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05 junho 2011

Malandro que é malandro...


Diz assim Luís Dolhnikoff:

SINDICATO DE LADRÕES

1. Ficha criminal

Antonio Palocci emergiu como figura política nacional no rastro de um assassinato: tornou-se o coordenador da campanha de Lula de 2002 em função da morte a tiros do primeiro candidato ao posto, o prefeito de Campinas, Celso Daniel. Tratou-se, além disso, de um assassinato político, de uma “queima de arquivos” ligada a um esquema de propinas, superfaturamento e “caixa 2”. Antonio Palocci, em suma, tornou-se uma figura política nacional em função de um esquema de propinas e de um assassinato político envolvendo diretamente o PT – e a própria campanha presidencial de Lula, na figura de Celso Daniel.

Paralela e independentemente, Antonio Palocci teve seu próprio nome envolvido em outro esquema semelhante, o da “máfia do lixo” da prefeitura da Ribeirão Preto, da qual fora titular. Apesar de tudo (ou por tudo), foi em seguida alçado a ministro da Fazendo de Lula, apenas para ser derrubado pelo escândalo da quebra criminosa do sigilo bancário da um caseiro. Motivo (da quebra criminosa do sigilo): o pobre caseiro testemunhara que o ministro era habitué de certo endereço mal afamado de Brasília, conhecido como “casa do lobby”. Antonio Palocci afinal afundaria em um mais do que merecido – apesar de tardio – ostracismo.

Pois toda sua história política, direta ou indiretamente, está assim, de alguma forma, ligada a crimes, que vão do “caixa 2” ao superfaturamento, de esquemas de propinas ao assassinato político, passando pela quebra criminosa de sigilos bancários (a Caixa Econômica Federal há poucos dias confirmou que a quebra do sigilo do caseiro de fato se originou no gabinete do então ministro da Fazenda Antonio Palocci, o que passou despercebido em meio ao ruído do mais novo escândalo político-financeiro envolvendo seu nome). Que tal personagem tenha retornado à política nacional mais uma vez, e mais uma vez pelas mãos amorais de Lula, para ser o coordenador da campanha e depois ministro-chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff, entre outras coisas desfaz a máscara da grande “diferença” entre Dilma e Lula, entre criatura e criador, revelando a mesma feia face da promiscuidade com a bandalheira e a bandidagem políticas. A única diferença é mesmo de estilo (da maquiagem política).

Dilma ou não é santa ou é autista. Não há terceira via possível.

Face à desfaçatez faceira de Antonio Palocci, que pretende agora, ao mesmo tempo, poder enriquecer de modo muito mais do que suspeito e manter o sorriso “cordial” e o poder federal, o que importa é aproveitar as novas velhas circunstâncias para tentar lançar alguma luz sobre a nefasta e nefanda força política que tomou conta do país nos últimos anos, o lulo-petismo, cuja síndica atual se chama Dilma Rousseff, e cujos capangas de ocasião atendem pelo nome grupal de PMDB.

2. Análise do DNA

Nesse quadro histórico geral de crimes factuais, é consistente a recorrência do verdadeiro crime ideológico de atacar a liberdade de imprensa, ainda que apenas verbalmente. Foi portanto o que fez nesta semana, no contexto do “caso Palocci 2.0”, o ministro Padilha, ao afirmar que o maior partido de oposição no Brasil é a “grande imprensa”, repetindo assim a letra e o espírito do chefe, Lula da Silva. A razão é conhecida: “gente de esquerda” considera-se certa a priori, nos dois sentidos, no de ter razão e no de ter certezas. Portanto, quando a imprensa discorda da “esquerda”, está errada, e no limite é, em si, um erro. Daí a esquerda, sem aspas, a que antigamente pretendia trocar o capitalismo pela ditadura do proletariado, ter sempre desprezado a imprensa livre, pois tal liberdade era apenas a “liberdade burguesa”. Daí a “grande imprensa” do lulo-petismo não passar de uma atualização pouco imaginativa da velha “imprensa burguesa” da esquerda de antanho. Cabe, todavia, a pergunta: se a “grande imprensa” não tem quaisquer méritos próprios, não passando de um “partido de oposição” (ao lulo-petismo) mal disfarçado, deveria o Brasil trocá-la por uma imprensa nanica, ao estilo de uma pequena república de banana (em vez de uma à altura de uma grande república de bananas, como o Brasil)? Ou, então, ao velho estilo estalinista, por uma imprensa apequenada (pelo medo, pelas vendas e pela venda)?

O PT nasceu ligado aos sindicatos dos trabalhadores para logo se tornar um “sindicato de ladrões”. “Caso Celso Daniel”, “máfia do lixo” de Ribeirão Preto, mensalão e mensaleiros, , “casa do lobby” de Brasília, quebra de sigilos de caseiros, “aloprados” e dossiês, Erenices e Delúbios, caixas 2, 3, 4, empresários “amigos do Lula”, empresários “clientes” de Palocci, a lista é interminável, e demonstra, para quem não tem vocação para a cegueira voluntária, que cada caso isolado não é um caso isolado, mas mais uma manifestação de um mesmo e único fenômeno. Resta acrescentar que Lula é, inquestionavelmente, o grande líder de tais sindicalistas.

3. O principal suspeito

Fundindo o “criminalismo” atávico da política brasileira ao estalinismo congênito da “esquerda”, o lulo-petismo pode afinal ser descrito como um monstro faminto de duas cabeças perniciosas, que veio para devorar devagar a raquítica e anêmica democracia brasileira mal restaurada a partir de 1985.

24 maio 2011

Um grande texto de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho

... este que passo a transcrever, com introdução de Carlos Velasco - o link do blog passa a estar disponível no miradouro (via Estado Sentido):

Disponibilizo aqui um texto do filósofo Olavo de Carvalho para a reflexão dos leitores. Se hoje o Brasil e Portugal se encontram em decadência, levando consigo todo o mundo lusófono, em primeiro lugar isso se deve à obra de destruição da cultura que começou há alguns séculos, quando Pombal, homem que já admirei, mas que aos poucos, graças ao estudo, passei a desprezar, expulsou os jesuítas. Uma das críticas feitas pelos estrangeirados, a da falta de atenção para com as ciências experimentais por parte da academia portuguesa, eram pertinentes, e os próprios jesuítas estavam a agir no sentido de suprir essa falta. Entretanto, Pombal abortou os frutos desse árduo trabalho que só poderia ser feito, se a qualidade fosse o objectivo, de maneira gradual, e destruiu a base da alta cultura portuguesa e brasileira. A reforma pombalina fracassou, como o próprio Domingos Vandelli admitiu, mas os seus resultados nos afectam até os dias de hoje. As piores consequências nem se devem à reforma universitária em si, que poderia ser revertida se as outras estruturas tivessem sido mantidas, mas ao facto da extinção da ordem jesuíta ter deixado um vácuo no ensino básico e secundário que nunca foi ocupado. O ensino de massas que mais tarde iria se desenvolver começou a partir de concepções já cheias de vícios: não por acaso assistimos hoje, quando ele finalmente se universalizou, a uma total inversão dos valores que sempre estiveram por detrás da ideia de educação.

Enfim, já escrevi demais. É hora de deixar quem sabe de facto escrever e possui um conhecimento ímpar se expressar:

Quem come quem

Olavo de Carvalho

12 de Junho de 1999

A luta pela "identidade nacional" na cultura brasileira tem sido uma longa comédia de erros. Enquanto nossos vizinhos buscavam sabiamente fortalecer os laços que os uniam à cultura hispânica de origem, lutávamos obsessivamente para cortar toda nossa raiz lusitana. Se é verdade que "pelos frutos os conhecereis", está na hora de admitir que apostamos no cavalo errado. De um lado, há perfeita continuidade de Perez Galdós a Jorge Luís Borges, de Unamuno a Octavio Paz, enquanto entre nossos literatos (para não falar de estudantes de letras) não se encontrará um só que, lendo Camilo Castelo Branco, não esgasgue a cada linha, intimidado por um vocabulário que com apenas um século de idade se tornou impenetrável mistério antediluviano. De outro lado, o idioma espanhol se afirma poderosamente como língua de cultura mundial, enquanto o português vai perdendo terreno aqui dentro mesmo, acossado pelo barbarismo midiático, manietado pelos fiscais politicamente corretos, açoitado pelos feitores da incorreção obrigatória.

Um efeito cíclico da nossa obsessão identitária é que, quanto mais nos afastamos da nossa raiz autêntica lusitana, mais temos de tomar emprestada a seiva alheia, seja francesa ou americana, e mais a nossa sonhada autenticidade se torna uma caricatura do estrangeiro. E o motivo disto é bem evidente: recusando-nos a desenvolver formas e estilos a partir de uma tradição lingüística própria, não nos resta alternativa senão rebaixar-nos a fornecedores de matéria-prima. Já no Romantismo, nós entrávamos com os papagaios e os coqueiros, Chateaubriand com a fórmula literária. Ora, em literatura, a forma é tudo: cor local, temas, cenários e documentarismo lingüístico contribuem menos para definir a nacionalidade de uma obra do que o faz a forma interna, esta sim, inconfundivelmente americana ou russa, inglesa ou lusa. A narrativa ágil e quase jornalística dos romances de Hemingway é sempre americana, quer a história se passe em Paris ou se adorne de acento espanhol. Imitada em francês, em malaio ou em urdu, permanece americana, pela força da matriz lingüistica onde foi gerada como solução americana para problemas expressivos americanos. Mais nos valeria, pois, ter desenvolvido a novela camiliana, mesmo que fosse em histórias passadas na África ou no planeta Marte, do que adaptar os temas nacionais ao modelo proustiano ou ao realismo socialista, ainda que temperados de gíria baiana ou mineira. O primado da forma, a sujeição da matéria, são leis inescapáveis, em literatura como em tudo o mais: "Quando o coelho come alface, é a alface que vira coelho, não o coelho que vira alface", resume Jean Piaget. Cobras e índios no molde literário de Apollinare não são cultura brasileira: são o delírio de um turista francês, intoxicado de cauim. O segredo da brasilidade autêntica do teatro de Ariano Suassuna não está nos temas, comuns a tantas obras epidermicamente nacionalistas, nem na imitação da linguagem popular, obrigação dogmática que se tornou cacoete: está em que a fórmula estrutural de suas peças não se inspirou em Sartre ou Brecht, e sim nos autos medievais lusitanos. Suassuna não é brasileiro porque come coco, mas porque digere a fruta local no estômago da tradição lusa. A forma é tudo. E um candomblé na Sorbonne não é sincretismo brasileiro: é a antropologia francesa engolindo o Brasil.

Mais fez pela brasilidade do romance um Machado de Assis, criando com assunto urbano e em português castiço a fórmula inédita das Memórias Póstumas (não há por que exgerar a influência de Sterne), do que dezenas de imitadores de Zola narrando histórias de escravos com sintaxe de cangaceiro. Uma nova fórmula vale mil assuntos. Ser brasileiro, para um romancista, é integrar a experiência — local ou mundial, pouco importa — numa chave intelectual e estética criada por nós segundo as nossas necessidades, e não integrar materiais locais e trejeitos lingüísticos regionais numa tradição narrativa francesa ou inglesa. É uma simples questão de quem come quem.

O protesto de Evaldo Cabral de Melo, de que só povos complexados se preocupam com a própria identidade, pode ser aceito como um exagero corretivo, mas continua exagero. A obsessão germanizante de um povo em luta com o complexo de inferioridade gerou Hermann e Dorothea e a filosofia de Fichte, Schelling e Hegel. E a afirmação xenófoba do russismo contra a hegemonia franco-germânica produziu Dostoiévski, Soloviev e Lossky. Abençoada neurose!

Nosso erro não está em buscar uma identidade. Está em três fontes de engano, nas quais bebemos compulsivamente há mais de um século. Primeira: revoltamo-nos sempre contra o dominador errado. Escravos da Inglaterra, continuávamos a nos bater contra o extinto domínio português. Intoxicados de francesismo, esforçávamo-nos por expelir de nosso ventre os últimos resíduos da herança portuguesa. E hoje, paralisados sob as patas do império mundial anglófono, encenamos ainda um ridículo Ersatz de rebeldia, não anti-anglo-saxônica e sim antilusitana, jogando bombas ideológicas contra a "língua dos dominadores", como se o FMI fosse presidido por Cândido de Figueiredo e a Gramática Metódica de Napoleão Mendes de Almeida fosse a Carta da ONU. Vista sob esse prisma, nossa pretensa busca de independência não é senão afetação e disfarce para encobrir nosso compulsivo puxa-saquismo, nossa incoercível devoção ao poder mais forte, nossa renitente hipnose de botocudos ante os prestígios internacionais do momento.

A segunda coisa: acreditamos demais na mágica besta do popular, do local, do costumeiro e corriqueiro. Achamos que falando de coisinhas do nosso dia a dia e imitando a fala do povo seremos nacionais, quando a força da criação nacional não está na sua matéria, muito menos no populismo do seu estilo, e sim na originalidade das soluções estéticas e intelectuais que, uma vez bem sucedidas, se transformam em soluções e modelos para outros escritores de outras nações. Dostoiévski não representa o gênio russo porque fala da Rússia ou porque imita a fala dos russos, mas porque inventou, desde a Rússia, um sistema de enfoques narrativos que desde então se tornou necessário para todos nós, seja para falarmos da Rússia, seja de nós mesmos. A originalidade de uma literatura nacional é enfim uma só e mesma coisa que a originalidade criativa de seus escritores, a qual por sua vez não é senão a capacidade de dar respostas sérias a ansiedades autênticas. E, quando isto falta, não há documentarismo, populismo ou automacaquice lingüística que o substitua.

A terceira fonte de engano é a perpétua confusão que fazemos entre o universal e o atual. Achamos que, para integrar-nos na cultura mundial, temos de acompanhar o debate que se desenrola entre os povos mais ricos e supostamente mais cultos. Nunca nos ocorre a hipótese de que, no curso desse debate, esses povos possam ter perdido o fio da sua própria tradição cultural, de que possam estar reduzidos à mais profunda incompreensão de si mesmos, de que possam estar mergulhados numa inconsciência que só um maluco suicida desejaria imitar. Tomamos sempre os povos importantes de hoje como se fossem os únicos intérpretes autorizados da tradição ocidental (para não dizer mundial), e nos recusamos a lançar um olhar direto e sem fiscais sobre um passado que eles mesmos, tantas vezes, confessam já não compreender mais. Quem nos garante que, examinando por nossa conta a antigüidade greco-romana, a cristandade medieval, a remota herança dos povos orientais, não seremos capazes de descobrir aí certos tesouros que foram esquecidos pelo establishment cultural euro-ianque ou que mesmo escaparam completamente ao seu horizonte de visão? Quem, que autoridade, que dogma inabalável nos reduz à condição de herdeiros indiretos que só podem ler Marco Aurélio com os olhos de Renan, Parmênides com os de Heidegger ou Aristóteles com os de Jaeger? Quem nos arrebata o privilégio de desfrutar diretamente de uma herança que não pertence só aos povos ricos e que os povos ricos tantas vezes desprezaram, traíram, aviltaram e perderam? Quem nos assegura que a linha de evolução intelectual da Europa moderna foi a única ou a melhor possível que poderia ter-se desenvolvido a partir do legado medieval e antigo? Por que embarcar na paralisante suposição apriorística de que não podemos descobrir aí novos e inéditos desenvolvimentos? Por que fazer da história intelectual européia o modelo paradigmático e inescapável da sucessão dos tempos? Por que repetir, como um disco rachado, que as coisas não poderiam ter sido de outro modo e recusar-nos a experimentar outros modos possíveis? Por que não podemos escandalizar e chacoalhar a empáfia dos usurpadores, lendo Heidegger através de Parmênides, Nietzsche através de Sócrates, a modernidade através da Idade Média? Por que não podemos, em vez de medir o passado com a régua dos senhores do dia, julgar os senhores do dia à luz das sementes cujo máximo e perfeito desenvolvimento eles, sem a mínima prova, asseguram representar? Por que não nos atravemos a provar que as antigas sementes, plantadas em terra nova, podem dar melhores e mais doces frutos do que as ideologias européias, o comunismo, o fascismo, duas guerras mundiais e a presente degradação intelectual do mundo?

Não fomos só nós que caímos na esparrela de abdicar de uma herança que nos pertence. Os portugueses, inferiorizados por não acompanhar pari passu o pensamento moderno, acabaram se esquecendo daqueles fantásticos filósofos de Coimbra, mestres de Leibniz, que em pleno século XVI já pensavam em economia de mercado e física probabilística, saltando três séculos sobre a ilusão mecanicista cujo prestígio, tão invejado pelos ìluministas lusos, só fez atrasar o desenvolvimento das ciências e inspirar, na política, os frutos mais letais do estatismo centralizador. Até hoje Portugal, como um príncipe bêbado que se imaginasse mendigo, atribui suas desventuras ao fato de não ter tido seu Voltaire ou seu Rousseau, quando seu único erro foi o de esquecer-se de si, o de não conseguir olhar seu próprio passado senão no espelho enganoso da modernidade alheia.

Por ironia, justamente nisso continuamos imitando servilmente Portugal. Iludidos pelo dogma de que o presente abrange todo o passado — quando por definição nenhum conjunto de fatos esgota o possível —, recusamo-nos a receber o legado das grandes épocas e continuamos mendigando às portas da mediocridade européia (e americana) atual. Barramos assim nosso acesso a uma verdadeira universalidade e continuamos nos agitando em vão na falsa alternativa cíclica do estrangeirismo e do localismo, ora em formato puro, ora ressurgida sob o disfarce do elitismo e do populismo.

Reincide no engano —só para dar um exemplo recente — o livro de Marcos Bagno, Preconceito Lingüístico. O Que É, Como Se Faz (1), ao assumir a defesa do mais entrópico laissez-faire gramatical contra toda tentativa de conservar a unidade da norma culta, abominada como mecanismo de exclusão social e opressão dos pobrezinhos. Adornando de terminologia técnica uma argumentação que no fundo não passa do habitual apelo ao ressentimento populista contra os adeptos do purismo vernáculo, supostamente também senhores do capital — ai, meu Sacconi! —, o autor nem de longe dá sinal de perceber que, afrouxada a norma portuguesa, o que haverá de predominar não será o democratismo igualitarista das falas populares, autoneutralizantes por sua multiplicidade mesma, e sim a influência ordenadora da norma anglo-americana, ocupando substitutivamente — e usurpatoriamente — o lugar da regra vernácula. Isso aliás já vem acontecendo, como se vê pela alarmante disseminação do uso de palavras portuguesas montadas segundo uma sintaxe inglesa — "amanhã estarei indo viajar" —, o que já não é mais a corriqueira assimilação de vocábulos estrangeiros e sim precisamente o contrário de uma assimilação: é uma adaptação do material nacional à forma dominante estrangeira, é ser assimilado, é fazer o papel da alface na fisiologia do coelho. Toda cultura nacional é um vasto sistema de incorporações, no qual manifestações isoladas e locais vão se integrando numa unidade superior, e isto acontece com a língua tanto quanto com as idéias. Se, no topo, esse movimento não encontra um critério de unidade que lhe seja próprio, ele logo se amolda a um de fora, preferindo antes ser assimilado do que voltar à dispersão de onde partiu. Se o prof. Bagno fosse um agente consciente do imperialismo, pretendendo dissolver a nossa unidade lingüistica para lhe sobrepor a americana, seu livro seria obra de inteligência, mista de maquiavelismo. Mas não: ele é apenas mais um esquerdista doido, desses que, ansiosos para expressar sua miúda revolta imediatista e cega, não sabem a quem servem em última instância e aliás não querem nem saber: falam o que lhes dá na telha e, de tempos em tempos, constatam, mais revoltados ainda, que tudo deu errado e seu mundo caiu.

Para cúmulo de inconsciência, o prof. Bagno, citando indevidamente Aristóteles, proclama que sua obra é política, quando a política para o Estagirita é o cuidado do bem comum, isto é, a vigilância sobre os rumos da sociedade como um todo, e nunca a adesão parcialista a exigências de grupos ou classes, defendidas como se valessem por si e sem o mínimo exame das conseqüências que seu atendimento possa produzir sobre o corpo da sociedade integral. Para os meninos da Febem ou para o lavrador de Ponta Grossa, pode ser bom ou pelo menos cômodo, a curto prazo, que os deixem escrever como falam, sem subjugá-los à uniformidade da norma. Subjetivamente, eles talvez se sintam, assim, menos excluídos. Mas, objetivamente, aí sim é que estarão excluídos, aprisionados na sua particularidade e sem acesso à conversação das classes cultas. Tudo depende de saber se preferimos enfraquecê-los pela lisonja ou fortalecê-los pela disciplina. Há nisso uma escolha moral que os amigos do povo preferem não enxergar. E se, levando as opiniões do prof. Bagno às últimas conseqüências, as próprias classes cultas desistirem da norma unitária e, para não passar por preconceituosas ante o olhar malicioso dos ressentidos, adotarem como obrigatória a entropia populista, então das duas uma: ou a entropia arrastará na sua voragem o pouco de possibilidade de diálogo racional que ainda resta neste país, ou então uma norma substitutiva acabará por se impor, e ela certamente virá da rede das telecomunicações, cujo idioma e padrão é o inglês. Qualquer das duas coisas será indiscutivelmente boa, mas para os Estados Unidos. E, se me perguntarem se o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil, direi, de novo, que é uma simples questão de quem come quem.

23 maio 2011

E do outro lado...

Santarém, Brasil

... do Atlântico:

"Os brasileiros já sentem no seu dia a dia as "dores" do crescimento do País. Atividades cotidianas - pegar um táxi, comer num restaurante, conseguir um quarto de hotel, viajar de avião - tornaram-se verdadeiros desafios, principalmente nos grandes centros. A sensação das pessoas é que o Brasil está "caro" e "lotado".

A situação é um reflexo do avanço da economia e do mais baixo nível de desemprego dos últimos 20 anos. Desde 2003, o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresce, em média, 4% ao ano. A demanda por serviços superou a oferta e a consequência foi a superlotação e a alta dos preços. "O ritmo atual de crescimento é insustentável", diz Fábio Ramos, economista da Quest Investimentos.

Nos últimos 12 meses, comer fora de casa ficou 12,7% mais caro, estacionar o carro subiu 10,9%, a mensalidade da escola das crianças aumentou 9,1%, o aluguel subiu 9,9% e a consulta do médico pesa 10,4% mais no orçamento, revela cálculo da Quest. Boa parte dos reajustes é o dobro da inflação do período medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que já subiu salgados 6,5%.

As pessoas que viajam com frequência percebem com mais intensidade os problemas. O "calvário" começa com as filas intermináveis nos aeroportos e os atrasos dos voos, mas está longe de terminar ao chegar ao destino. Dependendo do horário, conseguir um táxi e um quarto de hotel são proezas.

Na cidade de São Paulo, existem 35 mil táxis em circulação, a terceira maior frota municipal do mundo. No entanto, nenhuma nova licença foi concedida nos últimos seis anos, período de forte crescimento da demanda. Os preços da corrida estão entre os mais altos do Brasil e são o triplo de Buenos Aires.

O mercado está tão aquecido que permitiu um reajuste de 16% na tarifa de táxis da cidade em novembro, sem nenhum impacto na demanda. Os taxistas culpam o trânsito pela falta de veículos. "São Paulo tem muito táxi e não comporta mais. É o trânsito que segura os motoristas", diz Natalício Bezerra da Silva, presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo.

Hotel

Vencida a etapa do transporte, é preciso conseguir acomodação no hotel. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih), a taxa de ocupação em São Paulo está em pouco mais de 70%, um nível considerado "confortável" pelo setor. A avaliação da entidade é que os gargalos se concentram no Rio e em Recife, onde a ocupação superou 80%. "Nos últimos anos, 30 milhões de brasileiros entraram no mercado. Se dermos conta da demanda interna, estaremos prontos para a Copa e a Olimpíada", disse Enrico Fermi, presidente da Abih. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo."

19 maio 2011

"A democracia nada virtual"


Uma seta certeira de Luís Dolhnikoff:

Um príncipe saudita sai nu do banheiro do seu quarto de hotel e se depara com uma camareira dobrada sobre a cama, arrumando-a. “Naturalmente”, decide possuí-la. Em seguida, pela reação da mesma ao estupro, decide se manda seus seguranças sequestrá-la, matá-la e “sumi-la”, ou calá-la com dinheiro. Seja como for, uma camareira, depois de “derrubada” por um príncipe saudita, não derruba um príncipe saudita. Ou o filho de um Kadafi. Etc. Mas pode derrubar um “príncipe” das finanças mundiais, Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional e principal candidato às eleições presidenciais francesas

Mas se ele é um homem potente, ou poderoso, e ela uma mulher impotente, ele um político de expressão mundial, ela uma camareira de hotel, como pode a camareira derrubar o “príncipe”, em vez de o “príncipe” derrubar definitivamente a camareira? Porque a impotência dela e a potência dele são anuladas e equilibradas por outro poder, por outra força, a da lei. Mais exatamente, pela força da igualdade perante a lei. Se há igualdade, não há diferença. Se não há diferença, as diferenças de potência ou poder se anulam.

Os significados da prisão de Dominique Strauss-Kahn em Nova York são claros e marcantes.

Em primeiro lugar, os EUA são uma verdadeira democracia, apesar da antipropaganda dos antiamericanistas. Uma democracia de fato, de fatos.

Em segundo lugar, a democracia “burguesa” não é valor descartável. Pois apenas ela garante uma significativa igualdade perante a lei. E nada é mais relevante do que isso, ao menos para os fracos e impotentes.

Em terceiro lugar, a democracia brasileira, mais formal do que real, pois contempla o formalismo eleitoral mas se limita a ele, é menos real do que formal. A famosa e infame impunidade brasileira, ou seja, a inação estrutural e histórica da justiça, anula, na prática (que é o que importa), a igualdade perante a lei. E essa anulação anula, por sua vez, a base mais profunda da democracia. Porque os poderosos, por definição, defendem-se a si mesmos. Apenas os impotentes precisam da lei.

O episódio da denúncia e prisão de Dominique Strauss-Kahn em Nova York é tão luminoso e iluminador que faz o que parecia impossível, promover um curto-circuito nas teorias da conspiração. Um todo-poderoso das finanças mundiais ataca sexualmente, na intimidade de seu quarto de hotel de luxo, uma mera camareira, e ela o denuncia em seguida. Um crime crível. Verosímil. Comum. Ou que o seria, não fosse tudo o que tem de absolutamente inusual. Tão inusual quanto a verdadeira igualdade perante a lei.

14 abril 2011

Terror islâmico no Brasil


Nem de propósito: tinha eu acabado de ver nos telejornais da meia-noite - enquanto (finalmente!) jantava -, o vídeo que o autor do massacre do Rio de Janeiro gravou antes de o fazer, quando, ao consultar o e-mail, encontrei um texto que Luís Dolhnikoff me enviara duas horas antes, no qual adiantava considerações que eu próprio havia congeminado, face a alguns pormenores reveladores adiantados pelo assassino. Pormenores que, aliás, confirmei com maior detalhe, há pouco, no telejornal da RTP1, onde o vídeo foi passado integralmente ou, pelo menos, mais extensamente.
Aqui fica, portanto, o texto de Luís Dolhnikoff, a quem, uma vez mais, agradeço a gentileza.

TERROR ISLÂMICO ATACA ESCOLA NO BRASIL

1.

A manchete acima foi até agora negada ao público brasileiro por uma mistura tóxica de ignorância, incompetência, provincianismo e “político-corretismo”, sem os quais ela seria evidente ou necessária. O que isso diz da sociedade e do jornalismo brasileiros deixo para o leitor. Vamos aos fatos.

Num subúrbio carioca, um homem de 23 anos volta à escola onde estudou muito bem armado, com dois revólveres, cinto de munição e recarregador rápido, além de um plano tático: aproveitar as comemorações dos quarenta anos da escola para, na condição de ex-aluno, entrar numa sala de aula para uma “palestra”. A partir daí, por dez minutos, ele dará 66 tiros, matará doze pré-adolescentes, sendo onze meninas, ferirá outra dezena e depois se matará.

As explicações subsequentes logo se cristalizam num quadro narrativo segundo o qual se trata de um esquizofrênico-paranoico, filho de uma esquizofrênica clínica, que além disso sofreu bullying na mesma escola.

Não há portanto responsáveis e, muito, menos culpados: de um lado, trata-se de inatismo e de doença, pois ele sofria de esquizofrenia. Porém não é correto acusar e/ou estigmatizar os doentes mentais. A doença mental, afinal, não é responsável: pois se ele não tivesse sofrido bullying, obviamente não faria o que fez.

Conclusão: deve-se combater o bullying com educação, e ao mesmo tempo dar mais atenção aos doentes mentais (se esta expressão não for “politicamente incorreta”). Trágico, mas compreensível. Além do mais, tudo isso possui certo fatalismo moderno, pois é algo que “acontece” em muitos países, principalmente nos mais desenvolvidos. Certo, há um problema de descontrole do acesso às armas de fogo no país, mas isso não é ou foi determinante. Ao menos, não como a esquizofrenia paranoica e o bullying. Por fim, como se trata de um evento raro, imprevisível e incontrolável, nada havia nem há a ser feito, como aumentar a segurança nas escolas, tornado-as assim “policialescas” quando devem, ao contrário, ser “abertas” e “integradas” às “comunidades” das quais são parte.

Essa pós-narrativa do massacre da escola de Realengo é, bem vistas coisas, ad hoc, ou seja, feita sob medida. E ver bem ou um pouco melhor os fatos é o que pretendo aqui.

2.

O medicalismo dos comportamentos quanto o modismo pedagógico do bullying, além do “politicamente-correto” do pobre homem nascido doente e “corrompido” pela sociedade agressiva, bem como a escola “comunitarista”, são devidamente contemplados. E o são não por tecerem a melhor explicação possível, porém a mais confortável, a mais simples, a mais indicada. A verdade, neste caso, é feita de outros ingredientes, deliberadamente ignorados ao se descrever a posteriori tal “receita”.

Em primeiro lugar, o pretenso diagnóstico de esquizofrenia paranoica, repetido por incontáveis psiquiatras, psicólogos e em seguida investigadores, não se sustenta. Sem entrar em detalhes diagnósticos (mas também sem deixar de registrar que estudei medicina, para que os profissionais de plantão não tentem desconsiderar estas observações pela saída fácil do desdém especialista), ela não se sustenta porque uma de características principais da esquizofrenia paranoica é o delírio ou a alucinação. Esta tem um componente sensitivo e cognitivo, ou sendo mais claro, implica em confundir imaginação com realidade, “vendo” e “ouvindo” o que não está no mundo, mas na mente. Em termos populares, trata-se de “ouvir vozes”. O assassino da escola do Realengo jamais demonstrou esta ou qualquer outra característica distintiva da esquizofrenia paranoica. Nenhum relato de parentes, colegas de trabalho ou vizinhos faz qualquer referência a isso, assim como não há quaisquer indícios nos documentos deixados pelo assassino: um vídeo e vários bilhetes de próprio punho.

Em compensação, ele demonstrou de vários modos e por muitos meios, incluindo o vídeo feito dois dias antes do massacre, que era um psicopata.

Há enormes e profundamente significativas diferenças. Em primeiro lugar, se um esquizofrênico não é responsável por seus atos, pois em função dos delírios não pode, por definição, distinguir o que é real do que não é, um psicopata não tem delírios, e além de distinguir perfeitamente o real do irreal, também distingue o certo e o errado, o legal e o ilegal, o moral e o imoral. Por isso os psicopatas, ao contrário dos esquizofrênicos, são legalmente imputáveis nos países sérios, como EUA, Canadá e membros da UE (nos não sérios, como o Brasil, a justiça é um teatro ruim, logo, o que faz ou deixa de fazer não segue regras compreensíveis).

Um psicopata não tem disfunções cognitivas, mas apenas emotivas. Em resumo, ele é incapaz de empatia.

Empatia (de pathos, sofrimento, acometimento, experiência) significa, na prática, sentir em si o que o outro sente: “processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro”. É a empatia que está na base da moralidade, cuja antiga “regra de ouro” diz: “Não faça aos outros o que você não quer que façam a você”. Ao serem incapazes de empatia, psicopatas são criminosos natos.

A ideia de um criminoso nato fere fundo a crença ideológica dos politicamente corretos segundo a qual só existe a possibilidade de seres humanos nascidos bons. O problema é que a existência de criminosos natos foi empiricamente demonstrada de maneira incontornável em diversos países, dos EUA à Rússia, onde pesquisadores há anos se dedicam a estudar os psicopatas em geral e os assassinos em série em particular.

A indiscutível natureza inata da radical falta da empatia que caracteriza os psicopatas (e que no Brasil sequer é verdadeiramente debatida, pois o país adotou uma interdição ideológica tácita a se discutir os criminosos inatos, ficando voluntária e burramente de fora de todo um moderno campo do conhecimento, e assim incapaz de identificar seu objeto, fechando o círculo de sua cegueira pragmático-conceitual), leva então alguns “liberais” ou “humanistas radicais”, na Europa e nos EUA, a reeditar o mito rousseauniano do “bom selvagem”. Pois se se trata de uma incapacidade inata, o indivíduo dela portadora não poderia ou não deveria ser responsabilizado criminalmente por suas consequências. Seria afinal semelhante ao esquizofrênico, que age movido por alucinações, e que não é imputado pelos crimes cometidos. O problema é que um sujeito submetido a alucinações, por definição, não sabe o que faz. E que um amoral o sabe. Na verdade, o psicopata é, neste sentido, mais semelhante ao pedófilo.

Ninguém determina sua própria orientação sexual ou suas preferências. Ter por objeto sexual crianças ou bebês é algo a que os pedófilos são submetidos pela própria natureza de seu desejo. Já a realização de tal desejo significa necessariamente um estupro, pois crianças e bebês não participam voluntária e conscientemente de um ato sexual. Pedófilos são condenáveis e condenados não por seu desejo sexual, mas por sua materialização no estupro de uma criança. Psicopatas não são condenáveis por sua amoralidade, mas pelos atos decorrentes, como assassinatos sem motivos (ou seja, para satisfazer qualquer desejo ou impulso pessoal). E têm de sê-lo, entre outras coisas porque ao contrário de esquizofrênicos em estado de alucinação (que aliás muitíssimo raramente cometem crimes), um psicopata sabe o que faz. Daí não haver psicopatas, apesar do inatismo de sua falta de empatia, cometendo crimes em praça pública e à luz do dia. Psicopatas têm falta de empatia, não de racionalidade. Eles se escondem porque sabem de seus crimes.

O vídeo gravado pelo assassino de Realengo dois dias antes do massacre demonstra três coisas:

1) Não há qualquer indício de delírio ou de alucinação;

2) há todos os indícios de falta absoluta de empatia, a começar da completa inexpressividade: o sujeito apenas mexe a boca enquanto fala, sem que nenhum dos músculos da face, fonte natural de manifestação de emoções em humanos, se mexa uma única vez;

3) ele prova o planejamento, a premeditação e o engodo, logo, a racionalidade, ao referir como, entre outras providências, visitou a escola dias antes para preparar o ataque, além de para isso ter raspado a barba, a fim de não chamar a atenção.

E aqui chegamos ao fator islâmico.

3.

A prova mais importante surgida até agora das motivações do assassino, o vídeo e algumas anotações de próprio punho achadas em sua casa, simplesmente não foram analisadas com a devida atenção, muito menos com a necessária conexão, no misto de ignorância, incompetência e provincianismo referido de início.

VÍDEO DE ATIRADOR NÃO INTEGRA INQUÉRITO, DIZ POLÍCIA (Agência Estado, http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/13/video-de-atirador-nao-integra-inquerito-diz-policia.jhtm).

Não bastasse a polícia, mais de um psiquiatra afirmou que as afirmações “desconexas” do vídeo, principalmente sobre o fato de o sujeito estar agora sem barba, “provam” o delírio – logo, a esquizofrenia paranoica. Na verdade, tais afirmações não são desconexas, apenas desconectadas, em uma investigação pulverizada e amadorística que, para começar, é incapaz de conectar os fatos e os dados.

O assassino, no vídeo, fala diretamente para um sujeito sobre a falta de sua barba. E esse sujeito é “irmãos”. Ele tem, portanto, também uma razão para explicar a falta da barba: a expectativa de certos “irmãos”. Ora, “irmãos” não significa “marcianos verdes”. Pois é perfeitamente compreensível:

1) a irmã do perpetrador declarou que ele ultimamente usava barba (habitual entre muçulmanos praticantes) e que fazia várias referências ao islã;

2) “irmãos” é o modo habitual dos ativistas islâmicos se referirem entre si (como “camaradas” era o modo dos comunistas, e “companheiros” é o dos petistas).

Conclusão: é perfeitamente possível que ele estivesse, não delirando, mas explicando aos seus “irmãos” muçulmanos porque aparecia no vídeo de despedida sem a barba.

O que era possível torna-se então factual quando se acrescenta à equação os bilhetes de próprio punho encontrados em sua casa. Pois ali se explicita o fato de que, até pouco tempo, ele fazia parte de um “grupo”, e que esse grupo era islâmico.

Meus pais por não seguirem a religião com devoção sempre desconfiam d mim [...]. Já errei com minha família mas aí mudei com o Alcorão. [...] Tive uma briga com o Abdul por causa do Phillip. [...] Resolvi falar sobre a menina q me convido a ir a igreja dela e antes d eu terminar ele já foi se exaltando dizendo que eu era para cortar ela logo no início ao invés de ouvi-la. Depois disso ele me ligou umas vezes e eu disse q estou saindo por respeito ao grupo. Eu também me considero errado por ouvi-la... [...] Essa minha saída do grupo me deu forças para reconhecer q agi errado em escuta aquela mulher. Eu não gostei d sair mas sei q é o certo. [...] Eu estou fora do grupo mas faço todos os dias minha oração do meio dia q é a d reconhecimento a Deus e as outras 5 q são d dedicação a Deus e umas 4 h do dia passo lendo o Alcorão. Não o livro pq ficou com o grupo mas partes que eu copiei para mim e o resto do tempo eu fico meditando no lido e algumas vezes medito no 11/09 (Daniel Milazzo “Veja trechos dos manuscritos do atirador de Realengo encontrados pela polícia do Rio”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/veja-trechos-dos-manuscritos-de-atirador-do-realengo-encontrados-pela-policia-do-rio.jhtm).

As inferências não são difíceis. Foi dito pelos parentes e confirmado por vizinhos que o assassino não fazia outra coisa além de usar a internet. Sabe-se que a internet é uma das ferramentas mais utilizadas pelos militantes islâmicos para fazer e manter contatos. Foi a internet, portanto, que permitiu a um Wellington do subúrbio carioca entrar em contato com indivíduos fora de seu meio social e cultural, os Abdul e Phillip de quem ganhou um exemplar do Corão depois devolvido. Mas não foi apenas um exemplar do Corão que ele recebeu. Ele também recebeu uma formação devidamente islâmica: apenas muçulmanos praticantes e estudiosos ou interessados sabem, por exemplo, que a prática do islã implica na prática de cinco rezas diárias, sendo a do meio-dia a mais importante, assim como na leitura e no estudo do Corão. O assassino de Realengo não tirou tudo isso de sua própria cabeça “delirante”, mesmo porque, tudo isso está islamicamente correto.

Além de se poder presumir que o suburbano carioca localizou algum grupo islâmico na internet (e não que o grupo o tenha localizado, pois se tratava de um anônimo), os bilhetes provam acima de qualquer dúvida razoável que o contato foi feito (ele portanto não aprendeu a ser muçulmano num “curso a distância” pela internet). Não é difícil inferir, então, que tal grupo tenha identificado no futuro assassino suas características psicopáticas mais do que evidentes, e partido para sua instrumentalização. Tais grupos, afinal, existem para isso. O vídeo, em todo caso, pela forma como aborda o ataque, demonstra que os “irmãos” esperavam pela ação, apesar do recente desligamento do grupo.

Os irmãos observaram que eu raspei a barba. Foi necessário, porque eu já estava planejando ir ao local para estudar, ver uma forma de infiltração. [...] Como eu precisava ir ao local e interagir com pessoas, para não chamar atenção, eu decidi raspar a barba (“Atirador justifica massacre em Realengo em vídeo”, UOL Notícias, http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/12/atirador-justifica-massacre-em-realengo-em-video-mostra-telejornal.jhtm).

A conclusão lógica, e inevitável, a partir dos dados disponíveis, ou seja, da incorporação necessária de todos os dados disponíveis, é que algum grupo de ativistas islâmicos, não importa quão pequeno ou importante, de alguma forma serviu de gatilho para que um psicopata pobre, isolado e desmotivado de um subúrbio brasileiro decidisse perpetrar um massacre.

Nesse contexto mais completo, tanto o bullying que, de fato, o assassino sofreu no passado (mas num passado já distante) quanto seus agora notórios problemas sexuais seriam ingredientes integrados à sua instrumentalização: foram elementos necessários mas não suficientes, como o prova a própria instrumentalização – cujo caráter afinal se revela terrorista pelo resultado da cadeia de eventos. Mesmo o fato de o alvo preferencial terem sido pré-adolescentes do sexo feminino permite a integração dessas variáveis, pois aos problemas sexuais do assassino se junta a brutal misoginia do islamismo radical.

04 abril 2011

O Brasil e o terrorismo islâmico


Um artigo da revista brasileira Veja (via Fiel Inimigo).

Exclusivo: documentos da CIA, FBI e PF mostram como age a rede do terror islâmico no Brasil

A POLÍCIA FEDERAL TEM PROVAS DE QUE A AL QAEDA E OUTRAS QUATRO ORGANIZAÇÕES EXTREMISTAS USAM O PAÍS PARA DIVULGAR PROPAGANDA, PLANEJAR ATENTADOS, FINANCIAR OPERAÇÕES E ALICIAR MILITANTES

Khaled Hussein Ali nasceu em 1970, no leste do Líbano. Seguidor da corrente sunita do islamismo, prestou serviço militar. Depois, sumiu. No início dos anos 90, reapareceu em São Paulo. Casou-se e teve uma filha. Graças a ela, obteve, em 1998, o direito de viver no Brasil. Mora em Itaquera, na Zona Leste paulistana, e sustenta sua família com os lucros de uma lan house. Ali leva uma vida dupla. É um dos chefes do braço propagandístico da Al Qaeda, a organização terrorista comandada pelo saudita Osama bin Laden. De São Paulo, o libanês coordena extremistas em dezessete países. Os textos ou vídeos dos discípulos de Bin Laden só são divulgados mediante sua aprovação. Mais: cabe ao libanês dar suporte logístico às operações da Al Qaeda. Ele faz parte de uma rede de terroristas que estende seus tentáculos no Brasil.

Tratado como “Príncipe” por seus comparsas, Ali foi seguido por quatro meses pela Polícia Federal, até ser preso, em março de 2009. Além das provas de terrorismo na internet, a Polícia Federal encontrou no computador de Ali spams enviados aos Estados Unidos para incitar o ódio a judeus e negros. Abordado por VEJA, Ali negou sua identidade. Esse material, no entanto, permitiu que a Polícia Federal o indiciasse por racismo, incitação ao crime e formação de quadrilha. Salvou-se da acusação de terrorismo porque o Código Penal Brasileiro não prevê esse delito. O libanês permaneceu 21 dias preso. Foi liberado porque o Ministério Público Federal não o denunciou à Justiça. Casos como o de Ali alimentam as divergências do governo americano com o Brasil.

Há dois meses, VEJA teve acesso a relatórios da PF sobre a rede do terror no Brasil. Além de Ali, vinte militantes da Al Qaeda, Hezbollah, Hamas e outros dois grupos usam ou usaram o Brasil como esconderijo, centro de logística, fonte de captação de dinheiro e planejamento de atentados. A reportagem da revista também obteve os relatórios enviados ao Brasil pelo governo dos EUA. Esses documentos permitiram que VEJA localizasse Ali e outros quatro extremistas. Eles vivem no Brasil como se fossem cidadãos comuns. Embora seja autora das investigações, a PF assume um comportamento ambíguo ao comentar as descobertas de seu pessoal. A instituição esquiva-se, afirmando que “não rotula pessoas ou grupos que, de alguma forma, possam agir com inspiração terrorista”. Esse discurso dúbio e incoerente não apenas facilita o enraizamento das organizações extremistas no Brasil como cria grandes riscos para o futuro imediato.

29 março 2011

Da ignorância...


05 janeiro 2011

Entretanto, do outro lado do Atlântico...

Tinha acabado de fechar o Blogger, quando, passando pela caixa de email, vi que um amigo me enviara isto:


J'ACUSE!!!!

(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)

" Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice."
(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).
A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.
Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;
EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;
EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;
EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;
EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;
EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;
EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;
EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;
EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito;

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição;

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.
Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.
A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”
Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário.

09 outubro 2010

Entrevista a Ferreira Gullar


Na PÚBLICA do passado dia 21 de Setembro, saiu uma entrevista com o poeta brasileiro Ferreira Gullar, a propósito da atribuição que lhe foi feita do Prémio Camões, da qual transcrevo o excerto seguinte, referente às eleições brasileiras (para ler a entrevista na íntegra, clicar aqui):

(...)

Como olha para o presente?

Eu me sinto feliz por ter batalhado todos estes anos, eu, meus companheiros, criámos tanta coisa, procurámos dar o melhor de nós no campo literário, cultural, político. A vida é assim mesmo, agora é outra época. Pelo menos não tem mais a ditadura, que foi um período sinistro, de violência, de censura, de tortura, desaparecimento de pessoas. Pelo menos estamos numa democracia e isso já é importante.

Mas como vê o Brasil hoje? O Brasil está na capa de todas as revistas.

Embora o Lula [Presidente Lula da Silva, cujo mandato termina em Outubro] diga que é o responsável por tudo e que tudo de mau foi o outro [Fernando Henrique Cardoso, o anterior Presidente]... Por que é que o Brasil cresceu menos do que a Colômbia, Argentina, Bolívia, Peru, Chile, Venezuela? Só cresceu mais do que o Haiti. Por culpa do Fernando Henrique, disseram. Foi há sete anos. Quando se diz que o Brasil agora está [bem] graças ao Lula... mas toda a política económica e social do Lula é do Fernando Henrique. A lei da responsabilidade fiscal, que acabou com a inflação no Brasil, que [Lula] combateu, mudou a vida económica do Brasil. Eles votaram contra no Senado, votaram contra na Câmara e entraram com uma acção no Supremo para anular a lei, que é a base do Governo de Lula. A política de juros do Banco Central, ele foi contra. Quando o Fernando Henrique criou a Bolsa Alimentação, para dar alimentos a famílias de pessoas desempregadas, [Lula] foi na televisão dizer que estavam transformando o trabalhador em mendigo, aí fez a bolsa família, que é a bolsa alimentação ampliada. O que é que ele fez de novo? Nada. A sorte que ele deu é que tomou posse em 2003 e neste ano a economia mundial passou a crescer velozmente, depois de inúmeras crises. Então, ele, que tinha combatido todas essas medidas, adoptou todas e diz agora que são dele.

E nestas eleições...

Agora inventou a Dilma [Rousseff, candidata à presidência], que é uma marionete que ele diz que é a mãe do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], que fez isto, fez aquilo... Não fez nada, ela era chefe da Casa Civil, que é um órgão de assessoria da Presidência da República. Se você manda os projectos para a Presidência, a Casa Civil examina se está de acordo com a lei, é um órgão de assessoria técnica. É isso que ela foi, ela não fez nada. E ele quer atribuir a ela tudo o que o Governo fez. Até o trem de alta velocidade foi ela que inventou. É ridículo.

O que é grave não é essa mentirada toda. O que é grave é que o Lula a primeira coisa que fez foi anular uma portaria do Fernando Henrique que dizia: para cargos técnicos, tem que nomear técnicos. Para evitar que os políticos dos partidos que estão apoiando o Governo queiram os cargos importantes do Governo, que são técnicos, e você bota um cara que não entende nada. Ele revogou essa lei para encher os cargos técnicos de gente dos sindicatos, gente da CUT [Central Única dos Trabalhadores], dos partidos aliados, do PT [Partido dos Trabalhadores]. Agora, isto tem sete anos. Se entra a Dilma nós vamos ter mais quatro anos, e depois mais... pode ser um desastre para o país.

Está apreensivo.

Todas as despesas que o Lula está fazendo vão-se reflectir no Governo que vem aí. Ele só faz comício. Ele não administra o país. O Lula não entende de nada, ele nunca leu um livro. Só faz discurso, desde que ele assumiu o Governo até hoje, ele está sempre num palanque. Eu fiz uma vez uma anotação dos dias que ele passou em Brasília, no ano passado, em seis meses ele tinha passado em Brasília seis dias de facto trabalhando, o resto é sábado e domingo e viagem. Quem governa o país é a assessoria técnica dele, ele não entende nada. Ele só pensa o seguinte: isso vai dar voto ou não? Isso vai dar popularidade ou não? É uma mentirada permanente, uma demagogia sem fim. Eu vejo com apreensão o que pode acontecer. O dinheiro público está usado na campanha eleitoral de uma maneira como nunca houve no país, de uma maneira escandalosa. A Dilma não entende das coisas, não sei o que ela vai fazer na Presidência da República, ela é autoritária, pode ocorrer que ela resolva tomar o freio nos dentes e fazer tudo por conta dela, e eu não sei o que vai acontecer.

(...)