causas económicas.

Trata-se de um truque. Pró-islamita. Simplesmente. O cerne da questão assenta, digamo-lo sem medo das palavras, nisto: o desejo do Islão de domínio mundial. E nem o ocultam já. Mas certo Ocidente acha bem, desde que seja sem violência...

E temos de dizer sem medo: com ou sem violência, não queremos isso. Aqui é que bate o ponto.

Viva a liberdade e a Democracia, em todo o lado!

ns

Islamismo, Ocidente e Liberdade - 2


No PÚBLICO de 19 de Outubro:

«Um cartoon que mostra a família real dinamarquesa a participar numa orgia levou ao cancelamento da exposição dos seus autores, o duo composto por Jan Egesborg e Pia Bertelsen, do colectivo de artistas dinamarqueses Surrend. Cinco anos depois da controvérsia dos cartoons de Maomé, os artistas queixam-se de censura. “A Dinamarca pretende incentivar a liberdade de expressão e defendeu a publicação de um cartoon que atingiu milhões de muçulmanos, mas quando se trata da sua realeza a história é diferente”, disse Egesborg.

Segundo Thomas Bloch Ravn, director do museu Den Gamle By em Aarhus (Dinamarca) onde estava a exposição, estes cartoonistas “só querem chamar atenção” e por isso não pode “confiar neles”, justificando assim ao "The Art Newspaper" porque pôr fim à exposição.

“Nós concordámos com a exposição retrospectiva dos seus trabalhos, mas quando o grupo Surrend anunciou que tinha um trabalho inédito retratando a família real dinamarquesa numa cena pornográfica, isso foi contra o acordo”, acrescentou o responsável pelo museu.

Para os artistas, o cancelamento da exposição é “um caso claro de censura”. Egesborg, co-fundador do grupo Surrend, declarou à AFP que “não existe liberdade de expressão, excepto quando se trata de ridicularizar uma minoria muçulmana”, relembrando o caso do cartoon de Maomé que em 2005 foi publicado num jornal dinamarquês e criou uma forte polémica à escala mundial em que se debateram os limites da liberdade de expressão envolvendo a comunidade muçulmana - o Corão condena a idolatria e por isso são rejeitadas representações pictóricas do profeta Maomé.

Por seu turno, Ravn negou a acusação de censura: “Da mesma forma que um editor decide o que é publicado num jornal, o responsável do museu tem a última palavra em relação aos trabalhos de uma exposição. Eles são livres de publicar o trabalho onde quiserem”.

Esta não é a primeira vez que o colectivo Surrend satiriza a família real: o grupo já exibiu cartazes da família real decapitada ao lado de uma guilhotina.»

Recordemos agora, para melhor compreensão da situação e da argumentação de ambas as partes, o seguinte:

- Que, na Dinamarca, de cada vez que se regista o falecimento de um rei ou rainha, o Parlamento deverá pronunciar-se sobre a continuidade do sistema monárquico ou a sua substituição pelo sistema republicano;

- Que, pelo menos nos séculos XX e XXI, a casa real dinamarquesa tem constituído um exemplo quanto à defesa da democracia, tendo ficado para a História a posição que tomou face à invasão nazi e à defesa dos judeus perseguidos;

- Que a família real dinamarquesa tem sido igualmente uma referência quanto à sensatez, tanto no que diz respeito à sua vida pública como à institucional.

Posto isto, colocar em pé de igualdade as caricaturas de Westergaard sobre a relação entre terrorismo e islamismo com as do grupo Surrend, achincalhando a família real da Dinamarca, é o mesmo que pôr em pé de igualdade o discurso de alguém que produz um conjunto de considerações e de alertas sobre um perigo iminente e o de um grupelho de rapazolas que decidem, para se divertirem, ir para a frente da casa de alguém, atirar-lhes pedras à janela e gritarem infantilidades tolas sobre a sua vida privada. E, pior ainda, confundir isto com liberdade de expressão. Artística, ainda por cima.

Porque aceitar confundir arte e liberdade de expressão com a mediocridade oportunista mais reles não é um acidente. É um sintoma de uma ilucidez profunda e letal que tende, cada vez mais, a forçar-nos a regressar à barbárie e à mesmo à auto-destruição. É o sintoma maior daquela degradação de alma dos versos da Mensagem, de Fernando Pessoa (de quem está esquecido, aliás, um extraordinário texto sobre este tema): "Ninguém sabe que coisa quer/ninguém conhece que alma tem/nem o que é mal nem o que é bem/(...)".

Ao que eu diria, como ele diz no final do poema: "É a Hora!"

Islamismo, Ocidente e Liberdade - 1

Entrevista a Kurt Westergaard, conduzida por Natália Faria, no PÚBLICO de 3 de Outubro.

Cinco anos depois de o seu cartoon que mostrava um Maomé com um turbante em forma de bomba ter desencadeado a ira do mundo muçulmano, o dinamarquês Kurt Westergaard veio ontem a Portugal falar sobre Identidade, Liberdade e Violência, no X Simpósio de Santa Maria da Feira, dirigido por Renzo Barsotti, responsável do Centro de Criação para o Teatro e Artes de Rua. Apesar de continuar rodeado de seguranças, o cartoonista mantém que o diálogo é a única arma contra o fundamentalismo islâmico.

Vai publicar em Novembro um livro de memórias que replica o cartoon em Maomé surge com uma bomba no turbante pronta a explodir. Não tem medo de novas ameaças?

É um livro sobre a minha vida, que, aliás, não teve nada de muito extraordinário, exceptuando os últimos cinco anos. Quanto às ameaças, uma pessoa habitua-se. E penso que, em relação a isso, tenho uma vantagem: sou um homem velho. Quanto mais velhos, mais corajosos nos tornamos, porque aquilo que arriscamos, diminui. Aos 75 anos, a minha perspectiva de vida é muito limitada.

Estava a pensar no risco de haver mortes de inocentes num cenário de eventual reedição de protestos. Alguns supermercados e livrarias já se recusaram a pôr o livro à venda…

Há esse risco, claro, mas, sabe, não fui eu que iniciei esta confusão, foram os terroristas. Não penso que possa ser responsabilizado por nada disto, porque eu limitei-me a trabalhar de acordo com as tradições do meu país, que entende a liberdade de expressão.

O que é que mudou na Europa nos últimos cinco anos, em questões como a tolerância e a liberdade de expressão?

Penso que a Europa está diferente e iniciou, entretanto, um processo que era necessário e que é o de discutir qual deve ser o papel da religião nas sociedades modernas e seculares como as que vivemos. Se olharmos para isto de um ponto de vista dramático, atravessamos um momento de colisão entre duas culturas; numa óptica mais moderada, podemos falar de fricção entre duas culturas. Não penso que possamos fugir a este confronto, temos é que encará-lo com atenção, diálogo e uma atitude pacífica.

Na sua opinião, onde é que a religião se encaixa nas sociedades modernas?

Na Dinamarca, eu vivo naquilo a que se chama um estado secular, sem religião como elemento de política, e penso que os nossos cidadãos muçulmanos têm forçosamente que aprender a respeitar isso. os muçulmanos chegaram ao nosso país sem nada e nós demos-lhes tudo: casa, dinheiro, educação, e note que a educação na Dinamarca é gratuita e cada estudante recebe do Estado qualquer coisa como dois mil euros por mês. Ou seja, a Dinamarca é um estado social que não aceita que as pessoas sejam pobres ou maltratadas. Portanto, nós tratamos os novos cidadãos muito bem e o que exigimos em troca é respeito pelas nossas normas e tradições.

Mesmo na Dinamarca, o Danks Folkeparti tornou-se na terceira força política do país. Como encara a ascensão da extrema-direita em sociedades ricas como a dinamarquesa, mas também sueca ou holandesa?

Na Dinamarca, temos alguns problemas com os jovens imigrantes muçulmanos, que estão a formar gangues nos subúrbios e a transformar bairros em guetos onde um cidadão vulgar tem medo de entrar. Os muçulmanos têm realmente dificuldade em aceitar os estados secularizados, e isto cria alguma tensão que leva a que o dinamarquês comum viva assustado.

Mas os sinais de intolerância estão por toda a Europa. Estou a pensar na deportação dos ciganos em França.

Os partidos da extrema-direita estão a crescer em toda a Europa, mais uma vez porque as pessoas andam assustadas em toda a parte. Maioritariamente sem razão, porque penso que o nosso sistema - democrático, secular e capitalista - é invencível.

Acha?

Sou tão velho que já experienciei o nazismo, o fascismo, o comunismo e agora este maldito islamismo. Todos estes ismos traduzem fanatismo e, quando se é fanático, vive-se uma vida sem dúvida. Ora, eu penso que a dúvida é o sentimento mais construtivo que nós podemos ter.

A Europa deve fechar as suas portas aos imigrantes?

Sim, ou, pelo menos, tem que ser mais cuidadosa. Claro que há milhões de pessoas que vivem em países em muito más condições, mas a verdade é que não podemos ajudar o mundo todo nem impor a nossa cultura a pessoas que a rejeitam. Por isso digo que fizemos uma coisa muito estúpida, e agimos como imperialistas culturais, quando iniciámos uma intervenção no Afeganistão. Eu acredito que as religiões totalitárias estão condenadas e vão desaparecer, mesmo que leve muitos anos. Até lá, não devemos sacrificar jovens vidas europeias nesta guerra, que é, na verdade, uma guerra contra a cultura muçulmana.

E quanto aos 20 milhões de muçulmanos que vivem dentro das fronteiras europeias?

Devemos tentar fazer tudo o que pudermos para os integrar, mas, para isso, eles têm que respeitar também as nossas normas. Temos que ser pacientes e lembrar que, na Dinamarca, um muçulmano pode estabelecer-se e estabelecer a sua própria escola muçulmana e que o Estado até o apoia nisso, como apoia o direito de toda a gente ter uma religião, desde que essa religião não comporte normas inaceitáveis para a sociedade. Penso que o desafio é transformar o islamismo clássico num islamismo light, que deixe de lado todos os fundamentalismos como os relacionados com a homossexualidade ou com a secundarização do papel da mulher. O problema do Islão é que se transformou numa ideologia política.

11 outubro 2010

Ainda sobre a República


José Luís Sarmento publicou este excelente texto no seu blogue As Minhas Leituras, cujo link se encontra disponível, a partir de hoje, no meu Miradouro.

06 outubro 2010

Leiam


Isto e isto. Quer um quer outro, poderão ser lidos em relação, mais ou menos directa, com o que escrevi abaixo.
Amanhã procurarei redigir e publicar o segundo dos três textos de maior dimensão que programei para estes dias.

26 setembro 2010

18 setembro 2010

Heil, Greenpeace!


Da juventude nacional-socialista à Mocidade Portuguesa, tudo o que este vídeo relembra é alarmante. E, pior ainda, quando se sabe que é passado em escolas pelos imbecis prá-frentex do politicamente correcto, cheios da sabedoria fast-food sobre os famosos e já decrépitos (porque a mentira não se conseguiu aguentar assim tanto tempo) "efeito de estufa" e "aquecimento global"! Para quando um curso de formação em "bufaria", inserido nas Novas Oportunidades, com passagem incluída para a Universidade? (vídeo citado numa caixa de comentários, também do Fiel Inimigo).

Nota - Repare-se no elemento teatral do capuz, no tipo de iluminação utilizada...

04 agosto 2010

Um ministro determinado...


... não precisa de fingir que é democrático nem sequer bem-educado. Só precisa de dizer que está bem informado.
E nem Salazar, se fosse vivo, se atreveria a duvidar de tal. Como diria o chefe do bando, perdão! da banda: Eróc faltava...!

08 julho 2009

A servidão do amo


Neste seu post, no Fiel Inimigo, José Gonsalo aponta ironicamente o carácter comprometedor do comportamento dos órgãos de comunicação no "caso Manuel Pinho". Eu, porém, procurarei ir um pouco mais longe, explicitando o que penso que ele quererá dizer com maior minúcia.
A este propósito, desejaria, porém, chamar ainda a atenção para dois posts (os únicos, aliás) publicados num blog de curtíssima duração e de autor ou autores desconhecidos, O Bigode na Sopa (clicar aqui), que neles tratam, com alguma profundidade, o tema da comunicação social em Portugal, a propósito da saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI. Pela minha parte, fá-lo-ei sucintamente.
O "caso Manuel Pinho" é, na realidade, um exemplo onde a natureza da comunicação social adjacente ao que impropriamente se chama democracia, bem com as suas relações com o tipo de poder decorrente desta, dão vista a qualquer cego. Bastaria aos órgãos informativos, para que cumprissem o dever a que se proclamam destinados e de que fariam o apostolado - o de esclarecer os cidadãos a quem se dirigem a troco de alguns trocos - , deslocarem-se, como tantas vezes o fazem, desnecessária e até inconvenientemente, aos locais em que existe, em seu entender, "matéria noticiável", para acabar com as dúvidas do país, dos "cidadãos". E, todavia, numa situação que serve de bandeira quer ao governo quer à oposição e na qual se encontra em jogo a situação e o futuro de várias centenas de pessoas nem uma palavra! Nem mesmo quando ela leva à demissão de um ministro por um gesto ordinarote, em resposta às provocações de um deputado, por acaso chefe de uma bancada parlamentar, o qual, se cumprisse o seu dever deveria estar em silêncio, escutando o primeiro-ministro e que, por isso, demonstra possuir um carácter tão ou mais ordinário do que o de Manuel Pinho, a que não falta sequer a atitude de "virgem ofendida".
A "comunicação social" não é, com efeito, nem serva do poder nem a sua dona: ela é a parte mais subtilmente secreta do organismo polifacetado que ele constitui. É porque é pública que se mantém incógnita, é por se apresentar como independente do poder que, protegendo-se e preservando-se, o preserva e o protege. Não é o quarto poder nem o contrapoder, porque é acção decisiva do poder, apresentando-se como um outro organismo, concorrencial. Assim, afasta, pelo silêncio, o essencial do que está em jogo no caso do ministro mal-educado e esmola o mais que pode à conta da lamúria e das considerações sobre as suas consequências. Sempre, claro, de modo a não dar do organismo que é uma imagem de degradação ou de fraqueza, que o poria em perigo. Com maior ou menor consciência das suas células operacionais, os jornalistas.
Voltarei ao assunto proximamente. Hoje, fico-me por aqui.

04 março 2009

Pelo correio


Não possuo informação que considere suficiente para discutir o que diz respeito à legitimidade do Duque de Bragança face a outros candidatos à herança do trono. Interessa-me, isso sim, discutir a racionalidade e o mais que monarquia e república põem em jogo nas suas pretensões a constituirem o melhor espelho e a melhor ferramenta da organização político-social.
Nesse sentido, na medida em que a voz dos monárquicos tem sido ignorada e abafada a partir de 1910 e que aquilo que é oficialmente veiculado, desde o ensino aos órgãos da comunicação, é a versão dos revolucionários republicanos, tenciono colaborar com a difusão dos seus pontos de vista, independentemente da facção que defendam. Sob condição de, evidentemente, se inserirem numa perspectiva democrática.
Passo, por este motivo, a transcrever este texto que me foi enviado ontem.

Abaixo divulgamos a mensagem de D. Duarte de Bragança, chefe da Casa
Real Portuguesa e presidente de honra do Instituto da Democracia
Portuguesa, proferida hoje, por ocasião do encerramento do I
Congresso Marquês Sá da Bandeira em Lisboa:

PERGUNTAS À DEMOCRACIA

D. Duarte de Bragança

Tem vindo a crescer em Portugal um sentimento de insegurança quanto
ao futuro, sentimento avolumado por uma crise internacional,
económica e social, de proporções ainda não experimentadas pela
maioria dos portugueses. São momentos em que importa colocar
perguntas à Democracia que desejamos.

Admitindo-se que a situação concreta é grave, torna-se necessário
encará-la de frente, antevendo todos os aspectos em que os
portugueses experimentam dificuldades.

Os tempos de crise vão-nos trazer privações mas também vêm
exigir reflexão. Este é o momento de olharmos para o que somos.
Para este país tão desaproveitado. Para a sua costa atlântica com
Portos tão ameaçados, para uma fronteira tão vulnerabilizada, para
um património cultural tão desaproveitado.

Temos de perguntar até onde deixaremos continuar o desordenamento do
território, que levou a população a concentrar-se numa estreita
faixa do litoral, ocupando as melhores terras agrícolas do país e
esquecendo o interior, reduzido a 10% do PIB.

Temos de perguntar à economia portuguesa por que razão os bens de
produção são despromovidos perante os “serviços”, o
imobiliário, e ultimamente, os serviços financeiros. O planeamento
das próprias vias de comunicação se subjugaram a essa visão.

Temos de perguntar até onde o regime democrático aguenta, semana
após semana, a perda de confiança nas instituições políticas e
uma atitude de “caudilhização” do discurso.

Temos de perguntar até onde continuaremos a atribuir recursos
financeiros a grandes naufrágios empresariais, ou a aeroportos e
barragens faraónicas que são erros económicos.

Temos de perguntar até onde o sistema judicial aguenta, sem
desguarnecer os direitos dos portugueses, a perda de eficácia e a
morosidade crescente dos processos.

Temos de perguntar se não deveríamos estabelecer um serviço de
voluntariado cívico em que os desempregados possam prestar um
contributo à comunidade.

Temos de perguntar até onde as polémicas fracturantes que só
interessam a uma ínfima minoria política, não ofendem a imensa
maioria das famílias, preocupadas com a estabilidade pessoal e
económica.

Temos de perguntar como vamos aproveitar o ciclo eleitoral que se
avizinha, a começar pelas eleições europeias, onde será
desejável que apareçam independentes que lutem pelos interesses
nacionais.

Temos de perguntar se nas relações lusófonas, estamos a dar
atenção suficente às relações especiais que sempre existiram
entre Portugal e o Brasil.

Para ultrapassarmos as dificuldades, precisamos de todos os nossos
recursos humanos em direcção a uma economia mais “real”, mais
sustentada, mais equitativa, uma economia em que respirem todas as
regiões a um mesmo “pulmão”.

Apesar de tudo, o nosso sector bancário fugiu das estrondosas
irresponsabilidades dos congéneres mundiais. Saibam os Governos
regulamentar os apoios para as empresas grandes, médias ou pequenas
mas que sejam produtivas.

Em regime democrático, exige-se processos e discursos ditados pelo
imperativo de responsabilidade. A equidade e integridade territorial
só poderão ser obtidas com a participação de todos, e com
sacrifícios para todos.

Estamos confiantes que somos capazes de fazer das nossas fragilidades
as nossas maiores vantagens. Onde outros tiveram soluções muito
rígidas que falharam, nós venceremos promovendo os portugueses que
lutam por um país de imensas vantagens competitivas.

Mostremos como somos um grande País, uma Pátria em que todos cabem
porque acreditam na Democracia. Portugal precisa de mostrar o seu
projecto para o século XXI. Pela minha parte, e pela Casa Real que
chefio, estou, como sempre, disponível para colaborar.

19 novembro 2008

Mas, já agora:


Deixou Santos Silva a dúvida sobre se por palavras ou se por actos...

09 outubro 2008

Da opinião pública


Entre as várias superstições verbais de que se alimenta a pseudo-inteligência da nossa época, a mais vulgarmente usada é a da "opinião pública". E, como acontece com todas as superstições que conseguem deveras enraizar-se mas que não conseguem tornar-se nunca lúcidas, este critério instintivo respeitador da opinião pública em palavras (porque sente que há por detrás da frase uma realidade), mas pouco respeitador dela em actos (porque não sabe definitivamente que realidade é essa), é ao mesmo tempo o esteio e o vício das sociedades modernas. (...)
Todos nós sentimos, qualquer que seja a nossa política que, em resultado, toda a política, para que não seja mais do que um oportunismo de egoístas, tem de se conformar com a "opinião pública", com a pressão insistente de uma opinião geral. Todos temos a intuição, natural ou adquirida, de que uma nação vale o que vale a sua "opinião pública"; porque, como essência de uma poliítica estável e fecunda, consiste na sua conformação com a opinião pública, pressupõe-se, na nação em que tal política é possível, um estado da opinião pública que persistentemente compila os políticos, os governantes, sob pena de deixarem de o ser, a conformar-se com as suas imposições. (...)
O que precisamos, portanto, de determinar para que devidamente nos orientemos no assunto, é, primeiro, que espécie de cousa é essa "opinião pública", com a qual uma política fecunda tem que se conformar, se essa "opinião pública" na verdade coincide com a "opinião das maiorias"; se essa "opinião pública" (...) pode ser manifestada pelo sufrágio; e, segundo, em que princípio, em que regras, assenta, por que processos se produz, essa "conformação" da acção dos governantes com a "opinião pública", qual a maneira por que na verdade a interpretam ou servem, e não apenas dizem servi-la e interpretá-la.
Fernando Pessoa, A Opinião Pública, Editorial Nova Ática

25 setembro 2008

Igualdade na diferença ou diferença na igualdade?


Enquanto prossegue a tourada da lei do divórcio, os homossexuais ensaiam a do casamento.
Pela minha parte, convido desde já à militância no sentido de legalizar o casamento poligâmico (poligínico ou poliândrico) e o casamento colectivo.
Ou bem que há direitos ou bem que não há!
Nisto tudo há uma coisa que nunca percebi: para que serve um casamento.

07 abril 2008

A teia 3


Reescrevendo a História - ou a decadência bimba e caceteira da Maçonaria.

A teia 2


A Antena1 emite o noticiário das 19. E, de repente, ouço dizer que os militares na reforma passam a ficar sujeitos ao regime disciplinar como se estivessem no activo! E que já há mesmo um processo em curso!!
Penso: a coisa está a tornar-se cada vez mais sinistramente interessante... À minha frente, postado no meio de uma enorme rotunda vazia cercada por um trânsito infernal e caótico, um cão alivia-se e liberta-me os pensamentos. Recordo Platão, para quem o cão é o animal filosófico...

19 novembro 2007

"Ninguém conhece que alma tem"


Depois de ter dito ao Expresso de sábado que "Sócrates é de uma pavorosa mediocridade", Vasco Pulido Valente escreve ainda o seguinte, no final do texto inserido no PÚBLICO de anteontem:
"Entretanto, o país discute o hipotético aeroporto de Alcochete, a putativa fusão do BCP e do BPI, a presuntiva demissão de José Rodrigues dos Santos, Maddie McCann, a Casa Pia (essa praga), o aborto e, a pedido do sr. Presidente da República, o mar. Por outras palavras, Sócrates (com a voluntária ajuda de Cavaco) despolitizou Portugal. Vivemos numa sociedade apolítica, que obedece à autoridade, sofre calada e aceita com resignação o seu destino. Sócrates conseguiu, de facto, impor a toda a gente a obediência servil do PS. Pouco a pouco o essencial desapareceu de cena: a liberdade e a justiça, o Governo e o Estado. E voltaram, como sempre, o "imperativo nacional" e a competência técnica, que Sócrates naturalmente encarna. A democracia vai morrendo sem ninguém dar por isso".