Nem de propósito: tinha eu acabado de ver nos telejornais da meia-noite - enquanto (finalmente!) jantava -, o vídeo que o autor do massacre do Rio de Janeiro gravou antes de o fazer, quando, ao consultar o e-mail, encontrei um texto que Luís Dolhnikoff me enviara duas horas antes, no qual adiantava considerações que eu próprio havia congeminado, face a alguns pormenores reveladores adiantados pelo assassino. Pormenores que, aliás, confirmei com maior detalhe, há pouco, no telejornal da RTP1, onde o vídeo foi passado integralmente ou, pelo menos, mais extensamente.
Aqui fica, portanto, o texto de Luís Dolhnikoff, a quem, uma vez mais, agradeço a gentileza.
TERROR ISLÂMICO ATACA ESCOLA NO BRASIL
1.
A manchete acima foi até agora negada ao público brasileiro por uma mistura tóxica de ignorância, incompetência, provincianismo e “político-corretismo”, sem os quais ela seria evidente ou necessária. O que isso diz da sociedade e do jornalismo brasileiros deixo para o leitor. Vamos aos fatos.
Num subúrbio carioca, um homem de 23 anos volta à escola onde estudou muito bem armado, com dois revólveres, cinto de munição e recarregador rápido, além de um plano tático: aproveitar as comemorações dos quarenta anos da escola para, na condição de ex-aluno, entrar numa sala de aula para uma “palestra”. A partir daí, por dez minutos, ele dará 66 tiros, matará doze pré-adolescentes, sendo onze meninas, ferirá outra dezena e depois se matará.
As explicações subsequentes logo se cristalizam num quadro narrativo segundo o qual se trata de um esquizofrênico-paranoico, filho de uma esquizofrênica clínica, que além disso sofreu bullying na mesma escola.
Não há portanto responsáveis e, muito, menos culpados: de um lado, trata-se de inatismo e de doença, pois ele sofria de esquizofrenia. Porém não é correto acusar e/ou estigmatizar os doentes mentais. A doença mental, afinal, não é responsável: pois se ele não tivesse sofrido bullying, obviamente não faria o que fez.
Conclusão: deve-se combater o bullying com educação, e ao mesmo tempo dar mais atenção aos doentes mentais (se esta expressão não for “politicamente incorreta”). Trágico, mas compreensível. Além do mais, tudo isso possui certo fatalismo moderno, pois é algo que “acontece” em muitos países, principalmente nos mais desenvolvidos. Certo, há um problema de descontrole do acesso às armas de fogo no país, mas isso não é ou foi determinante. Ao menos, não como a esquizofrenia paranoica e o bullying. Por fim, como se trata de um evento raro, imprevisível e incontrolável, nada havia nem há a ser feito, como aumentar a segurança nas escolas, tornado-as assim “policialescas” quando devem, ao contrário, ser “abertas” e “integradas” às “comunidades” das quais são parte.
Essa pós-narrativa do massacre da escola de Realengo é, bem vistas coisas, ad hoc, ou seja, feita sob medida. E ver bem ou um pouco melhor os fatos é o que pretendo aqui.
2.
O medicalismo dos comportamentos quanto o modismo pedagógico do bullying, além do “politicamente-correto” do pobre homem nascido doente e “corrompido” pela sociedade agressiva, bem como a escola “comunitarista”, são devidamente contemplados. E o são não por tecerem a melhor explicação possível, porém a mais confortável, a mais simples, a mais indicada. A verdade, neste caso, é feita de outros ingredientes, deliberadamente ignorados ao se descrever a posteriori tal “receita”.
Em primeiro lugar, o pretenso diagnóstico de esquizofrenia paranoica, repetido por incontáveis psiquiatras, psicólogos e em seguida investigadores, não se sustenta. Sem entrar em detalhes diagnósticos (mas também sem deixar de registrar que estudei medicina, para que os profissionais de plantão não tentem desconsiderar estas observações pela saída fácil do desdém especialista), ela não se sustenta porque uma de características principais da esquizofrenia paranoica é o delírio ou a alucinação. Esta tem um componente sensitivo e cognitivo, ou sendo mais claro, implica em confundir imaginação com realidade, “vendo” e “ouvindo” o que não está no mundo, mas na mente. Em termos populares, trata-se de “ouvir vozes”. O assassino da escola do Realengo jamais demonstrou esta ou qualquer outra característica distintiva da esquizofrenia paranoica. Nenhum relato de parentes, colegas de trabalho ou vizinhos faz qualquer referência a isso, assim como não há quaisquer indícios nos documentos deixados pelo assassino: um vídeo e vários bilhetes de próprio punho.
Em compensação, ele demonstrou de vários modos e por muitos meios, incluindo o vídeo feito dois dias antes do massacre, que era um psicopata.
Há enormes e profundamente significativas diferenças. Em primeiro lugar, se um esquizofrênico não é responsável por seus atos, pois em função dos delírios não pode, por definição, distinguir o que é real do que não é, um psicopata não tem delírios, e além de distinguir perfeitamente o real do irreal, também distingue o certo e o errado, o legal e o ilegal, o moral e o imoral. Por isso os psicopatas, ao contrário dos esquizofrênicos, são legalmente imputáveis nos países sérios, como EUA, Canadá e membros da UE (nos não sérios, como o Brasil, a justiça é um teatro ruim, logo, o que faz ou deixa de fazer não segue regras compreensíveis).
Um psicopata não tem disfunções cognitivas, mas apenas emotivas. Em resumo, ele é incapaz de empatia.
Empatia (de pathos, sofrimento, acometimento, experiência) significa, na prática, sentir em si o que o outro sente: “processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro”. É a empatia que está na base da moralidade, cuja antiga “regra de ouro” diz: “Não faça aos outros o que você não quer que façam a você”. Ao serem incapazes de empatia, psicopatas são criminosos natos.
A ideia de um criminoso nato fere fundo a crença ideológica dos politicamente corretos segundo a qual só existe a possibilidade de seres humanos nascidos bons. O problema é que a existência de criminosos natos foi empiricamente demonstrada de maneira incontornável em diversos países, dos EUA à Rússia, onde pesquisadores há anos se dedicam a estudar os psicopatas em geral e os assassinos em série em particular.
A indiscutível natureza inata da radical falta da empatia que caracteriza os psicopatas (e que no Brasil sequer é verdadeiramente debatida, pois o país adotou uma interdição ideológica tácita a se discutir os criminosos inatos, ficando voluntária e burramente de fora de todo um moderno campo do conhecimento, e assim incapaz de identificar seu objeto, fechando o círculo de sua cegueira pragmático-conceitual), leva então alguns “liberais” ou “humanistas radicais”, na Europa e nos EUA, a reeditar o mito rousseauniano do “bom selvagem”. Pois se se trata de uma incapacidade inata, o indivíduo dela portadora não poderia ou não deveria ser responsabilizado criminalmente por suas consequências. Seria afinal semelhante ao esquizofrênico, que age movido por alucinações, e que não é imputado pelos crimes cometidos. O problema é que um sujeito submetido a alucinações, por definição, não sabe o que faz. E que um amoral o sabe. Na verdade, o psicopata é, neste sentido, mais semelhante ao pedófilo.
Ninguém determina sua própria orientação sexual ou suas preferências. Ter por objeto sexual crianças ou bebês é algo a que os pedófilos são submetidos pela própria natureza de seu desejo. Já a realização de tal desejo significa necessariamente um estupro, pois crianças e bebês não participam voluntária e conscientemente de um ato sexual. Pedófilos são condenáveis e condenados não por seu desejo sexual, mas por sua materialização no estupro de uma criança. Psicopatas não são condenáveis por sua amoralidade, mas pelos atos decorrentes, como assassinatos sem motivos (ou seja, para satisfazer qualquer desejo ou impulso pessoal). E têm de sê-lo, entre outras coisas porque ao contrário de esquizofrênicos em estado de alucinação (que aliás muitíssimo raramente cometem crimes), um psicopata sabe o que faz. Daí não haver psicopatas, apesar do inatismo de sua falta de empatia, cometendo crimes em praça pública e à luz do dia. Psicopatas têm falta de empatia, não de racionalidade. Eles se escondem porque sabem de seus crimes.
O vídeo gravado pelo assassino de Realengo dois dias antes do massacre demonstra três coisas:
1) Não há qualquer indício de delírio ou de alucinação;
2) há todos os indícios de falta absoluta de empatia, a começar da completa inexpressividade: o sujeito apenas mexe a boca enquanto fala, sem que nenhum dos músculos da face, fonte natural de manifestação de emoções em humanos, se mexa uma única vez;
3) ele prova o planejamento, a premeditação e o engodo, logo, a racionalidade, ao referir como, entre outras providências, visitou a escola dias antes para preparar o ataque, além de para isso ter raspado a barba, a fim de não chamar a atenção.
E aqui chegamos ao fator islâmico.
3.
A prova mais importante surgida até agora das motivações do assassino, o vídeo e algumas anotações de próprio punho achadas em sua casa, simplesmente não foram analisadas com a devida atenção, muito menos com a necessária conexão, no misto de ignorância, incompetência e provincianismo referido de início.
VÍDEO DE ATIRADOR NÃO INTEGRA INQUÉRITO, DIZ POLÍCIA (Agência Estado, http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/13/video-de-atirador-nao-integra-inquerito-diz-policia.jhtm).
Não bastasse a polícia, mais de um psiquiatra afirmou que as afirmações “desconexas” do vídeo, principalmente sobre o fato de o sujeito estar agora sem barba, “provam” o delírio – logo, a esquizofrenia paranoica. Na verdade, tais afirmações não são desconexas, apenas desconectadas, em uma investigação pulverizada e amadorística que, para começar, é incapaz de conectar os fatos e os dados.
O assassino, no vídeo, fala diretamente para um sujeito sobre a falta de sua barba. E esse sujeito é “irmãos”. Ele tem, portanto, também uma razão para explicar a falta da barba: a expectativa de certos “irmãos”. Ora, “irmãos” não significa “marcianos verdes”. Pois é perfeitamente compreensível:
1) a irmã do perpetrador declarou que ele ultimamente usava barba (habitual entre muçulmanos praticantes) e que fazia várias referências ao islã;
2) “irmãos” é o modo habitual dos ativistas islâmicos se referirem entre si (como “camaradas” era o modo dos comunistas, e “companheiros” é o dos petistas).
Conclusão: é perfeitamente possível que ele estivesse, não delirando, mas explicando aos seus “irmãos” muçulmanos porque aparecia no vídeo de despedida sem a barba.
O que era possível torna-se então factual quando se acrescenta à equação os bilhetes de próprio punho encontrados em sua casa. Pois ali se explicita o fato de que, até pouco tempo, ele fazia parte de um “grupo”, e que esse grupo era islâmico.
Meus pais por não seguirem a religião com devoção sempre desconfiam d mim [...]. Já errei com minha família mas aí mudei com o Alcorão. [...] Tive uma briga com o Abdul por causa do Phillip. [...] Resolvi falar sobre a menina q me convido a ir a igreja dela e antes d eu terminar ele já foi se exaltando dizendo que eu era para cortar ela logo no início ao invés de ouvi-la. Depois disso ele me ligou umas vezes e eu disse q estou saindo por respeito ao grupo. Eu também me considero errado por ouvi-la... [...] Essa minha saída do grupo me deu forças para reconhecer q agi errado em escuta aquela mulher. Eu não gostei d sair mas sei q é o certo. [...] Eu estou fora do grupo mas faço todos os dias minha oração do meio dia q é a d reconhecimento a Deus e as outras 5 q são d dedicação a Deus e umas 4 h do dia passo lendo o Alcorão. Não o livro pq ficou com o grupo mas partes que eu copiei para mim e o resto do tempo eu fico meditando no lido e algumas vezes medito no 11/09 (Daniel Milazzo “Veja trechos dos manuscritos do atirador de Realengo encontrados pela polícia do Rio”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/veja-trechos-dos-manuscritos-de-atirador-do-realengo-encontrados-pela-policia-do-rio.jhtm).
As inferências não são difíceis. Foi dito pelos parentes e confirmado por vizinhos que o assassino não fazia outra coisa além de usar a internet. Sabe-se que a internet é uma das ferramentas mais utilizadas pelos militantes islâmicos para fazer e manter contatos. Foi a internet, portanto, que permitiu a um Wellington do subúrbio carioca entrar em contato com indivíduos fora de seu meio social e cultural, os Abdul e Phillip de quem ganhou um exemplar do Corão depois devolvido. Mas não foi apenas um exemplar do Corão que ele recebeu. Ele também recebeu uma formação devidamente islâmica: apenas muçulmanos praticantes e estudiosos ou interessados sabem, por exemplo, que a prática do islã implica na prática de cinco rezas diárias, sendo a do meio-dia a mais importante, assim como na leitura e no estudo do Corão. O assassino de Realengo não tirou tudo isso de sua própria cabeça “delirante”, mesmo porque, tudo isso está islamicamente correto.
Além de se poder presumir que o suburbano carioca localizou algum grupo islâmico na internet (e não que o grupo o tenha localizado, pois se tratava de um anônimo), os bilhetes provam acima de qualquer dúvida razoável que o contato foi feito (ele portanto não aprendeu a ser muçulmano num “curso a distância” pela internet). Não é difícil inferir, então, que tal grupo tenha identificado no futuro assassino suas características psicopáticas mais do que evidentes, e partido para sua instrumentalização. Tais grupos, afinal, existem para isso. O vídeo, em todo caso, pela forma como aborda o ataque, demonstra que os “irmãos” esperavam pela ação, apesar do recente desligamento do grupo.
Os irmãos observaram que eu raspei a barba. Foi necessário, porque eu já estava planejando ir ao local para estudar, ver uma forma de infiltração. [...] Como eu precisava ir ao local e interagir com pessoas, para não chamar atenção, eu decidi raspar a barba (“Atirador justifica massacre em Realengo em vídeo”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/atirador-justifica-massacre-em-realengo-em-video-mostra-telejornal.jhtm).
A conclusão lógica, e inevitável, a partir dos dados disponíveis, ou seja, da incorporação necessária de todos os dados disponíveis, é que algum grupo de ativistas islâmicos, não importa quão pequeno ou importante, de alguma forma serviu de gatilho para que um psicopata pobre, isolado e desmotivado de um subúrbio brasileiro decidisse perpetrar um massacre.
Nesse contexto mais completo, tanto o bullying que, de fato, o assassino sofreu no passado (mas num passado já distante) quanto seus agora notórios problemas sexuais seriam ingredientes integrados à sua instrumentalização: foram elementos necessários mas não suficientes, como o prova a própria instrumentalização – cujo caráter afinal se revela terrorista pelo resultado da cadeia de eventos. Mesmo o fato de o alvo preferencial terem sido pré-adolescentes do sexo feminino permite a integração dessas variáveis, pois aos problemas sexuais do assassino se junta a brutal misoginia do islamismo radical.